Gestão Escolar
13 de outubro de 2026
O Papel dos Pais Representantes na Construção de uma Gestão Escolar Compartilhada
O Papel dos Pais Representantes na Construção de uma Gestão Escolar Compartilhada
Maria Alessandra Tinos; Flávia Pierrotti de Castro
DOI: 10.22167/2675-6528-202603241
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A gestão escolar contemporânea enfrenta o desafio de efetivar a democratização da tomada de decisões, especialmente no que se refere à participação da família no ambiente escolar. Analisou-se a participação das famílias no processo democrático de uma escola privada, por meio da análise documental do Projeto X. Adotou-se uma abordagem metodológica qualitativa, que utilizou a análise documental e a aplicação de questionários aos sujeitos envolvidos e identificados no projeto em estudo. A análise dos dados foi realizada pela técnica de análise de conteúdo, examinando os princípios da gestão democrática e a percepção das famílias representantes nesse processo. Os resultados indicaram que o Projeto X apresenta um discurso alinhado aos princípios da gestão democrática e participativa; contudo, evidenciaram-se desafios na efetivação dessa participação. Os pais relataram limitações na influência sobre decisões administrativas e pedagógicas, revelando uma discrepância entre a proposta e a prática. Concluiu-se que, apesar das iniciativas voltadas à democratização, é fundamental ampliar os espaços de escuta e fortalecer os mecanismos de envolvimento da comunidade escolar para consolidar uma gestão verdadeiramente participativa.
Palavras-chave: Famílias; Gestão democrática; Pais representantes.
1. Introdução
A gestão escolar contemporânea enfrenta o desafio de efetivar a democratização da tomada de decisões, especialmente no que se refere à participação da família no ambiente escolar. No Brasil, a gestão democrática é apresentada como um princípio valioso para as escolas (Brasil, 1996). A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 206, estabelece a gestão democrática como elemento fundamental para um ensino de qualidade, aspecto reforçado pelas metas e estratégias propostas no Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2014).
A relação família-escola tem se consolidado no cenário brasileiro, buscando garantir maior participação e descentralização do poder no ambiente escolar. Desde os anos 2000, a “parceria família-escola” tem sido incorporada em normas, incentivos estatais e investimentos privados (Nogueira, 2025). A gestão democrática é entendida como um processo em que diferentes sujeitos – gestores, professores, estudantes, famílias e comunidade – atuam de forma integrada na tomada de decisões e na construção do projeto pedagógico da escola (Libâneo, 2007; Paro, 2010; Lück, 2007). Esse conceito implica a corresponsabilidade entre a escola e a família, buscando a participação ativa da coletividade nas decisões e ações escolares.
Contudo, a efetivação desse princípio em instituições de ensino privadas apresenta particularidades e desafios. Embora amplamente debatida no contexto da educação pública, a temática da gestão democrática ainda carece de estudos mais consistentes em escolas particulares, onde as decisões frequentemente são conduzidas por estruturas mais centralizadas e hierárquicas. Essa realidade pode gerar uma discrepância entre a proposta de gestão participativa e a prática, limitando a influência das famílias em decisões administrativas e pedagógicas e evidenciando a necessidade de ampliar os espaços de escuta e fortalecer mecanismos de envolvimento da comunidade escolar para consolidar uma gestão verdadeiramente participativa.
Nesse cenário, o presente trabalho se justifica pela necessidade de compreender de que maneira a gestão democrática se configura no âmbito das instituições privadas, seus desafios e particularidades. Propõe-se investigar como a noção de gestão democrática compartilhada, que enfatiza a corresponsabilidade entre a escola e a família, se manifesta na prática. O estudo foca na análise de um projeto específico, denominado Projeto X, instituído em uma escola privada na cidade de Porto Alegre-RS, que visa promover a reflexão e o diálogo com as famílias, fortalecendo seu papel na vida acadêmica dos estudantes.
