
16 de janeiro de 2026
Perfil, causas e impactos do endividamento familiar no Brasil contemporâneo
Autor(a): Johann Campos Erhardt — Orientador(a): Débora Oliveira da Silva
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Dados recentes indicam que aproximadamente 73 milhões de brasileiros estão inadimplentes (Serasa, 2025), um número alarmante que não apenas reflete uma conjuntura econômica desfavorável, mas também sinaliza uma crise de natureza estrutural. Essa lacuna na gestão dos recursos pessoais leva ao uso recorrente e, por vezes, desesperado, de modalidades de crédito com juros elevados, como o rotativo do cartão de crédito e os empréstimos pessoais não consignados (Dos Santos; Dos Santos e De Souza, 2020). Os impactos do endividamento transcendem a esfera econômica, manifestando-se de forma contundente nos âmbitos social e psicológico. A pressão constante das dívidas está diretamente associada a quadros de estresse crônico, ansiedade, depressão e conflitos familiares, que minam o bem-estar e a qualidade de vida dos indivíduos.
Em uma perspectiva macroeconômica, o elevado comprometimento da renda familiar com o serviço da dívida resulta em uma contração significativa do consumo, um dos principais motores da economia. Além disso, limita a capacidade de investimento das famílias em áreas cruciais para o desenvolvimento humano e social, como educação, moradia e saúde preventiva, perpetuando assim o ciclo de desigualdade social (Barros, 2023). Neste contexto, é fundamental estabelecer a distinção conceitual entre endividamento, que se refere ao conjunto de compromissos financeiros assumidos, e inadimplência, que representa o não cumprimento dessas obrigações. A inadimplência é, portanto, um estágio mais agudo da crise financeira pessoal, cujas consequências são mais severas e imediatas (SPC Brasil, 2024). O desemprego figura como um dos principais gatilhos para o ciclo de endividamento e inadimplência, uma realidade consistentemente apontada em relatórios de instituições como o Serasa (2022) e a CNDL (2023).
A perda abrupta da principal fonte de renda força as famílias a recorrerem ao crédito para cobrir despesas essenciais, como alimentação, aluguel e contas de consumo. Contudo, a ausência de perspectiva de recolocação profissional rápida torna a incapacidade de honrar esses novos compromissos quase inevitável, culminando na inadimplência. Este ciclo não apenas prejudica o consumidor, que passa a enfrentar restrições de crédito, juros punitivos e a constante pressão de credores, mas também impacta negativamente todo o mercado, ao reduzir a liquidez e dificultar a circulação de capital, afetando o crescimento econômico (Fernandes e Paraiso, 2020). As consequências comportamentais e psicológicas do endividamento são igualmente devastadoras e merecem atenção. A literatura especializada aponta para uma acentuada deterioração da saúde mental e do capital social dos indivíduos endividados. A vergonha e o estigma associados à dívida levam à perda de autoconfiança e ao isolamento social.
A pressão financeira constante pode ser um fator determinante para a perda de emprego, devido à queda de produtividade, e para o rompimento de laços afetivos, em função dos conflitos gerados. Em casos mais graves, pode desencadear transtornos psíquicos severos (Meirelles, 2022). A dívida compromete não apenas a qualidade de vida presente, mas também o acesso a oportunidades futuras, como a obtenção de novo crédito para investir em um negócio ou na educação. Diante de um quadro tão complexo e danoso, a compreensão aprofundada de suas causas e impactos torna-se essencial para a formulação de estratégias eficazes de recuperação financeira e de apoio psicossocial. A metodologia adotada para esta pesquisa caracteriza-se por sua natureza aplicada, com foco na geração de conhecimento prático para a solução de problemas concretos, e exploratória, buscando aprofundar a compreensão sobre um fenômeno ainda carente de análises detalhadas.
O método principal consistiu em um levantamento de campo (survey), operacionalizado por meio de um questionário estruturado e autoaplicável, distribuído digitalmente pela plataforma Google Forms. O objetivo central desta etapa foi coletar dados primários sobre o perfil socioeconômico dos respondentes, seus hábitos e comportamentos financeiros, as origens percebidas de suas dívidas e as consequências multifacetadas do endividamento em suas vidas. A escolha por um questionário online visou ampliar o alcance da pesquisa e facilitar a participação, garantindo ao mesmo tempo o anonimato dos respondentes, um fator crucial para obter respostas sinceras sobre um tema tão sensível. A amostra foi constituída de forma não probabilística por conveniência, totalizando 116 participantes, todos residentes na região metropolitana de Campinas, SP, que se identificaram como endividados ou inadimplentes. De forma complementar e para enriquecer a análise, realizou-se uma extensa revisão documental.
Esta etapa envolveu a análise de relatórios, pesquisas e indicadores publicados por instituições de referência no mercado de crédito e consumo, como Serasa, SPC Brasil e CNDL, além de uma revisão da literatura acadêmica pertinente, incluindo artigos científicos, teses e dissertações. O propósito dessa análise secundária foi contextualizar os achados da pesquisa de campo, comparando-os com dados nacionais e aprofundando o embasamento teórico do estudo.
