Artigo

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Técnicas de Entrevistas Investigativas como Ferramenta Eficaz na Coleta de Informações em Empresa do Setor Farmacêutico

Técnicas de Entrevistas Investigativas como Ferramenta Eficaz na Coleta de Informações em Empresa do Setor Farmacêutico

Juliana Marquesi Federico; Daniel Bruno Vasconcelos

DOI: 10.22167/2675-6528-202603084

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

As investigações corporativas desempenham um papel fundamental na eficácia dos programas de integridade empresarial, pois permitem a resposta a potenciais violações do Código de Conduta e legislações aplicáveis, além de subsidiar a adoção de medidas corretivas para desvios sistêmicos. Com o objetivo de diagnosticar a aderência a técnicas cientificamente validadas e eficazes de entrevistas investigativas, avaliou-se o conhecimento e as práticas de Investigadores de Compliance em uma multinacional do setor farmacêutico. A metodologia empregou uma entrevista com um gestor sênior e um questionário respondido pela totalidade da equipe de investigadores, cujos dados foram comparados à literatura especializada, que enfatiza o rapport como abordagem mais eficaz. Os resultados revelaram que, apesar da maturidade da estrutura de Compliance da organização, os profissionais demonstraram baixo domínio de técnicas formais de entrevista investigativa, predominando práticas intuitivas. Adicionalmente, identificou-se a percepção de investimentos insuficientes em capacitação e desenvolvimento. Concluiu-se que existe uma lacuna no conhecimento técnico formal e na capacitação, indicando um espaço para o aprimoramento que pode impactar diretamente a qualidade das investigações e a efetividade do programa de integridade.

Palavras-chave: Compliance; Investigações corporativas; Rapport.

1. Introdução

Programas de integridade empresarial são cruciais para a governança corporativa e a manutenção de um ambiente ético nas organizações. No Brasil, o Decreto número 11.129 de 11 de julho de 2022, que regulamenta a Lei Anticorrupção número 12.846 de 1 de agosto de 2013, estabelece que os objetivos desses programas devem contemplar a prevenção, a detecção e a resolução de possíveis irregularidades e atos ilícitos, além de fomentar e manter um ambiente baseado na integridade (Brasil, 2022).

Nesse contexto, as investigações corporativas internas emergem como um pilar fundamental para o cumprimento desses objetivos. Elas visam solucionar casos de possíveis desvios de conduta e violações de normas, identificar lacunas e oportunidades de melhoria em processos internos, e servir como fonte de dados para demonstrar questões sistêmicas que demandam ajustes. As entrevistas investigativas, em particular, são processos-chave, pois permitem a coleta de evidências, a identificação de testemunhas, a compreensão de contextos e percepções, e a obtenção de admissões e esclarecimentos a respeito de alegações de descumprimento de regras.

Durante uma entrevista investigativa, o entrevistado pode se encontrar em uma posição de vulnerabilidade devido ao desequilíbrio de poder inerente à relação com o investigador, que ocupa uma posição de autoridade (ATI, 2021). Essa vulnerabilidade pode resultar em impactos momentâneos emocionais, cognitivos e físicos, dificultando o entendimento das perguntas, o acesso às memórias e o desenvolvimento das ideias. Desse modo, uma abordagem não coercitiva é essencial para minimizar esses efeitos e garantir que o fluxo de informações seja facilitado. Nesse sentido, metodologias pautadas em “rapport”, que geram conexão e confiança, têm sido entendidas como a forma mais eficaz de estabelecer colaboração em entrevistas investigativas (Evans et al., 2013).

O “rapport” trata da criação de uma aliança de trabalho entre as pessoas presentes na conversa, onde o entrevistador é responsável por estabelecer um ambiente humanizado, de confiança, dignidade e respeito, promovido a partir da empatia, do interesse genuíno pelo entrevistado e da ausência de julgamentos (Cecconello e Stein, 2023). Essa abordagem visa coletar informações acuradas, completas e verificáveis, e reduz as chances de resistência, agressividade e propagação de mentiras (Alison e Alison, 2020). Em contraste, as abordagens autoritárias, frequentemente observadas em obras ficcionais e ensinadas no passado, são caracterizadas por um comportamento confrontativo, manipulador, com elementos de falsa empatia, podendo atingir níveis de constrangimento, intimidação e agressividade por parte do entrevistador (Cecconello e Stein, 2023; Brimbal et al., 2020). O principal exemplo dessa abordagem é a Reid Technique (Moscatelli, 2020), que tem o propósito de obter confissões a partir de ideias pré-concebidas (ATI, 2021).

