Neurociência E Aprendizagem Na Educação
30 de setembro de 2026
Neurociência aplicada ao ensino de jovens e adultos: práticas pedagógicas assertivas
Neurociência Aplicada ao Ensino de Jovens e Adultos: Práticas Pedagógicas Assertivas
Bruno Felipe da Silva Costa; Mariana Domitila
DOI: 10.22167/2675-6528-202602733
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A pesquisa investigou as práticas pedagógicas adotadas no contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O objetivo foi compreender as metodologias empregadas, a percepção dos profissionais sobre os resultados e expor conceitos da neurociência, como neurodesenvolvimento, neuroplasticidade, memória, funções executivas e regulação emocional, para demonstrar a necessidade de sua apropriação na prática docente e no cotidiano escolar, visando uma educação inclusiva e o desenvolvimento de capacidades não trabalhadas. A metodologia incluiu uma revisão bibliográfica sobre neurociência e EJA, e aplicou um questionário a docentes e alunos da EJA em uma escola do interior de Minas Gerais, que buscou identificar práticas e entraves no processo de ensino-aprendizagem. Os resultados revelaram um perfil de aluno da EJA em processo de rejuvenescimento, mas ainda marcado por baixa renda, trabalho e interrupções escolares. Identificaram-se fatores intrínsecos e ambientais, como sono, alimentação, uso excessivo de telas, cansaço e desinteresse, que dificultaram a aprendizagem. Observou-se que, embora a maioria dos docentes considerasse a realidade dos alunos, houve inconsistências na adaptação curricular e na participação em iniciativas pedagógicas específicas para a EJA, com 75% dos alunos que não perceberam estratégias de ensino variadas. Concluiu-se que a não compreensão e desconsideração desses fatores e particularidades dos estudantes da EJA resultam em um ensino ineficaz. Sugeriu-se a aplicação de estratégias baseadas na neurociência para promover melhor compreensão e aproveitamento, destacando a necessidade de que os atores educacionais incorporem essas peculiaridades para uma educação transformadora.
Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos; Neurociências; Práticas assertivas.
1. Introdução
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui uma modalidade de ensino presente em diversas redes educacionais brasileiras, com o propósito fundamental de reparar o lapso temporal na trajetória escolar de indivíduos que, por variados motivos, não puderam concluir seus estudos em idade oportuna. Essa modalidade busca solucionar problemas como a distorção idade-série, o abandono e a evasão escolar, promovendo condições para que as particularidades desses estudantes sejam devidamente incorporadas no processo de ensino.
A relevância da EJA é amparada por marcos legais, como o Artigo 208 da Constituição Federal de 1988, que estabelece a obrigatoriedade do ensino noturno, e o Artigo 4º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) 9394/96, que enfatiza a importância e a obrigatoriedade da EJA, respeitando as condições específicas desses estudantes. Ambos os textos asseguram o direito de acesso e a necessidade de abordagens pedagógicas diferenciadas para um ensino significativo e eficaz, considerando a realidade e as particularidades dos alunos.
Contudo, a compreensão dessas particularidades e a necessidade de integrar múltiplos saberes na prática pedagógica são primordiais. Uma abordagem única para públicos diversos pode resultar em um ensino ineficaz e sem significado. Nesse contexto, o entendimento por parte da equipe escolar sobre os fundamentos da neurociência aplicada a esse público torna-se essencial para aprimorar as metodologias de ensino.
Observa-se uma lacuna no campo de estudos, visto que a neurociência tem sido amplamente explorada no desenvolvimento de crianças e adolescentes, mas ainda há uma área a ser desbravada no que se refere ao ensino e às múltiplas formas de aprendizado do indivíduo adulto. Tais perspectivas são frequentemente negligenciadas, especialmente no contexto da EJA, o que denota uma subvalorização dessa modalidade em comparação ao ensino regular e agrava o tratamento diferenciado entre os turnos noturno e diurno.
