Neurociência E Aprendizagem Na Educação
30 de setembro de 2026
Estratégias neuroeducativas baseadas em evidências para o ensino inclusivo
Estratégias Neuroeducativas Baseadas em Evidências para o Ensino Inclusivo
Aline Cristina Candido; Lea da Silva Veras
DOI: 10.22167/2675-6528-202602657
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A neurociência tem contribuído para a compreensão da aprendizagem e a elaboração de práticas pedagógicas alinhadas ao desenvolvimento infantil, especialmente no contexto da educação inclusiva, que demanda estratégias para diversos perfis de estudantes. Investigou-se como conhecimentos da neurociência poderiam subsidiar a criação de estratégias pedagógicas inclusivas para o desenvolvimento das funções executivas em crianças de 6 a 9 anos. A pesquisa caracterizou-se como aplicada, com abordagem qualitativa, exploratória e descritiva. Desenvolveu-se a partir de um relato reflexivo da experiência profissional da pesquisadora, articulado a um levantamento bibliográfico sobre neurociência, funções executivas e práticas pedagógicas inclusivas. Sistematizaram-se características do controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, além de comportamentos observáveis e possibilidades de intervenção. Com base nessa sistematização, elaboraram-se fluxogramas de apoio à tomada de decisão docente e um manual pedagógico com estratégias e sugestões de atividades. O produto educacional buscou aproximar conhecimentos científicos da prática pedagógica, oferecendo um recurso de consulta para identificação de necessidades, planejamento de intervenções e acompanhamento do desenvolvimento de habilidades. Contudo, o material não foi submetido à aplicação e avaliação empírica neste estudo, e sua efetividade deverá ser investigada em pesquisas futuras.
Palavras-chave: Aprendizagem; Educação inclusiva; Funções executivas; Neurociência; Práticas pedagógicas.
1. Introdução
A neurociência tem oferecido contribuições significativas para a compreensão dos processos de aprendizagem, fornecendo subsídios científicos que permitem a elaboração de práticas pedagógicas mais eficazes e inclusivas (Cosenza; Guerra, 2011). No cenário educacional contemporâneo, a diversidade de perfis de aprendizagem dos estudantes exige uma aproximação entre o conhecimento científico sobre o funcionamento cerebral e a realidade das salas de aula. Avanços na neurociência do desenvolvimento têm ampliado a compreensão sobre os processos que sustentam a aprendizagem e a regulação do comportamento ao longo da infância, destacando a aprendizagem como um fenômeno complexo, influenciado por fatores biológicos e ambientais (Shonkoff; Phillips, 2000).
Apesar desses avanços, persistem desafios na transposição dos conhecimentos neurocientíficos para a prática pedagógica diária, especialmente na adaptação de estratégias para atender às necessidades educacionais diversas dos estudantes (Mantoan, 2006). Estudos indicam que práticas pedagógicas fundamentadas em evidências científicas promovem ambientes educacionais mais equitativos e inclusivos, favorecendo o desenvolvimento de alunos com variados perfis de aprendizagem (Sousa, 2014; Miller et al., 2025).
No cotidiano escolar, é comum observar estudantes com diferentes ritmos e formas de aprendizagem, incluindo aqueles com dificuldades específicas e transtornos do neurodesenvolvimento. Nesse contexto, torna-se crucial que os professores disponham de instrumentos que auxiliem na identificação das necessidades de aprendizagem e na definição de estratégias pedagógicas adequadas a cada aluno. Contudo, muitos docentes relatam dificuldades em estabelecer pontos de partida pedagógicos claros e sequências de habilidades a serem desenvolvidas, o que frequentemente resulta em atividades repetitivas ou pouco alinhadas às necessidades reais dos estudantes.
