Artigo

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores da Indústria Automobilística e de Autopeças Brasileira

Educação e Implementação Esg na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores da Indústria Automobilística e de Autopeças Brasileira

Laura Prado de Ávila; Carlos Alberto Dos Santos Silva

DOI: 10.22167/2675-6528-202603127

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

O Grupo Axion, atuante na produção de equipamentos e sistemas automotivos, recebeu a exigência de implementar práticas de gestão sustentável e ESG em sua cadeia de valor. Diante disso, o estudo teve como objetivo verificar a existência de instrumentos, no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, passíveis de adesão pelo Grupo Axion para educação e implementação ESG em sua cadeia de valor, especialmente junto aos pequenos e médios fornecedores. Para tanto, a pesquisa foi dividida em duas partes. Primeiramente, exploraram-se os instrumentos de educação e implementação ESG presentes na cadeia de fornecimento do setor automobilístico e de autopeças brasileiros, por meio da análise de relatórios de sustentabilidade divulgados por empresas listadas na Bolsa de Valores do Brasil (B3) no período de 2015 a 2025. Em seguida, desenvolveu-se um Plano de Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores do Grupo Axion. Nos resultados, concluiu-se que, no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, conquanto escassos em termos quantitativos, existem instrumentos de qualidade técnica passíveis de adesão. Ademais, estruturou-se o Plano de Educação e Implementação ESG em quatro etapas essenciais: estruturação, diagnóstico e engajamento, implementação e desenvolvimento, e monitoramento e consolidação, visando suprir a lacuna identificada na estratégia ESG da corporação.

Palavras-chave: Cadeia de Fornecimento; Educação ESG; Gestão Sustentável; Práticas ESG; Setor Automobilístico e de Autopeças.

1. Introdução

A gestão sustentável da cadeia de suprimentos emerge como um componente estratégico fundamental para as empresas, uma vez que cada decisão de compra de uma organização impacta não somente a própria entidade, mas também a economia, o meio ambiente e a sociedade (Velez e Papa Junior, 2025). Neste cenário, a internalização de questões socioambientais nos processos produtivos é crucial, pois mitiga riscos, aprimora a eficiência operacional e promove a inovação (Porter e Kramer, 2011).

A adoção de práticas ESG (Environmental, Social, and Governance), como a capacitação de fornecedores para a redução de desperdícios e o aumento da eficiência no uso de recursos, gera impactos sociais positivos, reduz custos, aumenta a previsibilidade e eleva o desempenho logístico. Este modelo de gestão sustentável de fornecedores atua como um catalisador de inovação e produtividade, reforçando o papel das grandes corporações na promoção da sustentabilidade, ao estender boas práticas às pequenas e médias empresas em suas redes de fornecimento (Porter e Kramer, 2011; Velez e Papa Junior, 2025).

No Brasil, o setor automobilístico e de autopeças desempenha um papel econômico significativo, representando seis por cento do Produto Interno Bruto nacional (Daudt e Willcox, 2018) e dezoito por cento do PIB da indústria (Cario e Shima, 2020). A atuação deste setor é vital para o cumprimento das metas nacionais e internacionais de enfrentamento às mudanças climáticas, como as estabelecidas no Acordo de Paris (2015). A efetividade das práticas ESG e a gestão sustentável da cadeia de valor são, portanto, essenciais para impulsionar a transição energética do país, especialmente no rastreamento de emissões de escopo três, que envolvem os fornecedores.

O Grupo Axion, produtor de equipamentos e sistemas automotivos e fornecedor da Volksen Mobility, uma das maiores fabricantes globais de ônibus e caminhões, enfrenta uma demanda crescente por práticas ESG em sua cadeia de valor. Apesar de o Grupo Axion possuir um programa ESG consolidado desde 2017, com relatórios de sustentabilidade publicados e alinhados a padrões como GRI, SASB, Integrated Reporting e ODS, a exigência da Volksen Mobility para que seus fornecedores implementem programas e práticas ESG, especialmente entre os pequenos e médios, revelou um desafio. Este cenário aponta para uma lacuna na estratégia ESG do Grupo Axion, que, embora avançada, não havia direcionado iniciativas específicas para a educação e implementação ESG junto a esses fornecedores, configurando uma oportunidade de aprimoramento (Samman, 2025).

Diante deste contexto, o presente estudo busca responder a duas perguntas de pesquisa: P1) Em que extensão existem, no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, instrumentos passíveis de adesão pelo Grupo Axion para educação e implementação ESG mediante sua cadeia de valor, especialmente no que se refere aos pequenos e médios fornecedores? e P2) De que maneira os instrumentos de educação e a implementação ESG podem ser replicados junto às pequenas e médias empresas presentes na cadeia de fornecedores da indústria automobilística e de autopeças brasileiras? A relevância prática da pesquisa reside na identificação de instrumentos para a educação e implementação ESG, contribuindo para a due diligence em Direitos Humanos na cadeia de valor e para o alinhamento da estratégia ESG do Grupo Axion. O objetivo do presente estudo concentra-se em verificar a existência de instrumentos, presentes no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, passíveis de adesão pelo Grupo Axion, para educação e implementação ESG na sua cadeia de valor, especialmente no que se refere aos pequenos e médios fornecedores. Ademais, a pesquisa pretende analisar de que maneira os instrumentos de educação e a implementação ESG podem ser replicados junto às pequenas e médias empresas presentes na cadeia de fornecedores da indústria automobilística e de autopeças brasileiras.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza aplicada, empregando a abordagem metodológica mista, com predominância de aspectos qualitativos e suporte de dados quantitativos para a compreensão do fenômeno investigado. Quanto aos objetivos, a pesquisa foi de caráter exploratório, buscando desenvolver e esclarecer conceitos e ideias, além de formular problemas mais precisos para investigações futuras (Gil, 2019).

