Artigo

Gestão Escolar

08 de outubro de 2026

A metodologia CLIL e suas implicações no desenvolvimento das funções executivas no Ensino Bilíngue

A Metodologia Clil e Suas Implicações no Desenvolvimento das Funções Executivas no Ensino Bilíngue

Letícia de Souza de Oliveira; Sheila Cristina Da Silva Victorio

DOI: 10.22167/2675-6528-202603131

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A relevância do ensino bilíngue nos anos iniciais do Ensino Fundamental para a formação discente e o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como as funções executivas, motivou este estudo. Analisou-se sequências didáticas elaboradas com a metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL), verificou-se sua estrutura e a relação com as funções executivas trabalhadas nas práticas pedagógicas de um programa bilíngue em língua inglesa. A pesquisa caracterizou-se como qualitativa e de natureza documental. Utilizaram-se como fonte de dados matrizes curriculares e sequências didáticas de uma instituição, com foco nas habilidades de controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Os resultados evidenciaram que as sequências didáticas analisadas apresentaram organização pedagógica alinhada aos princípios do CLIL, integrando conteúdos curriculares e língua adicional. As propostas contemplaram situações didáticas que mobilizaram diferentes funções executivas no planejamento docente. Concluiu-se que a análise das propostas didáticas permitiu compreender como o CLIL pode ser estruturado no planejamento pedagógico para favorecer práticas de ensino intencionalmente voltadas ao trabalho com funções executivas em contextos bilíngues.

Palavras-chave: CLIL; Contexto bilíngue; Funções executivas; Habilidades cognitivas; Propostas didáticas.

1. Introdução

O ensino bilíngue nos anos iniciais do Ensino Fundamental tem ganhado destaque pela sua relevância na formação discente e no desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais aos processos de aprendizagem. Neste contexto, as funções executivas emergem como um conjunto de habilidades cruciais, atuando como pilares para a autorregulação, a organização do pensamento e a eficaz resolução de problemas em cenários educacionais contemporâneos.

As funções executivas são compreendidas como habilidades complexas que permitem planejar, tomar decisões, controlar impulsos, resolver problemas, organizar e adaptar comportamentos diante de situações diversas (Friedman et al., 2017). Elas funcionam como um sistema de gerenciamento cerebral, coordenando pensamentos e ações para o alcance de objetivos. As funções executivas fundamentais incluem o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, que servem de base para o desenvolvimento de habilidades mais complexas, como planejamento e raciocínio (Diamond, 2020).

A discussão sobre os efeitos do bilinguismo na neuroplasticidade e na reorganização cerebral, embora não se concentre especificamente na abordagem CLIL, sugere que metodologias que promovem o uso significativo de uma língua adicional podem criar condições favoráveis ao desenvolvimento linguístico e cognitivo. Isso ocorre especialmente quando associadas a experiências de aprendizagem contextualizadas (Ramacciotti, 2020).

Nesse cenário, a metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL) destaca-se por possibilitar a aprendizagem de conteúdos escolares em uma língua estrangeira, promovendo o desenvolvimento cognitivo e linguístico de forma integrada. Estudos em neurociência cognitiva indicam que atividades que exigem atenção, memória de trabalho, flexibilidade e autocontrole estimulam o fortalecimento das funções executivas (Ferjan Ramírez e Kuhl, 2017).

Além dos benefícios linguísticos, pesquisas em neurociência apontam que experiências de aprendizagem desafiadoras são cruciais para o desenvolvimento das funções executivas. O Centro do Desenvolvimento da Infância na Universidade de Harvard (2011) e Diamond (2016) ressaltam que as habilidades executivas não são inatas, mas se desenvolvem e são potencializadas pelo ambiente, como a família e a escola, desde a primeira infância. No que tange ao bilinguismo, há evidências de vantagens significativas no desenvolvimento das funções executivas em crianças bilíngues, incluindo melhor controle inibitório, flexibilidade cognitiva e memória de trabalho (Takatsu, 2017).