Essa realidade evidencia a necessidade de fortalecer a formação docente e de disponibilizar recursos que contribuam para a tomada de decisões pedagógicas embasadas em evidências científicas. A compreensão do desenvolvimento infantil é central para a organização do ensino e a construção de práticas inclusivas efetivas. O desenvolvimento humano é um processo dinâmico e multidimensional, com o domínio cognitivo exercendo papel central na organização do comportamento e na regulação da aprendizagem (Papalia; Feldman, 2013). Entre as habilidades cognitivas essenciais, destacam-se as funções executivas.
As funções executivas são um conjunto de processos mentais responsáveis pelo controle intencional do comportamento, planejamento de ações e regulação da aprendizagem (Diamond, 2013). Essas habilidades permitem que o estudante mantenha a atenção, organize informações, controle impulsos e adapte-se a diferentes demandas do ambiente escolar, sendo fundamentais para a autonomia e o sucesso na aprendizagem. A literatura científica aponta três componentes como base estrutural das funções executivas: controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva (Miyake et al., 2000; Diamond, 2013). O presente estudo delimitou como foco a faixa etária de seis a nove anos, correspondente aos anos iniciais do Ensino Fundamental, período em que as demandas escolares exigem maior capacidade de organização, autorregulação e planejamento.
Diante das dificuldades observadas no contexto educacional e da relevância das funções executivas para o desenvolvimento da aprendizagem, este trabalho justifica-se pela identificação de demandas recorrentes na prática profissional em coordenação pedagógica. Tais demandas envolvem a dificuldade em definir pontos de partida pedagógicos, identificar habilidades prioritárias e organizar percursos de aprendizagem progressivos para estudantes com diferentes perfis. Assim, o presente trabalho buscou articular conhecimentos da literatura científica com as necessidades da prática profissional, com o objetivo de desenvolver um material de apoio pedagógico fundamentado em conhecimentos provenientes da literatura científica, destinado a auxiliar professores na identificação de necessidades pedagógicas e na definição de intervenções educativas voltadas ao desenvolvimento das funções executivas em alunos com idades entre seis e nove anos.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como de natureza aplicada, com abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo. O estudo foi desenvolvido a partir de um relato reflexivo da experiência profissional da pesquisadora, articulado a um levantamento bibliográfico abrangente. Essa metodologia buscou investigar como conhecimentos da neurociência podem subsidiar a elaboração de estratégias pedagógicas inclusivas, conforme o objetivo geral estabelecido na introdução.
A opção pelo relato reflexivo da experiência profissional mostrou-se adequada para a sistematização de demandas identificadas no cotidiano da coordenação pedagógica. Essa experiência ocorreu em uma instituição privada de Educação Básica, localizada no município de São Paulo, que atende à Educação Infantil e aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Nesse contexto, foram reconhecidas demandas recorrentes relacionadas ao planejamento de intervenções pedagógicas para estudantes com diferentes perfis de aprendizagem.
Os procedimentos metodológicos foram executados em etapas sequenciais. Inicialmente, realizou-se a sistematização reflexiva da experiência profissional da pesquisadora na coordenação pedagógica. Essa etapa foi utilizada para delimitar a problemática educacional e reconhecer demandas recorrentes, sem individualização de situações ou informações sensíveis. Na sequência, conduziu-se um levantamento bibliográfico narrativo em bases e mecanismos de busca acadêmica.
O levantamento bibliográfico foi realizado em plataformas como SciELO, ERIC e Google Scholar. Ele destinou-se à construção do referencial teórico e à identificação de conhecimentos relacionados ao desenvolvimento das funções executivas. O foco foi no controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, na faixa etária de seis a nove anos, bem como em estratégias pedagógicas aplicáveis ao contexto escolar.
A partir da sistematização das informações obtidas na literatura, foram construídos fluxogramas de tomada de decisão pedagógica. Esses fluxogramas foram organizados com base em comportamentos observáveis relacionados às funções executivas investigadas. A finalidade foi apoiar o professor na identificação de necessidades pedagógicas e na definição de prioridades de atuação docente, conforme o objetivo específico de construir um instrumento de tomada de decisão.