Para abordar essa lacuna, é fundamental integrar conceitos da neurociência, como neurodesenvolvimento, neuroplasticidade, memória, funções executivas e regulação emocional, considerando as especificidades do público da EJA. Além disso, a andragogia e fatores como a compreensão da emoção, a função do sono, a alimentação, as condições sociais, a organização do ambiente de sala de aula e a relação entre docente e estudante são cruciais para um processo de ensino e aprendizagem mais efetivo.
A apropriação desses conceitos na prática docente e no cotidiano escolar é necessária para promover uma educação inclusiva, capaz de desenvolver capacidades ainda não exploradas nesses estudantes. Diante da necessidade de aprofundar o conhecimento sobre as práticas pedagógicas adotadas no contexto da Educação de Jovens e Adultos e a percepção dos profissionais sobre os resultados, este trabalho tem como objetivo investigar as práticas adotadas dentro do contexto de sala de aula voltadas para o público da Educação de Jovens e Adultos (EJA), buscando compreender as metodologias empregadas e a percepção dos profissionais que atuam nessa modalidade quanto aos resultados esperados e percebidos, além de expor conceitos da neurociência pautados nas particularidades desse público e as metodologias direcionadas pelos profissionais de educação, a fim de apresentar estratégias advindas da neurociência aplicadas a essa população para suscitar métodos que promovam uma melhor compreensão e melhor aproveitamento.
2. Material e Métodos
A presente investigação caracterizou-se como um estudo de caso, delineado para aprofundar a compreensão sobre as práticas pedagógicas direcionadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA). O estudo buscou identificar as especificidades do objeto pesquisado, conforme preconizado por Gil (2010), que destaca a análise acentuada de um ou poucos objetos para um conhecimento amplo e detalhado. A abordagem metodológica visou compreender as metodologias empregadas e a percepção dos profissionais que atuam nessa modalidade, além de expor conceitos da neurociência aplicados a esse público.
O objeto empírico da pesquisa concentrou-se no processo de ensino e aprendizagem das turmas da EJA. A investigação foi realizada em uma unidade escolar localizada no interior de Minas Gerais, que atende a essa modalidade de ensino. Inicialmente, a pesquisa pautou-se na coleta de dados institucionais, o que se mostrou crucial para compreender o contexto social da escola, seus resultados e a composição de seu corpo profissional e estrutura física.
Em um segundo momento, procedeu-se à análise documental da instituição de ensino. Essa etapa teve como objetivo levantar dados que permitissem compreender o perfil do alunado, a composição do quadro de professores e as possíveis estratégias e intervenções pedagógicas adotadas pela escola para a modalidade da EJA. A análise documental forneceu um panorama inicial sobre o funcionamento e as abordagens pedagógicas existentes.
Para a coleta de dados primários, utilizou-se um questionário semiestruturado. Os participantes da pesquisa foram docentes, membros da gestão escolar e alunos que frequentavam as turmas da EJA na unidade escolar selecionada. A aplicação do questionário buscou captar as práticas pedagógicas adotadas e os entraves percebidos por esses atores educacionais no processo de ensino-aprendizagem.
Paralelamente à coleta de dados empíricos, realizou-se uma revisão bibliográfica abrangente. Essa revisão teve como foco a compreensão e a aplicação dos conceitos da neurociência no contexto da educação de jovens e adultos. A literatura consultada incluiu diversos autores que abordam a temática, fornecendo um arcabouço teórico para a análise das percepções captadas e para a proposição de estratégias.
A análise dos dados coletados, tanto por meio do questionário quanto da revisão bibliográfica, foi de natureza qualitativa. Realizou-se um escrutínio das respostas obtidas, confrontando os principais fatores identificados com as perspectivas teóricas da neurociência e da educação. Essa abordagem permitiu uma compreensão aprofundada das práticas e dos desafios no ensino da EJA, conforme a proposta do estudo de caso (André, 1984).