Estudos prévios também estabeleceram um parâmetro entre as funções executivas e as vantagens da metodologia CLIL. A aplicação em sala de aula de atividades diversificadas, desde as mais simples até as mais complexas, como listar, comparar, categorizar, relacionar, resolver problemas e compartilhar experiências pessoais, estimula as funções executivas e facilita a construção de competências essenciais para o século XXI (Musskopf et al., 2024). A aprendizagem, na perspectiva de Piaget (Castro, 2016), é um processo ativo de construção e reconstrução do conhecimento, e a integração entre conteúdo e língua adicional no CLIL proporciona situações que mobilizam o estudante a investigar e construir significados.

A metodologia CLIL é fundamentada em quatro pilares, conhecidos como os 4 C’s: Conteúdo, Comunicação, Cognição e Cultura (Coyle et al., 2010). O conteúdo refere-se ao tema abordado, a comunicação ao uso da língua para atingir objetivos, a cognição aos processos mentais e habilidades de pensamento, e a cultura à percepção globalizada e à conscientização intercultural. Assim, a língua é um meio para explorar outras áreas do conhecimento, permitindo que o aluno aprenda desde uma receita de bolo até o funcionamento do Sistema Solar.

A implementação de sequências didáticas interdisciplinares baseadas na metodologia CLIL em sala de aula com crianças pode potencializar a aprendizagem de conteúdos escolares e o desenvolvimento de habilidades cognitivas. A integração entre conteúdo científico e a aprendizagem da língua adicional promove um ambiente de maior engajamento cognitivo, estimulando a autorregulação, a memória e a flexibilidade de pensamento. Dessa forma, a metodologia CLIL constitui uma estratégia pedagógica potente para o desenvolvimento das funções executivas e a competência bilíngue.

Diante desse contexto, este estudo se justifica pela necessidade de compreender como o planejamento pedagógico pode ser intencionalmente estruturado para favorecer o trabalho com funções executivas em contextos bilíngues. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi demonstrar como o processo de elaboração e planejamento de duas sequências didáticas CLIL são direcionadas ao desenvolvimento das funções executivas de alunos dos segundos e dos terceiros anos do Ensino Fundamental e estabelecer uma relação entre a metodologia CLIL e os seus benefícios para o desenvolvimento cognitivo das crianças.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem qualitativa, caracterizando-se como pesquisa documental. Este método foi selecionado para investigar a estrutura e o planejamento pedagógico de sequências didáticas, elaboradas com base na metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL). O objetivo foi compreender como essas propostas são direcionadas ao desenvolvimento das funções executivas em alunos dos segundos e terceiros anos do Ensino Fundamental, focando em controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva.

A unidade de análise empírica da pesquisa consistiu em duas sequências didáticas específicas. A primeira foi desenvolvida para alunos do segundo ano do Ensino Fundamental, explorando o conteúdo nuclear de “Animais” na área de Ciências da Natureza. A segunda foi elaborada para estudantes do terceiro ano, abordando o conteúdo nuclear “Sistema Solar”, também em Ciências da Natureza. Ambas as sequências foram concebidas para integrar a aprendizagem de conteúdos escolares com o desenvolvimento da língua inglesa, estendendo-se a outras áreas do conhecimento.

O contexto da pesquisa foi uma escola de grande porte da rede privada de ensino, situada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. A instituição atende a aproximadamente dois mil e novecentos alunos. Desde 2023, a escola incorporou em seu currículo um programa bilíngue em língua inglesa, com carga horária semanal de quatro horas dedicadas à língua adicional, proporcionando um cenário relevante para a análise de práticas pedagógicas bilíngues.

Para a coleta de dados, utilizaram-se documentos oficiais da própria instituição de ensino. As fontes primárias incluíram as matrizes curriculares da Educação Básica de 2018 da rede de ensino, que estabelecem as diretrizes para a elaboração das sequências didáticas e os conteúdos nucleares. Adicionalmente, foram analisadas as sequências didáticas completas, propostas pelas educadoras responsáveis pelas turmas de segundo e terceiro anos do Ensino Fundamental, detalhando as atividades e os objetivos pedagógicos.