Posteriormente, sistematizaram-se estratégias pedagógicas identificadas na literatura científica, organizadas em consonância com as necessidades apontadas nos fluxogramas. Como etapa final, elaborou-se o produto educacional denominado Manual Pedagógico para o Planejamento de Aulas Inclusivas. O manual foi concebido como instrumento de consulta e apoio à tomada de decisão docente, reunindo os fluxogramas, orientações e sugestões de atividades.
O manual foi estruturado a partir das três funções executivas centrais – controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva – e dos níveis de dificuldade identificados nos fluxogramas. Essa organização permite ao professor compreender o percurso de desenvolvimento da habilidade e planejar intervenções progressivas. As informações foram dispostas em blocos visuais para facilitar a consulta e a aplicação prática das estratégias pedagógicas no cotidiano escolar.
É importante ressaltar que não houve recrutamento de participantes, realização de entrevistas, aplicação de questionários ou utilização de dados pessoais identificáveis de alunos, professores ou demais integrantes da instituição. A experiência profissional da pesquisadora foi utilizada exclusivamente como elemento de contextualização e reflexão sobre demandas pedagógicas recorrentes, sem individualização de situações, participantes ou informações institucionais sensíveis, garantindo a ética da pesquisa.
Os procedimentos metodológicos adotados foram coerentes com o objetivo geral de desenvolver um material de apoio pedagógico fundamentado em conhecimentos científicos. A identificação das características das funções executivas, a construção do instrumento de tomada de decisão e a elaboração do manual pedagógico foram etapas essenciais para alcançar os objetivos específicos propostos, visando aproximar a neurociência da prática educacional.
3. Resultados e Discussão
A presente pesquisa, de natureza aplicada, teve como ponto de partida a análise reflexiva da experiência profissional em coordenação pedagógica, que revelou demandas significativas no planejamento de intervenções para estudantes com perfis de aprendizagem diversos. Observou-se que docentes frequentemente enfrentam desafios na identificação de pontos de partida pedagógicos claros, na priorização de habilidades a serem desenvolvidas e na organização de percursos de aprendizagem progressivos. Essa realidade, marcada pela repetição de atividades ou adaptações pontuais sem um foco explícito nas habilidades subjacentes, motivou a busca por referenciais que pudessem subsidiar a tomada de decisão pedagógica de forma mais intencional e estruturada, especialmente para alunos que demandam maior individualização no processo educacional.
A ausência de percursos pedagógicos suficientemente estruturados foi identificada como um fator que gera insegurança na prática docente e dificulta a implementação de intervenções eficazes. A reflexão sobre essas demandas, em conjunto com um levantamento bibliográfico, direcionou o foco do estudo para as funções executivas, especificamente o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. A escolha dessas habilidades fundamentais justifica-se pela sua intrínseca relação com diversas demandas observadas no ambiente escolar, como a capacidade de seguir instruções, organizar ações, controlar impulsos e adaptar estratégias diante de desafios, conforme apontado por Diamond (2013).
Fundamentação teórica sobre o desenvolvimento das funções executivas
A literatura científica consultada demonstrou que o desenvolvimento infantil é um processo dinâmico e multidimensional, no qual diferentes áreas do funcionamento humano evoluem de forma integrada. Papalia e Feldman (2013) organizam esse processo em quatro domínios principais: cognitivo, socioemocional, motor e de linguagem e comunicação. Embora todos sejam interligados, o domínio cognitivo assume um papel central na organização do comportamento e na regulação da aprendizagem, especialmente em contextos escolares formais, o que justifica a priorização das funções executivas neste estudo.
As funções executivas são compreendidas como um conjunto de processos cognitivos que permitem o controle intencional do comportamento e a organização de ações orientadas a objetivos (Diamond, 2013). Essas habilidades são cruciais para o planejamento, a manutenção do foco em tarefas relevantes, o controle de impulsos e a adaptação a novas demandas. Miyake et al. (2000) e Diamond (2013) identificam três componentes estruturais básicos: controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, que, embora atuem de forma integrada, apresentam diversidade funcional, explicando os diferentes perfis de dificuldades observados em estudantes.
