Compliance E Esg
08 de outubro de 2026
Governança Cooperativa e ESG como Pilares para a Sustentabilidade do Negócio
Governança Cooperativa e Esg como Pilares para a Sustentabilidade do Negócio
Juliana Lacerda Rangel Sossai; Eliza Remédio Alecrim
DOI: 10.22167/2675-6528-202603077
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Um estudo de caráter aplicado e abordagem qualitativa analisou como instrumentos formais de direção, controle e integridade, publicamente divulgados, se articularam à agenda ambiental e social em uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte (caso único), com foco na mensuração, transparência e gestão de riscos socioambientais. Para tanto, adotou-se um delineamento de estudo de caso e análise documental de fontes oficiais publicadas entre 2020 e 2024. Seguiu-se um protocolo de seleção do corpus, construção de categorias analíticas, codificação temática e registro de evidências em planilha de rastreabilidade, tratando os achados como evidências de divulgação e não como auditoria de efetividade. Os resultados revelaram a presença de estruturas, papéis e fluxos institucionais relacionados ao tema, além de iniciativas e compromissos reportados em diferentes documentos. Contudo, identificaram-se desafios na padronização conceitual, comparabilidade temporal, definição de métodos de cálculo, atribuição de ownership e trilha de auditoria dos dados, o que pode limitar a consistência da mensuração. Como contribuição aplicada, consolidaram-se matrizes de indicadores mínimos e de governança de dados, e propuseram-se diretrizes acionáveis para fortalecer o ciclo de indicadores (definição-coleta-validação-reporte), aprimorar a rastreabilidade e alinhar compromissos divulgados com evidências documentais, visando à melhor gestão de riscos e à transparência institucional.
Palavras-chave: Compliance; Gestão de riscos socioambientais; Indicadores; Integridade; Materialidade.
1. Introdução
A crescente demanda por um capitalismo mais consciente e responsável tem redefinido a forma como organizações avaliam desempenho e sustentabilidade no longo prazo. Nesse movimento, a mensuração de resultados deixa de se limitar ao indicador econômico-financeiro e passa a incorporar dimensões ambientais, sociais e de governança, refletindo a necessidade de instituições resilientes, transparentes e capazes de gerir riscos complexos e interdependentes.
Nesse contexto, o framework Environmental, Social and Governance (ESG) consolidou-se como referência para identificação e gestão de riscos e oportunidades, ao articular diretrizes relacionadas à gestão de recursos naturais, às relações com partes interessadas e aos mecanismos de direção, monitoramento e incentivos organizacionais (IBGC, 2020).
Em paralelo, programas de conformidade (compliance) constituem instrumentos de governança ética voltados à prevenção, detecção e resposta a desvios, contribuindo para redução de riscos legais e reputacionais e para o fortalecimento da integridade institucional (Candeloro et al., 2012).
No âmbito brasileiro, o cooperativismo, definido pela Lei nº 5.764/1971 como sociedade de pessoas com forma e natureza jurídica próprias, apresenta aderência estrutural às agendas de sustentabilidade. Isso se deve a princípios como gestão democrática, participação econômica e interesse pela comunidade (Brasil, 1971; OCB, 2022). Quando operacionalizada por políticas, processos e indicadores, a integração entre governança cooperativa, ESG e compliance tende a ampliar a resiliência institucional, a transparência e a geração de valor territorial, em convergência com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015; Ferraz, 2023; Silva e Vasconcelos, 2021).
Apesar desse alinhamento conceitual, persistem lacunas na literatura aplicada quanto a como instrumentos de governança, gestão de riscos e reporte, frequentemente materializados em documentos públicos e normativos institucionais, se traduzem em práticas consistentes de mensuração, integridade e geração de impacto socioambiental no contexto de cooperativas de crédito brasileiras.
Evidências recentes em documentos públicos da cooperativa de crédito analisada, incluindo relatórios e frameworks relacionados a riscos socioambientais e climáticos e finanças sustentáveis, sugerem a existência de arranjos de governança, critérios técnicos e processos de reporte favoráveis à gestão de riscos e impactos, mas demandam análise sistematizada e contextualizada (Cooperativa, 2024a; Cooperativa, 2024b; Cooperativa, 2024c). Diante disso, o objetivo geral deste trabalho é analisar como princípios do cooperativismo e mecanismos de governança e integridade se articulam à agenda ESG na cooperativa de crédito analisada, a partir de análise documental, com vistas à sustentabilidade do negócio e ao fortalecimento da governança.
