Compliance E Esg
02 de outubro de 2026
Mudanças climáticas e a formação de profissionais de ESG: um estudo exploratório em empresas privadas do setor de impacto socioambiental no Brasil
Mudanças Climáticas e a Formação de Profissionais de Esg: um Estudo Exploratório em Empresas Privadas do Setor de Impacto Socioambiental no Brasil
Elizabeth S. de Oliveira; Márcia C. Rossi
DOI: 10.22167/2675-6528-202602867
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
As mudanças climáticas intensificaram a demanda por capacitação profissional e organizacional em ESG no contexto empresarial brasileiro. O estudo analisou a percepção de profissionais de ESG sobre seu nível de preparo frente às mudanças climáticas e investigou as estratégias de capacitação relatadas por profissionais de empresas privadas com diferentes graus de atuação ou interface socioambiental. A pesquisa adotou abordagem descritivo-exploratória, combinando métodos quantitativos e qualitativos, por meio de questionário estruturado aplicado entre 16 de janeiro e 4 de fevereiro de 2026, que totalizou 52 respostas válidas. Os resultados sugeriram níveis predominantemente intermediários de preparo autodeclarado, com diferenças entre as dimensões avaliadas e a familiaridade com referenciais técnicos e a percepção de preparo para sua aplicação prática. Predominaram iniciativas de capacitação informais ou pontuais, e as respostas abertas destacaram competências técnicas, analíticas, regulatórias, organizacionais e comportamentais como relevantes. Os achados indicaram que o fortalecimento da atuação profissional na agenda climática envolve tanto o desenvolvimento de competências individuais quanto condições organizacionais relacionadas à capacitação, à governança e à integração do tema aos processos decisórios.
Palavras-chave: Capacitação profissional; Competências profissionais; Estratégia organizacional; Gestão de riscos climáticos; Governança climática.
1. Introdução
As mudanças climáticas consolidaram-se como um dos principais vetores de transformação das dinâmicas econômicas, institucionais e organizacionais em escala global. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (2023) evidencia a intensificação de eventos extremos e seus impactos sobre setores estratégicos, como agricultura, energia, infraestrutura e saúde, reforçando a centralidade da agenda climática nos processos decisórios contemporâneos. Nesse contexto, a incorporação do tema deixa de ser apenas uma exigência ambiental e passa a assumir caráter estratégico, regulatório e reputacional para organizações públicas e privadas.
No âmbito corporativo, a agenda climática tem sido progressivamente integrada às práticas de ESG, com destaque para a ampliação de mecanismos de gestão de riscos, reporte e governança. No entanto, essa incorporação ocorre de forma desigual entre organizações e áreas de atuação, refletindo diferentes níveis de maturidade institucional e capacidade técnica. Estudos indicam que, enquanto aspectos relacionados à mensuração e ao reporte tendem a apresentar maior consolidação, dimensões associadas à integração estratégica e aos impactos sociais das mudanças climáticas permanecem menos desenvolvidas (Eccles & Klimenko, 2019; Bansal & Song, 2017).
No Brasil, a realização da COP30, em Belém, reforçou o papel do país no cenário climático internacional e evidenciou avanços institucionais. Ao mesmo tempo, expôs desafios estruturais persistentes, como desigualdades socioeconômicas, assimetrias regionais e limitações na implementação de políticas ambientais. Instrumentos como o Plano Clima e iniciativas setoriais, como o Plano ABC, sinalizam esforços relevantes de mitigação e adaptação, mas sua efetividade depende da capacidade das organizações de internalizar a agenda climática de forma consistente em seus processos decisórios e operacionais.
Paralelamente, o avanço de normas internacionais, como a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) e os padrões do International Sustainability Standards Board (ISSB), tem ampliado as exigências sobre empresas brasileiras, demandando alinhamento a referenciais globais. Esse processo envolve adequação formal e requer capacidade técnica para interpretar, operacionalizar e integrar tais diretrizes aos contextos organizacionais. Nesse cenário, os profissionais que atuam nas áreas de ESG, sustentabilidade, compliance e governança assumem papel central na tradução dessas exigências em práticas efetivas.