O período de aplicação das sequências didáticas foi registrado conforme os planejamentos originais. A sequência didática destinada aos alunos do segundo ano foi desenvolvida e aplicada durante o primeiro semestre de 2025, abrangendo os meses de junho e julho. A sequência didática para o terceiro ano foi implementada no segundo semestre do mesmo ano, especificamente nos meses de setembro e outubro. Cada uma dessas sequências foi planejada para ser aplicada em um período médio de oito a dez aulas.

A análise dos dados foi realizada com base em um referencial teórico que integrou duas perspectivas complementares. A primeira fundamentou-se nas dimensões da metodologia CLIL, conforme estabelecido por Coyle, Hood e Marsh (2010). Essas dimensões, conhecidas como os 4 C’s (Conteúdo, Comunicação, Cognição e Cultura), serviram como categorias de análise para verificar a integração entre os conteúdos curriculares e a língua adicional nas propostas didáticas.

A segunda perspectiva teórica empregada na análise concentrou-se nas funções executivas, utilizando os modelos propostos por Miyake et al. (2000) e Diamond (2013). Foram consideradas as três funções executivas fundamentais: memória de trabalho, definida como a capacidade de reter e manipular informações ativamente; controle inibitório, que se refere ao foco atencional e à regulação de impulsos; e flexibilidade cognitiva, relacionada à adaptação de estratégias e perspectivas. Essas categorias permitiram identificar as habilidades cognitivas mobilizadas pelas atividades.

A interpretação dos dados coletados foi fundamentada na triangulação teórica, que consistiu no confronto sistemático entre os elementos da metodologia CLIL (Coyle, Hood e Marsh, 2010) e as dimensões das funções executivas (Miyake et al., 2000; Diamond, 2013). Este processo analítico permitiu identificar os elementos predominantes do CLIL em cada atividade e as funções executivas mobilizadas, bem como os indicadores presentes nas propostas didáticas que apontavam para o estímulo dessas funções.

A organização dos dados para a análise envolveu a descrição textual das atividades propostas em cada sequência didática. Para cada atividade, identificou-se qual elemento do CLIL (Conteúdo, Comunicação, Cognição, Cultura) era predominante e qual função executiva (Memória de Trabalho, Controle Inibitório, Flexibilidade Cognitiva) era mobilizada. Foram registradas as evidências que indicavam o estímulo a essas funções, conforme o planejamento docente.

3. Resultados e Discussão

A análise dos documentos oficiais da instituição de ensino, particularmente as matrizes curriculares da Educação Básica de 2018 da rede, forneceu o alicerce para a compreensão da elaboração das sequências didáticas. Esses referenciais, acessíveis através do Mapa de Aprendizagens da escola, orientam as competências, habilidades e conteúdos nucleares a serem desenvolvidos em cada ano. A estruturação e uniformização das competências gerais por área do conhecimento, alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), foram estabelecidas pelos educadores em 2019, servindo como um guia para o planejamento pedagógico.

No que concerne à Área de Linguagens, o currículo da instituição detalha competências específicas que fundamentam o ensino bilíngue. As competências acadêmicas focam na leitura e produção de textos orais e escritos de diversos gêneros, considerando estrutura, efeitos de sentido e a relação com a língua materna. As competências ético-estéticas promovem a compreensão do uso da língua inglesa por diferentes povos, identificando singularidades culturais e estabelecendo relações entre costumes. As competências políticas abordam regras de convivência, direitos e deveres do cidadão, e questões sociais e políticas que impactam as comunidades. Por fim, as competências tecnológicas envolvem a análise de discursos e o uso de recursos verbais e não verbais na organização textual.

Para o segundo ano do Ensino Fundamental, as habilidades e conteúdos nucleares em Língua Inglesa visam expandir o repertório linguístico dos estudantes na oralidade, com uma progressiva introdução à escrita. O foco recai na socialização e interação entre pares, utilizando um vocabulário limitado e modelos repetitivos em interações com o professor e colegas. Os conteúdos nucleares incluem a localização de animais domésticos e selvagens em língua inglesa, enquanto as habilidades englobam a organização de apresentações coletivas e a participação na troca de informações sobre o universo dos alunos, praticando a escuta e compreensão da língua inglesa.