2. Material e Métodos
O presente estudo, de caráter aplicado e abordagem qualitativa, buscou aprofundar a compreensão de fenômenos organizacionais e a interpretação de significados em documentos institucionais (Gil, 2019). Adotou-se o delineamento de estudo de caso único (Yin, 2015) para examinar um fenômeno contemporâneo em seu ambiente real. A unidade de análise foi uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte, selecionada pela relevância teórica e pela disponibilidade de série documental pública consistente sobre governança, integridade e agenda ESG.
A investigação foi orientada pela lente Environmental, Social and Governance (ESG) e pelos pilares de integridade e governança (compliance), buscando identificar como mecanismos formais foram institucionalizados e reportados. A técnica de coleta de dados foi a análise documental (Gil, 2019), apropriada para fontes não tratadas previamente e que constituem registro estável. Este método permitiu acesso a informações públicas do portal da instituição, sem interação com participantes ou dados sensíveis, preservando o anonimato da cooperativa.
Para a análise dos dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo temática (Bardin, 2016). Este conjunto de procedimentos sistemáticos envolveu a descrição e inferência sobre o conteúdo das mensagens presentes nos documentos. A operacionalização da análise seguiu um protocolo estruturado em quatro etapas.
A primeira etapa do protocolo consistiu na definição do corpus da pesquisa, priorizando documentos publicados entre 2020 e 2024, período de consolidação do reporte e maior disponibilidade de séries comparáveis. O corpus incluiu relatórios anuais de sustentabilidade, GRSAC, plano institucional de sustentabilidade e framework de finanças sustentáveis, todos disponíveis no portal da cooperativa.
Na segunda etapa, realizou-se leitura exploratória dos documentos para a construção de um quadro de categorias (coding frame). Este foi composto por categorias a priori (governança e integridade; riscos socioambientais e climáticos; finanças sustentáveis; indicadores e materialidade) e categorias emergentes, identificadas durante a leitura e familiarização com o material.
A terceira etapa envolveu a codificação temática de trechos e a extração de evidências, registradas em planilha de rastreabilidade. Para cada evidência, anotaram-se documento de origem, ano, página, trecho, categoria analítica e objetivo específico, permitindo a organização sistemática das informações.
A quarta e última etapa do protocolo consistiu na síntese analítica dos dados, realizada pela identificação de convergências, lacunas e consistência do reporte nos documentos. Os achados foram tratados como evidências de divulgação institucional, sem a pretensão de auditoria de efetividade das práticas da cooperativa.
A operacionalização dos objetivos específicos seguiu o protocolo de análise. Para o primeiro objetivo, mapearam-se mecanismos de governança e integridade relacionados a ESG, codificando políticas, estruturas, papéis, fluxos e instrumentos de controle. Para o segundo, consolidaram-se indicadores ESG materialmente relevantes em matriz única, classificando-os por eixo, tema e finalidade, e registrando definição, método de cálculo, unidade e fonte de dados quando disponíveis.
Para o terceiro objetivo, que consistia em propor diretrizes aplicáveis à gestão cooperativa, as diretrizes foram elaboradas a partir dos achados do mapeamento e das lacunas identificadas. As recomendações foram convertidas em ações aplicáveis, como papéis, fluxos, indicadores mínimos, governança de dados e rotina de reporte, focando em integridade, transparência e mensuração.
O estudo apresentou limitações inerentes à sua natureza documental, restringindo-se ao que foi publicamente divulgado. Diferenças no escopo e detalhamento entre edições dos documentos podem ter limitado a comparabilidade temporal. Os achados foram interpretados como evidências documentais de estrutura, práticas e métricas, e não como auditoria independente de efetividade.
3. Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa foram obtidos por meio de uma análise documental aprofundada de materiais oficiais e publicamente disponíveis no portal institucional da cooperativa de crédito estudada. O corpus documental abrangeu relatórios anuais de sustentabilidade, relatórios de riscos e oportunidades sociais, ambientais e climáticas (GRSAC), o plano institucional de sustentabilidade e o framework de finanças sustentáveis. A investigação foi estruturada em torno dos objetivos específicos do estudo, buscando mapear os mecanismos formais de governança e integridade associados à agenda ESG, consolidar um conjunto mínimo de indicadores relevantes e propor diretrizes para aprimorar a conformidade, a transparência e a mensuração. Os achados são apresentados como evidências de divulgação documental, sem a pretensão de auditar a efetividade das práticas.