Apesar desse avanço regulatório e institucional, a literatura aponta a persistência de lacunas na formação desses profissionais, especialmente no que se refere à integração entre competências técnicas, visão sistêmica e compreensão das dimensões sociais das mudanças climáticas (Kwauk & Casey, 2022). No contexto brasileiro, essas lacunas tendem a ser ampliadas por limitações estruturais na formação profissional e pela baixa institucionalização de estratégias organizacionais de capacitação. A capacidade das organizações de responder a pressões ambientais depende diretamente da qualificação de seus quadros técnicos (Marcovitch, 2010).
Nesse sentido, observa-se uma tensão relevante: ao mesmo tempo em que cresce a complexidade das exigências climáticas, persistem indícios de que a capacitação profissional não acompanha, na mesma intensidade, essa transformação. Essa dissociação levanta questionamentos sobre a efetividade das estratégias corporativas de ESG e sobre a capacidade das organizações de operacionalizar a transição climática de forma consistente. Compreende-se a internalização da agenda climática como a incorporação sistemática de riscos, oportunidades e diretrizes climáticas aos processos decisórios, às estruturas de governança e às rotinas organizacionais.
Neste estudo, a expressão “impacto socioambiental” não é empregada como referência a um setor econômico específico, uma vez que as atividades empresariais podem produzir impactos socioambientais em diferentes graus. A delimitação adotada considera, sobretudo, a forma como a pauta socioambiental se relaciona com a atuação das organizações, abrangendo desde empresas em que essa dimensão integra intencionalmente o modelo de negócio até organizações de outros setores que incorporam práticas socioambientais ou mantêm interface com essas temáticas. A amostra contempla, portanto, diferentes graus de vinculação e institucionalização da pauta socioambiental no contexto empresarial.
Diante desse cenário, o presente estudo busca produzir evidências empíricas a partir das percepções e experiências relatadas pelos respondentes, contribuindo para o aprimoramento das estratégias de capacitação corporativa e para o fortalecimento da formação profissional no contexto da transição climática. O objetivo é analisar a percepção de profissionais de ESG sobre seu nível de preparo frente às mudanças climáticas, buscando identificar assimetrias percebidas entre competências, lacunas formativas e suas possíveis implicações organizacionais, bem como compreender como esses profissionais percebem as estratégias de capacitação adotadas por empresas privadas com diferentes graus de atuação ou interface socioambiental no Brasil.
2. Material e Métodos
O presente estudo foi caracterizado como uma pesquisa aplicada, de natureza descritivo-exploratória, que adotou uma abordagem metodológica mista. Essa combinação de métodos quantitativos e qualitativos foi empregada para analisar as percepções e experiências relatadas pelos respondentes acerca da capacitação profissional e das práticas organizacionais relacionadas a ESG e mudanças climáticas. A abordagem mista permitiu integrar diferentes formas de evidência (Bryman, 2006; Creswell & Creswell, 2018; O’Cathain, Murphy & Nicholl, 2010).
A população investigada consistiu em profissionais atuantes nas áreas de ESG, sustentabilidade, compliance, governança e gestão de riscos, vinculados a empresas privadas no Brasil. O critério de inclusão foi a atuação em empresas privadas com diferentes graus de atuação ou interface com a pauta socioambiental. A amostra foi não probabilística, selecionada por conveniência, abrangendo respondentes acessíveis por meio de redes profissionais e contatos institucionais. As informações coletadas foram de natureza autodeclarada, interpretadas como percepções dos participantes.
A coleta de dados ocorreu entre 16 de janeiro e 4 de fevereiro de 2026, por meio de um questionário estruturado, aplicado on-line via plataforma Google Forms. Foram obtidas 53 respostas, das quais uma foi excluída por não atender ao critério de atuação no setor privado, resultando em 52 respostas válidas para análise.
O questionário foi elaborado com base em princípios de clareza, neutralidade e organização lógica, conforme orientações metodológicas para pesquisas survey (Prodanov & Freitas, 2013; Dillman, Smyth & Christian, 2014). Sua construção partiu do objetivo da pesquisa e da operacionalização dos principais conceitos investigados em dimensões analíticas, que incluíram perfil profissional e organizacional, preparo percebido frente às mudanças climáticas, familiaridade com referenciais internacionais, práticas organizacionais de capacitação, desafios percebidos e implicações e competências prioritárias.
