Artigo

Gestão Escolar

13 de outubro de 2026

Potencialidades e Limites dos Ateliês de Trabalho no Processo de Inclusão Escolar

Marina Filier de Oliveira; Adriessa Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202603259

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A crescente heterogeneidade da sala de aula e as legislações inclusivas impulsionaram a busca por estratégias pedagógicas que atendam à diversidade dos alunos, destacando-se as metodologias ativas e a organização em ateliês, proposta por Celestin Freinet. Identificou-se, à luz da neurociência, as potencialidades e limites da organização do trabalho pedagógico em ateliês no processo de inclusão escolar. Para isso, realizou-se uma pesquisa descritiva do tipo levantamento de campo (survey). Aplicaram-se questionários a seis professoras do Ensino Fundamental I da rede pública de Campinas, São Paulo, que utilizavam ateliês em sua prática docente. As respostas foram analisadas qualitativamente para identificar as contribuições e limites dessa organização pedagógica para a inclusão. Os resultados revelaram que os ateliês se configuraram como uma estratégia potente para promover a personalização da aprendizagem, a interação entre pares e o desenvolvimento da autonomia dos alunos. Contudo, observaram-se limites importantes relacionados às condições concretas de trabalho docente, como o elevado número de alunos por turma, a ausência de profissionais de apoio e a falta de tempo para planejamento coletivo. Concluiu-se que, embora as professoras possuam uma concepção ampla de inclusão e conhecimento de práticas ativas, a efetividade da inclusão está diretamente relacionada às condições institucionais e estruturais da escola.

Palavras-chave: Educação inclusiva; Freinet; Metodologias ativas; Neurociência; Prática pedagógica.

1. Introdução

A heterogeneidade da sala de aula representa uma preocupação constante e um dos maiores desafios enfrentados pelos professores na atualidade. Embora a diversidade sempre tenha sido uma realidade, legislações recentes, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI) e a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva (Brasil, 2008), juntamente com a Constituição Federal Brasileira (1988), têm impulsionado a configuração de um ambiente escolar cada vez mais plural. Nesse cenário, a necessidade de um atendimento inclusivo para todos os estudantes é premente.

A importância do tema é reforçada por dados do Censo Escolar de 2023, que indicam um aumento gradual no percentual de matrículas de alunos elegíveis para a Educação Especial. Das 1.771.430 matrículas computadas, a maior concentração, com 62,90% (1.114.230), estava no ensino fundamental (INEP, 2024). Esses números refletem a percepção dos professores sobre o crescente número de estudantes com deficiências, dificuldades de aprendizagem e neurodivergentes em sala de aula.

Contudo, a heterogeneidade da sala de aula não é uma consequência direta e exclusiva dos avanços legais para a inclusão de estudantes neurodivergentes ou com deficiência. Ela é uma realidade inerente, pois cada ser humano possui uma forma única de aprender. O desafio reside em como conceber o atendimento inclusivo para cada aluno. Ainscow (2009) destaca que a inclusão é o maior desafio do sistema escolar global, sendo vista como um projeto que acolhe a diversidade de todos os estudantes (UNESCO, 2001). Essa concepção se baseia na premissa de que a educação é um direito humano fundamental e a base para uma sociedade mais justa (Ainscow, 2009).

A inclusão, conforme Ainscow (2020), deve ser compreendida como um processo contínuo de busca por melhores formas de lidar com a diversidade. Ela é um princípio que celebra a diversidade em sala de aula e combate a exclusão social resultante de atitudes discriminatórias, focando na presença, participação e sucesso de todas as crianças e jovens. Não existe um modelo único de inclusão escolar, mas escolas altamente inclusivas compartilham a característica de serem acolhedoras para todos os seus alunos.

Diante desse contexto, muitos professores ainda se sentem despreparados para atender a tamanha diversidade. A questão central, portanto, é como organizar o trabalho pedagógico tomando as diferenças individuais como ponto de partida. Mantoan (2015) enfatiza a necessidade de uma concepção pedagógica ativa, dialógica, interativa e integradora, que se afaste de uma visão unidirecional e hierárquica do saber, reconhecendo que cada indivíduo aprende de maneira distinta.