Diante da importância de consolidar uma gestão verdadeiramente participativa e da lacuna de estudos sobre escolas privadas, este estudo teve como objetivo analisar a participação dos pais, um desses atores, as ações promovidas pela escola para articular essa participação, bem como os desafios e as dificuldades apresentadas na participação ativa.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como de natureza qualitativa, buscando compreender as relações entre família e escola. Adotou-se uma abordagem metodológica que integrou a análise documental e a aplicação de questionários, visando explorar o fenômeno da gestão democrática em um contexto específico.
A opção pela abordagem qualitativa justificou-se pela complexidade dos fenômenos educacionais, os quais, conforme destacam Lüdke e André (1986), não podem ser plenamente compreendidos apenas por meio de dados numéricos. Essa abordagem privilegiou a interpretação e a compreensão dos significados que constituem o processo educativo.
O estudo foi desenvolvido em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul. O objeto empírico central foi o Projeto X, uma iniciativa da escola para promover a integração entre família e ambiente escolar.
Para a coleta de dados, utilizaram-se dois instrumentos principais. Primeiramente, realizou-se a análise documental do planejamento estratégico da escola pesquisada, com foco no plano de ação do Projeto X. Em segundo lugar, aplicou-se um questionário aos sujeitos envolvidos no projeto.
A análise documental, conforme Cellard (2008), permitiu uma análise social dos documentos estudados. Bardin (2011) complementa que essa técnica é um processo de análise de conteúdo, possibilitando uma interpretação crítica ao considerar o contexto histórico, autoria e objetivos dos documentos.
O questionário, disponível no Apêndice 1 do trabalho original, foi aplicado de forma anônima aos pais representantes que integravam o Projeto X, sem coleta de informações pessoais. A coleta de dados anônima, segundo Lakatos e Marconi (2003), é indicada em pesquisas qualitativas ou de opinião para preservar a espontaneidade e a sinceridade dos participantes.
A pesquisa foi enviada pela coordenação da escola para o grupo de pais representantes no período de 12 de outubro de 2025 a 31 de dezembro de 2025. Responderam ao questionário 18 pessoas, sendo 17 pais representantes e 1 membro da gestão escolar.
Para garantir os cuidados éticos, a direção da instituição de ensino participante assinou o Termo de Anuência e o Termo de Autorização e Compromisso para Utilização das Informações, além do Termo de Compromisso relativo ao uso dos dados obtidos. Assegurou-se a preservação da identidade da escola e a proteção da privacidade dos participantes, mantendo a confidencialidade das informações coletadas.
A análise dos dados qualitativos foi conduzida com base na técnica de análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2011). O processo seguiu as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, que envolveu inferência e interpretação.
Inicialmente, as respostas foram lidas integralmente e, em seguida, organizadas em categorias analíticas, definidas de forma indutiva a partir da recorrência de temas. Essas categorias foram posteriormente subdivididas em subcategorias, que especificaram aspectos mais particulares de cada dimensão analisada.
Para cada subcategoria, atribuiu-se um código analítico, com o objetivo de sistematizar e facilitar a organização dos dados. A estrutura de categorização adotada foi composta por categoria principal, subcategoria, código analítico e exemplos de trechos das respostas dos participantes, utilizados para ilustrar o conteúdo representativo de cada código.
Como parte da etapa de tratamento dos dados, organizaram-se as informações coletadas para facilitar a compreensão e a representação dos elementos analisados, sem apresentar resultados ou interpretações neste momento.
3. Resultados e Discussão
A análise da participação das famílias no processo democrático de uma escola privada, com foco no Projeto X, revelou um cenário complexo que mescla iniciativas promissoras com desafios persistentes na efetivação da gestão participativa. O Projeto X foi concebido para estabelecer uma “escola para pais”, visando fortalecer as relações entre a instituição de ensino e as famílias, alinhando-se aos princípios da gestão democrática. Anualmente, em cada turma, um ou dois pais representantes são eleitos por consenso, formando um grupo que, em média, conta com 125 participantes, abrangendo desde a educação infantil até o ensino médio. Essa rotatividade e a permanência de alguns representantes por vários anos indicam um mecanismo de escolha consensual, sem interferência direta da gestão ou dos professores, o que, em tese, favorece a autonomia e a representatividade.
