Artigo

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Governança Cooperativa e ESG como Pilares para a Sustentabilidade do Negócio

Governança Cooperativa e Esg como Pilares para a Sustentabilidade do Negócio

Juliana Lacerda Rangel Sossai; Eliza Remédio Alecrim

DOI: 10.22167/2675-6528-202603077

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Um estudo de caráter aplicado e abordagem qualitativa analisou como instrumentos formais de direção, controle e integridade, publicamente divulgados, se articularam à agenda ambiental e social em uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte (caso único), com foco na mensuração, transparência e gestão de riscos socioambientais. Para tanto, adotou-se um delineamento de estudo de caso e análise documental de fontes oficiais publicadas entre 2020 e 2024. Seguiu-se um protocolo de seleção do corpus, construção de categorias analíticas, codificação temática e registro de evidências em planilha de rastreabilidade, tratando os achados como evidências de divulgação e não como auditoria de efetividade. Os resultados revelaram a presença de estruturas, papéis e fluxos institucionais relacionados ao tema, além de iniciativas e compromissos reportados em diferentes documentos. Contudo, identificaram-se desafios na padronização conceitual, comparabilidade temporal, definição de métodos de cálculo, atribuição de ownership e trilha de auditoria dos dados, o que pode limitar a consistência da mensuração. Como contribuição aplicada, consolidaram-se matrizes de indicadores mínimos e de governança de dados, e propuseram-se diretrizes acionáveis para fortalecer o ciclo de indicadores (definição-coleta-validação-reporte), aprimorar a rastreabilidade e alinhar compromissos divulgados com evidências documentais, visando à melhor gestão de riscos e à transparência institucional.

Palavras-chave: Compliance; Gestão de riscos socioambientais; Indicadores; Integridade; Materialidade.

1. Introdução

A crescente demanda por um capitalismo mais consciente e responsável tem redefinido a forma como organizações avaliam desempenho e sustentabilidade no longo prazo. Nesse movimento, a mensuração de resultados deixa de se limitar ao indicador econômico-financeiro e passa a incorporar dimensões ambientais, sociais e de governança, refletindo a necessidade de instituições resilientes, transparentes e capazes de gerir riscos complexos e interdependentes.

Nesse contexto, o framework Environmental, Social and Governance (ESG) consolidou-se como referência para identificação e gestão de riscos e oportunidades, ao articular diretrizes relacionadas à gestão de recursos naturais, às relações com partes interessadas e aos mecanismos de direção, monitoramento e incentivos organizacionais (IBGC, 2020).

Em paralelo, programas de conformidade (compliance) constituem instrumentos de governança ética voltados à prevenção, detecção e resposta a desvios, contribuindo para redução de riscos legais e reputacionais e para o fortalecimento da integridade institucional (Candeloro et al., 2012).

No âmbito brasileiro, o cooperativismo, definido pela Lei nº 5.764/1971 como sociedade de pessoas com forma e natureza jurídica próprias, apresenta aderência estrutural às agendas de sustentabilidade. Isso se deve a princípios como gestão democrática, participação econômica e interesse pela comunidade (Brasil, 1971; OCB, 2022). Quando operacionalizada por políticas, processos e indicadores, a integração entre governança cooperativa, ESG e compliance tende a ampliar a resiliência institucional, a transparência e a geração de valor territorial, em convergência com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015; Ferraz, 2023; Silva e Vasconcelos, 2021).

Apesar desse alinhamento conceitual, persistem lacunas na literatura aplicada quanto a como instrumentos de governança, gestão de riscos e reporte, frequentemente materializados em documentos públicos e normativos institucionais, se traduzem em práticas consistentes de mensuração, integridade e geração de impacto socioambiental no contexto de cooperativas de crédito brasileiras.