Pesquisas em neurociência corroboram que o processo de aprendizagem é único para cada ser humano, e as pessoas aprendem o que é mais relevante e significativo para si, ou seja, aquilo que gera conexões cognitivas e emocionais (Moran, 2018). A aprendizagem se aprofunda com espaços de prática frequentes e ambientes ricos em estímulos variados (Consenza e Guerra, 2011). Assim, um processo de aprendizagem organizado de forma ativa, com metodologias que promovem o protagonismo do aluno, pode ser mais eficaz na geração de aprendizagens duradouras, flexíveis e que respeitem as diferentes formas de aprender.

Nesse sentido, as metodologias ativas, centradas na participação efetiva dos estudantes na construção do seu conhecimento, emergem como um caminho promissor. Moran (2018) descreve três princípios dessas metodologias: aprendizagem personalizada, aprendizagem compartilhada e aprendizagem por tutoria. Esses fundamentos buscam criar percursos de aprendizagem que façam sentido para cada aluno, atendendo às suas necessidades e interesses.

Dentro das metodologias ativas e das propostas da Escola Nova, destaca-se a contribuição de Celestin Freinet, que, no início do século XX, já defendia a modernização da escola, abandonando atividades padronizadas e aulas expositivas (Silva, 2004). Para isso, Freinet desenvolveu instrumentos e técnicas para facilitar o trabalho pedagógico, entre os quais se encontram os ateliês de trabalho (Fechi, 2022).

Os ateliês de trabalho representam uma forma de organizar a sala de aula que descentraliza o processo de aprendizagem do professor. Neles, as carteiras são agrupadas para diferentes propostas de atividade, e os alunos escolhem os grupos com base em suas necessidades e interesses, estimulando a autonomia (Fechi, 2022). A proposta freinetiana dos ateliês é, em sua essência, inclusiva, pois parte da heterogeneidade e diversidade da sala de aula como pressuposto, oferecendo diferentes atividades simultâneas que atendem às necessidades específicas de aprendizagem dos alunos. Essa abordagem promove a aprendizagem ativa, personalizada e compartilhada, configurando-se como uma possibilidade para enfrentar o desafio da diversidade em sala de aula.

Apesar do reconhecimento das metodologias ativas e da relevância dos ateliês de trabalho, a aplicação prática dessas abordagens em um contexto de inclusão escolar ainda enfrenta desafios significativos, como a falta de apoio pedagógico, o tempo de planejamento e a quantidade de alunos por turma, conforme apontado por professores. A lacuna reside em compreender como a organização do trabalho pedagógico em ateliês, à luz da neurociência e das metodologias ativas, pode efetivamente contribuir para uma educação inclusiva, superando as barreiras existentes. Assim, este trabalho busca identificar as potencialidades e limites da organização do trabalho pedagógico em ateliês de trabalho, como propostos por Celestin Freinet, no processo de inclusão. Pretende-se realizar essa investigação à luz de pesquisas em neurociência, tendo como norte as investigações sobre metodologias ativas, a fim de compreender os efeitos que essa forma de organização do trabalho pedagógico pode efetivamente ter na aprendizagem dos alunos.

2. Material e Métodos

A presente investigação caracterizou-se como uma pesquisa descritiva, adotando a abordagem de levantamento de campo, conhecida como survey (Gil, 2017). Essa modalidade de pesquisa em ciências sociais foi selecionada por sua capacidade de coletar dados diretamente da realidade por meio de interrogação, permitindo um conhecimento objetivo sobre o fenômeno estudado. A escolha por este tipo de estudo alinhou-se ao objetivo de descrever as percepções dos participantes, sem a intenção de explicar processos sociais mais amplos.

A unidade de análise do estudo consistiu em professoras do Ensino Fundamental I da rede pública de ensino do município de Campinas, no Estado de São Paulo. A seleção desse grupo específico visou compreender as experiências de docentes que já integravam a organização em ateliês em sua prática pedagógica. O foco na rede pública de Campinas permitiu uma delimitação geográfica e institucional para a coleta de dados.