O desenvolvimento das funções executivas ocorre progressivamente ao longo da infância, acompanhando a maturação do sistema nervoso central e a ampliação das experiências cognitivas e sociais. O estudo concentrou-se na faixa etária de 6 a 9 anos, correspondente aos anos iniciais do Ensino Fundamental, período em que as demandas escolares exigem maior capacidade de planejamento, organização e autorregulação. Best, Miller e Naglieri (2011) e Blair e Raver (2015) ressaltam o crescimento expressivo dessas funções nessa fase, evidenciando sua relevância para o desempenho acadêmico e a adaptação ao ambiente escolar.
Manifestação das funções executivas no contexto escolar
A sistematização da literatura permitiu identificar como as funções executivas se manifestam e quais comportamentos observáveis indicam dificuldades em crianças de 6 a 9 anos, além de sugerir intervenções pedagógicas. No que tange ao controle inibitório, definido como a capacidade de controlar impulsos e resistir a distrações (Diamond, 2013), espera-se que crianças nessa faixa etária aguardem a vez, sigam regras e mantenham comportamento adequado em situações coletivas. Dificuldades podem ser observadas por impulsividade, interrupções frequentes e baixa tolerância à frustração, conforme Barkley (2012), demandando intervenções como rotinas claras, combinados visuais e antecipação de regras.
A memória de trabalho, que envolve a capacidade de manter e manipular informações temporariamente para raciocínio e resolução de problemas (Miyake et al., 2000; Diamond, 2013), manifesta-se na capacidade de seguir instruções com múltiplas etapas e organizar ideias. Comportamentos como esquecimento de orientações, dificuldade em concluir tarefas e necessidade constante de repetição de instruções indicam limitações. Gathercole e Alloway (2008) sugerem que estratégias pedagógicas devem focar na organização da informação e na redução da carga cognitiva, como a divisão de tarefas em etapas menores e o uso de apoio visual.
A flexibilidade cognitiva, que se refere à capacidade de adaptar o comportamento diante de mudanças e alternar estratégias (Zelazo; Müller, 2002; Diamond, 2013), é esperada em crianças de 6 a 9 anos pela capacidade de mudar de estratégia após erros e adaptar-se a novas regras. Dificuldades são identificadas por resistência a mudanças, insistência em estratégias ineficazes e dificuldade em aceitar novas orientações, comprometendo a resolução de problemas. Intervenções pedagógicas devem estimular a resolução de problemas, jogos com mudança de regras e mediação verbal do erro, incentivando a experimentação de novas estratégias.
A análise da literatura também revelou a importância de aproximar o estudo das funções executivas do contexto educacional. Pesquisas brasileiras, como a de Fernandes (2022), indicam a necessidade de ampliar a compreensão docente sobre essas habilidades e suas possibilidades de estimulação em sala de aula. Estudos como os de Anastácio (2021), Santos (2022) e Santana (2024) exploram intervenções lúdicas e tecnológicas para o desenvolvimento das funções executivas, reforçando a relevância de recursos que sistematizem conhecimentos para a prática pedagógica.
Implicações das funções executivas para o planejamento pedagógico
A compreensão aprofundada do desenvolvimento das funções executivas no ambiente escolar permite aos professores identificar comportamentos observáveis que sinalizam necessidades específicas de intervenção pedagógica. Ao reconhecer os sinais relacionados ao controle inibitório, à memória de trabalho e à flexibilidade cognitiva, o educador pode planejar estratégias de ensino mais intencionais e alinhadas ao nível de desenvolvimento de cada criança. Essa abordagem favorece um ensino mais individualizado e responsivo às demandas de aprendizagem.
