
16 de janeiro de 2026
Motivação docente e a Teoria dos Dois Fatores em um estudo de caso
Autor(a): Joana D’arc Manente Capareli — Orientador(a): Silvia Renata de Oliveira Santos
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este trabalho investigou as propostas implementadas em uma unidade escolar privada para analisar seus impactos na motivação dos professores, sob a ótica da Teoria dos Dois Fatores de Herzberg (TDFH), visando propor estratégias para aprimorar a satisfação e o engajamento docente. A motivação no setor educacional é crucial, pois afeta diretamente a qualidade do ensino, o clima organizacional e o bem-estar dos profissionais, sendo um pilar para uma gestão escolar eficaz.
A motivação é um tema central em diversas áreas. Na administração, Chiavenato (2014) a relaciona à produtividade organizacional. Na sociologia, Durkheim (2004) investiga como as estruturas sociais moldam as condutas individuais. A neurologia, com Damásio (1996), busca desvendar os mecanismos cerebrais do comportamento motivado. No contexto educacional, a teoria de Maslow (1970) é frequentemente citada, argumentando que a satisfação de necessidades básicas precede a autorrealização, estado fundamental para o desempenho dos educadores.
O cenário contemporâneo do trabalho docente é marcado por desafios como insatisfação, alta rotatividade e a síndrome de burnout. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertam que ambientes de trabalho inadequados são catalisadores para depressão e ansiedade, resultando em perdas anuais estimadas em 12 bilhões de dias de trabalho e um custo de quase 1 trilhão de dólares para a economia global (OMS, 2022). Pesquisas no Brasil corroboram essa preocupação, como o estudo de Goulart Jr. e Lipp (2008), que identificou que 56,6% dos professores de escolas públicas no interior de São Paulo apresentavam sintomas de estresse, dados alinhados com os achados de Rossa (2004) e Silveira, Enumo e Batista (2014).
Nesse contexto, a Teoria dos Dois Fatores de Frederick Herzberg (1959) oferece um arcabouço teórico para a análise. Herzberg distingue dois conjuntos de fatores: os higiênicos e os motivacionais. Fatores higiênicos são extrínsecos e controlados pela organização, como salário, condições de trabalho e políticas da empresa. Quando adequados, eles apenas previnem a insatisfação. Por outro lado, os fatores motivacionais são intrínsecos, relacionados ao conteúdo do trabalho, como reconhecimento, responsabilidade e crescimento. A presença destes é o que impulsiona a satisfação e o engajamento (Chiavenato, 2014).
A aplicação desta teoria à gestão escolar, conforme defendido por Libâneo (2004), implica articular a dimensão humana com a estrutura organizacional. A gestão eficaz deve ir além da administração de recursos, focando na criação de um clima que nutra a motivação intrínseca dos professores. Este estudo analisa como as práticas de uma instituição específica se alinham a esses princípios e quais são seus efeitos percebidos na equipe docente.
Adotou-se uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva (Lüdke e André, 2013), utilizando o estudo de caso como procedimento metodológico (Gil, 2017) para uma análise aprofundada do fenômeno em seu contexto real. A coleta de dados foi realizada por meio de análise documental (Flick, 2009), com autorização da instituição. Os documentos analisados incluíram o Plano de Carreira (2009), os Critérios de Premiação (2011), registros de Auxílios Financeiros a Cursos e cinco Relatórios de Avaliação de Funcionários e Gestores (2019). A coleta ocorreu entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025. A instituição pesquisada é uma escola da rede privada em Vinhedo, São Paulo, que atende aproximadamente 150 crianças, do berçário ao 5º ano do Ensino Fundamental, com abordagem pedagógica construtivista e sociointeracionista.
A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo, conforme a metodologia de Bardin (2016). O método permitiu a categorização das propostas da escola segundo a Teoria dos Dois Fatores, classificando os efeitos de cada iniciativa em fatores higiênicos e motivacionais e investigando seus impactos na percepção de engajamento dos docentes. A partir dessa análise, foi possível identificar os fatores mais relevantes para a motivação e propor estratégias de melhoria.
A análise das seis propostas de valorização docente adotadas pela instituição revela uma aplicação dos princípios de Herzberg (1959). Essas propostas se conectam a outras teorias, como a Hierarquia das Necessidades de Maslow (1943) e a Teoria da Expectativa de Vroom (1964), que postula que a motivação é um processo cognitivo de avaliação entre esforço, desempenho e recompensa. Um estudo de Silva et al. (2022) com professores da rede pública corrobora essa visão, mostrando que a insatisfação salarial (fator higiênico) mina a motivação, enquanto o reconhecimento e a autonomia (fatores motivacionais) a fortalecem.
A primeira proposta é uma premiação financeira anual, na qual colaboradores bem avaliados recebem um bônus de até 100% do salário. Este incentivo classifica-se como um fator higiênico, pois é uma recompensa externa que previne a insatisfação. Para as professoras, funciona como um reconhecimento tangível, mas sua eficácia como motivador de longo prazo é limitada. A proposta apresenta o risco de gerar percepções de desigualdade se os critérios de avaliação não forem percebidos como justos. Para transcender seu caráter higiênico, deve ser acompanhada de feedback construtivo.