No que tange aos aspectos éticos, a pesquisa seguiu as diretrizes institucionais, com o preenchimento do Formulário de Direcionamento Ético (FDE). A investigação foi dispensada de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme as situações previstas na Resolução CNS n° 510/2016. Todos os dados foram coletados de forma anônima e sem identificação pessoal dos participantes, garantindo a privacidade e a confidencialidade das informações.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os resultados obtidos na pesquisa, que teve como foco central a análise das práticas pedagógicas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) sob a perspectiva da neurociência. Para tanto, a investigação buscou identificar os fatores que contribuem ou dificultam o alcance dos objetivos dessa modalidade de ensino, por meio da aplicação de questionários a estudantes e professores de uma instituição escolar no interior de Minas Gerais. A escola selecionada, que oferece diversas etapas e modalidades de ensino, está situada em uma área de vulnerabilidade social, abrangendo diferentes bairros em seu entorno, o que contextualiza a realidade dos participantes.
Perfil dos alunos da EJA
A análise do perfil dos alunos da EJA revelou características demográficas importantes. Observou-se uma equiparação entre os gêneros, com doze estudantes do sexo masculino e onze do feminino. Quanto à faixa etária, a maior expressividade foi de indivíduos entre dezoito e vinte e três anos, totalizando dezesseis alunos, seguida pelas faixas de vinte e quatro a vinte e nove anos e trinta a trinta e cinco anos, ambas com dois estudantes. As faixas de trinta e seis a quarenta e um anos, quarenta e sete a cinquenta e dois anos, e acima de cinquenta e dois anos apresentaram um aluno cada. Em relação à cor, a opção branca foi a mais declarada, com doze estudantes, enquanto cinco se identificaram como pretos e um como pardo.
Esses dados indicam uma mudança no perfil do aluno da EJA, que, conforme Haddad (2015), tem se caracterizado por um rejuvenescimento nos últimos anos, com maior presença de jovens em comparação ao passado. Contudo, a constatação sobre a cor dos estudantes difere de estudos como o de Silva (2010), que aponta a maioria dos estudantes da EJA como pretos. Essa discrepância sugere a necessidade de repensar as práticas e direcionamentos pedagógicos da escola, a fim de se adequar à realidade atual do público. Carrano (2007) enfatiza que a falta de compreensão das diferenciações de idade e das particularidades do público pode afastar o ensino da realidade do estudante, tornando essencial a adaptação às múltiplas realidades e contextos de vida.
Perfil socioeconômico dos alunos da EJA
O levantamento do perfil socioeconômico dos alunos da EJA permitiu identificar fatores que podem influenciar o processo de ensino-aprendizagem. Verificou-se que quarenta por cento dos alunos residem em domicílios com uma a três pessoas, enquanto trinta e cinco por cento moram com quatro a sete pessoas. Em relação à parentalidade, trinta e oito por cento dos estudantes possuem filhos, e sessenta e dois por cento não. Quanto ao estado civil, sessenta e sete por cento são solteiros e trinta e três por cento são casados. A maioria, sessenta por cento, possui casa própria, enquanto quarenta por cento residem em imóveis alugados. O nível de escolaridade das mães dos alunos é predominantemente baixo, com vinte e sete por cento tendo completado até a quarta ou quinta série do ensino fundamental, e trinta e dois por cento dos alunos declararam não saber o nível de escolaridade de suas mães.
A pesquisa também revelou que sessenta e sete por cento dos alunos da EJA trabalham, e a maioria (sessenta por cento) cumpre uma jornada de até oito horas diárias, enquanto trinta e dois por cento trabalham mais de oito horas. A composição da renda familiar indicou que quarenta por cento dos estudantes não sabiam informar a renda, trinta e oito por cento recebiam até três salários mínimos e trinta por cento recebiam benefícios assistenciais. Esses achados corroboram a literatura que aponta a influência de fatores socioeconômicos na trajetória escolar. Leon e Menezes-Filho (2002) e Soares et al. (2015) destacam que o tamanho da família e as condições socioeconômicas podem afetar o desempenho e a permanência escolar. A necessidade de trabalhar precocemente para a subsistência, conforme Frigotto (2005), também é um fator relevante que impacta a vida desses estudantes.