A composição do corpus documental revelou uma diversidade de documentos, cada um com finalidades distintas que influenciam o nível de detalhamento das informações. Instrumentos estratégicos, como o Plano de Sustentabilidade, tendem a apresentar diretrizes e compromissos gerais. Frameworks técnicos, como o Framework de Finanças Sustentáveis, explicitam critérios e elegibilidade. Relatórios de risco, como os GRSAC, estruturam categorias e processos de gerenciamento. Por fim, os Relatórios de Sustentabilidade concentram a narrativa e as métricas de desempenho. Essa variedade documental, com uma série temporal consistente entre 2020 e 2024, permitiu uma leitura comparativa e a identificação de padrões de reporte ao longo do tempo.
Mecanismos formais de governança e integridade associados a ESG
A análise documental evidenciou a presença de mecanismos formais robustos relacionados à governança, integridade, gestão de riscos socioambientais e transparência na cooperativa. Observou-se um maior detalhamento desses mecanismos nos documentos mais recentes, indicando uma evolução na abordagem institucional. A materialidade e as prioridades ESG são indicadas no Plano de Sustentabilidade e nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), refletindo a priorização temática e a organização declarada do reporte. As estruturas e instâncias de governança são evidenciadas nos Relatórios de Sustentabilidade e nos GRSAC (2022-2024), demonstrando a existência de responsabilidades institucionais relacionadas ao tema.
A gestão de riscos socioambientais e climáticos é detalhada nos relatórios GRSAC (2022-2024), que apresentam o enquadramento e os processos de gerenciamento adotados pela cooperativa. Os mecanismos de transparência e reporte são visíveis nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), cuja série temporal permite uma leitura comparativa do reporte ao longo dos anos. Adicionalmente, o Framework de Finanças Sustentáveis define critérios técnicos de elegibilidade e exclusão, além de estabelecer a base documental para rastreabilidade de instrumentos financeiros, reforçando a formalização de processos nesse pilar.
O tratamento da agenda ESG como tema institucional, com instrumentos de organização do reporte e referências a estruturas e responsabilidades, alinha-se às recomendações do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa (IBGC, 2020) e do Manual de Boas Práticas de Governança Cooperativa (OCB, 2022). Esses documentos associam a maturidade da governança à existência de instâncias formais, papéis definidos e fluxos de reporte que conectam a alta administração à gestão de riscos. Contudo, a mera presença desses elementos formais não garante a efetividade da integridade, que, segundo Candeloro et al. (2012), requer mecanismos eficazes de prevenção, detecção e resposta, algo que a análise documental não permite atestar.
É importante notar que a existência de uma estrutura de gerenciamento de riscos e de uma política de responsabilidade social, ambiental e climática também decorre de exigências regulatórias do setor financeiro, conforme as Resoluções CMN nº 4.327/2014, 4.943/2021 e 4.945/2021. Isso sugere que parte do arranjo observado não é apenas uma escolha estratégica voluntária, mas também uma resposta a um dever normativo. Os relatórios GRSAC (2022-2024) sistematizam o tema de risco socioambiental e climático, enquanto o framework de finanças sustentáveis funciona como um instrumento técnico para enquadramento e rastreabilidade de operações, reforçando o papel dos critérios formais na operacionalização do pilar financeiro.
Indicadores mínimos e lacunas de mensuração
Com base no reporte institucional, foi consolidado um conjunto mínimo de indicadores ESG materialmente relevantes, priorizando aqueles recorrentes e compatíveis com as dimensões ambiental, social e de governança. No eixo ambiental, foram identificados indicadores como Emissões de GEE (Escopos 1 e/ou 2), Consumo de energia elétrica, Consumo de água, Resíduos (geração e destinação) e Exposição a risco climático (físico/transição). Para as Emissões de GEE, os Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024) evidenciam o reporte, mas as lacunas incluem o método de cálculo, escopo de consolidação e verificabilidade não evidenciados. Similarmente, para o Consumo de energia elétrica e Consumo de água, os Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024) reportam os dados, mas não evidenciam a unidade, escopo, fator de conversão, abrangência ou série comparável.
A gestão de Resíduos, também reportada nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), carece de critérios de classificação e rastreabilidade evidenciados. A Exposição a risco climático, abordada nos Relatórios GRSAC (2022-2024), não apresenta metodologias e métricas quantitativas evidenciadas. No que tange às Finanças Sustentáveis, a carteira/operações com critérios de finanças sustentáveis é evidenciada no Framework de Finanças Sustentáveis e nos Relatórios de Sustentabilidade, mas faltam critérios comparáveis de consolidação anual.
