Resumo Executivo

Mba Executivo Em Liderança E Gestão

25 de junho de 2026

Shisa Kanko: Autoverificação reduz retrabalho em software

Luiz Antonio Rates Silva; Odair Silva Soares

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O dinâmico mercado de tecnologia exige alta performance e entregas de valor assertivas, demandando que os times operem com foco máximo e evitem desperdícios. Retrabalhos evitáveis, por exemplo, consomem quase um terço das horas produtivas dos desenvolvedores de software, impactando diretamente custos e competitividade. Este cenário foi particularmente relevante para a Empresa X, uma líder no setor de tecnologia de franquias do varejo brasileiro, com aproximadamente 3.000 colaboradores. Diante de um contexto macroeconômico de acesso ao crédito dificultado, a empresa reorientou sua estratégia corporativa para priorizar a eficiência operacional em vez de uma expansão agressiva, conforme apontado por Rovaroto (2025), tornando a minimização de gargalos operacionais uma prioridade estratégica.

Uma análise exploratória, realizada entre abril e junho de 2025, identificou um problema significativo em um time piloto de quatro desenvolvedores de software na Empresa X. Das 159 atividades monitoradas, 45 foram classificadas como retrabalho, resultando em uma taxa preocupante de 28,3%. Para este estudo, retrabalho foi definido como qualquer esforço adicional para corrigir uma funcionalidade que já deveria estar pronta e funcional, mas que não atendia às especificações esperadas. Este índice elevado indicava que uma parcela considerável do tempo de produção da equipe era dedicada a correções, em vez de agregar novas funcionalidades ao negócio.

A taxa de retrabalho de 28,3% observada no time piloto posicionou a equipe entre os patamares de baixa e média performance do mercado. O relatório DevOps Research and Assessment (DORA), de Forsgren et al. (2017), indica que times de alta performance em desenvolvimento de software apresentam taxas de retrabalho em torno de 21%, enquanto equipes de média e baixa performance registram entre 27% e 32%. A comparação revelou um potencial de melhoria de 30% para o time da Empresa X, permitindo que se aproximasse do padrão de 21% de retrabalho, um indicador de alta performance e eficiência operacional.

Em termos financeiros, o custo do retrabalho era considerável. Considerando o salário médio de um desenvolvedor pleno em R$6.000 mensais, equivalente a R$33 por hora (GLASSDOOR, 2025), e um tempo médio de duas horas por retrabalho, o custo anual extrapolado para o time piloto de quatro pessoas era substancial. Com 45 retrabalhos em três meses, cada desenvolvedor realizava 11,25 retrabalhos por trimestre, totalizando 45 retrabalhos anuais. Isso significava que cada desenvolvedor gastava 90 horas por ano refazendo código, resultando em um custo anual de R$2.970 por desenvolvedor apenas para corrigir erros.

A extrapolação desses custos para a Empresa X, com seus 3.000 funcionários, revelou um impacto financeiro ainda maior. Se 1.500 desenvolvedores (metade da equipe) apresentassem a mesma taxa de retrabalho, o consumo anual de recursos para correções não geradoras de valor novo seria de aproximadamente R$4,5 milhões. Caso todos os 3.000 funcionários tivessem essa mesma taxa, o custo anual de retrabalho atingiria cerca de R$8,9 milhões. Este montante representa um dreno significativo de recursos que poderia ser alocado em projetos estratégicos, evidenciando a urgência de uma solução para otimizar a agilidade e a entrega de valor da empresa.

Para identificar as causas subjacentes da alta taxa de retrabalho, foi aplicada a técnica dos “5 Porquês”. A primeira constatação foi que as implementações frequentemente não correspondiam aos requisitos solicitados. Isso ocorria porque a validação das tarefas era falha e não havia uma checagem detalhada antes da entrega. Essa falha na checagem, por sua vez, era atribuída a uma cultura organizacional focada na velocidade de entrega, sem o devido apoio à leitura detalhada e à verificação dos requisitos técnicos, o que comprometia a qualidade final do software e gerava a necessidade de refatorações.

A investigação prosseguiu, revelando que a validação era falha porque as informações essenciais para o trabalho eram transmitidas principalmente em conversas síncronas, como reuniões, sem a devida documentação. Essa dependência de processos informais levava a interpretações equivocadas e inconsistências. A ausência de uma mentalidade de melhoria contínua e de um foco em padrões de alta performance na organização perpetuava esses problemas. Finalmente, a causa raiz identificada foi a falta de priorização de indicadores de qualidade sustentável, como a taxa de retrabalho, pela gestão do time, o que permitia que o problema persistisse sem a devida atenção.

Diante desse diagnóstico, a solução proposta foi a adoção de um protocolo de validação por autoverificação em voz alta, inspirado no método japonês “Shisa Kanko”, traduzido como “Apontar e Falar”. Este procedimento, amplamente difundido em companhias ferroviárias para segurança, demonstrou ser capaz de reduzir erros em até 85% (GORDEKER, 2008). A adaptação para o contexto de desenvolvimento de software remoto visava criar um momento de pausa reflexiva e aumentar a atenção plena do desenvolvedor aos requisitos técnicos, antes da submissão final do trabalho, prevenindo erros e retrabalhos.