A investigação foi estruturada em duas partes principais para responder aos objetivos propostos. A primeira parte dedicou-se a explorar os instrumentos de educação e implementação de práticas ESG presentes na cadeia de fornecimento do setor automobilístico e de autopeças brasileiro. A segunda parte concentrou-se no desenvolvimento de um Plano de Educação e Implementação ESG, direcionado à cadeia de pequenos e médios fornecedores do Grupo Axion.

Para a coleta de dados, foram empregadas duas técnicas principais: a pesquisa bibliográfica e a pesquisa documental. A pesquisa bibliográfica utilizou fontes secundárias, como livros e artigos científicos, para a revisão da literatura nas áreas de Administração e Sustentabilidade (Lakatos e Marconi, 2017). Termos como “cadeia de fornecedores”, “cadeia de fornecimento”, “cadeia de suprimentos”, “práticas ESG” e “gestão sustentável” foram utilizados na busca.

A pesquisa documental, por sua vez, baseou-se em fontes primárias, especificamente nos relatórios de sustentabilidade publicados por empresas listadas na Bolsa de Valores do Brasil (B3). A seleção dessas empresas visou garantir a consonância das práticas identificadas com a realidade do Grupo Axion, considerando corporações de porte e complexidade semelhantes ou superiores, e a transparência dos dados publicamente disponíveis (Bolsa de Valores Brasileira, 2026).

O processo de seleção das unidades-caso seguiu etapas propostas por Gil (2022). Inicialmente, no site institucional da B3, aplicou-se o filtro “Setor de Atuação”, selecionando “Bens Industriais” e, dentro deste, o subsetor “Material de Transporte” e o segmento “Material Rodoviário”. Foram excluídas empresas que não se relacionavam diretamente com o setor automobilístico e de autopeças, como concessionárias de rodovias e grupos de investimento.

Após a aplicação dos critérios de seleção e exclusão, identificaram-se três empresas para o estudo de caso, referenciadas como Empresa Alfa, Empresa Beta e Empresa Gama. A coleta de dados documentais para essas empresas abrangeu o período de 2015 a 2025, por meio da análise de seus relatórios de sustentabilidade. A ausência de relatórios para alguns anos ou empresas foi registrada, conforme a disponibilidade de informações públicas.

A análise dos dados coletados na primeira parte do estudo consistiu na identificação e descrição dos instrumentos de educação e implementação ESG presentes nos relatórios de sustentabilidade das empresas selecionadas. Buscou-se compreender as práticas adotadas por essas corporações em suas cadeias de fornecimento, sem antecipar achados empíricos ou resultados específicos, mas focando nos procedimentos metodológicos descritos.

A segunda parte da pesquisa envolveu o desenvolvimento do Plano de Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores do Grupo Axion. Para tanto, analisaram-se os relatórios de sustentabilidade publicados pelo próprio Grupo Axion no período de 2017 a 2024. Essa análise visou avaliar o nível de maturidade da gestão sustentável e ESG dos fornecedores da empresa e identificar práticas preexistentes.

Com base nos instrumentos identificados na primeira parte do estudo e na avaliação das práticas do Grupo Axion, o plano foi estruturado para suprir a lacuna identificada na estratégia ESG da corporação. O desenvolvimento do plano incluiu a definição de metas, a organização em cronograma por fases e a proposição de instrumentos de diagnóstico e avaliação contínua de desempenho, visando a replicação das práticas junto aos fornecedores.

3. Resultados e Discussão

A presente seção aborda os resultados da pesquisa, dividida em duas partes principais, conforme a metodologia estabelecida. Primeiramente, explorou-se a existência de instrumentos de educação e implementação ESG na cadeia de fornecimento do setor automobilístico e de autopeças brasileiro, com foco em empresas listadas na Bolsa de Valores do Brasil (B3). Em seguida, com base nesses achados e na análise das práticas preexistentes do Grupo Axion, desenvolveu-se um Plano de Educação e Implementação ESG para a cadeia de pequenos e médios fornecedores do Grupo, visando suprir a lacuna identificada na estratégia corporativa.

A análise dos relatórios de sustentabilidade das empresas do setor automobilístico e de autopeças, publicados entre 2021 e 2025, revelou uma diversidade de abordagens e níveis de maturidade em relação à gestão sustentável e ESG de fornecedores. A seleção dessas empresas, denominadas Alfa, Beta e Gama, foi estratégica para identificar práticas alinhadas ao porte e complexidade do Grupo Axion, garantindo a aplicabilidade dos instrumentos propostos. Observou-se que a divulgação de relatórios de sustentabilidade por parte dessas empresas tornou-se mais expressiva a partir de 2021, com maior concentração nos anos de 2024 e 2025, indicando uma adesão relativamente recente ou ainda incipiente aos padrões ESG no setor, especialmente no que tange à gestão de fornecedores.

Práticas e instrumentos aplicados por empresas do setor automobilístico e de autopeças brasileiro para gestão sustentável e ESG das cadeias de fornecedores

A Empresa Alfa, que iniciou suas atividades com a produção de carrocerias e expandiu para diversos segmentos de transporte, incluindo ônibus elétricos e trens, demonstrou um foco inicial na conformidade e governança. Seus relatórios de sustentabilidade de 2021 a 2024 indicam a posse de certificações como ISO 9001, ISO 45001 e ISO 14001, além da adesão ao padrão GRI. O relacionamento com fornecedores é mediado por um portal, embora com ênfase comercial e de governança, e a empresa possui um Código de Conduta e Compliance desde 2005, com treinamentos anuais sobre normativas internas.

A Empresa Alfa implementou um formulário de Devida Diligência de Integridade (DDI) para mais de 400 fornecedores, uma iniciativa do setor de Compras com apoio do Compliance. Contudo, os relatórios não detalharam os resultados ou o monitoramento dessa ação. A política de tratamento de dados pessoais da empresa exige que os fornecedores adiram a cláusulas específicas de proteção nos contratos, o que representa um instrumento adaptável para vincular expectativas de gestão sustentável. Em 2023, a empresa iniciou um projeto de segmentação de fornecedores, incluindo autoavaliação de requisitos de Compliance e questionários com perguntas sobre ESG, mas sem esclarecer a finalidade ou os resultados esperados, limitando a profundidade da análise.