No terceiro ano, os conteúdos nucleares e as habilidades são ampliados e aprofundados, considerando o desenvolvimento cognitivo da faixa etária. O repertório linguístico se expande tanto na oralidade quanto na escrita, priorizando uma maior autonomia do estudante no processo comunicativo. As habilidades incluem participar de atividades de classe, trocar informações, solicitar esclarecimentos, validar compreensões e opiniões sobre textos em inglês, e aplicar linguagem descritiva e expressiva. Os conteúdos nucleares abrangem léxico recursivo e aprofundado, partilha de compreensões e a prática da escuta e compreensão da língua inglesa, respeitando as possibilidades individuais e do grupo.

A interpretação dos dados foi ancorada na triangulação teórica, confrontando os princípios da metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL), conforme Coyle, Hood e Marsh (2010), com as dimensões das funções executivas (FEs), propostas por Miyake et al. (2000) e Diamond (2013). Esse arcabouço permitiu identificar como as propostas didáticas são estruturadas e de que forma mobilizam o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, consolidando parâmetros sobre a contribuição do CLIL para o desenvolvimento de habilidades cognitivas.

Sequência Didática de 2º ano: Conteúdo Nuclear “Animais”

A primeira sequência didática, destinada ao segundo ano do Ensino Fundamental, teve como conteúdo nuclear o tema “Animais”. Uma das atividades propostas foi a identificação de animais por imagens e nomes em inglês. Esta tarefa articulou os elementos de Conteúdo e Comunicação do CLIL, pois exigiu que o estudante associasse o conhecimento conceitual dos animais ao vocabulário correspondente na língua adicional. A atividade mobilizou a memória de trabalho, fundamental para que o aluno mantivesse a informação linguística ativa enquanto realizava a correspondência entre imagem e palavra, conforme a necessidade de reter e manipular informações (Diamond, 2020).

Outra atividade relevante foi a classificação de animais em vertebrados e invertebrados. Esta proposta destacou a integração entre Conteúdo e Cognição, demandando que os estudantes recordassem e aplicassem critérios científicos de forma consciente para categorizar os animais. O processo envolveu intensamente a memória de trabalho, que é essencial para sustentar mentalmente os conceitos e realizar a categorização adequada, evidenciando a capacidade de reter e manipular informações para a resolução de problemas (Friedman et al., 2017).

O jogo da mímica dos animais representou uma interação dinâmica entre Comunicação e Flexibilidade, promovendo o desenvolvimento do controle inibitório e da flexibilidade cognitiva. Os estudantes precisaram conter o impulso de falar, utilizando apenas gestos para representar diferentes animais, e adaptar suas estratégias de representação. Essa atividade demonstrou a autorregulação e a criatividade, alinhando-se à ideia de que a flexibilidade cognitiva permite a adaptação a novas estratégias ou perspectivas (Diamond, 2013).

A discussão sobre a importância dos animais para os seres humanos articulou os elementos de Conteúdo e Cultura do CLIL, favorecendo a flexibilidade cognitiva dos estudantes. Eles foram estimulados a considerar diferentes pontos de vista e perspectivas culturais, ampliando sua compreensão crítica e social do conteúdo abordado. Essa abordagem contribuiu para o desenvolvimento de uma percepção globalizada e uma conscientização intercultural, conforme os pilares da metodologia CLIL (Coyle et al., 2010).

Por fim, a produção de um cartaz em grupo sobre o habitat dos animais, realizada em língua inglesa, integrou Comunicação e Cognição. A atividade mobilizou tanto o controle inibitório quanto a memória de trabalho, exigindo foco, seleção lexical adequada e a retomada de conhecimentos científicos previamente trabalhados. Além disso, a colaboração entre os estudantes foi incentivada, reforçando a ideia de que atividades desafiadoras estimulam as funções executivas e a construção de competências para o século XXI (Musskopf et al., 2024).