A sistematização dessas informações em instrumentos de tomada de decisão pedagógica, como os fluxogramas desenvolvidos, constitui um recurso valioso para o planejamento de aulas inclusivas. A utilização de critérios observáveis permite ao professor definir pontos de partida pedagógicos, organizar intervenções adequadas e acompanhar o progresso dos estudantes. Essa articulação entre conhecimentos da neurociência e práticas pedagógicas baseadas em evidências contribui para a construção de estratégias educacionais mais estruturadas, promovendo o desenvolvimento progressivo das habilidades cognitivas essenciais para a aprendizagem e a participação ativa no ambiente escolar.
Construção do fluxograma/árvore de decisão
Com base na sistematização dos indicadores comportamentais e intervenções pedagógicas, foram elaborados fluxogramas de apoio à tomada de decisão docente para cada uma das três funções executivas. Esses instrumentos visam orientar o professor na análise de comportamentos observáveis e na definição de intervenções pedagógicas adequadas. A lógica de construção dos fluxogramas partiu da correspondência entre os comportamentos descritos na literatura e as possibilidades de intervenção, integrando evidências teóricas e as necessidades identificadas na prática escolar.
Para o controle inibitório, o fluxograma inicia com a observação da dificuldade persistente em controlar impulsos ou seguir regras. Caso essa dificuldade seja presente, o professor é direcionado a identificar a frequência de comportamentos como interrupções, fala fora de hora ou levantar-se sem autorização. A partir da predominância de respostas “sim” ou “não” a essas observações, o fluxograma classifica a dificuldade em níveis inicial, intermediário ou avançado. O nível inicial, por exemplo, caracteriza-se por dificuldade em seguir combinados simples e reações impulsivas em atividades estruturadas, enquanto o nível avançado indica baixa tolerância à frustração e dificuldade em regular o comportamento em tarefas complexas.
De forma análoga, o fluxograma para a memória de trabalho começa com a observação de dificuldades em lembrar instruções, organizar informações ou manter a atenção. A identificação da frequência de esquecimento de instruções, perda de materiais ou abandono de tarefas conduz à classificação do nível de dificuldade. No nível inicial, o aluno esquece instruções simples e necessita de repetição constante; no nível intermediário, inicia tarefas, mas não as mantém e perde materiais com frequência; e no nível avançado, demonstra dificuldade em acompanhar atividades com múltiplas etapas e baixa autonomia na execução.
Para a flexibilidade cognitiva, o fluxograma orienta a observação de dificuldades em adaptar-se a mudanças, aceitar novas estratégias ou resolver problemas de diferentes maneiras. A frequência de resistência a mudanças na rotina, insistência em realizar tarefas da mesma forma ou dificuldade em aceitar correções e revisar respostas, direciona a classificação do nível. O nível inicial apresenta resistência leve a mudanças e necessidade de apoio para novas propostas; o intermediário, frustração diante de mudanças e insistência em estratégias ineficazes; e o avançado, rigidez comportamental persistente e dificuldade significativa em adaptar-se a novas situações.
Os fluxogramas foram elaborados para preservar a clareza visual, sem incluir diretamente as intervenções pedagógicas. Cada nível de dificuldade identificado nos fluxogramas foi articulado a um conjunto de estratégias, atividades e dinâmicas detalhadas no manual pedagógico. Essa abordagem permite que o professor, após identificar o nível de dificuldade do estudante, consulte o manual para aprofundar as ações pedagógicas e aplicar o instrumento de forma prática no contexto escolar, promovendo intervenções mais intencionais e progressivas.
Sistematização das estratégias pedagógicas
A partir das necessidades identificadas nos fluxogramas pedagógicos, foi estruturado um conjunto sistematizado de estratégias pedagógicas fundamentadas em evidências científicas relacionadas ao desenvolvimento das funções executivas. As estratégias foram selecionadas da literatura consultada, considerando sua aplicabilidade no contexto educacional e sua relação com o desenvolvimento do controle inibitório, da memória de trabalho e da flexibilidade cognitiva. A organização buscou estabelecer uma correspondência clara entre os comportamentos observáveis nos fluxogramas e as possibilidades de intervenção pedagógica.