Em síntese, os relatórios da Empresa Alfa revelam uma gestão de fornecedores mais voltada à conformidade e governança do que a uma gestão sustentável e ESG abrangente. No entanto, alguns instrumentos são passíveis de adaptação para o Grupo Axion, como o portal de relacionamento e comunicação com a cadeia de valor, a inclusão de cláusulas especiais nos contratos de fornecimento e a aplicação de formulários de devida diligência e questionários para mensurar a maturidade ESG dos parceiros. Essas práticas, embora não totalmente focadas em ESG, fornecem uma base estrutural para a integração de critérios de sustentabilidade.

A Empresa Beta, uma multinacional brasileira com presença em mais de quarenta países e mais de dezoito mil funcionários, destacou-se pela robustez de sua estratégia de gestão sustentável e ESG de fornecedores. A empresa atua na produção de componentes estruturais em ferro fundido para diversos setores de transporte, infraestrutura, agronegócio e energia. Sua presença em rankings globais como Carbon Disclosure Project (CDP), Morgan Stanley Capital International (MSCI), S&P Global Ratings e Sustainalytics, além da adesão a padrões como GRI e SASB, demonstra um compromisso avançado com a sustentabilidade.

A gestão de fornecedores da Empresa Beta é orientada por políticas e diretrizes internas e está em processo de implementação de um portal de compras que também facilita o relacionamento. A empresa possui um sistema de gerenciamento de riscos que inclui due diligence realizada por uma equipe interna multidisciplinar. Desde o cadastro, os fornecedores firmam compromissos com o Código de Ética e Conduta, Política de Integridade, Política Anticorrupção e Antissuborno, Norma de Direitos Humanos e Norma de Conflito de Interesses, garantindo a conformidade em todas as etapas comerciais.

Em 2024, a Empresa Beta realizou a homologação ambiental de 112 empresas, com auditorias presenciais e acompanhamento de planos de melhoria. A empresa utiliza um Questionário ESG para analisar o score dos fornecedores em critérios socioambientais, acompanhando aqueles com menores notas para impulsionar seu desempenho. Em 2024, três workshops sobre ESG resultaram na criação de políticas de meio ambiente e direitos humanos, além de códigos de ética pelos próprios fornecedores, evidenciando um esforço de educação e capacitação.

A Empresa Beta oferece suporte contínuo aos fornecedores por meio de uma equipe dedicada, auxiliando na implementação de boas práticas ESG e no desenvolvimento de planos individuais de evolução. No período de 2024-2025, 466 novos fornecedores foram contratados com base em critérios socioambientais, passando por avaliação de compliance documental. A empresa também incentiva as boas práticas por meio do Global Supplier Rating System (GSRS), que avalia qualidade, sustentabilidade, performance, capacidade tecnológica, desenvolvimento de novos produtos, postura comercial e contribuição para redução de custos.

Além disso, a Empresa Beta disponibiliza canais de ética para relatos de violações e aplica medidas disciplinares, que variam de advertência a interrupção das relações comerciais, dependendo da gravidade. Em 2024, não foram registrados casos de violação das diretrizes por fornecedores. A abrangência e a profundidade das práticas da Empresa Beta a tornam um modelo exemplar para a gestão sustentável e ESG de fornecedores, com instrumentos plenamente replicáveis para o Grupo Axion.

A Empresa Gama, com um parque fabril de mais de vinte e sete mil metros quadrados e mais de novecentos colaboradores, exporta para vinte e cinco países e se dedica à fabricação e comercialização de componentes para diversos veículos e transportes. Seu relatório de sustentabilidade de 2024 demonstra adesão aos padrões GRI e Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), exigindo responsabilidade em sua cadeia de valor. Um destaque é o desenvolvimento de novos fornecedores de matéria-prima estratégica, como o ferro “Gusa Verde”, produzido a partir de carvão vegetal de reflorestamento próprio, visando reduzir a dependência e ampliar o leque de fornecimento, além de atender a critérios ambientais rigorosos, como a redução da pegada de carbono.

A seleção e contratação de fornecedores pela Empresa Gama seguem critérios técnicos, legais e ambientais, conforme o Código de Ética e Conduta e os Manuais de Fornecedores. A análise documental foca em licenças e conformidade legal, identificando fornecedores críticos em áreas como transporte de resíduos e reciclagem. A empresa adota uma política de abstenção de minerais de conflito, exigindo certificação de que os materiais são “Livres de Conflito”. Embora a Empresa Gama não realize visitas *in loco* para aferição dos critérios, essa prática é identificada como uma oportunidade de melhoria para validar as informações documentais.

Os instrumentos identificados na estratégia ESG da Empresa Gama incluem o desenvolvimento de fornecedores de matéria-prima sustentável, a utilização de um Manual para Fornecedores, a certificação para aquisição de produtos alinhados a critérios socioambientais e a análise de conformidade documental. Essas práticas, embora menos abrangentes que as da Empresa Beta, oferecem contribuições valiosas para o Grupo Axion, especialmente no que se refere à promoção de uma cadeia de valor mais resiliente e alinhada às exigências de sustentabilidade.

Em suma, a análise dos relatórios de sustentabilidade das três empresas revelou que, apesar da escassez quantitativa de empresas com relatórios abrangentes no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, existem instrumentos de qualidade técnica passíveis de adesão pelo Grupo Axion. A Empresa Alfa contribui com o uso de portais de relacionamento, cláusulas contratuais específicas e formulários de due diligence. A Empresa Gama oferece o desenvolvimento de fornecedores de matéria-prima sustentável, manuais específicos e certificação de produtos. Contudo, a Empresa Beta se destaca por sua abordagem mais completa, com um sistema robusto de gerenciamento de riscos, questionários de maturidade ESG, workshops educativos, planos de evolução individual, equipe de suporte dedicada, canais de ética, medidas disciplinares e um sistema de premiação de fornecedores.