A realidade desses alunos, marcada por longas jornadas de trabalho, baixa renda e, em muitos casos, responsabilidades familiares, gera um contexto de vulnerabilidade que interfere diretamente na aprendizagem. Fatores como a quantidade reduzida de horas de sono, a qualidade nutricional deficitária e a falta de tempo para a consolidação da memória são elementos do cotidiano que, sob a ótica da neurociência, podem comprometer a efetividade do processo de ensino. Herculano (2002) enfatiza que educadores e pais atuam como agentes de mudanças cerebrais, e a compreensão desses desafios é crucial para desenvolver estratégias pedagógicas assertivas que promovam o estímulo necessário para a aprendizagem.
Fatores que podem contribuir para o déficit de aprendizagem
Ao investigar os fatores que podem contribuir para o déficit de aprendizagem, a pesquisa revelou que quarenta e cinco por cento dos alunos dormem entre quatro e seis horas por noite, enquanto cinquenta por cento dormem de seis a oito horas. A falta de sono foi apontada por sessenta e cinco por cento dos estudantes como um fator que atrapalha a produtividade durante o dia. Em relação à alimentação, trinta e cinco por cento dos alunos fazem uma a duas refeições por dia, e quarenta e cinco por cento fazem duas a três. A merenda escolar é considerada importante por noventa e cinco por cento dos alunos, e oitenta por cento relatam sentir-se mais atentos após consumi-la. A prática de exercícios físicos é baixa, com apenas dez por cento dos estudantes afirmando praticá-los, e noventa por cento não conseguem participar das aulas de Educação Física. Além disso, cem por cento dos alunos declararam gastar mais de duas horas por dia em redes sociais.
Esses índices, correlacionados aos estudos da neurociência, indicam que os fatores ambientais e comportamentais dos estudantes atuam como empecilhos significativos no processo de ensino e aprendizagem. A baixa qualidade do sono, a alimentação inadequada e o sedentarismo são elementos que afetam diretamente as funções cognitivas, como atenção, memória e raciocínio, essenciais para a aprendizagem. A exposição excessiva às telas, por sua vez, pode impactar negativamente o desenvolvimento cerebral e a capacidade de concentração. A compreensão desses entraves é fundamental para a construção de mecanismos mitigadores que promovam um ambiente de aprendizagem mais eficaz e inclusivo, especialmente no contexto da EJA.
Fatores implícitos que podem contribuir para o déficit de aprendizagem (Percepção dos docentes)
A percepção dos docentes sobre os fatores que podem contribuir para o déficit de aprendizagem complementa a visão dos alunos. Cinquenta por cento dos professores afirmaram já ter lido ou estudado sobre neurociência, enquanto a outra metade não. Cem por cento dos docentes presenciam alunos dormindo durante as aulas e cem por cento observam o uso frequente de celular em sala. Cinquenta por cento dos professores percebem alguma mudança no comportamento de atenção dos alunos após a merenda, e a outra metade não. Todos os docentes (cem por cento) acreditam que as aulas de Educação Física deveriam contemplar os horários dos estudantes, reconhecendo a dificuldade de participação devido à jornada de trabalho.
A integração das respostas de alunos e professores revela que fatores implícitos como sono, alimentação, atividade física e exposição excessiva às redes sociais atuam de forma conjunta, comprometendo a eficácia do processo de ensino e aprendizagem. A memória, fundamental na aprendizagem, é diretamente afetada pela qualidade do sono, que também influencia a atenção, o humor e o raciocínio, conforme Lent (2010). O processo mnemônico, que envolve aquisição, decodificação, consolidação e armazenamento, depende de um ensino significativo e de fatores ambientais favoráveis para transformar a memória de curta duração em longa duração (Cheniaux, 2005). A falta de sono, comum entre os estudantes da EJA devido às suas múltiplas atribuições, contribui para o déficit de atenção e a baixa aprendizagem.
A aprendizagem efetiva, como ressalta Guerra (2015), requer a atenção do aluno e a consolidação dessa função pelo sono, que permite selecionar estímulos relevantes e significativos. Desconsiderar a redução das horas de sono e seus impactos pode levar a uma atribuição equivocada de falta de interesse por parte dos educandos. A promoção de um conteúdo dinâmico e integrativo, que leve em conta a realidade dos alunos, pode auxiliar na retenção e atenção. O uso excessivo de celular e redes sociais, com cem por cento dos alunos gastando mais de duas horas por dia, e a observação de seu uso em demasia pelos professores, é outro fator crítico. Dunckley (2015) e Desmurget (2021) alertam para os efeitos negativos do excesso de telas, que podem afetar a atenção e o desenvolvimento cognitivo, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas, conforme estudo do Journal of Neuroscience (2022). Boyce (2014) também destaca impactos no ciclo circadiano, obesidade, pressão arterial, diabetes, atenção e memória.