A amostra foi composta por seis professoras, selecionadas por conveniência. Os participantes foram inicialmente contatados pela pesquisadora, que já tinha conhecimento de sua utilização de ateliês em sala de aula. Posteriormente, solicitou-se a indicação de outros profissionais que se encaixassem nos critérios. Os critérios de inclusão para a participação na pesquisa foram: ser professor(a) de Ensino Fundamental I na rede pública de Campinas, São Paulo, e utilizar os ateliês em sua prática docente.

Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se um questionário. Este foi elaborado para ser aplicado de forma online, facilitando o acesso aos participantes e permitindo que respondessem às perguntas em seu próprio tempo e conveniência. O questionário foi estruturado para coletar tanto dados quantitativos, por meio de perguntas fechadas e de múltipla escolha, quanto dados qualitativos, através de perguntas abertas e dissertativas.

O questionário foi organizado em três seções distintas. A primeira seção buscou traçar o perfil sociodemográfico das participantes, incluindo informações sobre formação acadêmica, tempo de atuação em sala de aula e esfera de atuação na educação pública. A segunda seção teve como objetivo coletar dados sobre as concepções das professoras acerca da educação inclusiva. A terceira seção focou na organização do trabalho pedagógico em ateliês, explorando aspectos como tempo de uso, motivos para a escolha e percepções sobre potencialidades e limites.

A coleta de dados foi realizada por meio do envio do questionário eletrônico, hospedado na plataforma Google Forms. Antes de responderem, os participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de forma online, garantindo a voluntariedade e o conhecimento sobre a pesquisa. O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o CAAE n° 95764825.0.0000.9927, assegurando os preceitos éticos de confidencialidade e privacidade dos dados coletados.

Após a coleta, as respostas brutas dos participantes foram organizadas em uma estrutura tabular, seguindo a divisão do questionário. Criou-se uma tabela para cada uma das três seções do questionário: perfil sociodemográfico, concepções de educação inclusiva e organização do trabalho pedagógico em ateliês. Os títulos das colunas de cada tabela indicaram o tipo de informação que se pretendia obter em cada pergunta, facilitando a visualização e a sistematização inicial dos dados.

A análise dos dados coletados foi de natureza qualitativa, com o emprego da Análise de Conteúdo, conforme proposto por Bardin (2016). Este método foi utilizado para identificar os sentidos e significados atribuídos pelas participantes às temáticas diretamente relacionadas aos objetivos do trabalho. As questões abertas do questionário, presentes nas seções sobre concepções de educação inclusiva e organização em ateliês, foram o principal foco dessa análise.

O processo de análise iniciou-se com a sistematização dos dados nas tabelas mencionadas, seguida por uma leitura interpretativa das respostas. A partir dessa leitura, identificaram-se recorrências de sentido, que permitiram a construção de duas categorias analíticas principais. A primeira categoria abordou as concepções sobre educação inclusiva e seus desafios, enquanto a segunda explorou as potencialidades e limites dos ateliês para a inclusão de todos os alunos. Buscou-se, ainda, relacionar os conhecimentos da neurociência com as práticas de trabalho em ateliês relatadas pelas professoras.

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados, provenientes de questionários aplicados a seis professoras do Ensino Fundamental I da rede pública de Campinas, São Paulo, que empregam ateliês em sua prática pedagógica, revelou importantes percepções sobre a educação inclusiva e a organização do trabalho em ateliês. Os resultados foram estruturados em dois eixos principais: as concepções e os desafios inerentes à educação inclusiva, e as potencialidades e limites da organização pedagógica em ateliês. Antes de aprofundar nesses eixos, apresenta-se uma síntese do perfil sociodemográfico das participantes, que fornece o contexto para as interpretações subsequentes.

O perfil das professoras participantes indicou um grupo de profissionais com sólida formação acadêmica e experiência significativa. Das seis docentes que responderam ao questionário, duas possuíam pós-graduação lato sensu, duas tinham mestrado completo, uma estava cursando doutorado e outra já havia concluído o doutorado. Em relação ao tempo de atuação em sala de aula, cinco professoras contavam com mais de dez anos de experiência, enquanto uma atuava entre três e cinco anos. Todas as participantes trabalhavam na rede municipal de ensino, o que sugere um corpo docente atualizado e com considerável vivência prática, elementos cruciais para a riqueza das percepções coletadas.