A dificuldade na coleta de dados foi um desafio, dada a limitação de empresas nacionais de porte e complexidade semelhantes ao Grupo Axion que divulgam relatórios de sustentabilidade. A prática de divulgação não é homogênea, e os relatórios mais expressivos surgem apenas a partir de 2021, concentrando-se nos anos de 2024 e 2025. Essa observação sugere que a adesão aos padrões ESG, especialmente na gestão sustentável de fornecedores, ainda é um fenômeno recente ou inexistente para muitas empresas brasileiras do setor, o que reforça a relevância deste estudo para o Grupo Axion.

Plano de Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores do Grupo Axion

Para desenvolver o Plano de Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores do Grupo Axion, foi realizada uma avaliação do nível de maturidade da gestão sustentável e ESG da própria corporação, com base em seus relatórios de sustentabilidade publicados entre 2017 e 2024. Essa análise visou identificar as práticas preexistentes e as oportunidades de adoção de novos instrumentos, explorados na primeira parte do estudo, para sugerir ações efetivas e alinhadas à estratégia do Grupo.

Os relatórios de sustentabilidade do Grupo Axion de 2017 e 2018 indicam uma gestão de fornecedores predominantemente corporativa, focada em governança. Instrumentos como o Código de Conduta, o Manual de Requisitos para Fornecedores e a Política Anticorrupção estabelecem critérios de seleção, avaliação e monitoramento de qualidade, logística, pós-venda e aspectos comerciais. Os fornecedores devem reportar indicadores econômico-financeiros, condições comerciais, qualidade de produtos e serviços, além de se comprometerem com comportamento ético e socialmente responsável.

O Grupo Axion possui um Programa de Integridade avançado, que inclui um portal de due diligence, canais de ouvidoria e ética, e práticas de auditorias de fornecedores. Em 2018, a empresa instituiu o Supplier Awards, premiando anualmente fornecedores em categorias como competitividade, inovação, tecnologia e sustentabilidade. A implementação da ISO 14001:2015 para a gestão ambiental da cadeia de fornecimento também foi destacada, evidenciando um compromisso com a responsabilidade ambiental.

Em 2019, o Grupo Axion realizou setenta e quatro visitas técnicas para seleção de fornecedores e 131 auditorias para homologação, além de seis reuniões do Índice de Qualidade com fornecedores que não atingiram as expectativas de desempenho. As auditorias verificaram a conformidade com requisitos de saúde e segurança ocupacional, gestão de água e efluentes. Fornecedores com não conformidades eram obrigados a apresentar planos de ação, que eram monitorados até a conclusão, demonstrando um processo estruturado de melhoria contínua.

Os fornecedores do Grupo Axion devem aderir às normas do Código de Conduta, que repudia trabalho análogo ao de escravo e trabalho infantil, proíbe gratificações e suborno, e prevê medidas disciplinares, incluindo rescisão contratual, em caso de descumprimento. Os relatórios de 2020 reiteraram a utilização da Global Reporting Initiative (GRI), do International Integrated Reporting Council (IIRC) e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para divulgação, mantendo as práticas de gestão de fornecedores já estabelecidas.

Para seleção e monitoramento, o Grupo Axion exige certificações como ISO 9001, IATF 16949 e ISO 14001, com visitas técnicas e auditorias. O Portal de Fornecedores exige requisitos mínimos, como certificações, licença de operação e lista limpa de trabalho escravo. Fornecedores que não cumprem as exigências são acionados para melhorias e, se não atenderem aos prazos, são classificados como “fornecedores de baixa performance”, com suspensão de contratos. A implementação de contratos digitais em 2019 gerou um impacto ambiental positivo, equivalente à economia de quarenta e uma árvores.

O relatório de sustentabilidade de 2021 do Grupo Axion indicou a adesão às diretrizes do Sustainability Accounting Standards Board (SASB), reiterando os instrumentos anteriores. O Manual de Requisitos para Fornecedores detalha requisitos auditáveis em responsabilidade social, meio ambiente e saúde e segurança ocupacionais. Os mecanismos de auditoria, due diligence, engajamento e o Índice de Desempenho Global de Fornecedores (IDGF) foram aprofundados para classificação de performance e gestão de riscos da cadeia.

Em 2022, não foram apresentados novos elementos na gestão sustentável e ESG de fornecedores. Contudo, o relatório de 2023 destacou a nova edição do Manual de Requisitos para Fornecedores, que incluiu critérios ESG para seleção e homologação de parceiros diretos e indiretos, consolidando a estratégia ESG como um critério central na gestão de fornecedores, com foco na geração de valor sustentável a longo prazo.

No pilar ambiental, o Grupo Axion incentiva ativamente seus fornecedores a adotarem práticas responsáveis, recomendando a certificação ISO 14001 como um diferencial. Há controle sobre substâncias utilizadas nos produtos, com exigência de conformidade com normas internacionais como GADSL e REACH, e registro da composição dos produtos no sistema IMDS, assegurando transparência e rastreabilidade. Essas exigências se estendem a toda a cadeia produtiva do fornecedor, reforçando a responsabilidade ambiental ampliada.

No pilar social, o Grupo Axion exige de seus fornecedores o cumprimento de padrões mínimos de condições de trabalho, saúde e segurança ocupacional, com requisitos auditáveis. A política de tolerância zero para trabalho análogo ao de escravo e a promoção de valores como diversidade, inclusão e equidade demonstram o compromisso com ambientes de trabalho justos. A gestão de pessoas é tratada estrategicamente, valorizando o capital humano.

No pilar de governança, o Grupo Axion estabelece diretrizes claras de conduta ética, transparência e integridade, exigindo conformidade de seus fornecedores. O Código de Conduta Ética e a Política Anticorrupção reforçam o compromisso com elevados padrões de integridade. Um canal de ética acessível, inclusive de forma anônima, amplia os mecanismos de controle e accountability. A gestão de riscos abrange riscos tradicionais e emergentes, como cibersegurança e segurança da informação, além da exigência de regularidade documental e conformidade legal.