Evidências recentes em documentos públicos da cooperativa de crédito analisada, incluindo relatórios e frameworks relacionados a riscos socioambientais e climáticos e finanças sustentáveis, sugerem a existência de arranjos de governança, critérios técnicos e processos de reporte favoráveis à gestão de riscos e impactos, mas demandam análise sistematizada e contextualizada (Cooperativa, 2024a; Cooperativa, 2024b; Cooperativa, 2024c). Diante disso, o objetivo geral deste trabalho é analisar como princípios do cooperativismo e mecanismos de governança e integridade se articulam à agenda ESG na cooperativa de crédito analisada, a partir de análise documental, com vistas à sustentabilidade do negócio e ao fortalecimento da governança.

2. Material e Métodos

O presente estudo, de caráter aplicado e abordagem qualitativa, buscou aprofundar a compreensão de fenômenos organizacionais e a interpretação de significados em documentos institucionais (Gil, 2019). Adotou-se o delineamento de estudo de caso único (Yin, 2015) para examinar um fenômeno contemporâneo em seu ambiente real. A unidade de análise foi uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte, selecionada pela relevância teórica e pela disponibilidade de série documental pública consistente sobre governança, integridade e agenda ESG.

A investigação foi orientada pela lente Environmental, Social and Governance (ESG) e pelos pilares de integridade e governança (compliance), buscando identificar como mecanismos formais foram institucionalizados e reportados. A técnica de coleta de dados foi a análise documental (Gil, 2019), apropriada para fontes não tratadas previamente e que constituem registro estável. Este método permitiu acesso a informações públicas do portal da instituição, sem interação com participantes ou dados sensíveis, preservando o anonimato da cooperativa.

Para a análise dos dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo temática (Bardin, 2016). Este conjunto de procedimentos sistemáticos envolveu a descrição e inferência sobre o conteúdo das mensagens presentes nos documentos. A operacionalização da análise seguiu um protocolo estruturado em quatro etapas.

A primeira etapa do protocolo consistiu na definição do corpus da pesquisa, priorizando documentos publicados entre 2020 e 2024, período de consolidação do reporte e maior disponibilidade de séries comparáveis. O corpus incluiu relatórios anuais de sustentabilidade, GRSAC, plano institucional de sustentabilidade e framework de finanças sustentáveis, todos disponíveis no portal da cooperativa.

Na segunda etapa, realizou-se leitura exploratória dos documentos para a construção de um quadro de categorias (coding frame). Este foi composto por categorias a priori (governança e integridade; riscos socioambientais e climáticos; finanças sustentáveis; indicadores e materialidade) e categorias emergentes, identificadas durante a leitura e familiarização com o material.

A terceira etapa envolveu a codificação temática de trechos e a extração de evidências, registradas em planilha de rastreabilidade. Para cada evidência, anotaram-se documento de origem, ano, página, trecho, categoria analítica e objetivo específico, permitindo a organização sistemática das informações.

A quarta e última etapa do protocolo consistiu na síntese analítica dos dados, realizada pela identificação de convergências, lacunas e consistência do reporte nos documentos. Os achados foram tratados como evidências de divulgação institucional, sem a pretensão de auditoria de efetividade das práticas da cooperativa.

A operacionalização dos objetivos específicos seguiu o protocolo de análise. Para o primeiro objetivo, mapearam-se mecanismos de governança e integridade relacionados a ESG, codificando políticas, estruturas, papéis, fluxos e instrumentos de controle. Para o segundo, consolidaram-se indicadores ESG materialmente relevantes em matriz única, classificando-os por eixo, tema e finalidade, e registrando definição, método de cálculo, unidade e fonte de dados quando disponíveis.

Para o terceiro objetivo, que consistia em propor diretrizes aplicáveis à gestão cooperativa, as diretrizes foram elaboradas a partir dos achados do mapeamento e das lacunas identificadas. As recomendações foram convertidas em ações aplicáveis, como papéis, fluxos, indicadores mínimos, governança de dados e rotina de reporte, focando em integridade, transparência e mensuração.