Concepções sobre educação inclusiva e seus desafios

As concepções das professoras sobre educação inclusiva demonstraram uma compreensão abrangente e alinhada com as perspectivas contemporâneas do campo. Cinco das seis participantes definiram a educação inclusiva como um processo que acolhe todos os alunos, valoriza suas potencialidades e busca atender às suas necessidades para promover o progresso na aprendizagem. Uma das docentes, por exemplo, enfatizou que a educação inclusiva “olha para as potencialidades dos alunos e busca atendê-los para alcançar progressos em seus processos de ensino e aprendizagem”, enquanto outra a descreveu como a garantia de equidade, adaptando atividades e removendo barreiras. Essas visões convergem com a perspectiva de Ainscow (2020), que destaca a inclusão como um processo contínuo de busca por melhores formas de lidar com a diversidade, focando na presença, participação e sucesso de todas as crianças e jovens.

Apesar dessa concepção ampla, as professoras também revelaram os desafios enfrentados na implementação da educação inclusiva em suas escolas. Todas as participantes afirmaram que suas instituições buscam uma abordagem inclusiva, mas quatro delas ressaltaram que essa abordagem ocorre “apesar das condições concretas” ou “dentro das possibilidades da escola”. Essa observação aponta para uma lacuna entre a intencionalidade pedagógica e as condições estruturais, sugerindo que a efetividade da inclusão não depende apenas da boa vontade ou do conhecimento dos educadores, mas também de um suporte institucional robusto. A Professora 5, por exemplo, destacou que a escola deve ser democrática e acolhedora, celebrando a diversidade, mas as condições concretas muitas vezes impedem essa plena realização.

Entre os desafios mais frequentemente citados pelas professoras, destacaram-se a falta de recursos humanos e materiais, a ausência de profissionais de apoio e a escassez de tempo para planejamento. Uma das participantes expressou a dificuldade em trabalhar sem o apoio de outro professor, o que inviabiliza a atenção individualizada necessária para alunos com necessidades específicas. Outra professora mencionou que a inclusão “exige muito estudo, qualificação profissional, tempo de reflexão e, em alguns casos, muitos recursos materiais e estruturais”, condições que, segundo ela, não estão presentes na escola. Esses relatos evidenciam que, embora as professoras compreendam a necessidade de uma aprendizagem personalizada (Valente, 2018), as condições de trabalho limitam severamente sua capacidade de implementá-la.

A questão do número elevado de alunos por turma também emergiu como um obstáculo significativo. A Professora 5, por exemplo, relatou que sua maior dificuldade está relacionada ao “número de alunos por sala”, especialmente ao lidar com crianças com deficiência sem o apoio de um professor auxiliar. Essa sobrecarga dificulta a mediação direta e a atenção individualizada, essenciais para uma aprendizagem que respeite os diferentes ritmos e necessidades de cada aluno. A Professora 6 complementou, mencionando as “cobranças externas que não consideram a realidade das salas de aula, o número de alunos por turma e a falta de apoio pedagógico”, além do “pouco tempo remunerado para (re)planejamento, correção, avaliação”.

Essas dificuldades reforçam a ideia de que a educação inclusiva, para ser efetiva, demanda mais do que uma concepção pedagógica adequada. Ela exige a remoção de barreiras estruturais e a criação de condições de trabalho que permitam aos professores personalizar o ensino e atender à diversidade. A neurociência, ao indicar que o cérebro aprende o que é significativo e relevante (Moran, 2018; Consenza e Guerra, 2011), sublinha a importância de uma abordagem individualizada. Contudo, a ausência de apoio e o grande número de alunos por turma tornam esse acompanhamento próximo e personalizado uma tarefa quase impossível para o professor regente, comprometendo a qualidade da inclusão.