As diretrizes ESG são operacionalizadas por meio do Self Assessment ESG, um questionário que os fornecedores preenchem para avaliar sua aderência às práticas sustentáveis, com uma pontuação mínima de sessenta por cento recomendada. Esse indicador representa dez por cento da avaliação total no Índice de Gestão do Fornecedor (IGF). Auditorias de processo, baseadas na metodologia VDA 6.3, incorporam critérios ESG, validando as informações declaradas pelos fornecedores.

A avaliação global dos fornecedores é consolidada no Índice de Desempenho Global do Fornecedor (IDGF), classificando-os em listas (verde, amarela ou vermelha) que determinam sua aptidão para novos negócios ou exclusão da base. A baixa pontuação no Self Assessment ou a ausência de certificações obrigatórias podem resultar em restrições comerciais ou descredenciamento, evidenciando o impacto concreto do ESG na relação contratual. Os fornecedores são responsáveis por garantir que seus subfornecedores também estejam em conformidade com os requisitos ESG, ampliando o alcance das práticas sustentáveis.

O relatório de sustentabilidade de 2024 do Grupo Axion refere-se à realização de workshops com fornecedores para estreitamento de vínculos e capacitação específica sobre emissões de gases de efeito estufa, especialmente no escopo 3, que representa noventa e três por cento do volume total produzido. Iniciou-se um conjunto de ações educativas para capacitar fornecedores na temática, incentivando-os a estabelecer metas de redução de emissões, monitorá-las e engajar suas próprias cadeias nesse processo. Não foi divulgado relatório de sustentabilidade do Grupo Axion para o período de 2025.

Formalmente, o modelo adotado pelo Grupo Axion representa um exemplo estruturado e avançado de gestão sustentável e ESG de fornecedores, superior ao de outras companhias do setor, com exceção da Empresa Beta. Contudo, uma contradição se sobressaiu: apesar da estratégia ESG avançada, não havia iniciativas direcionadas especificamente para a educação e implementação ESG junto aos pequenos e médios fornecedores, conforme a demanda da Volksen Mobility. Essa lacuna, embora pontual, poderia ser plenamente incorporada à estratégia existente.

Essa contradição não decorre de falhas intencionais, mas de dinâmicas estruturais do desenho organizacional, como a fragmentação espaço-temporal (obrigações perdem sentido), otimização funcional (áreas isoladas) e lacunas de responsabilização (ausência de ator específico para determinada obrigação), conforme Samman (2025). Esse cenário, no entanto, representa uma oportunidade de aprimoramento no alinhamento entre os objetivos estratégicos do Grupo Axion e sua operacionalização junto aos fornecedores, reforçando a coerência e efetividade das práticas ESG já consolidadas.

Diante da demanda da Volksen Mobility e da lacuna identificada, a estruturação de uma frente específica para a resolução dessa contradição é a estratégia mais adequada. Com base nas práticas da Empresa Beta e nos instrumentos já consolidados pelo Grupo Axion, o estudo propõe um Plano de Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores, estruturado em quatro fases essenciais para promover a evolução e o alinhamento dos fornecedores à estratégia ESG institucional.

A primeira fase, de Estruturação (meses um e dois), visa instituir um modelo de governança dedicado e estruturar a resposta estratégica. As diretrizes operacionais incluem a formação de uma equipe interna responsável, a definição de objetivos estratégicos (OKRs) e critérios/indicadores-chave (KPIs), a atribuição de papéis e responsabilidades, a consolidação do Plano de Educação e Implementação ESG e a ampla comunicação institucional e com fornecedores. Os indicadores de sucesso para esta fase são a equipe formalmente constituída, OKRs e KPIs desenvolvidos e aprovados, a definição dos responsáveis por cada entrega, um cronograma de trabalho e a existência de comunicações para colaboradores e fornecedores, com eventos de divulgação.

A segunda fase, de Diagnóstico e Engajamento (meses três a seis), tem como objetivo mapear a maturidade ESG da cadeia de fornecedores e promover o alinhamento aos objetivos institucionais. As diretrizes operacionais envolvem o desenvolvimento e a aplicação de questionário para definição da maturidade ESG dos fornecedores, especialmente pequenos e médios, e a definição do score ESG, com mapeamento das principais necessidades individuais e coletivas. Os indicadores de desempenho incluem a aplicação do questionário com elevada taxa de adesão e o mapeamento, implementação de sistema de controle e definição dos fornecedores e necessidades.

A terceira fase, de Implementação e Desenvolvimento (meses seis a doze), busca induzir a evolução estruturada dos fornecedores conforme a estratégia ESG institucional. As diretrizes operacionais compreendem o desenvolvimento dos planos individuais de evolução ESG para os fornecedores, a educação ESG nas principais necessidades e desafios (in-company e/ou coletivas) e a designação de suporte técnico contínuo. Os indicadores de sucesso são a realização de reuniões com fornecedores prioritários e a formalização de planos individuais de trabalho, a realização de treinamentos, capacitações e workshops, e a existência de uma equipe interna especializada com canal de comunicação.

A quarta e última fase, de Monitoramento e Consolidação (a partir do mês doze), visa assegurar a mensuração de resultados, a melhoria contínua e a escalabilidade. As diretrizes operacionais incluem o monitoramento e revisão dos planos individuais, a implementação de melhorias estratégicas nos planos, a consolidação das boas práticas e a criação de sistemas de recompensa e premiação, além da definição de diretrizes de expansão e escalabilidade. Os indicadores de desempenho para esta fase são um sistema de monitoramento e revisão da evolução ESG do fornecedor, a retenção e engajamento de fornecedores, o incremento da premiação anual e a criação de novos planos de desenvolvimento, inovação e sustentabilidade pela cadeia com seus fornecedores próprios.

Paralelamente à implementação do plano principal, identificaram-se medidas complementares de caráter transversal que podem potencializar os resultados e fortalecer a governança ESG na cadeia de fornecimento. A adoção de cláusulas contratuais específicas para incorporar critérios ESG e formalizar compromissos mínimos, inspirada na Empresa Alfa, contribui para maior segurança jurídica e alinhamento institucional. Essas cláusulas vinculam as expectativas da empresa na gestão sustentável de sua cadeia de valor (Empresa Alfa, 2021).