O estudo apresentou limitações inerentes à sua natureza documental, restringindo-se ao que foi publicamente divulgado. Diferenças no escopo e detalhamento entre edições dos documentos podem ter limitado a comparabilidade temporal. Os achados foram interpretados como evidências documentais de estrutura, práticas e métricas, e não como auditoria independente de efetividade.

3. Resultados e Discussão

Os resultados da pesquisa foram obtidos por meio de uma análise documental aprofundada de materiais oficiais e publicamente disponíveis no portal institucional da cooperativa de crédito estudada. O corpus documental abrangeu relatórios anuais de sustentabilidade, relatórios de riscos e oportunidades sociais, ambientais e climáticas (GRSAC), o plano institucional de sustentabilidade e o framework de finanças sustentáveis. A investigação foi estruturada em torno dos objetivos específicos do estudo, buscando mapear os mecanismos formais de governança e integridade associados à agenda ESG, consolidar um conjunto mínimo de indicadores relevantes e propor diretrizes para aprimorar a conformidade, a transparência e a mensuração. Os achados são apresentados como evidências de divulgação documental, sem a pretensão de auditar a efetividade das práticas.

A composição do corpus documental revelou uma diversidade de documentos, cada um com finalidades distintas que influenciam o nível de detalhamento das informações. Instrumentos estratégicos, como o Plano de Sustentabilidade, tendem a apresentar diretrizes e compromissos gerais. Frameworks técnicos, como o Framework de Finanças Sustentáveis, explicitam critérios e elegibilidade. Relatórios de risco, como os GRSAC, estruturam categorias e processos de gerenciamento. Por fim, os Relatórios de Sustentabilidade concentram a narrativa e as métricas de desempenho. Essa variedade documental, com uma série temporal consistente entre 2020 e 2024, permitiu uma leitura comparativa e a identificação de padrões de reporte ao longo do tempo.

Mecanismos formais de governança e integridade associados a ESG

A análise documental evidenciou a presença de mecanismos formais robustos relacionados à governança, integridade, gestão de riscos socioambientais e transparência na cooperativa. Observou-se um maior detalhamento desses mecanismos nos documentos mais recentes, indicando uma evolução na abordagem institucional. A materialidade e as prioridades ESG são indicadas no Plano de Sustentabilidade e nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), refletindo a priorização temática e a organização declarada do reporte. As estruturas e instâncias de governança são evidenciadas nos Relatórios de Sustentabilidade e nos GRSAC (2022-2024), demonstrando a existência de responsabilidades institucionais relacionadas ao tema.

A gestão de riscos socioambientais e climáticos é detalhada nos relatórios GRSAC (2022-2024), que apresentam o enquadramento e os processos de gerenciamento adotados pela cooperativa. Os mecanismos de transparência e reporte são visíveis nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), cuja série temporal permite uma leitura comparativa do reporte ao longo dos anos. Adicionalmente, o Framework de Finanças Sustentáveis define critérios técnicos de elegibilidade e exclusão, além de estabelecer a base documental para rastreabilidade de instrumentos financeiros, reforçando a formalização de processos nesse pilar.

O tratamento da agenda ESG como tema institucional, com instrumentos de organização do reporte e referências a estruturas e responsabilidades, alinha-se às recomendações do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa (IBGC, 2020) e do Manual de Boas Práticas de Governança Cooperativa (OCB, 2022). Esses documentos associam a maturidade da governança à existência de instâncias formais, papéis definidos e fluxos de reporte que conectam a alta administração à gestão de riscos. Contudo, a mera presença desses elementos formais não garante a efetividade da integridade, que, segundo Candeloro et al. (2012), requer mecanismos eficazes de prevenção, detecção e resposta, algo que a análise documental não permite atestar.