Em síntese, as atividades propostas na sequência didática do segundo ano, fundamentadas na abordagem CLIL, favoreceram simultaneamente o desenvolvimento linguístico, cognitivo e socioemocional dos estudantes. Observou-se que cada atividade articulou, em maior ou menor grau, os quatro pilares do CLIL – Conteúdo, Comunicação, Cognição e Cultura – promovendo aprendizagens significativas em língua inglesa e nos conteúdos curriculares de Ciências da Natureza. Essa integração intencional do planejamento pedagógico é crucial para o desenvolvimento das funções executivas, conforme destacado por Diamond (2016).

Sequência Didática de 3º ano: Conteúdo Nuclear “Sistema Solar”

A segunda sequência didática, elaborada para o terceiro ano, focou no conteúdo nuclear “Sistema Solar”. Uma das atividades consistiu na nomeação dos planetas em inglês com o apoio de flashcards. Esta tarefa articulou os elementos de Conteúdo e Comunicação, promovendo a aprendizagem de conceitos científicos e de vocabulário na língua adicional. A atividade mobilizou a memória de trabalho, pois o estudante precisava memorizar a sequência dos planetas e relacioná-los aos nomes em inglês, mantendo essa informação ativa para a aprendizagem (Diamond, 2020).

A construção do sistema solar em grupos foi uma atividade que integrou Conteúdo e Cognição, exigindo dos estudantes planejamento, organização da tarefa e cooperação. Essa proposta mobilizou tanto o controle inibitório, ao demandar foco, respeito às regras e ao trabalho coletivo, quanto a memória de trabalho, necessária para manter informações sobre as proporções e disposição dos planetas durante a execução. A complexidade da tarefa estimulou a capacidade de planejar e resolver problemas, habilidades essenciais das funções executivas (Friedman et al., 2017).

A leitura de um pequeno texto em língua inglesa sobre o Sol e os planetas envolveu os elementos de Conteúdo e Comunicação, mobilizando principalmente o controle inibitório. Para realizar a atividade com sucesso, o estudante precisava manter o foco, evitar distrações e acompanhar a informação apresentada na língua adicional. Essa prática de atenção sustentada é um componente vital do controle inibitório, que permite a regulação de impulsos e a manutenção do foco atencional (Diamond, 2013).

O debate sobre a possibilidade de morar em outros planetas integrou Conteúdo, Cultura e Comunicação, favorecendo o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva e do controle inibitório. Os estudantes foram incentivados a formular hipóteses, analisar diferentes pontos de vista e respeitar opiniões divergentes, promovendo uma aprendizagem crítica e colaborativa. Essa atividade complexa estimulou a criatividade, a análise de hipóteses e a aceitação de diferentes argumentos do grupo, demonstrando a capacidade de adaptação a novas estratégias e perspectivas (Diamond, 2013).

Por fim, a produção escrita simples em língua inglesa, a partir da estrutura “My favorite planet is…”, articulou Comunicação e Cognição. Esta atividade mobilizou o controle inibitório e a memória de trabalho, exigindo a seleção adequada de estruturas linguísticas, a manutenção do foco na escrita e a retomada do vocabulário previamente trabalhado. A tarefa de produção textual, ao demandar organização e coerência, reforçou a importância das funções executivas no processo de aprendizagem e expressão do conhecimento.

Em ambas as sequências didáticas analisadas, verificou-se uma integração eficaz entre a aprendizagem de conteúdos de Ciências e o uso da língua adicional, atendendo plenamente aos princípios do CLIL (Conteúdo, Comunicação, Cognição e Cultura). As atividades propostas, que incluíram classificação, memorização, produção de informações, escrita, debates e jogos, mobilizaram as diferentes funções executivas – memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva – em contextos reais de sala de aula, promovendo um engajamento cognitivo significativo.