Os resultados da pesquisa foram organizados em duas etapas complementares para facilitar a compreensão dos dados. Primeiramente, realizou-se uma análise documental do Projeto X, estruturada em categorias como fundamentação, objetivos, escopo, justificativa, atividades e indicadores. Essa abordagem permitiu compreender a proposta formal do projeto e sua conexão com os princípios da gestão democrática. Em seguida, foram examinados os dados coletados por meio de questionários aplicados aos pais representantes, que abordaram questões objetivas sobre perfil e satisfação, bem como questões dissertativas que revelaram percepções e divergências. Essa metodologia possibilitou um cruzamento entre a proposta institucional e a percepção dos participantes, oferecendo uma leitura analítica e comparativa.
A estrutura do Projeto X, conforme o documento analisado, engloba a justificativa, finalidade, alinhamento estratégico e premissas que o sustentam, com elementos documentais focados na justificativa. Os objetivos do projeto referem-se às metas gerais e específicas que orientam a ação, incluindo o objetivo geral e as intenções pedagógicas e pastorais. As atividades e metodologias descrevem o conjunto de ações planejadas para atingir os objetivos, como ações e etapas, encontros com famílias, estratégias de acompanhamento e metodologias participativas. O público-alvo define para quem o projeto é direcionado, abrangendo famílias dos estudantes, equipe escolar e estudantes, quando aplicável. Os indicadores e a avaliação incluem critérios e métricas para avaliar o desenvolvimento e os resultados, como monitoramento da presencialidade, pesquisa de satisfação e engajamento das famílias participantes.
O objetivo central do Projeto X é implementar uma Escola de Pais para todos os segmentos, oportunizando reflexão sobre temas contemporâneos. O escopo visa possibilitar um espaço de diálogo colaborativo com as famílias, dispor vivências de sentido entre pais e filhos para otimizar o convívio, e promover círculos de debates com profissionais especializados. A justificativa do projeto ressalta que o contexto contemporâneo exige novas formas de educar e orientar, necessitando de momentos de diálogo e formação sobre temas como educação socioemocional, tecnologia, aprendizagem e valores, a fim de diminuir conflitos e fortalecer o papel da família e da escola na vida acadêmica do estudante. Essa análise detalhada dos elementos formais do projeto revela um alinhamento com a busca por uma gestão mais participativa.
Os objetivos do Projeto X, ao propor um espaço para o diálogo colaborativo com as famílias, alinham-se diretamente ao princípio da gestão democrática, que promove a participação da comunidade escolar nos processos decisórios, fortalecendo o diálogo entre escola e família como um pilar da democratização educacional (Brasil, 1996). A ideia de dispor vivências de sentido entre pais e filhos, embora não explicitamente detalhada em ações práticas no documento, conecta-se à perspectiva de Paro (1999, 2000) e LDB (1996), que veem a escola como uma instituição relevante na elaboração de estratégias para uma atuação conjunta de mobilização da comunidade escolar e familiar, contribuindo para a construção de valores e relações sociais significativas.
Adicionalmente, a promoção de círculos de debates com profissionais especializados em temáticas que estimulem o acompanhamento socioeducativo dos filhos é um instrumento direto de participação ativa, conforme a Constituição Federal (1988) e a LDB (1996). Isso estabelece uma relação direta entre escola e família por meio de temas que envolvem reflexão, diálogo e atuação no processo educativo. A análise desses objetivos contribui para a compreensão do conceito de “escola de pais”, que se manifesta não apenas no acompanhamento do rendimento escolar, mas na atuação ativa da família no ambiente escolar, por meio de vivências, diálogos e debates, possibilitando um espaço de escuta e tomada de decisões.