É importante notar que a existência de uma estrutura de gerenciamento de riscos e de uma política de responsabilidade social, ambiental e climática também decorre de exigências regulatórias do setor financeiro, conforme as Resoluções CMN nº 4.327/2014, 4.943/2021 e 4.945/2021. Isso sugere que parte do arranjo observado não é apenas uma escolha estratégica voluntária, mas também uma resposta a um dever normativo. Os relatórios GRSAC (2022-2024) sistematizam o tema de risco socioambiental e climático, enquanto o framework de finanças sustentáveis funciona como um instrumento técnico para enquadramento e rastreabilidade de operações, reforçando o papel dos critérios formais na operacionalização do pilar financeiro.

Indicadores mínimos e lacunas de mensuração

Com base no reporte institucional, foi consolidado um conjunto mínimo de indicadores ESG materialmente relevantes, priorizando aqueles recorrentes e compatíveis com as dimensões ambiental, social e de governança. No eixo ambiental, foram identificados indicadores como Emissões de GEE (Escopos 1 e/ou 2), Consumo de energia elétrica, Consumo de água, Resíduos (geração e destinação) e Exposição a risco climático (físico/transição). Para as Emissões de GEE, os Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024) evidenciam o reporte, mas as lacunas incluem o método de cálculo, escopo de consolidação e verificabilidade não evidenciados. Similarmente, para o Consumo de energia elétrica e Consumo de água, os Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024) reportam os dados, mas não evidenciam a unidade, escopo, fator de conversão, abrangência ou série comparável.

A gestão de Resíduos, também reportada nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), carece de critérios de classificação e rastreabilidade evidenciados. A Exposição a risco climático, abordada nos Relatórios GRSAC (2022-2024), não apresenta metodologias e métricas quantitativas evidenciadas. No que tange às Finanças Sustentáveis, a carteira/operações com critérios de finanças sustentáveis é evidenciada no Framework de Finanças Sustentáveis e nos Relatórios de Sustentabilidade, mas faltam critérios comparáveis de consolidação anual.

No eixo de governança, o Treinamento em ética e compliance e o Canal de denúncias (registro e tratamento) são reportados nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024). Contudo, o treinamento não evidencia o critério de contabilização e público-alvo, e o canal de denúncias não apresenta taxonomia e indicadores de desfecho. No eixo social, a Diversidade de gênero em liderança e a Rotatividade (turnover) são reportadas nos Relatórios de Sustentabilidade (2020-2024), mas sem definição de liderança, recortes específicos, método de cálculo ou base populacional evidenciados. A Saúde e segurança (acidentes/afastamentos) e o Investimento social na comunidade, também presentes nos Relatórios de Sustentabilidade, não evidenciam abrangência de conceitos (próprios/terceiros) ou critérios de mensuração e parâmetros de impacto.

Os resultados indicam que, embora haja reporte de métricas e iniciativas, existe uma heterogeneidade significativa na especificação, especialmente quanto à explicitação do método de cálculo, escopo, fonte de dados e responsabilização. Esse achado corrobora a literatura que aponta a ausência de padronização metodológica como uma das principais fragilidades do reporte ESG, comprometendo a comparabilidade entre organizações e períodos, e gerando assimetrias informacionais entre a entidade e seus públicos de interesse (Ferraz, 2023; Silva e Vasconcelos, 2021). Do ponto de vista da integridade, a divulgação de indicadores sem a devida explicitação de como são apurados pode ser interpretada como um risco de comunicação seletiva, onde o volume de informação não se traduz necessariamente em transparência substantiva. A análise, portanto, destacou a diferença entre o que é evidenciado e o que não é, impactando a consistência do reporte e a capacidade de verificação.

Governança de dados dos indicadores

A análise da governança de dados dos indicadores revelou um padrão predominante de ausência de evidência documental para elementos mínimos como o responsável (owner), a periodicidade e a fonte dos dados. Para as Emissões de GEE (Escopos 1 e/ou 2), Consumo de energia elétrica, Consumo de água, Resíduos (geração e destinação), Exposição a risco climático (físico/transição), Carteira/operações com critérios de finanças sustentáveis, Treinamento em ética e compliance, Canal de denúncias (registro e tratamento), Diversidade de gênero em liderança, Rotatividade (turnover), Saúde e segurança (acidentes/afastamentos) e Investimento social na comunidade, o responsável e a fonte de dados não foram evidenciados. A periodicidade, quando mencionada, é geralmente anual, mas o detalhamento sobre a rotina de reporte é escasso.