A integração entre o conteúdo científico e a aprendizagem da língua adicional demonstrou ser um ambiente propício para um maior engajamento cognitivo. Nesse cenário, as crianças não apenas assimilaram novos conceitos de Ciências, mas também exercitaram habilidades de autorregulação, memória e flexibilidade de pensamento. As funções executivas são de extrema relevância no processo de ensino-aprendizagem, pois estimulam o controle de impulsos, o foco atencional e o planejamento de ações futuras, conforme enfatizado por Diamond (2013).

A metodologia CLIL, ao integrar conteúdo, linguagem, cognição e cultura, promove uma aprendizagem mais significativa e constitui uma estratégia pedagógica potente para potencializar o desenvolvimento das funções executivas. Conforme Coyle e colaboradores (2010), essa abordagem não só favorece a aquisição de uma língua adicional, mas também aprofunda a compreensão de conteúdos curriculares e o desenvolvimento da competência bilíngue, criando um ambiente de aprendizagem holístico e desafiador.

A análise das sequências didáticas evidenciou que o desenvolvimento das funções executivas não ocorre de forma casual, mas pode ser intencionalmente provocado e estimulado por meio de propostas pedagógicas que exigem dos estudantes tomada de decisão, autorregulação, flexibilidade de pensamento e mobilização ativa de conhecimentos. A intencionalidade pedagógica, portanto, revela-se um elemento central na articulação entre linguagem, conteúdo e cognição, transformando o ensino bilíngue em um espaço potente para o desenvolvimento cognitivo.

A integração entre conteúdos científicos e práticas linguísticas, fundamentadas nos princípios do CLIL, configura-se como um caminho consistente para promover aprendizagens mais significativas. Isso é especialmente verdadeiro quando as propostas desafiam os estudantes a pensar criticamente, interagir e resolver problemas de forma colaborativa. Embora este estudo se limite à análise documental e ao planejamento, ele reforça a ideia de que práticas pedagógicas intencionalmente estruturadas podem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento cognitivo na educação bilíngue.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que as sequências didáticas elaboradas com a metodologia CLIL, ao integrar conteúdo e língua adicional de forma intencional, são eficazes em mobilizar e desenvolver as funções executivas de controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva em alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Essa abordagem pedagógica não apenas facilita a aprendizagem de conteúdos curriculares em um contexto bilíngue, mas também promove o aprimoramento de habilidades cognitivas essenciais para o desenvolvimento integral dos estudantes.

4. Conclusão

Este estudo buscou demonstrar como o processo de elaboração e planejamento de sequências didáticas, fundamentadas na metodologia Content and Language Integrated Learning (CLIL), direciona o desenvolvimento das funções executivas em alunos dos segundos e terceiros anos do Ensino Fundamental, estabelecendo uma relação com os benefícios do CLIL para o desenvolvimento cognitivo. Verificou-se que as sequências didáticas analisadas apresentaram uma organização pedagógica alinhada aos princípios do CLIL, integrando conteúdos curriculares de Ciências da Natureza e a língua inglesa. As atividades propostas, como a classificação de animais e a construção do sistema solar, mobilizaram de forma eficaz o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, promovendo um engajamento cognitivo significativo. Observou-se que a intencionalidade pedagógica na estruturação dessas propostas é crucial para o desenvolvimento dessas habilidades, consolidando o CLIL como uma estratégia potente para aprimorar as funções executivas e a competência bilíngue.

A principal contribuição deste trabalho reside na elucidação de como o planejamento pedagógico pode ser intencionalmente estruturado para favorecer o trabalho com funções executivas em contextos bilíngues, indo além da mera aquisição linguística. Contudo, é importante reconhecer que os resultados aqui discutidos se limitaram ao campo do planejamento e da análise documental. Essa limitação aponta para a necessidade de futuras investigações que considerem a prática em sala de aula e os efeitos concretos dessas propostas no desenvolvimento dos estudantes. Ainda assim, o estudo reforça a ideia de que práticas pedagógicas intencionalmente concebidas contribuem significativamente para o desenvolvimento cognitivo na educação bilíngue, estimulando a autorregulação, a tomada de decisão e a flexibilidade de pensamento.