A importância da alimentação também foi evidenciada, com oitenta por cento dos estudantes relatando melhora na atenção após a merenda. Bezerra, Neto e Santos (2012) e Murphy (2007) corroboram que uma merenda nutritiva promove melhor desempenho e mudanças comportamentais positivas. Para os alunos da EJA, que frequentemente possuem baixa renda e jornadas de trabalho exaustivas, a alimentação adequada torna-se um desafio, impactando diretamente o foco e a atenção nas aulas. A atividade física, por sua vez, é de suma importância para o desenvolvimento motor e cognitivo, promovendo maior circulação sanguínea e atividade neural (Bonfim et al., 2019; Ramos, 2020; Silva, 2020). A baixa participação dos alunos da EJA nas aulas de Educação Física, com noventa por cento não conseguindo participar devido aos horários, representa a perda de um momento crucial para o aprimoramento da neuroplasticidade e outras habilidades.
Fatores relacionados à vida escolar dos alunos da EJA
O percurso estudantil dos alunos da EJA é marcado por desafios significativos. A pesquisa revelou que quarenta por cento dos estudantes foram reprovados mais de duas vezes, e cinquenta e dois por cento foram reprovados duas vezes. As principais atribuições para as reprovações incluem a dificuldade em aprender os conteúdos (vinte por cento), cansaço (doze por cento), desinteresse (vinte e três por cento), escola longe de casa (doze por cento), horário incompatível (dezesseis por cento) e trabalho (oito por cento). Noventa por cento dos alunos já deixaram de frequentar a escola, sendo que trinta e quatro por cento ficaram mais de cinco anos sem estudar. O trabalho dificulta a entrada no primeiro horário para oitenta por cento dos estudantes, e setenta e sete por cento sentem dificuldades em acompanhar os conteúdos ministrados. O cansaço (cinquenta e nove por cento) e a dificuldade em aprender o conteúdo (vinte e nove por cento) são os principais motivos que dificultam o aprendizado.
Esses dados corroboram as observações de Soares e Togni (2007) e Haddad e Di Pierro (2000), que destacam o alto índice de reprovações, abandono e evasão escolar como características da EJA. Os motivos para as interrupções nos estudos, como cansaço, desinteresse, trabalho e incompatibilidade de horários, estão intrinsecamente ligados à vida desses alunos e devem ser considerados no planejamento pedagógico. A alta porcentagem de abandono (noventa por cento) e o longo período fora da escola (trinta e quatro por cento por mais de cinco anos) evidenciam a complexidade da trajetória desses estudantes, conforme Inep (2021) e Lensky (2006). A congruência entre estudos e trabalho, com oitenta por cento dos alunos tendo dificuldade em comparecer no primeiro horário, demonstra que a jornada laboral exaustiva compromete o rendimento acadêmico.
A escolha pela EJA, motivada principalmente pela continuidade dos estudos (vinte e nove por cento), busca por um emprego melhor (vinte e três por cento) e a realização de um curso superior ou técnico (vinte por cento), revela que esses jovens e adultos veem na educação uma oportunidade de melhoria social. Essa perspectiva desafia a estigmatização da EJA como um ensino para “alunos com problemas” ou apenas para obtenção de certificado. As constatações reforçam que, mais do que um diploma, os estudantes buscam transformar suas condições de vida, o que exige uma abordagem pedagógica que reconheça e valorize suas aspirações.