Adicionalmente, podem ser consideradas medidas indutivas e corretivas, como a previsão de mecanismos disciplinares em casos de violação das diretrizes ESG e a implementação de instrumentos de incentivo, a exemplo da premiação de fornecedores com base em sistemas de avaliação de desempenho, como o Global Supplier Rating System (GSRS), observado na Empresa Beta. Essas iniciativas não apenas mitigam riscos, mas também estimulam a melhoria contínua e o engajamento qualificado ao longo da cadeia, conforme Velez e Papa Junior (2025).

Por fim, destacam-se iniciativas voltadas ao desenvolvimento estrutural dos fornecedores, especialmente no que se refere à promoção de matérias-primas sustentáveis e à criação de critérios de certificação para aquisição de produtos alinhados às diretrizes socioambientais da corporação, como verificado na Empresa Gama. Tais medidas contribuem para o fortalecimento de uma cadeia mais resiliente, inovadora e aderente às exigências contemporâneas de sustentabilidade, ampliando o impacto positivo da estratégia ESG de forma consistente e escalável.

Em síntese, a pesquisa confirmou a existência de instrumentos de qualidade técnica no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, embora em número limitado, que são passíveis de adesão pelo Grupo Axion para educação e implementação ESG em sua cadeia de valor, especialmente junto aos pequenos e médios fornecedores. O Plano de Educação e Implementação ESG desenvolvido, estruturado em fases de estruturação, diagnóstico e engajamento, implementação e desenvolvimento, e monitoramento e consolidação, oferece uma resposta prática e abrangente para a lacuna identificada na estratégia do Grupo Axion, permitindo a replicação de boas práticas e o fortalecimento da governança ESG em sua cadeia de fornecimento.

4. Conclusão

O presente estudo verificou a existência de instrumentos no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, passíveis de adesão pelo Grupo Axion, para educação e implementação ESG em sua cadeia de valor, com foco nos pequenos e médios fornecedores. Observou-se que, embora escassos em termos quantitativos, existem instrumentos de qualidade técnica. A análise dos relatórios de sustentabilidade de empresas do setor revelou que a Empresa Alfa utilizava portais de relacionamento, cláusulas contratuais e formulários de due diligence, enquanto a Empresa Gama se destacava pelo desenvolvimento de fornecedores de matéria-prima sustentável e manuais específicos. Contudo, a Empresa Beta apresentou uma abordagem mais robusta, com sistemas de gerenciamento de riscos, questionários de maturidade ESG, workshops educativos e planos de evolução individualizados. Verificou-se que o Grupo Axion já possuía uma estratégia ESG avançada, com programas de integridade, auditorias e certificações, mas identificou-se uma lacuna na ausência de iniciativas específicas para a educação e implementação ESG junto aos seus pequenos e médios fornecedores, conforme a demanda da Volksen Mobility.

Diante dessa lacuna, desenvolveu-se um Plano de Educação e Implementação ESG para a Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores do Grupo Axion, estruturado em quatro fases: estruturação, diagnóstico e engajamento, implementação e desenvolvimento, e monitoramento e consolidação. Este plano oferece uma contribuição prática e gerencial significativa, ao fornecer um roteiro detalhado para aprimorar a governança ESG e promover a sustentabilidade em toda a cadeia de valor. A pesquisa enfrentou limitações decorrentes da escassez de empresas nacionais de porte similar que divulgam relatórios de sustentabilidade abrangentes no período analisado, e da não homogeneidade na prática de divulgação, com a maioria dos relatórios expressivos surgindo apenas a partir de 2021. Apesar disso, o plano proposto representa uma ferramenta valiosa para o Grupo Axion, permitindo a replicação de boas práticas e o fortalecimento de uma cadeia de fornecimento mais resiliente, inovadora e alinhada às exigências contemporâneas de sustentabilidade.

Referências Bibliográficas

ACORDO DE PARIS. Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, 2015. Disponível em: https://unfccc.int/process-and-meetings/the-paris-agreement. Acesso em: 2 out. 2025.

BOLSA DE VALORES BRASILEIRA (B3). Empresas listadas. Disponível em: https://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/renda-variavel/empresas-listadas.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.

CÂNDIDO, G. B.; CARIO, S. A. F.; SHIMA, W. A internacionalização da indústria automobilística brasileira: dinâmica produtiva e estratégias de mercado. Revista Brasileira de Indústria, v. 4, n. 1, p. 1–28, 2020.

DAUDT, G. M.; WILLCOX, L. D. Indústria automotiva. In: PUGA, F. P.; CASTRO, L. B. (org.). Visão 2035: Brasil, país desenvolvido: agendas setoriais para alcance da meta. Rio de Janeiro: BNDES, 2018. p. 183–208.

EMPRESA ALFA. Relatório de sustentabilidade 2021. 2021. Disponível em: https://ri.marcopolo.com.br/informacoes-financeiras/relatorios-anuais-e-de-sustentabilidade/. Acesso em: 30 jan. 2026.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 7. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2022.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos da metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

PORTER, M. E.; KRAMER, M. R. Creating shared value: how to reinvent capitalism – and unleash a wave of innovation and growth. Harvard Business Review, fev. 2011.

SAMMAN, T. Narrative contradictions: the invisible governance risk. Harvard Law School Forum on Corporate Governance, 13 set. 2025. Disponível em: https://corpgov.law.harvard.edu/2025/09/13/narrative-contradictions-the-invisible-governance-risk/. Acesso em: 5 abr. 2026.

VELEZ, J. S. F.; PAPA JUNIOR, N. Propagação das práticas ESG na cadeia de suprimentos: um estudo com empresas brasileiras listadas na B3. Revista Boletim do Gerenciamento, v. 2, n. 46, p. 1–20, 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

13 de outubro de 2026

Compliance Digital e Vieses Algorítmicos: Estudo de Caso sobre Governança Ética da IA Conversacional.