Um pré-teste do instrumento foi realizado entre 15 e 16 de janeiro de 2026, com quatro respondentes de perfil semelhante ao público-alvo, para verificar clareza, compreensão e tempo de resposta. O feedback indicou que o instrumento estava adequado, sem necessidade de alterações, e as respostas do pré-teste não foram incluídas na análise final.
Para a análise dos dados, as questões fechadas foram submetidas à estatística descritiva, utilizando frequências absolutas, percentuais e medidas de tendência central. As médias foram empregadas para indicar padrões gerais de percepção entre os respondentes, sem pretensão de inferência estatística (Sampieri, Collado & Lucio, 2013). As análises e visualizações foram realizadas com o apoio de planilhas eletrônicas e da plataforma Google Docs. Realizaram-se cruzamentos entre variáveis selecionadas para identificar possíveis assimetrias na capacitação.
As respostas às questões abertas foram submetidas à análise de conteúdo temática, tomando como referência Bardin (2016). A análise, de caráter indutivo, construiu categorias a posteriori a partir do conteúdo das respostas. Realizou-se leitura flutuante do corpus, identificaram-se unidades de registro e atribuíram-se códigos sintéticos, agrupados em eixos temáticos e consolidados em categorias. A subjetividade inerente ao processo de codificação foi mitigada por critérios uniformes de aderência ao conteúdo original, similaridade semântica e recorrência.
Os resultados quantitativos e qualitativos foram interpretados de forma integrada, buscando identificar convergências, complementaridades e eventuais divergências entre os padrões observados nas questões fechadas e as percepções expressas nas questões abertas. Essa integração teve finalidade interpretativa, permitindo utilizar os dados qualitativos para contextualizar e aprofundar tendências identificadas na análise descritiva (Bryman, 2006; O’Cathain, Murphy & Nicholl, 2010).
A pesquisa observou princípios éticos de anonimato e confidencialidade. O tratamento dos dados seguiu as diretrizes da legislação de proteção de dados pessoais, garantindo uso exclusivo para fins acadêmicos e privacidade dos respondentes. A avaliação ética do estudo foi realizada via Formulário de Diagnóstico Ético (FDE), sem necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, considerando o caráter não identificável e de baixo risco dos dados coletados.
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados coletados permitiu uma compreensão aprofundada da percepção de profissionais de ESG no Brasil sobre seu preparo frente às mudanças climáticas e as estratégias de capacitação organizacional. Os resultados iniciais caracterizaram o perfil dos respondentes, revelando uma amostra predominantemente composta por indivíduos com atuação direta ou interface relevante com o setor de impacto socioambiental. Essa composição da amostra é crucial, pois permite que as interpretações sobre capacitação climática sejam feitas a partir da perspectiva de um grupo já engajado e familiarizado com as temáticas socioambientais e de ESG, evidenciando que as lacunas identificadas não decorrem da ausência de conhecimento básico, mas sim de desafios relacionados à profundidade e à integração das competências necessárias nos processos organizacionais.
A distribuição dos respondentes por campo de atuação indicou que 18 profissionais atuam diretamente no setor socioambiental, 14 possuem atuação indireta com incorporação de práticas socioambientais, e 20 atuam em outros setores, mas com interface relevante com temas socioambientais. Essa diversidade na atuação, com a maioria dos 52 respondentes tendo alguma proximidade com a pauta socioambiental, reforça a relevância dos achados para o contexto de internalização da agenda climática nas organizações. O perfil sugere que os participantes já possuem uma base de conhecimento, o que direciona a discussão para a qualidade e a aplicabilidade das competências, em vez de sua mera existência.
Em relação ao tempo de experiência profissional, a amostra apresentou uma distribuição heterogênea, com 4 respondentes com menos de 1 ano de experiência, 19 com 1 a 3 anos, 12 com 4 a 6 anos e 17 com mais de 6 anos. Essa variedade de experiência profissional é um ponto importante, pois permite investigar como o nível de preparo percebido pode variar em diferentes estágios da carreira, oferecendo insights sobre a evolução das competências ao longo do tempo. A análise posterior revelou que a experiência não se traduz linearmente em maior preparo, indicando a influência de outros fatores.