Referências Bibliográficas

Castro, Michele G. Bredel de. 2016. O processo ensino-aprendizagem na visão da perspectiva piagetiana. Mnemosine, (12): 233-240 . Rio de Janeiro, Brasil.

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Diamond, A. 2013. Executive functions. Annual Review of Psychology 64 (138): 135–168.

Ferjan Ramírez, N.; Kuhl, P. K. 2017. The Brain Science of Bilingualism. Young Children, 72, 38-44. University of Washington, Seattle, The USA.

Friedman, N. P.; Miyake, A. 2017. Unity and diversity of executive functions: individual differences as a window on cognitive structure. Cortex, 86 (189): 186–204.

Miyake et al., 2000 [Referência completa não encontrada no documento original]

Musskopf, Â.; Barbosa, D.; Cardoso, C.; Salem, A. 2024. Funções executivas, ensino de inglês como segunda língua e a BNCC: (como) eles se interconectam? SciELO Preprints (14): 1-20.

Ramacciotti, M. 2020. Bilinguismo como recurso de neuroplasticidade: uma hipótese a ser considerada. Revista da ABRALIN, (19): 1–6.

Shonkoff J.P.; Duncan, G. J; Fisher, P. A.; Magnuson, K.; Raver, C.C; Yoshikawa, H. 2011. Construindo o sistema de “controle de tráfego aéreo” do cérebro: como as experiências precoces moldam o desenvolvimento da função executiva. Centro sobre a Criança em Desenvolvimento da Universidade Harvard. Documento de Trabalho 11 (1): 1-20.

Takatsu, Mayra Mika. Executive functions and bilingualism: comparative study with monolingual and bilingual preschool children. 2017. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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08 de outubro de 2026

Educação, território e colapso socioambiental: análise crítica do Plano Municipal de Educação de São José dos Campos (2015-2025)

Diante das demandas impostas pelo colapso socioambiental e pelas especificidades dos territórios rurais, analisou-se a forma como o Plano Municipal de Educação (PME) de São José dos Campos (2015-2025) incorporou ou negligenciou a urgência da educação ambiental no cenário de crise climática. O estudo teve como objetivo analisar como as políticas educacionais do município contemplaram a promoção da educação ambiental crítica nos territórios rurais, à luz de categorias gramscianas que permitiram evidenciar disputas de hegemonia e processos de invisibilização territorial. Realizou-se pesquisa documental, concentrada na análise de conteúdo do PME, fundamentada em referenciais da educação ambiental crítica, da educação do campo e do debate sobre o colapso socioambiental. Os resultados indicaram limites na incorporação das especificidades territoriais e socioambientais no planejamento educacional, evidenciando a predominância de uma abordagem universalizante que tendeu a invisibilizar as realidades do campo. A pesquisa revelou possibilidades de tensionamento e reorientação das políticas públicas a partir de perspectivas críticas e territorializadas.

Palavras-chave: Colapso socioambiental; Educação ambiental; Educação do campo; Políticas educacionais; Territórios rurais.

Gestão Escolar

08 de outubro de 2026

Percepções de professores sobre o princípio da gestão democrática na escola

A gestão democrática constitui um princípio estruturante da educação brasileira, com previsão normativa e dependência da participação ativa da comunidade escolar. O estudo analisou a percepção de professores em exercício sobre a gestão democrática em suas realidades, buscando contribuir para a reflexão crítica do tema. Adotou-se uma abordagem qualitativa e descritiva, por meio de pesquisa de levantamento. A coleta de dados ocorreu com 48 professores, predominantemente da rede pública, utilizando um questionário eletrônico com questões fechadas e abertas, aplicado de forma voluntária e anônima. Os dados foram tratados por análise estatística descritiva e análise de conteúdo. Os resultados revelaram que os participantes reconheceram e valorizaram a gestão democrática em suas práticas e contextos escolares, identificando estruturas participativas. No entanto, a efetivação do princípio mostrou-se parcial, limitada por condições estruturais, como a precarização do trabalho e a falta de tempo para diálogo. Observou-se uma compreensão parcial do papel docente na construção da gestão democrática, com professores se percebendo mais como sujeitos a serem ouvidos do que como agentes corresponsáveis. Concluiu-se que, apesar de amplamente valorizada, a gestão democrática se materializa de forma incompleta no cotidiano escolar, evidenciando uma tensão entre sua previsão normativa, sua desejabilidade discursiva e sua concretização prática.