O terceiro objetivo, que visa estimular as famílias no acompanhamento socioeducativo, está em consonância com a finalidade da educação, que busca o “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Brasil, art. 205, 1988). A LDB, em seu artigo 2º, amplia o sentido da educação para abranger os processos formativos que ocorrem na vida familiar, na convivência humana e nas instituições de ensino. As ações descritas no projeto, como o debate e a formação sobre temas atuais, abrem espaço para o diálogo sobre os desafios da educação contemporânea, permitindo que escola e família reflitam juntas sobre as necessidades e demandas, enriquecendo as decisões pedagógicas e a formação integral dos estudantes.
No que tange ao segundo objetivo, a escola deve aproveitar as oportunidades de interação com os pais para compartilhar informações relevantes sobre seus objetivos, recursos e desafios pedagógicos. A participação das famílias no cotidiano escolar fortalece o vínculo entre escola e comunidade, ampliando a corresponsabilidade pelos objetivos educacionais. Paro (1997) enfatiza a importância da participação efetiva dos pais na construção de uma gestão democrática, favorecendo o envolvimento e a corresponsabilidade. A LDB, em seu Artigo 12, reforça essa compreensão, estabelecendo que a escola deve articular-se com as famílias e a comunidade, promovendo integração e informando sobre o desempenho dos alunos e a proposta pedagógica. Contudo, não foram identificadas, nas ações do Projeto X, iniciativas que contemplassem vivências conjuntas entre pais e filhos diretamente no âmbito escolar, o que sugere uma lacuna na efetivação prática desse objetivo.
Após a análise documental, a pesquisa com os pais representantes, realizada por meio de questionário online, revelou dados importantes. A coleta, feita de forma anônima via grupo de WhatsApp, obteve uma baixa taxa de resposta: de uma média de 125 pais participantes, apenas 17 responderam ao questionário, e dos 3 gestores que acompanham o projeto, apenas 1 respondeu. A taxa de resposta de aproximadamente 16% indica uma baixa adesão, o que limita a generalização dos resultados, embora permita análises exploratórias que atendem aos objetivos propostos. A maioria dos respondentes, 94%, eram pais, e 6% eram gestores, evidenciando que a percepção predominante é a dos pais.
A participação dos responsáveis foi observada em todos os segmentos escolares, mas com menor engajamento na educação infantil, que teve apenas 1 respondente. Os maiores índices de participação foram no Ensino Fundamental (Anos Finais) e Ensino Médio, ambos com 6 respondentes, seguidos pelo Ensino Fundamental (Anos Iniciais), com 4 participantes. Esses dados sugerem uma maior adesão dos responsáveis por estudantes em níveis mais avançados de escolarização, o que pode estar relacionado a um maior envolvimento nas etapas finais da educação básica ou a um maior acesso aos instrumentos de pesquisa. A maioria dos respondentes, 13, considerou a participação dos pais representantes como “muito importante”, enquanto 5 a avaliaram como “importante”, indicando uma percepção amplamente positiva da relevância do envolvimento parental.
No que se refere ao reconhecimento do Projeto X como parte efetiva da gestão democrática, a média de satisfação e reconhecimento de que a escola oferece espaço adequado para a participação da família nas decisões foi de 3,89. A distribuição das respostas mostrou que 8 participantes atribuíram Nível 4 de percepção e 5 participantes atribuíram Nível 5, indicando uma avaliação predominantemente positiva. Essa convergência entre o reconhecimento da importância do projeto e a avaliação positiva do espaço de participação reforça a compreensão de que o Projeto X contribui para a ampliação dos espaços de escuta e envolvimento das famílias na vida escolar, elementos centrais para a consolidação de uma gestão democrática que pressupõe a participação ativa da comunidade escolar nos processos decisórios.