Apesar da literatura especializada apontar a superioridade das abordagens pautadas em “rapport”, a prática em ambientes corporativos pode apresentar desafios. Mesmo em organizações com estruturas de Compliance maduras, o presente estudo identificou um baixo domínio de técnicas formais de entrevista investigativa entre os profissionais avaliados. Os resultados evidenciaram que o alinhamento com os princípios do “rapport” ocorre predominantemente de forma intuitiva, e não necessariamente fundamentada em conhecimento formal de metodologias cientificamente validadas. Adicionalmente, foi percebido que os investimentos em capacitação e desenvolvimento técnico externo são inferiores ao desejado, e o ambiente de trabalho é apontado como a principal fonte de aprendizado, o que pode dificultar a variação e a circulação de novas e importantes técnicas estudadas pela literatura especializada.

Diante da importância das investigações corporativas como pilar garantidor do funcionamento de um programa de integridade, e do avanço nos estudos de técnicas eficazes de condução de entrevistas investigativas, torna-se crucial realizar um diagnóstico da aderência das práticas atuais às metodologias validadas pela literatura. Assim, este estudo teve como objetivo realizar um diagnóstico da aderência de práticas validadas como eficazes pela literatura especializada, dada a importância das investigações corporativas como pilar garantidor do funcionamento de um programa de integridade, e o avanço nos estudos de técnicas eficazes de condução de entrevistas investigativas.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza diagnóstica, com abordagem metodológica mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos. O objetivo foi diagnosticar a aderência de práticas de entrevistas investigativas a metodologias validadas pela literatura especializada. Para tanto, realizou-se a coleta de dados primários por meio de entrevista e questionário, complementada por uma revisão bibliográfica abrangente.

A unidade de análise empírica consistiu nas práticas, conhecimentos e percepções da equipe de Investigações de Compliance de uma multinacional de grande porte, atuante no setor farmacêutico. A organização selecionada possui sede em um país europeu e operações em mais de 50 nações, com presença no Brasil há mais de 50 anos, em mais de 20 localidades e com mais de 4 mil funcionários.

A equipe de Investigações de Compliance no Brasil, composta por cinco investigadores, foi o foco da coleta de dados primários. Esses profissionais são responsáveis por casos de potenciais violações ao Código de Conduta e leis locais ocorridas no território brasileiro, reportando-se ao Diretor de Investigações de Compliance localizado na sede da empresa, garantindo a independência do processo.

A coleta de dados primários foi iniciada com uma entrevista semiestruturada conduzida com o Diretor da área de Compliance do Brasil. Esta entrevista ocorreu em 12 de janeiro de 2026, de forma remota, por meio da plataforma Google Meets, e teve duração de 40 minutos. O propósito foi obter informações sobre os fundamentos da área de Compliance, os processos investigativos, o comportamento esperado dos investigadores e as iniciativas de capacitação.

Posteriormente, aplicou-se um questionário online à totalidade dos cinco investigadores de Compliance no Brasil. O questionário foi disponibilizado por meio de um link via Google Forms, e as respostas foram coletadas remotamente entre 15 de janeiro de 2026 e 10 de fevereiro de 2026. O acesso ao instrumento foi intermediado pelo Diretor de Compliance da empresa.

O questionário foi elaborado com perguntas de natureza aberta, em escala Likert e de múltipla escolha, visando capturar dados qualitativos e quantitativos. As questões abordaram o comportamento dos investigadores durante as conversas com denunciantes, vítimas, testemunhas e denunciados, a forma como adquiriram conhecimentos sobre técnicas de entrevistas, o nível de conhecimento sobre técnicas formais e informais percebidas como eficazes, e a percepção sobre o investimento da organização em capacitação e desenvolvimento da equipe.

Adicionalmente à coleta de dados primários, realizou-se uma revisão bibliográfica sistemática. Esta etapa buscou aprofundar o entendimento sobre o uso de entrevistas investigativas não coercitivas, consideradas métodos eficazes para a obtenção de informações em processos investigativos. Foram consultados artigos publicados em revistas científicas, trabalhos acadêmicos e livros de autores renomados na área, tanto em âmbito nacional quanto internacional.

Para a análise dos dados, as respostas obtidas no questionário foram tabuladas, agrupadas e comparadas. Os dados coletados, tanto da entrevista quanto do questionário, foram então confrontados com os achados da revisão bibliográfica. Este procedimento permitiu identificar pontos de convergência e divergência entre as práticas observadas na empresa e as metodologias validadas pela literatura especializada.

3. Resultados e Discussão

A presente investigação teve como propósito diagnosticar a aderência de práticas de entrevistas investigativas, empregadas por profissionais de Compliance em uma multinacional farmacêutica, a metodologias cientificamente validadas. Os resultados obtidos, por meio de uma entrevista com um gestor sênior e um questionário aplicado à equipe de investigadores, revelaram um cenário complexo, onde a maturidade da estrutura de Compliance da organização contrasta com um domínio predominantemente intuitivo das técnicas de entrevista, com lacunas no conhecimento formal e na capacitação externa. A análise dos dados empíricos, confrontada com a literatura especializada, permitiu identificar os pontos de convergência e divergência entre a teoria e a prática, oferecendo um panorama detalhado das abordagens atuais e das oportunidades de aprimoramento.