Quanto ao porte das empresas em que os profissionais atuam, verificou-se uma predominância de organizações de grande porte, com 26 respondentes. As microempresas e pequenas empresas contaram com 9 respondentes cada, e as médias empresas com 8. A presença de empresas de diferentes portes na amostra é fundamental para observar possíveis variações nas estratégias de capacitação e na percepção de preparo, considerando que organizações de maior porte tendem a ter mais recursos e estruturas formalizadas para lidar com a agenda ESG e climática, embora os resultados apontem para nuances nessa relação.
A avaliação do nível de preparo dos profissionais em mudanças climáticas revelou que todas as dimensões avaliadas apresentaram médias superiores a 3 em uma escala de 5 pontos, sugerindo uma percepção geral de preparo ao menos adequada. A dimensão de “Identificação e avaliação de riscos climáticos” obteve a média mais alta (3,81), seguida por “Adoção de estratégias de mitigação e adaptação climática” (3,73) e “Uso de métricas e indicadores climáticos na tomada de decisão” (3,63). Esses resultados indicam que os profissionais se sentem mais preparados para aspectos técnicos e operacionais da agenda climática.
No entanto, as dimensões relacionadas à “Integração das mudanças climáticas à governança corporativa” (3,58) e, especialmente, à “Consideração de aspectos de justiça climática” (3,33) apresentaram médias relativamente inferiores. Essa assimetria sugere uma distribuição desigual das competências, com maior consolidação em dimensões técnicas e operacionais, e menor desenvolvimento em aspectos mais estratégicos e sociais da agenda climática. Tal padrão é consistente com a literatura que aponta para a maior consolidação de aspectos de mensuração e reporte em detrimento da integração estratégica e dos impactos sociais (Eccles & Klimenko, 2019).
A familiaridade declarada com normas e padrões internacionais também apresentou variações significativas. O GHG Protocol demonstrou a maior familiaridade, com 39,6% dos respondentes nos níveis intermediário e avançado. Em contraste, a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) registrou a menor familiaridade, com 52,8% dos respondentes declarando não ter familiaridade alguma e nenhum no nível avançado. Os referenciais TCFD e ISSB concentraram-se predominantemente nos níveis básico e nenhum, com 43,4% e 37,7% de respondentes sem familiaridade, respectivamente. Esses dados indicam que a internalização de referenciais internacionais ocorre de forma desigual, com o GHG Protocol sendo o mais conhecido, possivelmente devido à sua aplicação mais direta em inventários de emissões.
Quando se analisou a percepção de preparo para a aplicação prática desses referenciais, observou-se uma concentração predominante nos níveis “moderadamente preparado(a)” (17 respondentes) e “pouco preparado(a)” (16 respondentes). Apenas 9 respondentes se declararam “bem preparado(a)” ou “muito preparado(a)”. Esse padrão sugere que a familiaridade conceitual com as normas e frameworks não se traduz, necessariamente, em domínio suficiente para sua aplicação prática. Há uma tensão evidente entre o conhecimento teórico e a capacidade operacional de implementação, reforçando a existência de lacunas entre o saber técnico e a prática no contexto organizacional.
As estratégias organizacionais de capacitação em ESG e mudanças climáticas foram predominantemente informais ou pontuais, conforme relatado por 22 respondentes. Capacitações formalizadas, porém esporádicas, foram indicadas por 14 profissionais, enquanto apenas 8 relataram iniciativas formalizadas e contínuas. Outros 8 respondentes afirmaram a inexistência de capacitações estruturadas em suas organizações. Esses achados sugerem um baixo grau de formalização e continuidade nas ações de capacitação, o que pode impactar a profundidade e a abrangência do desenvolvimento de competências climáticas no ambiente corporativo.