Paro (2016) enfatiza que a gestão democrática se concretiza quando a escola cria condições reais para a participação dos diferentes segmentos, superando práticas meramente formais e promovendo a corresponsabilização nas decisões pedagógicas e administrativas. Os dados indicam que o Projeto X contribui para a ampliação desses espaços participativos, embora existam desafios. A baixa participação dos pais da educação infantil, por exemplo, limita uma visão geral e pode ser um indicativo de desafios maiores na adesão às propostas do projeto. Os dados documentais, conforme Cellard (2008), complementam as evidências empíricas, permitindo interpretações coerentes e fundamentadas sobre a contribuição do Projeto X para uma gestão democrática participativa.
Divergências e Desafios na Efetivação da Gestão Participativa
A análise das questões dissertativas revelou percepções divergentes sobre o Projeto X. Quatro pais representantes não perceberam mudanças significativas na relação entre família e escola. As respostas incluíram: “Não observei que as famílias representantes tenham algum papel na gestão escolar” (1 resposta), “não encontrei mudanças substanciais” (1 resposta), “Não há uma mudança significativa e perceptível do projeto” (1 resposta) e “Não apresentou resposta” (1 resposta). Essas percepções que apontam a ausência de mudanças significativas na gestão escolar podem ser analisadas à luz da concepção de Libâneo (2007), que compreende a participação como elemento central para a efetivação da gestão democrática. Os dados sugerem que, embora a participação seja prevista no projeto e reconhecida pela maioria, ela não se concretiza de forma efetiva ou visível no cotidiano escolar para uma parcela dos participantes.
A questão central que investigou se o projeto contribui para o fortalecimento da construção coletiva de decisões na escola e as justificativas apresentadas, revelou três percepções principais. A percepção “Positiva” indicou que o projeto fortalece o diálogo, a escuta e o engajamento, com evidências como “A escola ouve os pais”, “toda opinião é acolhida” e “gera engajamento e proximidade”. A percepção “Parcialmente positiva” apontou que o projeto apresenta potencial, mas com limitações na participação efetiva, com falas como “Pode ser um caminho se houver escuta”, “carece de maior participação” e “deveria, mas carece de maior divulgação e participação dos pais”.
Por outro lado, a percepção “Negativa” revelou que o projeto não impacta decisões ou não promove construção coletiva, com evidências como “As propostas já vêm prontas”, “não alterou decisões” e “não foi devidamente noticiado”. A análise dessas respostas evidencia que, embora a maioria reconheça a contribuição do Projeto X para o diálogo, a escuta e o engajamento, há limitações quanto à sua efetividade como espaço de construção coletiva de decisões. O projeto é percebido mais como um canal de aproximação e troca de experiências do que como uma instância de participação nos processos decisórios. Algumas falas sugerem que as decisões ainda são centralizadas, o que fragiliza a percepção de participação efetiva, revelando uma tensão entre o potencial participativo do projeto e sua concretização na prática escolar.
A participação e a escuta são elementos essenciais na percepção dos pais, indicando uma gestão aberta ao diálogo, conforme a proposta de Libâneo (2007). O projeto contribui para o engajamento e pertencimento, fortalecendo uma cultura escolar onde pais, filhos e gestores refletem sobre o papel da escola e a resolução de conflitos, reconhecendo a escola como uma organização social composta por relações humanas (Libâneo, 2007). Contudo, a existência de espaços de participação não garante, por si só, a gestão democrática, especialmente quando não há partilha efetiva do poder decisório. Paro (2000) argumenta que a participação na escola não se efetiva apenas pela criação de espaços formais, mas pela influência real dos sujeitos nos processos decisórios. Esse aspecto é corroborado pelas percepções negativas, que indicam decisões centralizadas e ausência de participação efetiva dos pais.