A crescente adoção de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) conversacional em serviços financeiros ampliou ganhos de eficiência, mas introduziu riscos éticos relacionados a vieses algorítmicos e à opacidade dos processos decisórios automatizados. Investigou-se, a partir de um estudo de caso único, de que forma mecanismos de compliance digital podem identificar, prevenir e mitigar vieses algorítmicos em ferramentas de IA conversacional aplicadas à aquisição digital de produtos financeiros. Adotou-se abordagem qualitativa e natureza aplicada, fundamentada em análise documental de uma solução de IA utilizada por instituição financeira de atuação nacional. Confrontou-se a ferramenta com frameworks internacionais de governança ética, incluindo os princípios do Al4People, da OCDE, da UNESCO, do Conselho da Europa, do AI Act e da LGPD. Os resultados indicaram que, embora a ferramenta apresentasse rastreabilidade e supervisão humana parciais, persistiram lacunas significativas na formalização de controles de compliance voltados à mitigação de riscos algorítmicos. Essas lacunas incluíram a ausência de métricas de equidade, de políticas de auditoria algorítmica e de avaliações de impacto ético. Concluiu-se que a conformidade regulatória e os controles técnicos, isoladamente, não bastam para uma governança responsável, sendo necessário um modelo de compliance digital com avaliação contínua de risco algorítmico, accountability formalizada e governança ética institucionalizada para lidar com a complexidade desses sistemas.

Palavras-chave: Accountability corporativa; Auditoria algorítmica; Equidade em sistemas automatizados; LGPD; Proteção de dados pessoais.

Compliance E Esg

13 de outubro de 2026

Mecanismos de integridade na contratação de terceiros por organizações sociais da saúde

A expansão das organizações sociais da saúde no Brasil consolidou um modelo de gestão caracterizado pela descentralização da execução de serviços públicos e pela intensificação das contratações de terceiros. Neste contexto, analisou-se os mecanismos de integridade aplicados à contratação de empresas terceirizadas por organizações sociais da saúde, utilizando como objeto empírico duas entidades localizadas nos estados de Goiás e Santa Catarina. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, com método de estudo de caso múltiplo, fundamentada na análise documental de contratos de gestão, regulamentos internos, programas de integridade, códigos de ética, dados de portais de transparência e informações sobre contratações e aditivos contratuais. Os resultados evidenciaram que ambas as organizações possuíam instrumentos formais de compliance, como programas de integridade e normas de conduta. Contudo, apresentaram limitações relevantes na transparência das contratações de terceiros, na publicidade de contratos e na divulgação de resultados de auditorias e apurações internas, revelando um descompasso entre a estrutura formal e sua efetiva operacionalização. Concluiu-se que a efetividade das parcerias entre o Estado e as organizações sociais depende não apenas da existência formal de programas de integridade, mas da aplicação concreta de práticas de controle, fiscalização e transparência compatíveis com a gestão de recursos públicos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Palavras-chave: Compliance; Contratos de gestão; Organizações sociais da saúde; Programas de integridade; Serviços públicos.

Compliance E Esg

09 de outubro de 2026

Inventários Corporativos de Emissões de Gases de Efeito Estufa: Metodologias, Desafios e Boas Práticas

O presente estudo analisou os inventários corporativos de emissões de gases de efeito estufa (GEE) de empresas multinacionais do setor energético. O objetivo foi avaliar comparativamente os inventários da Petrobras e Eletrobras, no período de 2019 a 2023, com foco nas metodologias, desafios técnicos e institucionais, e boas práticas de mensuração, gestão e reporte. A pesquisa, de caráter descritivo-analítico e documental, examinou as abordagens adotadas para a definição de limites organizacionais, a contabilização dos escopos 1, 2 e 3, o uso de indicadores de intensidade de carbono e os mecanismos de governança climática corporativa. Os resultados indicaram a adoção generalizada de referenciais metodológicos internacionais consolidados, mas revelaram desafios persistentes relacionados à comparabilidade dos inventários, à qualidade dos dados, à variabilidade sistêmica do setor e à gestão de emissões indiretas. Observou-se convergência entre as empresas na institucionalização dos inventários como instrumentos de governança ambiental, com integração a processos decisórios, verificação independente e divulgação pública. Concluiu-se que a consolidação de boas práticas metodológicas e institucionais fortaleceu a transparência, a credibilidade e a utilidade estratégica dos inventários corporativos de GEE, contribuindo para o papel do setor energético na transição para uma economia de baixo carbono.

Palavras-chave: Gases de efeito estufa; Governança climática; Inventário de emissões; Setor energético; Sustentabilidade corporativa.

Compliance E Esg

09 de outubro de 2026

Comunicação e Ética Corporativa: O Papel da Comunicação na Efetividade dos Programas de Compliance

O estudo analisou o papel da comunicação corporativa na efetividade do programa de compliance e integridade em uma organização do setor de engenharia e construção pesada. O objetivo foi analisar a influência da comunicação corporativa na internalização de valores éticos e na efetividade do programa de compliance, identificando instrumentos, analisando práticas e apontando oportunidades de aprimoramento. Utilizou-se uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de um estudo de caso único, com base em análise documental e observação de práticas institucionais, no período de novembro de 2025 a fevereiro de 2026. Examinaram-se documentos como código de conduta, políticas de compliance, registros de treinamentos e comunicados internos. Os resultados evidenciaram que a organização possuía instrumentos formais estruturados para a comunicação do compliance, contribuindo para a disseminação de diretrizes éticas. Contudo, verificou-se que a efetividade do programa não dependia apenas da existência desses mecanismos, mas da forma como eram comunicados e incorporados às práticas cotidianas, destacando-se o papel das lideranças na tradução das diretrizes institucionais em comportamentos concretos. Propôs-se um indicador de efetividade da comunicação de compliance (IECC) para monitoramento contínuo.