No eixo de governança, o Treinamento em ética e compliance e o Canal de denúncias (registro e tratamento) são reportados nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024). Contudo, o treinamento não evidencia o critério de contabilização e público-alvo, e o canal de denúncias não apresenta taxonomia e indicadores de desfecho. No eixo social, a Diversidade de gênero em liderança e a Rotatividade (turnover) são reportadas nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), mas sem definição de liderança, recortes específicos, método de cálculo ou base populacional evidenciados. A Saúde e segurança (acidentes/afastamentos) e o Investimento social na comunidade, também presentes nos Relatórios de Sustentabilidade, não evidenciam abrangência de conceitos (próprios/terceiros) ou critérios de mensuração e parâmetros de impacto.
Os resultados indicam que, embora haja reporte de métricas e iniciativas, existe uma heterogeneidade significativa na especificação, especialmente quanto à explicitação do método de cálculo, escopo, fonte de dados e responsabilização. Esse achado corrobora a literatura que aponta a ausência de padronização metodológica como uma das principais fragilidades do reporte ESG, comprometendo a comparabilidade entre organizações e períodos, e gerando assimetrias informacionais entre a entidade e seus públicos de interesse (Ferraz, 2023; Silva e Vasconcelos, 2021). Do ponto de vista da integridade, a divulgação de indicadores sem a devida explicitação de como são apurados pode ser interpretada como um risco de comunicação seletiva, onde o volume de informação não se traduz necessariamente em transparência substantiva. A análise, portanto, destacou a diferença entre o que é evidenciado e o que não é, impactando a consistência do reporte e a capacidade de verificação.
Governança de dados dos indicadores
A análise da governança de dados dos indicadores revelou um padrão predominante de ausência de evidência documental para elementos mínimos como o responsável (owner), a periodicidade e a fonte dos dados. Para as Emissões de GEE (Escopos 1 e/ou 2), Consumo de energia elétrica, Consumo de água, Resíduos (geração e destinação), Exposição a risco climático (físico/transição), Carteira/operações com critérios de finanças sustentáveis, Treinamento em ética e compliance, Canal de denúncias (registro e tratamento), Diversidade de gênero em liderança, Rotatividade (turnover), Saúde e segurança (acidentes/afastamentos) e Investimento social na comunidade, o responsável e a fonte de dados não foram evidenciados. A periodicidade, quando mencionada, é geralmente anual, mas o detalhamento sobre a rotina de reporte é escasso.
A ausência de explicitação desses elementos para diversos indicadores constitui um achado relevante. Embora a cooperativa reporte indicadores, os documentos públicos, em geral, não detalham quem é responsável pelo dado, qual a fonte primária e quais as rotinas de validação que sustentam a mensuração. A completude da mensuração, avaliada pela presença ou ausência de componentes como definição/métrica, método, escopo, fonte, ownership e periodicidade, demonstrou que a definição e a periodicidade dos indicadores são consistentemente evidenciadas. Em contraste, o método, o escopo, a fonte e o ownership permanecem, em regra, não evidenciados.
Essa lacuna significa que o reporte informa o que é medido e com que frequência, mas não como, a partir de quê e sob responsabilidade de quem. Esses atributos são fundamentais para a auditabilidade da informação. A constatação reforça que a maturidade do reporte não se limita apenas ao número de indicadores divulgados, mas também ao grau de especificação e à governança documental que asseguram a consistência e a confiabilidade dos dados ao longo do tempo. A falta de rastreabilidade e de responsabilidade clara sobre os dados pode comprometer a integridade da informação e a capacidade de verificação por partes interessadas externas.
Diretrizes aplicáveis a partir das lacunas identificadas
A partir do padrão de lacunas identificado, especialmente a ausência de evidências sobre método, escopo, fonte e ownership para diversos indicadores, foram consolidadas três diretrizes aplicáveis e diretamente executáveis na gestão cooperativa, com foco no aprimoramento da integridade, transparência e mensuração. A primeira diretriz visa a melhorar a comparabilidade temporal dos indicadores. Recomenda-se manter séries históricas consistentes ao longo do período de reporte (2020–2024) e registrar, de forma explícita, qualquer alteração de escopo, perímetro de consolidação ou metodologia de cálculo entre edições. A adoção de notas de reformulação (restatements) e de tabelas comparativas plurianuais permitiria ao leitor distinguir variações reais de desempenho de variações decorrentes de mudança de critério, requisito básico para a confiabilidade do reporte não financeiro.