A segunda proposta é uma conversa anual individual entre cada funcionário e o mantenedor. Esta iniciativa opera na intersecção entre os fatores higiênicos e motivacionais. O ato de ser ouvido diretamente pelo líder é um poderoso fator motivacional, atendendo às necessidades de reconhecimento e pertencimento, como defendem Guillon e Mirshawka (1994) e De Almeida (2016) sobre a importância do diálogo na gestão. Os resultados práticos, no entanto, manifestam-se como melhorias em fatores higiênicos: criação de um espaço para refeições, redução da sobrecarga burocrática com avaliações semestrais e implementação de um diário de classe digital.
A terceira iniciativa é a realização de workshops formativos. A formação continuada é essencial para a valorização docente, e o coordenador pedagógico tem um papel central como formador (De Araujo, 2022; Davis et al., 2011). Na instituição, os workshops abordam temas como Pedagogia de Projetos e Educação Não Violenta. A oferta de formação pode ser vista como um fator higiênico, mas quando os temas são pertinentes e aplicáveis, transformam-se em potentes fatores motivacionais, pois aprimoram a prática pedagógica e geram satisfação.
A quarta proposta oferece subsídios para a educação formal continuada. A cada ano de serviço, o colaborador acumula 10% de subsídio para um curso de sua escolha, como pós-graduação. Esta política aborda a crítica de Gatti (2009) sobre a falta de sintonia dos programas de formação com as necessidades dos professores. A proposta tem natureza híbrida: o apoio financeiro é um fator higiênico, mas a oportunidade de crescimento na carreira e de aplicar novos conhecimentos é um fator motivacional de grande impacto.
A quinta proposta refere-se à arquitetura escolar e à liberdade de uso do espaço, um fator higiênico fundamental. Como argumentam Brasil e Silva (2018), a qualidade do ambiente físico impacta o ensino. Na instituição, as salas são amplas e bem equipadas, eliminando fontes de insatisfação. O aspecto motivacional reside na flexibilidade oferecida aos professores para reorganizar a mobília e utilizar múltiplos espaços externos. Essa autonomia para adaptar o ambiente às necessidades pedagógicas fomenta a criatividade, o pertencimento e a satisfação profissional.
A sexta proposta foi a promoção interna de duas professoras para os cargos de direção e coordenação. Esta ação é um exemplo clássico de fator motivacional, pois atende às necessidades de crescimento, responsabilidade e reconhecimento. A promoção interna sinaliza que há um caminho de carreira na instituição e que a competência é valorizada. A escolha de profissionais que já possuíam um vínculo de confiança com a equipe, elemento essencial para a gestão segundo Mate (1998) e Sartori e Pagliarin (2016), fortaleceu a legitimidade da nova liderança.
Em síntese, a análise das propostas revela uma compreensão prática, por parte da gestão, da interação entre os fatores que previnem a insatisfação e os que promovem a satisfação. Os dados reforçam que, embora os aspectos financeiros e estruturais (higiênicos) sejam indispensáveis, é o investimento no reconhecimento, na autonomia e no crescimento profissional (motivacionais) que sustenta o engajamento docente a longo prazo. No cotidiano escolar, esses fatores não são isolados, mas se complementam, reforçando a necessidade de uma abordagem de gestão integrada.
Os resultados indicam que a motivação docente, no contexto da escola investigada, é um fenômeno que depende da interação sinérgica entre condições de trabalho que previnem a insatisfação e iniciativas que promovem o reconhecimento e o crescimento profissional. A análise à luz da Teoria dos Dois Fatores de Herzberg demonstrou que os fatores higiênicos, como remuneração e infraestrutura, são eficazes em reduzir o desconforto, mas insuficientes para sustentar o engajamento. Em contrapartida, os fatores motivacionais, como reconhecimento, oportunidades de desenvolvimento e autonomia, revelaram um impacto mais profundo e duradouro sobre a satisfação. A interdependência entre os fatores ficou evidente: um subsídio financeiro (higiênico) torna-se motivador ao viabilizar o crescimento profissional, assim como o diálogo (motivacional) resulta em melhorias concretas nas condições de trabalho.
É fundamental ressaltar que os achados deste estudo estão circunscritos à realidade de uma única instituição de ensino privada, o que constitui uma limitação metodológica. Os resultados não devem ser generalizados para outros contextos escolares, o que aponta para a necessidade de futuras pesquisas que explorem a motivação docente em ambientes educacionais diversos. Não obstante, as conclusões oferecem insights valiosos para gestores escolares. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a motivação docente na instituição analisada é fortalecida pela articulação equilibrada entre fatores higiênicos, que reduzem a insatisfação, e fatores motivacionais, que promovem o engajamento e o crescimento profissional, evidenciando que investir em políticas que integrem melhorias estruturais com práticas consistentes de reconhecimento é um caminho eficaz para aprimorar não apenas a satisfação dos professores, mas também a qualidade do ensino e a cultura escolar como um todo.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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