A ausência de explicitação desses elementos para diversos indicadores constitui um achado relevante. Embora a cooperativa reporte indicadores, os documentos públicos, em geral, não detalham quem é responsável pelo dado, qual a fonte primária e quais as rotinas de validação que sustentam a mensuração. A completude da mensuração, avaliada pela presença ou ausência de componentes como definição/métrica, método, escopo, fonte, ownership e periodicidade, demonstrou que a definição e a periodicidade dos indicadores são consistentemente evidenciadas. Em contraste, o método, o escopo, a fonte e o ownership permanecem, em regra, não evidenciados.

Essa lacuna significa que o reporte informa o que é medido e com que frequência, mas não como, a partir de quê e sob responsabilidade de quem. Esses atributos são fundamentais para a auditabilidade da informação. A constatação reforça que a maturidade do reporte não se limita apenas ao número de indicadores divulgados, mas também ao grau de especificação e à governança documental que asseguram a consistência e a confiabilidade dos dados ao longo do tempo. A falta de rastreabilidade e de responsabilidade clara sobre os dados pode comprometer a integridade da informação e a capacidade de verificação por partes interessadas externas.

Diretrizes aplicáveis a partir das lacunas identificadas

A partir do padrão de lacunas identificado, especialmente a ausência de evidências sobre método, escopo, fonte e ownership para diversos indicadores, foram consolidadas três diretrizes aplicáveis e diretamente executáveis na gestão cooperativa, com foco no aprimoramento da integridade, transparência e mensuração. A primeira diretriz visa a melhorar a comparabilidade temporal dos indicadores. Recomenda-se manter séries históricas consistentes ao longo do período de reporte (2020–2024) e registrar, de forma explícita, qualquer alteração de escopo, perímetro de consolidação ou metodologia de cálculo entre edições. A adoção de notas de reformulação (restatements) e de tabelas comparativas plurianuais permitiria ao leitor distinguir variações reais de desempenho de variações decorrentes de mudança de critério, requisito básico para a confiabilidade do reporte não financeiro.

A segunda diretriz consiste em definir uma trilha de auditoria (data lineage) e uma evidência mínima por indicador. Para cada métrica reportada, é fundamental vincular a fonte primária do dado, o responsável (owner) pela sua apuração, a data de extração e o procedimento de validação adotado. Esse conjunto de metadados aproxima o reporte socioambiental das práticas já consolidadas na governança da informação financeira e viabiliza a verificação por terceiros, reduzindo o risco de inconsistências e fortalecendo a integridade informacional exigida pelas normas prudenciais aplicáveis às instituições financeiras. Essa medida é crucial para garantir a confiabilidade e a credibilidade dos dados divulgados.

A terceira diretriz propõe padronizar o método de cálculo dos indicadores prioritários. Para cada indicador, sugere-se documentar a definição conceitual, a unidade de medida, o escopo de abrangência e os fatores de conversão empregados, consolidando essas informações em um dicionário de dados versionado por ciclo anual. A padronização metodológica assegura que indicadores homônimos sejam efetivamente comparáveis entre si e ao longo do tempo, condição indispensável para que a mensuração ESG cumpra sua função de instrumento de gestão de riscos e de prestação de contas, e não apenas de comunicação institucional. A implementação dessas diretrizes pode fortalecer significativamente o ciclo de indicadores, desde a definição até o reporte.