Em termos de frequência, 19 respondentes relataram capacitações periódicas (1 a 2 vezes por ano), enquanto 16 indicaram ocorrência eventual (menos de uma vez por ano). Doze profissionais afirmaram a ausência de capacitações, e apenas 5 reportaram frequência superior a duas vezes por ano. Esses dados reforçam a percepção de que, mesmo quando presentes, as ações de capacitação tendem a ser episódicas, com limitada recorrência e institucionalização. A falta de continuidade pode dificultar a construção de um corpo de conhecimento robusto e atualizado, essencial para lidar com a complexidade da agenda climática.
O cruzamento dos dados por porte organizacional indicou que empresas de grande porte concentram o maior número de iniciativas formalizadas. Contudo, mesmo nessas organizações, as práticas de capacitação foram majoritariamente classificadas como esporádicas. Esse resultado sugere que o maior porte organizacional não implica, necessariamente, uma institucionalização plena das estratégias de capacitação. A formalização pode existir, mas a continuidade e a integração dessas ações aos processos organizacionais ainda representam um desafio, o que corrobora a coexistência de um preparo moderado com estruturas de desenvolvimento profissional pouco formalizadas.
Os principais desafios identificados para o fortalecimento da capacitação em mudanças climáticas concentraram-se na baixa priorização do tema pela alta liderança (31 respondentes), limitações de dados e recursos (21 respondentes), e ausência de capacitações (16 respondentes). Restrições de tempo (16 respondentes) e complexidade normativa (15 respondentes) também foram citadas. Esses desafios apontam para barreiras tanto internas, relacionadas à cultura e governança organizacional, quanto externas, ligadas à complexidade regulatória e à disponibilidade de informações e ferramentas, dificultando a plena internalização da agenda climática.
A análise de conteúdo das respostas abertas sobre os impactos organizacionais da insuficiência de capacitação climática revelou que a fragilidade na tomada de decisão e no planejamento estratégico foi a categoria mais recorrente, mencionada por 25 respondentes (49,0%). Isso indica uma preocupação central com a capacidade de incorporar a variável climática aos processos decisórios. As perdas econômicas, competitivas e reputacionais foram citadas por 22 respondentes (43,1%), evidenciando que a capacitação climática é percebida como um fator crítico para o desempenho e o posicionamento das organizações no mercado.
A gestão de riscos climáticos insuficiente e a governança e priorização institucional fragilizadas foram mencionadas por 16 respondentes cada (31,4%), sugerindo a necessidade de maior integração da temática climática aos processos de gestão e às instâncias decisórias. O comprometimento do reporte, das métricas e da conformidade foi apontado por 14 respondentes (27,5%), aproximando-se dos resultados das questões fechadas sobre dificuldades na aplicação de referenciais. Esses achados em conjunto reforçam a percepção de que a insuficiência de capacitação climática tem efeitos multifacetados, afetando desde a estratégia até a conformidade e a reputação.
As competências e formações consideradas prioritárias para fortalecer a atuação profissional frente às mudanças climáticas foram agrupadas em seis eixos temáticos. As competências técnicas em clima, emissões e descarbonização foram as mais recorrentes, citadas por 26 respondentes (54,2%), abrangendo fundamentos climáticos, riscos, inventários de GEE, mitigação e adaptação. Esse dado sublinha a importância do conhecimento técnico específico como base para a atuação na área, em consonância com a crescente demanda por especialistas em temas como descarbonização e reporte de emissões.
As competências analíticas e de mensuração foram mencionadas por 20 respondentes (41,7%), destacando a necessidade de análise de dados, indicadores, métricas e avaliação de impactos. As competências regulatórias e o domínio de normas e frameworks, incluindo legislação e padrões de reporte, foram apontadas por 18 respondentes (37,5%). No mesmo percentual, as competências organizacionais, de governança e gestão, que envolvem planejamento, articulação entre áreas e integração da pauta climática, também foram consideradas prioritárias, reforçando a visão de que a agenda climática exige uma abordagem sistêmica e integrada.