O protocolo Shisa Kanko adaptado envolvia uma ação simples e direta: na etapa final de uma atividade de desenvolvimento, antes de submeter a tarefa para validação, o desenvolvedor deveria gravar um breve vídeo, de no máximo cinco minutos. Neste vídeo, ele verbalizaria e demonstraria os pontos-chave da implementação. Por exemplo, ao alterar um botão na interface, o desenvolvedor declararia: “Confirmei que o botão nas telas A, B e C foi alterado para a cor #FFFFFF conforme especificado; testei o funcionamento do clique e o redirecionamento para a página X; e documentei as alterações no repositório Y”.

Esta abordagem, integrada como um checklist obrigatório na plataforma de gestão de tarefas, tinha como objetivo principal criar um momento de pausa reflexiva e presença de foco. Esperava-se que o próprio desenvolvedor pudesse identificar possíveis erros antes da submissão final, promovendo o autocontrole da qualidade. A meta era reduzir os erros de implementação em 30%, diminuindo a taxa de retrabalho de 28,3% para 21%, alinhando-se aos padrões de alta performance do relatório DORA (FORSGREN et al., 2017). Projeta-se uma economia anual de R$2,3 milhões e a liberação de 72 mil horas para projetos estratégicos.

A implementação do método Shisa Kanko, apesar de promissora, enfrentava desafios potenciais, como a resistência cultural à gravação de vídeos, a dificuldade em garantir adesão consistente ao processo e a padronização. Para mitigar esses riscos, foi proposto um plano de adoção gradual. Este plano incluía uma comunicação clara sobre o propósito de autocontrole, e não de avaliação, a exposição dos possíveis impactos anuais de economia para a companhia, e a integração do checklist obrigatório ao fluxo de trabalho existente, visando tornar o processo uma parte natural e aceita da rotina dos desenvolvedores.

A aplicação piloto do método foi realizada com o time de quatro desenvolvedores durante três meses, de agosto a outubro de 2025. O objetivo era reduzir em 30% a quantidade de atividades classificadas como retrabalho. O processo de implementação e acompanhamento dos resultados começou em agosto de 2025, registrando 22 retrabalhos naquele mês, um valor semelhante ao de maio de 2025, antes da intervenção. No entanto, os meses subsequentes de setembro e outubro apresentaram uma queda significativa, com apenas 4 e 3 retrabalhos, respectivamente, demonstrando a eficácia inicial da solução.

Ao final do período de três meses de teste, o time piloto registrou um total de 29 retrabalhos em 160 atividades realizadas, resultando em uma taxa de retrabalho de 18,1%. Este resultado representou uma redução substancial em relação à taxa inicial de 28,3%, comprovando a eficácia da solução em diminuir o retrabalho. Durante o período de teste, foi constantemente observado que, muitas vezes, atividades consideradas completas eram identificadas como não conformes durante o processo de gravação do vídeo, reforçando a capacidade do método em promover a autoverificação e a correção proativa de erros.

Para garantir a adesão e a compreensão da relevância do problema, uma reunião inicial de uma hora foi conduzida com o time piloto. Nela, foram apresentadas as métricas de performance da equipe, incluindo a quantidade de entregas e a taxa de retrabalho mensal, comparadas com os valores de referência de times de alta performance. Também foi destacada a economia potencial que a aplicação do método poderia gerar. Esta abordagem transparente permitiu que o time compreendesse a necessidade de corrigir a taxa de retrabalho e manter um padrão de qualidade elevado, fomentando a confiança na solução proposta.

Após a apresentação, o time piloto não apresentou objeções à aplicação do método Shisa Kanko com gravação de vídeos. Foi crucial estabelecer o período de submissão aos vídeos e as datas para verificação do progresso. Além disso, uma comunicação assíncrona foi fundamental para definir a estrutura operacional, incluindo critérios de aceitação para os vídeos, material explicativo sobre como gravá-los e as pastas online para armazenamento. A criação dessas pastas e a preparação de relatórios automáticos de acompanhamento dos resultados também foram etapas essenciais para a implementação bem-sucedida do piloto.

A análise de custos e viabilidade financeira (ROI) detalhou os investimentos necessários. Para o time piloto de quatro pessoas, o custo de implementação foi mínimo, totalizando R$134,75. Este valor incluía R$132,00 para um encontro de contextualização de uma hora com os desenvolvedores e R$2,75 para a criação de uma pasta online para o repositório dos vídeos. O custo de armazenamento dos vídeos foi zero, aproveitando as licenças de Google Workspace já existentes na companhia. Este baixo investimento inicial demonstrou a acessibilidade da solução para testes e validação.