A segunda diretriz consiste em definir uma trilha de auditoria (data lineage) e uma evidência mínima por indicador. Para cada métrica reportada, é fundamental vincular a fonte primária do dado, o responsável (owner) pela sua apuração, a data de extração e o procedimento de validação adotado. Esse conjunto de metadados aproxima o reporte socioambiental das práticas já consolidadas na governança da informação financeira e viabiliza a verificação por terceiros, reduzindo o risco de inconsistências e fortalecendo a integridade informacional exigida pelas normas prudenciais aplicáveis às instituições financeiras. Essa medida é crucial para garantir a confiabilidade e a credibilidade dos dados divulgados.
A terceira diretriz propõe padronizar o método de cálculo dos indicadores prioritários. Para cada indicador, sugere-se documentar a definição conceitual, a unidade de medida, o escopo de abrangência e os fatores de conversão empregados, consolidando essas informações em um dicionário de dados versionado por ciclo anual. A padronização metodológica assegura que indicadores homônimos sejam efetivamente comparáveis entre si e ao longo do tempo, condição indispensável para que a mensuração ESG cumpra sua função de instrumento de gestão de riscos e de prestação de contas, e não apenas de comunicação institucional. A implementação dessas diretrizes pode fortalecer significativamente o ciclo de indicadores, desde a definição até o reporte.
Em síntese, o estudo revelou que a cooperativa de crédito analisada demonstra uma institucionalização progressiva da agenda ESG, evidenciada pela presença de instrumentos formais como planos e frameworks, além de um reporte anual com série temporal e documentação específica sobre riscos socioambientais e climáticos (GRSAC). Contudo, a análise também apontou uma limitação metodológica inerente à dependência do nível de transparência documental, o que significa que processos internos podem existir sem estarem explicitados nos documentos públicos. Apesar disso, a ausência recorrente de informações mínimas de governança de dados para determinados indicadores constitui um achado relevante, pois limita a comparabilidade e a rastreabilidade, orientando diretamente as diretrizes aplicáveis apresentadas para aprimorar a gestão de riscos e a transparência institucional.
4. Conclusão
Este estudo analisou como os princípios do cooperativismo e os mecanismos de governança e integridade se articulam à agenda ESG em uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte, por meio de análise documental. Verificou-se a presença de instrumentos formais robustos, como planos, frameworks e relatórios específicos, que evidenciam a institucionalização progressiva da agenda ambiental, social e de governança. Observou-se que a cooperativa reporta uma série de indicadores e iniciativas relacionadas a esses pilares, demonstrando um compromisso com a transparência. Contudo, identificou-se uma heterogeneidade significativa na especificação desses indicadores, especialmente quanto à explicitação do método de cálculo, do escopo de consolidação, da fonte de dados e da atribuição de responsabilidade (ownership). Essa lacuna compromete a comparabilidade temporal e a rastreabilidade das informações, limitando a consistência da mensuração. Como contribuição prática, o trabalho consolidou matrizes de indicadores mínimos e de governança de dados, além de propor diretrizes acionáveis para fortalecer o ciclo de indicadores, aprimorar a rastreabilidade e alinhar os compromissos divulgados com as evidências documentais, visando à melhor gestão de riscos e à transparência institucional.
A pesquisa, de caráter documental, limitou-se às informações publicamente divulgadas pela cooperativa, o que significa que práticas internas não reportadas podem existir e não foram contempladas. Adicionalmente, as diferenças de escopo e detalhamento entre as edições dos documentos analisados podem restringir a comparabilidade perfeita entre os anos, sendo os achados interpretados como evidências de divulgação e não como uma auditoria de efetividade. As lacunas identificadas na governança de dados dos indicadores, que limitam a comparabilidade e a rastreabilidade, orientam diretamente sugestões para estudos futuros. Recomenda-se que pesquisas subsequentes explorem a implementação das diretrizes propostas, avaliando sua efetividade na padronização metodológica, na definição de trilhas de auditoria e na melhoria da comparabilidade temporal dos indicadores ESG, contribuindo para aprimorar a integridade e a confiabilidade do reporte socioambiental no setor cooperativo.
Referências Bibliográficas
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Yin, R.K. 2015. Estudo de Caso: Planejamento e Métodos. 5ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq
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