Perspectivas do ensino noturno – professores e gestores
A análise das perspectivas de professores e gestores sobre o ensino noturno revelou que a maioria dos profissionais atua na instituição há mais de um ano, com trinta e quatro por cento entre um e quatro anos, e vinte e quatro por cento entre seis e oito anos, e outros vinte e quatro por cento há mais de oito anos. Noventa e dois por cento dos docentes afirmam considerar a realidade dos alunos em seus planejamentos, mas oito por cento não. Em relação à adaptação curricular para a EJA, cinquenta e três por cento indicaram que existe, enquanto quarenta e sete por cento disseram que não. A frequência das reuniões para discutir estratégias da EJA é variada, com trinta e oito por cento ocorrendo uma vez por bimestre e trinta por cento relatando que não há discussões sobre a EJA. Apenas vinte e três por cento dos profissionais participaram de alguma proposta da escola para melhoria da EJA, enquanto setenta e sete por cento não participaram.
Cem por cento dos docentes afirmam que há adaptação do conteúdo ministrado em relação à EJA, e sessenta e nove por cento consideram o processo de recomposição de aprendizagem contínuo. No entanto, apenas quarenta e sete por cento acreditam que as intervenções surtem efeito, e noventa por cento atribuem a baixa efetividade ao desinteresse dos alunos, enquanto dez por cento mencionam o horário incompatível. A mescla no tempo de atuação dos profissionais, com uma parcela significativa com menos de quatro anos na instituição, pode impactar o conhecimento aprofundado da realidade dos alunos e a construção de vínculo, conforme Libâneo (1994) e Souza (2008). A inobservância da realidade dos alunos por oito por cento dos docentes pode comprometer a relação professor-aluno e tornar o conteúdo distante, o que, segundo Guerra (2015), impede a produção de estímulos e reorganização do Sistema Nervoso, essenciais para a aprendizagem significativa.
A dubiedade em relação à adaptação curricular (cinquenta e três por cento sim, quarenta e sete por cento não) e a baixa frequência de reuniões para discutir estratégias da EJA (trinta por cento sem discussões) indicam uma falta de direcionamento unívoco e planejamento pedagógico eficaz, como ressaltado por Lück (2009). A baixa participação dos profissionais em propostas de melhoria da EJA (setenta e sete por cento não participaram) sugere uma falta de engajamento e integração entre corpo diretivo e professores na construção de propostas assertivas, conforme Dayrell e Jesus (2013). Embora cem por cento dos docentes afirmem adaptar o conteúdo, a percepção de que as intervenções não surtem efeito e a atribuição ao “desinteresse” dos alunos, sem aprofundar nos mecanismos para tornar o ensino mais significativo e atrativo, revelam uma lacuna na compreensão das particularidades desse público, como apontam Leão, Dayrell e Reis (2011).
Percepção dos alunos em relação à vivência escolar
A percepção dos alunos sobre sua vivência escolar revela aspectos cruciais da relação com os professores e a metodologia de ensino. Oitenta e oito por cento dos estudantes acreditam que os professores se preocupam com seu aprendizado, enquanto doze por cento não. Em relação ao relacionamento com os demais profissionais da escola, quarenta por cento o classificam como “muito bom”, vinte e seis por cento como “bom”, vinte e dois por cento como “normal”, quatro por cento como “razoável” e oito por cento como “ruim”. Setenta por cento dos alunos afirmam que o professor auxilia quando têm dúvidas sobre o conteúdo, mas trinta por cento não. Contudo, apenas vinte e cinco por cento dos estudantes percebem que os professores utilizam estratégias variadas para um melhor ensino, enquanto setenta e cinco por cento afirmam que não.
Apesar de uma percepção geralmente positiva sobre a preocupação dos professores e o auxílio na resolução de dúvidas, a baixa percepção de estratégias de ensino variadas por parte de setenta e cinco por cento dos alunos é um dado alarmante. Freire (1996) discorre que a função do educador vai além de meramente repassar conteúdos, devendo despertar a criticidade e criatividade. Guerra (2015) reforça que a educação deve proporcionar capacidades de novas práticas e mudanças. A neurociência, como destacado por Relvas (2012), enfatiza a importância de diferentes estratégias para a captação e consolidação do conteúdo no indivíduo adulto, explorando a neuroplasticidade. A emoção e o afeto no processo de aprendizado, conforme Izquierdo (2018) e Naxara e Ferreira (2017), são fundamentais para a retenção do conhecimento, e a desconsideração desses fatores pode levar à falta de estímulos e a um aprendizado menos efetivo.