Palavras-chave: comunicação interna; cultura organizacional; ética empresarial; governança corporativa; liderança organizacional.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Práticas ESG no setor alimentício: estratégias sustentáveis e impactos em um modelo de negócio brasileiro

O presente estudo analisou como a adoção de práticas ESG (Environmental, Social and Governance) contribui para a consolidação de um modelo de negócio sustentável no setor alimentício brasileiro. A pesquisa foi conduzida como um estudo de caso qualitativo de uma empresa nacional de chocolates que implementou políticas voltadas à sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança corporativa. A coleta de dados baseou-se em análise documental, relatórios institucionais e entrevistas públicas com executivos, produtores e cofundadores da empresa, tratadas como fontes secundárias. Identificou-se que a empresa adotou o sistema cabruca para o cultivo de cacau, eliminou progressivamente o plástico das embalagens, participou de projetos de créditos de carbono e garantiu remuneração justa aos produtores, visando uma renda digna. Implementou também políticas anticorrupção, conformidade com a LGPD e rastreabilidade da cadeia de suprimentos. Os resultados indicaram impactos socioambientais positivos, como a preservação da biodiversidade e a melhoria da renda de produtores, além do fortalecimento da reputação corporativa. Contudo, a empresa ainda não alcançou lucratividade plena devido aos investimentos em sustentabilidade. Concluiu-se que a adoção de práticas ESG pode ser uma estratégia de diferenciação competitiva e um instrumento de transformação social, demonstrando a viabilidade de alinhar propósito e rentabilidade, embora exija investimentos significativos e condições favoráveis para sua escalabilidade.

Palavras-chave: Estudo de caso; Governança; Setor alimentício; Sustentabilidade corporativa.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Governança no contexto ESG: proposição de métrica para avaliação da divulgação de informações em relatórios integrados

A crescente relevância das práticas ESG no contexto corporativo ampliou a necessidade de transparência e prestação de contas nas divulgações organizacionais, especialmente na governança, evidenciando uma lacuna em instrumentos de avaliação sistemática e comparável. Diante disso, o estudo objetivou desenvolver e propor uma métrica de avaliação para o eixo de governança dos relatórios ESG, com foco nas práticas de divulgação de informações em empresas do setor de telecomunicações listadas na B3. A pesquisa, de natureza aplicada, adotou abordagem qualitativa, exploratória e descritiva. Realizou-se análise documental e de conteúdo em relatórios ESG de empresas do setor, elaborados conforme padrões GRI, SASB e IFRS Sustainability, a partir de indicadores previamente definidos e organizados em dimensões analíticas de governança. Os resultados revelaram diferentes níveis de maturidade informacional entre as empresas, com maior consolidação em indicadores de ética, integridade e gestão de riscos, mas fragilidades na divulgação de informações estruturais, como composição acionária e conflitos de interesses. Observou-se predominância de um nível intermediário de maturidade, com assimetrias na qualidade e consistência das informações divulgadas. A partir desses achados, propôs-se o Índice de Divulgação da Prestação de Contas (IDPC). Concluiu-se que o setor avançou na institucionalização da governança ESG, mas ainda carece de maior padronização e alinhamento às melhores práticas de transparência. O IDPC constitui um instrumento analítico sistematizado e replicável para avaliar a transparência, rastreabilidade e comparabilidade das informações socioinstitucionais.

Palavras-chave: Divulgação de Informações; ESG; Governança; Métrica de Avaliação; Transparência.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Técnicas de Entrevistas Investigativas como Ferramenta Eficaz na Coleta de Informações em Empresa do Setor Farmacêutico

As investigações corporativas desempenham um papel fundamental na eficácia dos programas de integridade empresarial, pois permitem a resposta a potenciais violações do Código de Conduta e legislações aplicáveis, além de subsidiar a adoção de medidas corretivas para desvios sistêmicos. Com o objetivo de diagnosticar a aderência a técnicas cientificamente validadas e eficazes de entrevistas investigativas, avaliou-se o conhecimento e as práticas de Investigadores de Compliance em uma multinacional do setor farmacêutico. A metodologia empregou uma entrevista com um gestor sênior e um questionário respondido pela totalidade da equipe de investigadores, cujos dados foram comparados à literatura especializada, que enfatiza o rapport como abordagem mais eficaz. Os resultados revelaram que, apesar da maturidade da estrutura de Compliance da organização, os profissionais demonstraram baixo domínio de técnicas formais de entrevista investigativa, predominando práticas intuitivas. Adicionalmente, identificou-se a percepção de investimentos insuficientes em capacitação e desenvolvimento. Concluiu-se que existe uma lacuna no conhecimento técnico formal e na capacitação, indicando um espaço para o aprimoramento que pode impactar diretamente a qualidade das investigações e a efetividade do programa de integridade.

Palavras-chave: Compliance; Investigações corporativas; Rapport.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Investimentos em Programas de Privacidade

O avanço do tratamento de dados pessoais em larga escala e a consolidação de marcos regulatórios, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Regulamento Europeu de Proteção de Dados (RGPD), intensificaram a necessidade de estruturas organizacionais voltadas à proteção de dados. Nesse contexto, o estudo teve como objetivo analisar os investimentos em programas de privacidade sob a perspectiva da gestão de riscos, considerando seus impactos operacionais, estratégicos e regulatórios. A pesquisa combinou revisão bibliográfica com estudo de caso aplicado a uma empresa global de grande porte do setor de tecnologia e a construção comparativa de matrizes de risco, a partir da análise de informações públicas sobre a implementação de seu programa de privacidade. Os investimentos realizados pela empresa contribuíram significativamente para a redução da probabilidade de ocorrência de riscos relacionados ao tratamento de dados pessoais, além de promover avanços na governança, na maturidade organizacional e na incorporação da privacidade como elemento transversal às atividades empresariais. Assim, os programas de privacidade, quando sustentados por investimentos contínuos, ultrapassam a função de compliance regulatório e se estabelecem como instrumentos estratégicos capazes de gerar valor e fortalecer a confiança de stakeholders, ainda que persistam limites práticos na mitigação total de riscos inerentes ao ambiente tecnológico.

Palavras-chave: Conformidade regulatória; Estratégia organizacional; Governança; Proteção de dados pessoais; Riscos.

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