Caminhos de melhoria
Na pesquisa, os pais foram convidados a indicar caminhos de melhoria para o projeto, e os resultados apontaram três grandes necessidades para uma gestão escolar mais participativa: ampliar a participação efetiva nas decisões, melhorar os canais de comunicação e devolutiva, e criar estratégias para engajar mais famílias. As sugestões foram categorizadas da seguinte forma: “Participação nas decisões”, que propõe ampliar a participação real das famílias nos processos decisórios; “Comunicação”, que visa melhorar os canais de diálogo e dar devolutivas às famílias; e “Planejamento”, que sugere organizar pautas e encontros de forma mais estruturada. Essas categorias revelam uma preocupação central dos respondentes com a ampliação do envolvimento real da comunidade escolar.
Outras categorias de sugestões incluíram “Formação”, para promover ações formativas que conscientizem as famílias; “Engajamento”, para criar estratégias que aumentem o interesse e o envolvimento; e “Acessibilidade”, para flexibilizar horários e facilitar a participação. Essas indicações permitem inferir a existência de uma lacuna entre a participação formal e a efetiva, pois, embora existam espaços instituídos, eles nem sempre garantem influência nos processos decisórios. A comunicação emerge como elemento estruturante, com a demanda por melhores canais de diálogo e devolutivas, apontando para fragilidades na transparência e na escuta institucional. Fatores organizacionais, como horários e estruturação das reuniões, também interferem no nível de participação, sugerindo que o baixo engajamento não se restringe apenas ao interesse das famílias, mas envolve barreiras institucionais.
A presença da categoria “Formação” nas sugestões revela a necessidade de promover ações que fortaleçam a compreensão das famílias sobre seu papel na gestão escolar. Essa postura propositiva dos participantes evidencia uma abertura ao diálogo e um potencial significativo para o fortalecimento de práticas mais colaborativas entre escola e comunidade. Em síntese, os achados indicam que o Projeto X é eficaz na aproximação entre família e escola, promovendo avanços no diálogo, na escuta ativa e na transparência institucional. Contudo, persiste o paradoxo de que a existência de espaços participativos não assegura, por si só, a efetiva participação nas decisões. Tanto a análise documental quanto a pesquisa com os pais revelam que as estratégias do Projeto X ainda privilegiam a troca informativa em detrimento da construção conjunta, e a atuação dos representantes permanece majoritariamente consultiva, com traços de centralização decisória que limitam o sentimento de corresponsabilidade.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar a participação das famílias no processo democrático de uma escola privada, por meio da avaliação do Projeto X e da percepção dos pais representantes. Verificou-se que o Projeto X foi concebido com um discurso alinhado aos princípios da gestão democrática e participativa, promovendo a criação de espaços para diálogo colaborativo, reflexão sobre temas contemporâneos e debates com profissionais especializados. Os achados indicaram que a iniciativa se mostrou eficaz na aproximação entre família e escola, favorecendo o diálogo, a escuta ativa e a transparência institucional, o que contribui para o fortalecimento de um sentimento de pertencimento e para uma cultura escolar mais integrada. A maioria dos pais representantes reconheceu a importância do projeto e avaliou positivamente o espaço de participação oferecido pela escola.
Contudo, observou-se um paradoxo central: a existência de espaços participativos não assegura, por si só, a efetiva participação nas decisões. Evidenciaram-se desafios na concretização dessa participação, com parte dos pais relatando ausência de influência sobre decisões administrativas e pedagógicas, e uma percepção de que as estratégias do Projeto X ainda privilegiam a troca informativa em detrimento da construção conjunta. A baixa taxa de resposta dos questionários e o menor engajamento na educação infantil constituíram limitações para a generalização dos resultados. Para consolidar uma gestão verdadeiramente participativa, sugere-se a ampliação da participação efetiva das famílias nos processos decisórios, o fortalecimento dos canais de comunicação e devolutiva, a diversificação de estratégias de engajamento e o investimento em ações formativas que conscientizem as famílias sobre seu papel na gestão escolar. Tais medidas são cruciais para transformar a participação em uma prática de corresponsabilidade e partilha de decisões.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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