Em síntese, os resultados da pesquisa evidenciam um perfil de aluno da EJA em constante transformação, com um rejuvenescimento notável, mas ainda enfrentando desafios socioeconômicos e ambientais que impactam diretamente sua capacidade de aprendizagem. A falta de sono, a alimentação inadequada, o sedentarismo e o uso excessivo de telas são fatores que, sob a ótica da neurociência, comprometem a atenção, a memória e o raciocínio. Embora os docentes demonstrem preocupação e adaptem o conteúdo, há inconsistências na adaptação curricular e na participação em iniciativas pedagógicas específicas para a EJA, e a maioria dos alunos não percebe a variedade de estratégias de ensino. A não compreensão e a desconsideração dessas particularidades dos estudantes da EJA resultam em um ensino ineficaz, o que reforça a necessidade de que os atores educacionais incorporem esses elementos para promover uma educação transformadora e assertiva, alinhada aos objetivos de desenvolvimento integral e social desses indivíduos.
4. Conclusão
O presente estudo buscou investigar as práticas pedagógicas adotadas na Educação de Jovens e Adultos (EJA), visando compreender as metodologias empregadas e a percepção dos profissionais sobre os resultados, além de expor conceitos da neurociência para demonstrar a necessidade de sua apropriação na prática docente. Verificou-se um perfil de aluno da EJA em processo de rejuvenescimento, embora ainda marcado por baixa renda, trabalho e interrupções escolares. Identificou-se que fatores intrínsecos e ambientais, como a qualidade do sono, a alimentação, o uso excessivo de telas, o cansaço e o desinteresse, atuam como entraves significativos no processo de ensino-aprendizagem. Observou-se que, apesar de a maioria dos docentes considerar a realidade dos alunos, houve inconsistências na adaptação curricular e na participação em iniciativas pedagógicas específicas para a EJA, com uma parcela expressiva de alunos que não percebeu a utilização de estratégias de ensino variadas. A principal contribuição reside na demonstração de que a não compreensão e desconsideração desses fatores e particularidades dos estudantes da EJA resultam em um ensino ineficaz, e que a incorporação de estratégias baseadas na neurociência é fundamental para promover uma educação mais inclusiva e transformadora.
A natureza do estudo, focado em uma única instituição do interior de Minas Gerais, limita a generalização dos achados, embora revele insights valiosos sobre a realidade local da EJA. Contudo, os resultados reforçam a urgência de que os atores educacionais incorporem as peculiaridades dos estudantes, como os aspectos do neurodesenvolvimento e da neuroplasticidade, para otimizar o aproveitamento e o desenvolvimento de capacidades. Sugere-se que estudos futuros explorem a implementação e a avaliação de programas de formação docente em neurociência aplicada à EJA, bem como a eficácia de intervenções pedagógicas baseadas nesses princípios, visando a construção de um ambiente de aprendizagem mais assertivo e alinhado às necessidades desse público.
Referências Bibliográficas
ANDRÉ, M. E. D. A. 2001. Pesquisa em educação: buscando rigor e qualidade. Cadernos de Pesquisa, n. 113, p. 51-64.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.Brasília. Presidência da República casa civil, 20 dez 1996.
Constituição Federal, 1988 [Referência completa não encontrada no documento original]
GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 2010, 5. ed. Atlas, 1999. Como elaborar projetos de pesquisa, São Paulo, SP, Brasil.
HADDAD, S. Sistematização de práticas não escolares e ações coletivas: o sentido da educação popular hoje. In: REUNIÃO NACIONAL DA ANPED, 37., 2015, Florianópolis. Anais[…] Rio de Janeiro: ANPED, 2015. p. 1-23.
Resolução CNS, 510/2016 [Referência completa não encontrada no documento original]
SILVA, J. L. (2010). Permanência e desempenho na EJA: um estudo sobre eficácia escolar no Programa de Educação de Jovens e Adultos do Município do Rio de Janeiro. Tese (Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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