Em síntese, o estudo revelou que a cooperativa de crédito analisada demonstra uma institucionalização progressiva da agenda ESG, evidenciada pela presença de instrumentos formais como planos e frameworks, além de um reporte anual com série temporal e documentação específica sobre riscos socioambientais e climáticos (GRSAC). Contudo, a análise também apontou uma limitação metodológica inerente à dependência do nível de transparência documental, o que significa que processos internos podem existir sem estarem explicitados nos documentos públicos. Apesar disso, a ausência recorrente de informações mínimas de governança de dados para determinados indicadores constitui um achado relevante, pois limita a comparabilidade e a rastreabilidade, orientando diretamente as diretrizes aplicáveis apresentadas para aprimorar a gestão de riscos e a transparência institucional.

4. Conclusão

Este estudo analisou como os princípios do cooperativismo e os mecanismos de governança e integridade se articulam à agenda ESG em uma cooperativa de crédito brasileira de grande porte, por meio de análise documental. Verificou-se a presença de instrumentos formais robustos, como planos, frameworks e relatórios específicos, que evidenciam a institucionalização progressiva da agenda ambiental, social e de governança. Observou-se que a cooperativa reporta uma série de indicadores e iniciativas relacionadas a esses pilares, demonstrando um compromisso com a transparência. Contudo, identificou-se uma heterogeneidade significativa na especificação desses indicadores, especialmente quanto à explicitação do método de cálculo, do escopo de consolidação, da fonte de dados e da atribuição de responsabilidade (ownership). Essa lacuna compromete a comparabilidade temporal e a rastreabilidade das informações, limitando a consistência da mensuração. Como contribuição prática, o trabalho consolidou matrizes de indicadores mínimos e de governança de dados, além de propor diretrizes acionáveis para fortalecer o ciclo de indicadores, aprimorar a rastreabilidade e alinhar os compromissos divulgados com as evidências documentais, visando à melhor gestão de riscos e à transparência institucional.

A pesquisa, de caráter documental, limitou-se às informações publicamente divulgadas pela cooperativa, o que significa que práticas internas não reportadas podem existir e não foram contempladas. Adicionalmente, as diferenças de escopo e detalhamento entre as edições dos documentos analisados podem restringir a comparabilidade perfeita entre os anos, sendo os achados interpretados como evidências de divulgação e não como uma auditoria de efetividade. As lacunas identificadas na governança de dados dos indicadores, que limitam a comparabilidade e a rastreabilidade, orientam diretamente sugestões para estudos futuros. Recomenda-se que pesquisas subsequentes explorem a implementação das diretrizes propostas, avaliando sua efetividade na padronização metodológica, na definição de trilhas de auditoria e na melhoria da comparabilidade temporal dos indicadores ESG, contribuindo para aprimorar a integridade e a confiabilidade do reporte socioambiental no setor cooperativo.

Referências Bibliográficas

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Candeloro, A.; Rizzo, M.S.; Pinho, V. 2012. Compliance 360°: riscos, estratégias, conflitos e integridade corporativa. Trevisan, São Paulo, SP, Brasil.

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Ferraz, L.R.C. 2023. ESG e Governança: desafios para o modelo cooperativista. Revista de Administração Contemporânea 27(1): 1-18.

Gil, A.C. 2019. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 7ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

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Yin, R.K. 2015. Estudo de Caso: Planejamento e Métodos. 5ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq

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08 de outubro de 2026

Práticas ESG no setor alimentício: estratégias sustentáveis e impactos em um modelo de negócio brasileiro

O presente estudo analisou como a adoção de práticas ESG (Environmental, Social and Governance) contribui para a consolidação de um modelo de negócio sustentável no setor alimentício brasileiro. A pesquisa foi conduzida como um estudo de caso qualitativo de uma empresa nacional de chocolates que implementou políticas voltadas à sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança corporativa. A coleta de dados baseou-se em análise documental, relatórios institucionais e entrevistas públicas com executivos, produtores e cofundadores da empresa, tratadas como fontes secundárias. Identificou-se que a empresa adotou o sistema cabruca para o cultivo de cacau, eliminou progressivamente o plástico das embalagens, participou de projetos de créditos de carbono e garantiu remuneração justa aos produtores, visando uma renda digna. Implementou também políticas anticorrupção, conformidade com a LGPD e rastreabilidade da cadeia de suprimentos. Os resultados indicaram impactos socioambientais positivos, como a preservação da biodiversidade e a melhoria da renda de produtores, além do fortalecimento da reputação corporativa. Contudo, a empresa ainda não alcançou lucratividade plena devido aos investimentos em sustentabilidade. Concluiu-se que a adoção de práticas ESG pode ser uma estratégia de diferenciação competitiva e um instrumento de transformação social, demonstrando a viabilidade de alinhar propósito e rentabilidade, embora exija investimentos significativos e condições favoráveis para sua escalabilidade.