Apesar do cenário desafiador, as professoras também relataram práticas pedagógicas que buscam promover a inclusão. Elas mencionaram o uso de rodas de conversa, o apoio de alunos mais experientes a colegas com dificuldades, e a utilização de recursos midiáticos e múltiplas linguagens. Essas estratégias, que promovem a participação ativa dos estudantes, são facilitadas pela organização da sala de aula em ateliês. Uma das professoras destacou a estratégia de “contar com o apoio de alunos que estão dispostos e apresentam compreensão dos conteúdos para ajudar esses alunos em momentos de trabalhos coletivos, especialmente nos ateliês”, evidenciando a busca por soluções colaborativas dentro das limitações existentes.

Organização do trabalho pedagógico em ateliês

Os ateliês de trabalho, conforme propostos por Celestin Freinet, representam uma forma de organização pedagógica que descentraliza o processo de aprendizagem do professor, promovendo a autonomia dos alunos. Nessa abordagem, as carteiras são agrupadas para diferentes propostas de atividade, e os estudantes escolhem os grupos com base em suas necessidades e interesses (Fechi, 2022). Essa estrutura permite uma maior oferta de atividades simultâneas, atendendo à heterogeneidade da sala de aula e promovendo uma aprendizagem ativa, personalizada e compartilhada, alinhando-se aos princípios das metodologias ativas descritos por Moran (2018).

As professoras participantes identificaram diversas potencialidades do trabalho em ateliês para uma educação inclusiva. Elas destacaram a possibilidade de as crianças trabalharem em propostas diferentes, respeitando seus interesses e ritmos de aprendizagem. A Professora 1, por exemplo, valorizou a “possibilidade de dialogar com os colegas, trocando conhecimento, tirando dúvidas, fortalecendo vínculos, adquirindo autonomia, e o prazer de realizar as atividades podendo fazer a escolha na ordem de seus interesses no trabalho”. Essa percepção corrobora a ideia de que a aprendizagem é mais eficaz quando motivada pelo interesse e conectada ao estágio de desenvolvimento do aluno, conforme apontam os estudos em neurociência (Moran, 2018; Consenza e Guerra, 2011).

A personalização das atividades foi um ponto frequentemente mencionado como uma grande vantagem dos ateliês. A Professora 2 afirmou que “nos ateliês as atividades são mais individualizadas e pensadas em todas as crianças”, enquanto a Professora 3 ressaltou que é um “momento de trabalho individual em que posso oferecer atividades específicas para as necessidades de algum aluno, que precise de algo diferente”. Essa flexibilidade permite que o professor atenda às necessidades específicas de cada estudante, oferecendo um percurso de aprendizagem mais significativo e adaptado, o que é fundamental para a inclusão de todos os alunos, independentemente de suas habilidades ou dificuldades.

Outra potencialidade relevante é a promoção da interação e do diálogo entre os colegas. A organização em ateliês, ao reunir alunos com diferentes necessidades e habilidades em grupos, favorece a aprendizagem compartilhada e por tutoria, onde os estudantes mais experientes podem auxiliar os que apresentam maior dificuldade. A Professora 6 destacou que essa organização “favorece as trocas entre as crianças de saberes diversos e por respeitar os interesses delas”. Essa dinâmica é crucial, pois o cérebro aprende conectando-se em rede (Moran, 2018), e a colaboração amplia as oportunidades de aprendizagem, permitindo que todos avancem e se sintam incluídos.

O desenvolvimento da autonomia dos alunos também foi apontado como uma potencialidade significativa dos ateliês. A proposta freinetiana incentiva a escolha da atividade pelos próprios alunos, o que estimula o autoconhecimento de seus interesses e necessidades de aprendizagem. A Professora 6 mencionou que os ateliês “desenvolvem a autonomia e o compromisso com o trabalho significativo”. Esse protagonismo é essencial para uma aprendizagem duradoura e flexível, pois os alunos se engajam mais ativamente quando se sentem responsáveis por seu próprio processo de construção do conhecimento.