A análise dos dados coletados combinou métodos quantitativos e qualitativos, configurando uma abordagem mista.
A análise quantitativa envolveu a estatística descritiva para determinar frequências, padrões e correlações entre as variáveis.
A análise qualitativa, por sua vez, baseou-se na análise de conteúdo das respostas abertas, buscando compreender as percepções, sentimentos e experiências subjetivas dos participantes. Essa triangulação de métodos permitiu não apenas descrever o perfil dos endividados, mas também compreender as nuances e complexidades de suas trajetórias, visando propor soluções mais holísticas e práticas.
A análise dos dados dos 116 participantes revela um perfil predominante na faixa etária de 26 a 35 anos, que concentrou 47% da amostra. Este é um período do ciclo de vida frequentemente associado à consolidação da carreira profissional, formação de família e aquisição de bens de maior valor, como imóveis e veículos, o que pode aumentar a exposição ao crédito e, consequentemente, ao risco de endividamento (Ferreira, 2023).
Observou-se uma ligeira maioria de mulheres (50,9%), um dado que pode refletir não apenas a maior predisposição feminina para participar de pesquisas, mas também as desigualdades de gênero persistentes no mercado de trabalho, como a disparidade salarial e a maior carga de responsabilidades domésticas, que podem tornar as mulheres mais vulneráveis a choques financeiros (Fernandes; Paraiso, 2020). Quanto ao estado civil, 50,9% dos respondentes eram casados. O perfil educacional mostrou-se heterogêneo: 42% possuíam ensino fundamental e 46% ensino superior completo, indicando que a escolaridade, por si só, não imuniza contra o desequilíbrio financeiro. A complexidade do fenômeno é reforçada pelo fato de que 72% dos participantes possuíam vínculo empregatício formal (CLT), demonstrando que a estabilidade contratual é insuficiente para garantir a segurança financeira.
A maior concentração de renda (51%) está na faixa entre dois e cinco salários-mínimos, atingindo em cheio a classe média, que frequentemente recorre ao crédito para financiar seu padrão de consumo (Schymura, 2022). A presença de 8% dos respondentes com renda acima de dez salários-mínimos é um indicativo claro de que o endividamento excessivo perpassa todos os estratos sociais.
A análise detalhada da situação de endividamento mostra que 51% dos participantes possuem dívidas atualmente em aberto. O problema se revela crônico para uma parcela significativa, com 31% da amostra endividada há mais de um ano, sendo que 19% estão nesta situação há mais de três anos. Este dado sugere a existência de um ciclo de inadimplência de difícil reversão, alimentado por fatores como os juros compostos elevados e a dificuldade de renegociação das dívidas em condições favoráveis (Fernandes; Paraiso, 2020). A severidade do problema é evidenciada pelos valores declarados: 24% dos respondentes afirmaram possuir dívidas que superam a marca de R$ 10.000,00, um montante considerável para a faixa de renda predominante na amostra. Como consequência direta, 21% estão com o nome negativado em serviços de proteção ao crédito como SPC e Serasa, o que impõe severas restrições ao acesso a novos produtos e serviços financeiros.
O cartão de crédito emerge como o principal vetor do endividamento, sendo apontado por 38,8% dos participantes. Em seguida, aparecem os financiamentos de longo prazo, como o imobiliário (15,5%) e o de veículo (11,2%), e os empréstimos pessoais (13,8%). Um dado particularmente preocupante é a presença de dívidas com contas básicas de consumo, como água, luz e gás (7,8%), o que indica um grau elevado de vulnerabilidade social, onde a renda já não é suficiente para cobrir as necessidades mais elementares (Del Fiori et al., 2024). As causas apontadas para o endividamento combinam, de forma intrincada, fatores comportamentais e estruturais. A falta de planejamento financeiro (19,8%), o descontrole nos gastos com o cartão de crédito (18,1%) e a ocorrência de eventos imprevistos, como problemas de saúde ou reparos emergenciais (18,1%), foram os motivos mais citados.
Estes dados evidenciam uma fragilidade na gestão da renda e na capacidade de construir uma reserva de emergência (Oliveira et al., 2022). Ao mesmo tempo, fatores estruturais, que fogem ao controle individual, também desempenham um papel crucial: a diminuição da renda (13,8%) e a perda de emprego (8,6%) foram apontados como gatilhos significativos para o desequilíbrio financeiro. Um achado paradoxal e de grande relevância é que, apesar da reconhecida falta de planejamento, 67% dos participantes afirmaram realizar algum tipo de controle financeiro e 75% declararam já ter buscado informações sobre educação financeira. Este aparente paradoxo sugere a existência de uma lacuna profunda entre o conhecimento teórico e a sua aplicação prática, que pode ser explicada por vieses cognitivos, pela pressão do consumo, pela complexidade dos produtos financeiros ou pela própria carga mental imposta pela escassez, que dificulta a tomada de decisões de longo prazo (Leite, 2024).