Ao escalar a solução para os 3.000 funcionários da Empresa X, o custo total de implantação foi estimado em R$101.062,50, um valor não recorrente para o primeiro ano. Os custos operacionais anuais foram projetados com base na gravação de vídeos de cinco minutos por atividade por desenvolvedor. Extrapolando as 160 atividades anuais por desenvolvedor do piloto, cada um gastaria 13,333 horas por ano gravando vídeos, a um custo de R$440 anuais por desenvolvedor. Para os 3.000 funcionários, o custo operacional anual estimado para a gravação dos vídeos seria de R$1.320.000.

As projeções financeiras para o primeiro ano indicam uma economia bruta projetada de R$2.300.000, resultante da redução de 30% dos erros. Subtraindo o custo de implementação de R$101.062,50 e o custo operacional anual de R$1.320.000, a economia líquida estimada para o primeiro ano seria de R$878.937,50. Este resultado demonstra um retorno sobre o investimento significativo e imediato, liberando recursos financeiros que podem ser direcionados para outros projetos estratégicos e investimentos em inovação, fortalecendo a posição competitiva da Empresa X no mercado.

Para os anos subsequentes, com o custo de implementação já amortizado, a economia líquida anual projetada aumentaria para R$980.000. Essa sustentabilidade nos benefícios financeiros reforça a viabilidade e o valor estratégico da solução a longo prazo. A capacidade de gerar quase um milhão de reais em economia líquida anualmente permite à Empresa X realocar capital para iniciativas de crescimento e desenvolvimento, consolidando sua busca por eficiência operacional e inovação contínua. Os benefícios financeiros são, portanto, um pilar central para a justificativa da expansão do método.

A contribuição gerencial deste business case é multifacetada. A implementação do método Shisa Kanko não apenas aborda um problema operacional crítico, mas também eleva os times de desenvolvimento de software da Empresa X a padrões de alta performance, alinhando-se às melhores práticas globais. A capacidade de adaptar uma metodologia de segurança ferroviária para o contexto de engenharia de software demonstra uma abordagem inovadora para a resolução de problemas, promovendo uma cultura de melhoria contínua e autocontrole da qualidade. Este passo estratégico fortalece a agilidade da empresa e sua capacidade de entregar valor.

Embora o piloto tenha demonstrado sucesso, a escalabilidade do projeto em larga escala exige considerações cuidadosas. Gargalos de comunicação, necessidades de treinamento e possível resistência cultural podem surgir, adicionando complexidade à implementação. Por isso, foi sugerido expandir o projeto piloto gradualmente, começando com grupos de 500 e, posteriormente, 1.000 desenvolvedores. Essa abordagem faseada permitirá identificar e resolver novas problemáticas à medida que surgirem, garantindo uma transição mais suave e eficaz para toda a organização, maximizando os benefícios e minimizando os riscos associados à adoção em larga escala.

Em síntese, a solução de utilizar a gravação de vídeos como estímulo para o método “Apontar e Falar” mostrou-se eficaz na redução da taxa de retrabalho do time piloto. Esta abordagem oferece uma perspectiva promissora para a redução de custos operacionais e a melhoria da eficiência na Empresa X. A capacidade de melhoria observada na implementação piloto, aliada ao baixo custo, sugere que o método Shisa Kanko tem potencial para ser adaptado e implementado em outros times com desafios semelhantes, e até mesmo em outros processos de manutenção ou construção, ampliando seu impacto para além do desenvolvimento de software.

A implementação do método Shisa Kanko representa um passo estratégico para a Empresa X, não apenas pela economia imediata, mas também por elevar o time a padrões de alta performance, alinhando-se às melhores práticas globais de desenvolvimento de software. A capacidade de melhoria na empresa é alta e com custo baixo, conforme observado no piloto. A adaptabilidade do método, originado em um setor aparentemente distante como a segurança ferroviária, demonstra o valor da inovação e da busca por soluções em diferentes campos. A adoção em larga escala promete liberar orçamento para novos projetos estratégicos e consolidar uma cultura de excelência operacional.

Referências Bibliográficas:

FORSGREN, N.; HUMBLE, J.; KIM, G. Forecasting the Value of DevOps Transformations: Measuring ROI of DevOps. [S.I.]: DevOps Research and Assessment (DORA), 2017. 31 р. Disponível em: https://devops-research.com/research.html. Acesso em: 12/08/2025

GLASSDOOR. Salário de Programador Pleno. Acesso em 12/08/2025. Disponível em: https://www.glassdoor.com.br/Sal%C3%A1rios/programador-pleno-sal%C3%A1rio-SRCH_K00,17.htm

GORDEKER, Alice. JR gestures, The Japan Times, 2008. Disponível em: https://www.japantimes.co.jp/news/2008/10/21/reference/jr-gestures/#.VL7Xg-d2MTk Acesso em 02/07/2025.

ROVAROTO, Isabela. Mercado de franquias cresce 13,5% e fatura R$ 273 bilhões em 2024. Exame, São Paulo, 22 jun. 2025. Disponível em: https://exame.com/negocios/mercado-de-franquias-cresce-135-e-fatura-de-r-273-bilhoes-em-2024/. Acesso em: 22 jun. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Executivo em Liderança e Gestão do MBA USP/Esalq

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