As competências comportamentais, de comunicação e pensamento crítico, que incluem articulação, proatividade e capacidade de tradução do conhecimento técnico, foram citadas por 16 respondentes (33,3%). Por fim, as competências em gestão de riscos e integração econômico-financeira, abrangendo avaliação de riscos, impactos financeiros e incorporação da variável climática ao negócio, foram mencionadas por 13 respondentes (27,1%). Esses resultados, em conjunto, sugerem que o fortalecimento da atuação profissional demanda uma formação multidimensional, que combine conhecimentos técnicos, analíticos e regulatórios com habilidades de gestão, comunicação e articulação organizacional, conforme apontado por Venn et al. (2022) e Chang e Lu (2025).
A análise de cruzamentos entre tempo de experiência profissional e preparo percebido para aplicação de referenciais revelou que maior tempo de experiência não está necessariamente associado a níveis mais elevados de preparo autodeclarado. Entre os profissionais com mais de seis anos de experiência, 52,9% concentraram-se na categoria de baixo preparo percebido, enquanto 29,4% se classificaram em alto preparo. De forma semelhante, entre os respondentes com quatro a seis anos de experiência, 50,0% encontravam-se na categoria de baixo preparo. Esses resultados evidenciam uma heterogeneidade na percepção de preparo entre as diferentes faixas de experiência profissional, sugerindo que a experiência por si só não garante a atualização ou a profundidade necessária para a aplicação prática dos referenciais climáticos.
Em síntese, os achados da pesquisa indicam que os profissionais de ESG no Brasil percebem um preparo intermediário frente às mudanças climáticas, com maior domínio em aspectos técnicos e operacionais, mas lacunas em dimensões estratégicas e sociais, bem como na aplicação prática de referenciais internacionais. As estratégias de capacitação organizacional são predominantemente informais e esporádicas, e os principais desafios incluem a baixa priorização pela liderança e limitações de recursos. As competências prioritárias são multidimensionais, abrangendo conhecimentos técnicos, analíticos, regulatórios, organizacionais e comportamentais, o que reforça a necessidade de estratégias formativas mais contínuas e integradas para fortalecer a atuação profissional e a internalização da agenda climática nas organizações.
4. Conclusão
O presente estudo analisou a percepção de profissionais de ESG sobre seu nível de preparo frente às mudanças climáticas e buscou compreender as estratégias de capacitação adotadas por empresas privadas com diferentes graus de atuação ou interface socioambiental no Brasil. Observou-se que os profissionais percebem um preparo predominantemente intermediário, com maior domínio em aspectos técnicos e operacionais, como a identificação e avaliação de riscos climáticos e a adoção de estratégias de mitigação e adaptação. Contudo, verificaram-se assimetrias em dimensões mais estratégicas e sociais, como a integração da agenda climática à governança corporativa e a consideração de aspectos de justiça climática. A familiaridade com referenciais internacionais, como o GHG Protocol, era mais consolidada, enquanto outros, como a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), apresentavam menor conhecimento. Notou-se uma lacuna entre a familiaridade conceitual e a capacidade percebida para a aplicação prática dessas normas. As estratégias de capacitação organizacional, por sua vez, mostraram-se majoritariamente informais ou pontuais, com baixo grau de formalização e continuidade, mesmo em empresas de grande porte. Os principais desafios para o fortalecimento da capacitação incluíam a baixa priorização pela alta liderança e limitações de recursos.
A principal contribuição deste estudo reside na produção de evidências empíricas que destacam a necessidade de uma abordagem multidimensional para o fortalecimento da atuação profissional na agenda climática. Os achados indicaram que o desenvolvimento de competências técnicas, analíticas, regulatórias, organizacionais e comportamentais é crucial, sugerindo que a capacitação deve ir além do conhecimento técnico para abranger habilidades de gestão, comunicação e articulação organizacional. Essa perspectiva reforça a importância de estratégias formativas contínuas e contextualizadas, capazes de integrar o conhecimento técnico à gestão de riscos, governança e processos decisórios. Entre as limitações da pesquisa, destaca-se a amostragem não probabilística por conveniência, que restringe a generalização dos resultados, e a natureza autodeclarada das informações, que representam percepções e não mensurações objetivas de competências. Para estudos futuros, sugere-se ampliar e diversificar a amostra, combinar medidas autodeclaradas com outras formas de avaliação de competências e investigar as diferenças entre setores, níveis hierárquicos e graus de institucionalização da agenda climática.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq
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