Os impactos do endividamento na vida dos participantes são profundos e abrangentes. A esfera da saúde mental é uma das mais afetadas: 39% relataram prejuízo direto, com 19% afirmando que as dívidas os afetam “bastante”, corroborando a forte associação entre estresse financeiro, ansiedade e depressão documentada na literatura (Barros, 2023). As relações familiares também foram significativamente abaladas para 19% dos respondentes, que citaram aumento de brigas e tensões. A produtividade no trabalho foi prejudicada para 18%, e 20% admitiram ter sofrido constrangimento social devido à sua situação financeira. Quanto às estratégias para sair da situação, os dados mostram um cenário desafiador: apenas 10,3% conseguiram renegociar suas dívidas com sucesso. Em contrapartida, 17,2% tentaram sem êxito, enfrentando propostas inviáveis ou a intransigência dos credores, e 19% nunca sequer tentaram, possivelmente por vergonha, falta de informação ou por acreditarem ser inútil.
A percepção sobre as medidas preventivas é, no entanto, bastante clara e consensual: uma esmagadora maioria de 92,2% acredita que a implementação da educação financeira nas escolas é a medida mais eficaz para evitar que as futuras gerações enfrentem o mesmo problema. O estudo evidencia que o endividamento no Brasil é um fenômeno complexo e multifacetado, que afeta múltiplos perfis socioeconômicos, com uma predominância de mulheres na faixa etária de 26 a 35 anos, casadas, com emprego formal e pertencentes à classe média. Os impactos transcendem a esfera puramente financeira, gerando consequências severas para a saúde mental, para a harmonia das relações familiares e para a produtividade profissional. A combinação de uma cultura que incentiva o consumo, as dificuldades individuais na gestão financeira e as barreiras estruturais para a renegociação de dívidas cria um ambiente de alta vulnerabilidade, aprisionando milhões de brasileiros em um ciclo de dívidas.
O enfrentamento eficaz do problema exige, portanto, ações coordenadas e multissetoriais, envolvendo políticas públicas, a regulação das instituições financeiras e a promoção de iniciativas educacionais robustas. A percepção dos próprios participantes da pesquisa reforça a necessidade urgente de investir na educação financeira desde a base, inserindo-a de forma transversal no currículo escolar como a principal ferramenta de prevenção a longo prazo. Contudo, medidas de curto e médio prazo também são cruciais para aliviar a situação dos que já se encontram endividados.
Conclui-se que o objetivo foi atingido: compreendeu-se que as causas do endividamento das famílias brasileiras resultam de uma complexa interação entre fatores comportamentais, como a falta de planejamento financeiro, e vulnerabilidades estruturais, como a precarização da renda e o acesso a crédito de alto custo, gerando severos impactos na estabilidade financeira e social dos cidadãos.
Referências:
BARROS, Lousanne Cavalcanti. Endividamento de pessoas físicas: um estudo bibliométrico no cenário brasileiro. REVISTA CIENTÍFICA DA FAMINAS, v. 18, n. 2, p. 70-84, 2023.
Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas [CNDL]. 2023. Redução da renda, imprevistos e perda de emprego são principais causas da inadimplência no país, apontam CNDL/SPC Brasil.
DEL FIORI, Diogo et al. O endividamento da população brasileira: o papel da educação financeira. INFORME ECONÔMICO (UFPI), v. 49, n. 2, 2024.
DOS SANTOS, Anita Paula Cavalcante; DOS SANTOS, Danila Lopes Nogueira; DE SOUZA FIGUEIREDO, Giane Lourdes Alves. Gestão financeira para o desenvolvimento pessoal: endividamento causas e consequências. Facit Business and Technology Journal, v. 1, n. 21, 2020.
FERNANDES, Ronaldo Augusto Silva; PARAISO, Sandra Chaves Silva. O crescimento do índice de endividamento das famílias brasileiras. Revista Eletrônica Cosmopolita em Ação, v. 6, n. 2, p. 12-26, 2020.
FERREIRA, Camila Caroline de O. Endividamento da classe trabalhadora no Brasil: elementos para análise a partir da categoria superexploração da força de trabalho. Serviço Social & Sociedade, v. 146, p. e6628338, 2023.
LEITE FILHO, Geraldo Alemandro. Indicadores macroeconômicos e endividamento pessoal/familiar brasileiro. Revista Economia e Políticas Públicas, v. 12, n. 2, p. 62-86, 2024.
OLIVEIRA DE MORAES, Claudio et al. Dívida das Famílias, Crédito e Política Monetária. Revista FSA, v. 19, n. 10, 2022.
SCHYMURA, Luiz Guilherme. Alto endividamento das famílias, com destaque para os mais pobres, é desafio para o próximo governo. Revista Conjuntura Econômica, v. 76, n. 11, p. 12-14, 2022.
Serviço de Proteção ao Crédito S. A. [SERASA]. 2022. Impactos do endividamento no comportamento do brasileiro.
Serviço de Proteção ao Crédito S. A. [SERASA]. 2022. Perfil e Comportamento do Endividamento Brasileiro 2022.
Serviço de Proteção ao Crédito S. A. [SPC BRASIL]. 2024. Endividamento: saiba como transformar a sua realidade financeira.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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