Contudo, as professoras também identificaram limites importantes para a efetividade do trabalho em ateliês no contexto da educação inclusiva. A questão da autonomia dos alunos emergiu como um desafio, especialmente com crianças muito novas (como as do primeiro ano do Ensino Fundamental) ou com deficiências e transtornos do desenvolvimento que demandam maior dependência de um adulto. A Professora 4, por exemplo, observou que “o trabalho com ateliê exige um certo nível de autonomia dos estudantes” e que alunos muito dependentes, como uma aluna com Transtorno do Espectro Autista não verbal, podem não conseguir avançar sem apoio constante.

A ausência de um profissional de apoio junto ao professor regente foi um limite recorrente nas respostas. A Professora 3 expressou que, quando o aluno não desenvolve as atividades com autonomia, “é necessário um professor de apoio, que não é sempre que temos”. Essa falta de suporte impede que o professor regente dedique atenção individualizada por tempo suficiente, pois os demais alunos também demandam sua ajuda. Essa dificuldade é agravada pelo elevado número de crianças por turma, o que compromete a qualidade do trabalho em ateliês e a capacidade de atender a todas as necessidades específicas.

Outros limites incluem a necessidade de maior preparação de materiais e da sala de aula para o trabalho em ateliês, bem como as demandas de currículo e conteúdo que “tratoram” o tempo disponível. A Professora 5 destacou que “os limites estão mais relacionados ao número de crianças por turma” e que “o trabalho em ateliê também exige maior preparação dos materiais e da sala de aula”. A Professora 6 complementou que a “quantidade de alunos por turmas que dificulta a mediação mais direta e a falta de apoio pedagógico” são barreiras significativas. Esses apontamentos reforçam que, para que os ateliês atinjam seu potencial inclusivo, é fundamental que as escolas ofereçam condições de trabalho adequadas, incluindo a participação de professores especializados como suporte, conforme sugerido por Ainscow (2020).

A falta de tempo para planejamento coletivo e trocas entre pares também foi mencionada como uma barreira. As professoras reconhecem a importância da interação e do diálogo com seus colegas para construir e superar os desafios da inclusão. No entanto, a realidade escolar muitas vezes não oferece momentos adequados para essa colaboração, o que impede o aprimoramento contínuo das práticas inclusivas. Essa condição é essencial para que os professores possam desenvolver abordagens colaborativas e adaptar a cultura da escola para acolher a diversidade, conforme a visão de Ainscow (2020).

Em síntese, os resultados desta pesquisa indicam que a organização do trabalho pedagógico em ateliês, inspirada nos princípios de Celestin Freinet e alinhada às metodologias ativas e à neurociência, oferece um caminho promissor para a educação inclusiva, ao promover a personalização da aprendizagem, a interação entre pares e o desenvolvimento da autonomia dos alunos. No entanto, a efetividade dessa abordagem é severamente limitada por condições estruturais e institucionais precárias, como o elevado número de alunos por turma, a ausência de profissionais de apoio e a escassez de tempo para planejamento e recursos. Assim, embora as professoras demonstrem uma concepção ampla de inclusão e conhecimento de práticas ativas, a concretização de uma educação verdadeiramente inclusiva depende intrinsecamente de um suporte estrutural e institucional que transcenda a intencionalidade pedagógica individual.

4. Conclusão

Este estudo buscou identificar as potencialidades e limites da organização do trabalho pedagógico em ateliês, conforme propostos por Celestin Freinet, no processo de inclusão escolar, à luz da neurociência e das metodologias ativas. Verificou-se que os ateliês se configuram como uma estratégia pedagógica promissora, capaz de fomentar a personalização da aprendizagem, a interação entre pares e o desenvolvimento da autonomia dos alunos. Essa abordagem alinha-se aos princípios da neurociência, que indicam a eficácia de ambientes de aprendizagem ativos e significativos. Contudo, a pesquisa revelou que a efetividade dessa organização é significativamente impactada por desafios estruturais e institucionais. Identificou-se que o elevado número de alunos por turma, a ausência de profissionais de apoio e a escassez de tempo para planejamento coletivo representam barreiras substanciais à plena implementação de uma educação verdadeiramente inclusiva, mesmo diante da ampla concepção de inclusão e do conhecimento de práticas ativas por parte das professoras.