A sistematização considerou os diferentes níveis de dificuldade (inicial, intermediário e avançado) para cada função executiva, permitindo que o professor selecione intervenções compatíveis com o estágio de desenvolvimento do estudante. As estratégias não foram definidas de maneira genérica, mas derivadas da análise dos comportamentos observáveis, assegurando coerência entre a identificação da dificuldade e a intervenção proposta. Essa organização também favorece a progressão das habilidades, possibilitando que o trabalho pedagógico seja iniciado no ponto de partida identificado e ampliado gradualmente.
A definição das estratégias teve como base a literatura sobre aprendizagem, neurodesenvolvimento e práticas pedagógicas inclusivas, além da reflexão sobre as necessidades da prática profissional. Destacou-se a importância de intervenções que favoreçam a organização cognitiva, o controle do comportamento e a adaptação às demandas escolares. Isso inclui o uso de estímulos multissensoriais, a fragmentação de tarefas, o reforço positivo, a organização visual de rotinas, a antecipação de instruções, a mediação verbal e o monitoramento contínuo do progresso, embora seus resultados possam variar conforme as características dos estudantes e as condições de aplicação.
Construção do Manual Pedagógico
Como produto educacional desta pesquisa, foi desenvolvido um Manual Pedagógico para o Planejamento de Aulas Inclusivas, destinado a apoiar professores na identificação de necessidades e na definição de intervenções para o desenvolvimento das funções executivas em crianças de 6 a 9 anos. O manual foi concebido como um instrumento prático, com linguagem clara e orientações objetivas, facilitando a aplicação das estratégias no cotidiano escolar.
Descrição breve da estrutura do Manual
A estrutura do manual foi elaborada a partir dos fluxogramas pedagógicos, estabelecendo uma relação direta entre a dificuldade identificada e as intervenções adequadas. O professor é orientado a reconhecer a função executiva relacionada à dificuldade, identificar o nível de desenvolvimento da habilidade e selecionar estratégias e atividades compatíveis, permitindo o acompanhamento sistemático do progresso. As informações foram organizadas visualmente em blocos de fácil identificação, reunindo comportamentos observáveis, objetivos pedagógicos, estratégias de intervenção, sugestões de atividades e indicadores de progresso.
O manual está organizado em três eixos principais, correspondentes às funções executivas investigadas: controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Para cada função, são descritos três níveis de dificuldade (inicial, intermediário e avançado), acompanhados de orientações pedagógicas, sugestões de atividades e critérios de acompanhamento. Essa organização permite ao professor compreender o percurso de desenvolvimento da habilidade e planejar intervenções de forma progressiva e sistemática, configurando-se como um instrumento de apoio ao planejamento pedagógico e à organização de práticas educativas mais intencionais e alinhadas às demandas de aprendizagem dos alunos.
Para o controle inibitório, no nível inicial, as características incluem dificuldade em seguir combinados simples e reações impulsivas. O objetivo pedagógico é desenvolver o controle de impulsos e o respeito a regras básicas, com foco na autorregulação inicial e previsibilidade comportamental. As estratégias sugeridas envolvem o estabelecimento de rotinas previsíveis, o uso de combinados visuais e a antecipação de regras. As atividades propostas incluem “Circule apenas o que foi pedido”, “Marque quando NÃO pode” e “Pare e pense”, que visam desenvolver o controle da resposta e a atenção seletiva.
No nível intermediário do controle inibitório, as características observadas são a perda de controle em situações desafiadoras e a dificuldade em manter o comportamento adequado por períodos prolongados. O objetivo é ampliar a capacidade de autorregulação em situações mais complexas, com foco na manutenção do comportamento adequado, tolerância à frustração e persistência. Estratégias como o estabelecimento de metas comportamentais e o reforço positivo estruturado são indicadas, juntamente com atividades como “Desafio do tempo” e “Jogo da espera”, que promovem persistência e autorregulação.