Palavras-chave: Estudo de caso; Governança; Setor alimentício; Sustentabilidade corporativa.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Governança no contexto ESG: proposição de métrica para avaliação da divulgação de informações em relatórios integrados

A crescente relevância das práticas ESG no contexto corporativo ampliou a necessidade de transparência e prestação de contas nas divulgações organizacionais, especialmente na governança, evidenciando uma lacuna em instrumentos de avaliação sistemática e comparável. Diante disso, o estudo objetivou desenvolver e propor uma métrica de avaliação para o eixo de governança dos relatórios ESG, com foco nas práticas de divulgação de informações em empresas do setor de telecomunicações listadas na B3. A pesquisa, de natureza aplicada, adotou abordagem qualitativa, exploratória e descritiva. Realizou-se análise documental e de conteúdo em relatórios ESG de empresas do setor, elaborados conforme padrões GRI, SASB e IFRS Sustainability, a partir de indicadores previamente definidos e organizados em dimensões analíticas de governança. Os resultados revelaram diferentes níveis de maturidade informacional entre as empresas, com maior consolidação em indicadores de ética, integridade e gestão de riscos, mas fragilidades na divulgação de informações estruturais, como composição acionária e conflitos de interesses. Observou-se predominância de um nível intermediário de maturidade, com assimetrias na qualidade e consistência das informações divulgadas. A partir desses achados, propôs-se o Índice de Divulgação da Prestação de Contas (IDPC). Concluiu-se que o setor avançou na institucionalização da governança ESG, mas ainda carece de maior padronização e alinhamento às melhores práticas de transparência. O IDPC constitui um instrumento analítico sistematizado e replicável para avaliar a transparência, rastreabilidade e comparabilidade das informações socioinstitucionais.

Palavras-chave: Divulgação de Informações; ESG; Governança; Métrica de Avaliação; Transparência.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Técnicas de Entrevistas Investigativas como Ferramenta Eficaz na Coleta de Informações em Empresa do Setor Farmacêutico

As investigações corporativas desempenham um papel fundamental na eficácia dos programas de integridade empresarial, pois permitem a resposta a potenciais violações do Código de Conduta e legislações aplicáveis, além de subsidiar a adoção de medidas corretivas para desvios sistêmicos. Com o objetivo de diagnosticar a aderência a técnicas cientificamente validadas e eficazes de entrevistas investigativas, avaliou-se o conhecimento e as práticas de Investigadores de Compliance em uma multinacional do setor farmacêutico. A metodologia empregou uma entrevista com um gestor sênior e um questionário respondido pela totalidade da equipe de investigadores, cujos dados foram comparados à literatura especializada, que enfatiza o rapport como abordagem mais eficaz. Os resultados revelaram que, apesar da maturidade da estrutura de Compliance da organização, os profissionais demonstraram baixo domínio de técnicas formais de entrevista investigativa, predominando práticas intuitivas. Adicionalmente, identificou-se a percepção de investimentos insuficientes em capacitação e desenvolvimento. Concluiu-se que existe uma lacuna no conhecimento técnico formal e na capacitação, indicando um espaço para o aprimoramento que pode impactar diretamente a qualidade das investigações e a efetividade do programa de integridade.

Palavras-chave: Compliance; Investigações corporativas; Rapport.

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