A principal contribuição deste trabalho reside em evidenciar que, embora as metodologias ativas e a organização em ateliês ofereçam um arcabouço teórico e prático potente para a inclusão, sua concretização depende intrinsecamente de condições de trabalho adequadas e de um suporte institucional robusto. Como limitações do estudo, reconhece-se o número reduzido de participantes e o caráter subjetivo dos dados, obtidos por meio de questionários, o que impede generalizações. No entanto, os achados fornecem pistas valiosas para a compreensão do tema. Sugere-se, para estudos futuros, a realização de observações diretas das práticas em sala de aula e a inclusão de outros atores do contexto escolar, como estudantes e gestores, a fim de aprofundar a análise sobre a dinâmica da inclusão e o papel dos ateliês.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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Atividades profissionais confiáveis no estágio do curso técnico em enfermagem: avaliação do desenvolvimento de competências

A avaliação em estágios do ensino técnico em enfermagem enfrenta desafios na fragmentação de critérios e no acompanhamento do desenvolvimento discente. Objetivou-se descrever e analisar o processo de criação das Atividades Profissionais Confiáveis (EPAs) como ferramenta de gestão educacional no ensino técnico em enfermagem. Realizou-se um estudo de caso qualitativo, de natureza aplicada, em uma instituição privada de São Paulo. A pesquisa utilizou análise documental de registros institucionais, rubricas avaliativas e materiais produzidos durante a construção das EPAs, entre 2023 e 2024, com análise de conteúdo. Os resultados revelaram que o modelo avaliativo prévio apresentava limitações na fragmentação de critérios e na ausência de progressão explícita. A construção das EPAs foi mediada pela coordenação, que geriu divergências docentes e definiu critérios avaliativos. A seleção das atividades priorizou a viabilidade prática e a observabilidade nos estágios. O modelo final organizou a avaliação por níveis de confiança e explicitou a progressão, demandando alinhamento contínuo entre avaliadores e adaptação institucional. Concluiu-se que a criação das EPAs se configurou como um processo de gestão que envolveu mediação pedagógica, definição de critérios e adequação às condições institucionais.

Palavras-chave: Avaliação educacional; Educação em saúde; Estágio em enfermagem; Gestão escolar.

Gestão Escolar

09 de outubro de 2026

Tecnologia na Gestão Escolar: Automação e Qualidade nos Planos de Ensino do SENAI São Paulo

A elaboração de documentos pedagógicos, como Planos de Ensino e instrumentos de avaliação, alinhados à Metodologia SENAI de Educação Profissional (MSEP), demanda rigor técnico e frequentemente resulta em sobrecarga de trabalho para o corpo docente. Diante desse desafio, analisou-se a eficácia do “Assistente da MSEP”, um assistente virtual baseado em Inteligência Artificial Generativa (LLM), desenvolvido para otimizar o planejamento escolar. O objetivo foi avaliar sua eficácia em duas dimensões complementares: a eficiência operacional, mensurada pela redução do tempo de planejamento, e a qualidade pedagógica, validada por meio de ciclos temáticos que analisaram a fidelidade curricular e a usabilidade do sistema. A pesquisa aplicada foi conduzida em duas fases distintas: um diagnóstico quantitativo de eficiência e uma validação qualitativa estruturada em quatro ciclos temáticos, utilizando o Google Classroom. Os resultados da primeira fase indicaram uma redução de até 90% no tempo de elaboração de documentos. Na segunda fase, observou-se que a ferramenta garantiu a padronização metodológica, com 100% de fidelidade, e elevou a qualidade dos critérios de avaliação, embora tenha demandado revisão humana para cálculos de carga horária. Concluiu-se que a integração da Inteligência Artificial na gestão escolar promoveu robusta eficiência operacional e devolveu aos docentes o foco nas estratégias pedagógicas e na mediação humana do conhecimento.

Palavras-chave: Eficiência Educacional; Inteligência Artificial Generativa; Metodologia SENAI de Educação Profissional; Planejamento Pedagógico.