Para o nível avançado do controle inibitório, as características incluem baixa tolerância à frustração e dificuldade em regular o comportamento em tarefas complexas. O objetivo pedagógico é desenvolver autonomia e controle comportamental em situações desafiadoras, com foco no planejamento do comportamento e na autorregulação emocional. Estratégias como o planejamento da tarefa, revisão da ação e mediação verbal são propostas, com atividades como “Planejamento da tarefa” e “Contrato comportamental”, que estimulam o planejamento e a autonomia.
Em relação à memória de trabalho, no nível inicial, o aluno esquece instruções simples e necessita de repetição constante. O objetivo é desenvolver a capacidade de reter e executar instruções simples, com foco na retenção de informações e organização sequencial de ações. Estratégias incluem o uso de instruções claras e sequenciais, apoio visual e organização do ambiente. Atividades como “Complete a sequência de ações” e “Leia e faça” são sugeridas para desenvolver a memória de trabalho e a execução de instruções.
No nível intermediário da memória de trabalho, o aluno inicia tarefas, mas não as mantém, esquece etapas e perde o foco. O objetivo é ampliar a capacidade de manter informações por mais tempo e executar tarefas com múltiplas etapas, focando na manutenção da informação e organização sequencial. Estratégias como a organização sequencial das atividades e o uso de roteiros são indicadas. Atividades como “Sequência de ações” e “História em partes” são propostas para desenvolver a memória de trabalho e a compreensão.
Para o nível avançado da memória de trabalho, o aluno apresenta dificuldade em acompanhar atividades com múltiplas etapas e baixa autonomia. O objetivo é desenvolver a capacidade de manter e manipular informações em tarefas complexas, promovendo autonomia e organização. Estratégias incluem o planejamento estruturado das atividades e o uso de instrumentos de acompanhamento. Atividades como “Planejamento de tarefas complexas” e “Resolver problemas em etapas” são sugeridas para desenvolver o planejamento e o raciocínio.
Quanto à flexibilidade cognitiva, no nível inicial, o aluno apresenta resistência leve a mudanças e dificuldade em aceitar novas propostas. O objetivo é desenvolver a capacidade de aceitar pequenas mudanças e experimentar novas formas de realizar tarefas, com foco na aceitação de mudanças na rotina e revisão de respostas. Estratégias incluem a introdução gradual de mudanças e mediação verbal para revisão de respostas. Atividades como “Resolva de outra forma” e “Classifique de outro jeito” são propostas para desenvolver a flexibilidade cognitiva e o pensamento alternativo.
No nível intermediário da flexibilidade cognitiva, o aluno demonstra frustração diante de mudanças e insiste em estratégias ineficazes. O objetivo é ampliar a capacidade de mudar estratégias diante de desafios e lidar com erros, com foco na tolerância ao erro e adaptação a novas demandas. Estratégias como a proposição de problemas com múltiplas soluções e a discussão orientada sobre erros são indicadas. Atividades como “Desafio com duas soluções” e “Erro como aprendizagem” são sugeridas para desenvolver o pensamento alternativo e a revisão de estratégias.
Para o nível avançado da flexibilidade cognitiva, o aluno apresenta rigidez comportamental persistente e dificuldade significativa em adaptar-se a novas situações. O objetivo é desenvolver autonomia para lidar com situações novas e adaptar-se a mudanças complexas, com foco no planejamento de alternativas e tomada de decisão. Estratégias incluem o planejamento antecipado de ações e a resolução de problemas do cotidiano. Atividades como “Planejamento com mudança” e “Resolução de problemas reais” são propostas para desenvolver o planejamento, a adaptação e a flexibilidade.