Palavras-chave: administração escolar; democracia; docentes; participação.

Gestão Escolar

08 de outubro de 2026

Lei do Novo Ensino Médio: monitoramento e avaliação da qualidade após a reforma

A qualidade do Ensino Médio no Brasil tem sido objeto de debates diante das mudanças iniciadas pela Lei nº 13.415/2017 e reestruturadas pela Lei nº 14.945/2024. Analisou-se a evolução de indicadores associados à qualidade do Ensino Médio entre 2017 e 2024, considerando aprendizagem, fluxo, permanência e equidade, e discutiram-se as implicações dos mecanismos federais de monitoramento para a gestão escolar. Realizou-se estudo exploratório e descritivo, de abordagem quantitativa e natureza documental, com dados secundários do Inep sistematizados pela plataforma QEdu e documentos oficiais do Ministério da Educação. Examinaram-se taxas de aprovação, reprovação e abandono, distorção idade-série, aprendizagem adequada no Saeb e desigualdades por rede de ensino, nível socioeconômico e unidade federativa. Os resultados mostraram melhora do fluxo e redução da distorção idade-série, mas permanência de baixos níveis de aprendizagem e desigualdades expressivas. A análise documental indicou maior estruturação da governança e do monitoramento da política, ainda sem avaliação consolidada de seus efeitos sobre a aprendizagem. Para a gestão escolar, os achados orientaram o acompanhamento da transição para a 1ª série, a identificação de riscos de abandono, a recomposição das aprendizagens e a priorização de grupos mais vulneráveis. Concluiu-se que a qualidade exige a leitura articulada de indicadores e decisões contextualizadas, sem atribuir exclusivamente ao Novo Ensino Médio relações causais que o desenho desta pesquisa não permite estabelecer.

Palavras-chave: Aprendizagem; Equidade educacional; Gestão escolar; Permanência escolar; Política educacional.

Gestão Escolar

08 de outubro de 2026

Ferramentas de Gestão da Qualidade no Contexto de Prática Docente como Gestão Escolar

A proficiência leitora constitui um desafio central na educação básica contemporânea, exigindo da gestão escolar a implementação de estratégias sistemáticas para superar defasagens históricas de aprendizagem. Investigou-se o uso de ferramentas de gestão da qualidade na prática docente, com o propósito de aprimorar o processo de ensino-aprendizagem e subsidiar gestores escolares na melhoria da qualidade do ensino em escolas de educação básica. A pesquisa foi conduzida como um Relato de Experiência, fundamentado nos pressupostos teórico-metodológicos de Mussi, Flores e Almeida (2021), o que permitiu uma reflexão crítica sobre a prática pedagógica. Inicialmente, utilizou-se o Diagrama de Ishikawa para identificar as causas-raiz do baixo desempenho dos estudantes. Em seguida, o Ciclo PDCA guiou o planejamento, a execução, o monitoramento e o ajuste das ações pedagógicas, focando no desenvolvimento da habilidade de estabelecer relações lógico-discursivas. Os resultados, aferidos na terceira aplicação da avaliação da aprendizagem, revelaram a progressão de 50% da turma para o Nível 3 de proficiência, superando a concentração anterior de alunos no Nível 2. Constatou-se que a corresponsabilidade na gestão, a ressignificação das práticas avaliativas e o suporte institucional ao docente foram decisivos para a melhoria do desempenho. Concluiu-se que a sistematização de processos gerenciais fortaleceu a autonomia docente e converteu diagnósticos em resultados educacionais concretos, consolidando uma abordagem baseada em evidências.

Palavras-chave: Gestão da Sala de Aula; Língua Portuguesa; Relato de Experiência.

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