Gestão Escolar

09 de outubro de 2026

Políticas públicas como um elemento motivacional para estudantes: O caso do Programa de Iniciação Científica Jr. OBMEP

Políticas públicas buscam promover ações que garantam direitos e melhorias em serviços essenciais, como a educação. A pesquisa analisou o impacto da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) na trajetória de estudantes premiados, considerando efeitos imediatos no engajamento e resultados de longo prazo em suas formações e carreiras. Para isso, realizou-se uma análise documental qualitativa de 54 depoimentos de egressos do Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC Jr.) que atuaram como tutores em 2025. Os relatos foram coletados por meio de um formulário Google, onde os participantes descreveram suas experiências mais marcantes como alunos do PIC Jr. Os resultados indicaram que o PIC Jr. funcionou como um elemento propulsor da motivação intrínseca, fortalecendo os sentimentos de competência, autonomia e pertencimento dos estudantes. Essa influência direcionou a decisão dos egressos em seguir carreiras na área de exatas. O papel do professor e o suporte da gestão escolar mostraram-se fundamentais para a manutenção do engajamento no ambiente escolar. Concluiu-se que o PIC Jr. consolidou-se como uma política pública eficaz na construção de projetos de vida e no fortalecimento do vínculo com o conhecimento científico.

Palavras-chave: Autodeterminação; Ensino de Matemática; Gestão Escolar; Motivação Intrínseca; Programa de Governo.

Gestão Escolar

08 de outubro de 2026

Educação, território e colapso socioambiental: análise crítica do Plano Municipal de Educação de São José dos Campos (2015-2025)

Diante das demandas impostas pelo colapso socioambiental e pelas especificidades dos territórios rurais, analisou-se a forma como o Plano Municipal de Educação (PME) de São José dos Campos (2015-2025) incorporou ou negligenciou a urgência da educação ambiental no cenário de crise climática. O estudo teve como objetivo analisar como as políticas educacionais do município contemplaram a promoção da educação ambiental crítica nos territórios rurais, à luz de categorias gramscianas que permitiram evidenciar disputas de hegemonia e processos de invisibilização territorial. Realizou-se pesquisa documental, concentrada na análise de conteúdo do PME, fundamentada em referenciais da educação ambiental crítica, da educação do campo e do debate sobre o colapso socioambiental. Os resultados indicaram limites na incorporação das especificidades territoriais e socioambientais no planejamento educacional, evidenciando a predominância de uma abordagem universalizante que tendeu a invisibilizar as realidades do campo. A pesquisa revelou possibilidades de tensionamento e reorientação das políticas públicas a partir de perspectivas críticas e territorializadas.

Palavras-chave: Colapso socioambiental; Educação ambiental; Educação do campo; Políticas educacionais; Territórios rurais.

Gestão Escolar

08 de outubro de 2026

A metodologia CLIL e suas implicações no desenvolvimento das funções executivas no Ensino Bilíngue

A relevância do ensino bilíngue nos anos iniciais do Ensino Fundamental para a formação discente e o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como as funções executivas, motivou este estudo. Analisou-se sequências didáticas elaboradas com a metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL), verificou-se sua estrutura e a relação com as funções executivas trabalhadas nas práticas pedagógicas de um programa bilíngue em língua inglesa. A pesquisa caracterizou-se como qualitativa e de natureza documental. Utilizaram-se como fonte de dados matrizes curriculares e sequências didáticas de uma instituição, com foco nas habilidades de controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Os resultados evidenciaram que as sequências didáticas analisadas apresentaram organização pedagógica alinhada aos princípios do CLIL, integrando conteúdos curriculares e língua adicional. As propostas contemplaram situações didáticas que mobilizaram diferentes funções executivas no planejamento docente. Concluiu-se que a análise das propostas didáticas permitiu compreender como o CLIL pode ser estruturado no planejamento pedagógico para favorecer práticas de ensino intencionalmente voltadas ao trabalho com funções executivas em contextos bilíngues.

Palavras-chave: CLIL; Contexto bilíngue; Funções executivas; Habilidades cognitivas; Propostas didáticas.

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