A análise da literatura consultada evidenciou a relevância das funções executivas para os processos de aprendizagem e permitiu identificar possibilidades de intervenção pedagógica relacionadas ao controle inibitório, à memória de trabalho e à flexibilidade cognitiva. A sistematização desses conhecimentos, articulada às demandas da prática profissional, possibilitou a construção dos fluxogramas e do manual pedagógico. Este material busca aproximar conceitos da neurociência e da psicologia cognitiva das necessidades observadas no cotidiano escolar, oferecendo um recurso prático para o planejamento docente.
A literatura aponta que intervenções voltadas ao desenvolvimento das funções executivas podem trazer benefícios em diferentes contextos, embora seus resultados dependam de fatores como características dos estudantes, tipo de intervenção, intensidade e duração (Diamond; Lee, 2011; Diamond; Ling, 2016). Contudo, persiste o desafio na transposição do conhecimento científico para a prática pedagógica cotidiana, o que reforça a relevância de materiais de apoio que sistematizem estratégias aplicáveis ao contexto escolar, como o manual desenvolvido neste estudo.
É importante ressaltar que o presente estudo possui limitações inerentes à sua natureza. A problemática educacional foi delimitada a partir da experiência profissional da pesquisadora em um contexto específico, sem coleta sistemática de dados com professores ou estudantes. Além disso, os fluxogramas e o manual pedagógico não foram submetidos, nesta etapa, à aplicação e avaliação empírica de sua efetividade. Portanto, o produto deve ser compreendido como uma proposta de apoio pedagógico construída a partir da articulação entre experiência profissional e literatura científica, e não como um instrumento com eficácia comprovada. Estudos futuros deverão investigar sua aplicabilidade, usabilidade e possíveis efeitos em diferentes contextos educacionais.
Em síntese, a pesquisa possibilitou a sistematização de conhecimentos sobre o desenvolvimento das funções executivas e sua aproximação com as demandas da prática pedagógica, resultando na elaboração de fluxogramas de apoio à tomada de decisão docente e de um manual pedagógico. Este material oferece critérios observáveis, possibilidades de intervenção e sugestões de atividades para auxiliar o professor na organização de práticas mais intencionais e progressivas, visando o desenvolvimento do controle inibitório, da memória de trabalho e da flexibilidade cognitiva em crianças de 6 a 9 anos, respondendo assim ao objetivo de desenvolver um recurso pedagógico fundamentado cientificamente.
4. Conclusão
Este estudo buscou desenvolver um material de apoio pedagógico fundamentado em conhecimentos da neurociência para auxiliar professores na identificação de necessidades e na definição de intervenções voltadas ao desenvolvimento das funções executivas em crianças de seis a nove anos. Por meio de um levantamento bibliográfico e da reflexão sobre a prática profissional, verificou-se a relevância do controle inibitório, da memória de trabalho e da flexibilidade cognitiva para a aprendizagem. Sistematizaram-se as características dessas funções, seus comportamentos observáveis no contexto escolar e as possibilidades de intervenção pedagógica. Com base nessa sistematização, elaboraram-se fluxogramas de apoio à tomada de decisão docente e um manual pedagógico com estratégias e sugestões de atividades. A principal contribuição do trabalho reside em aproximar o conhecimento científico da prática educacional, oferecendo um recurso estruturado para o planejamento de aulas inclusivas e o acompanhamento do desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais.
Contudo, o presente trabalho possui limitações inerentes à sua natureza. A problemática educacional foi delimitada a partir da experiência profissional da pesquisadora, sem a coleta sistemática de dados com professores ou estudantes. Além disso, os fluxogramas e o manual pedagógico não foram submetidos à aplicação e avaliação empírica de sua efetividade nesta etapa da pesquisa. Recomenda-se que estudos futuros investiguem a aplicabilidade e a usabilidade do material em contextos escolares reais, bem como seus possíveis efeitos no desenvolvimento das funções executivas dos estudantes. A participação de docentes nesse processo poderá fornecer subsídios para o aperfeiçoamento do produto e para a produção de novas evidências sobre suas possibilidades e limitações.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Educação Inclusiva e Diversidade
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