A estrutura de Compliance da empresa, objeto de estudo, demonstrou ser robusta e independente, com uma equipe de cinco investigadores no Brasil, além de colegas na Polônia e nas Filipinas, todos reportando a um Diretor de Investigações de Compliance na sede europeia. Essa estrutura assegura a autonomia do processo investigativo, um pilar fundamental para a credibilidade e eficácia do programa de integridade, conforme preconizado pelas melhores práticas de governança corporativa. O Diretor de Compliance do Brasil enfatizou que a Política Global de Incidentes de Compliance exige a oitiva do denunciado em praticamente 100% dos casos, além de denunciantes, testemunhas e vítimas, sublinhando a centralidade das entrevistas na coleta de informações e evidências.

No que tange ao incentivo à capacitação e à aplicação de abordagens pautadas em “rapport”, observou-se que, nos últimos cinco anos, não houve incentivo financeiro para treinamentos externos para a equipe de investigações como um todo. Embora a Diretoria local tenha disponibilizado convites para congressos de Compliance em 2024 e 2025, a iniciativa não se traduziu em um programa estruturado de desenvolvimento externo. Em contrapartida, a empresa promoveu um “Workshop” interno de Investigação de Compliance, com duração de três dias, que contou com a participação de todos os investigadores brasileiros e de outras regiões, sendo conduzido principalmente por membros da própria equipe ou de áreas correlatas, como Auditoria Interna e Recursos Humanos.

Os investigadores declararam que a principal fonte de conhecimento sobre técnicas de entrevista provém de treinamentos ministrados por colegas de trabalho e da experiência prática adquirida na condução e observação de entrevistas. Apenas dois dos cinco profissionais buscaram certificações na área (CPIIC, CFE, CFI) ou participaram de congressos, e somente um mencionou ter adquirido conhecimento por meio de instituições de ensino especializadas, pesquisas acadêmicas ou revistas científicas. Essa dependência do aprendizado interno e da experiência prática, embora valiosa, pode limitar a exposição a novas e importantes técnicas estudadas pela literatura especializada, como apontado por Russano et al. (2024).

A análise do perfil dos respondentes revelou que a equipe de investigadores no Brasil é predominantemente feminina, representando 80% do total, com uma distribuição etária variada. Em relação à experiência profissional, a maioria dos investigadores possui mais de quatro anos de atuação na área de entrevistas investigativas, com apenas um profissional indicando menos de quatro anos de experiência. Essa experiência acumulada sugere uma base prática sólida, que pode contribuir para a autoconfiança na condução das investigações, mas não necessariamente para o domínio de técnicas formais, como será detalhado a seguir.

Quando questionados sobre a autopercepção de segurança na condução das entrevistas, a totalidade dos respondentes (100%) afirmou conduzir as conversas com segurança e experiência adequada. Essa percepção de competência, embora positiva, deve ser analisada em conjunto com o baixo domínio de técnicas formais, indicando que a segurança pode estar mais atrelada à experiência prática e à intuição do que a um conhecimento técnico aprofundado. A principal forma de abordagem junto aos entrevistados, segundo 80% dos respondentes, é a criação de um ambiente pautado em confiança e conexão, o que se alinha aos princípios do “rapport”, enquanto 20% preferem uma abordagem direta e objetiva, e nenhum investigador indicou uma abordagem acusatória.

Apesar da preferência por abordagens que fomentam confiança, o nível de familiaridade com técnicas formais de condução de entrevistas revelou uma lacuna significativa. Ao analisar uma lista de técnicas como P.E.A.C.E., Scharff, Cognitive Interview (C.I.), Strategic Use of Evidence (S.U.E.), Motivational Interview (M.I.), entre outras, as opções “Nunca ouvi falar”, “Muito básico” e “Básico” somaram 45 respostas entre os cinco investigadores, enquanto “Intermediário” e “Avançado” totalizaram apenas 20 respostas. Isso demonstra um baixo nível de conhecimento formal das metodologias cientificamente validadas, que são essenciais para a eficácia das entrevistas investigativas, conforme discutido por Cecconello e Stein (2023).

A frequência de uso dessas técnicas formais também corrobora a falta de domínio. A opção “nunca” foi selecionada 35 vezes pelos respondentes, indicando que muitas das metodologias apresentadas são pouco ou nunca aplicadas na prática. É notável que nenhum investigador afirmou utilizar a Reid Technique, uma abordagem coercitiva que a literatura especializada, como Moscatelli (2020), aponta como ineficaz e propensa a gerar confissões falsas. Este achado sugere que, embora as abordagens autoritárias sejam evitadas, as alternativas baseadas em “rapport” também não são formalmente empregadas, o que pode comprometer a qualidade e a acurácia das informações coletadas (Catlin et al., 2024).

Em relação aos temas de maior domínio percebido, 80% dos respondentes indicaram ter bom domínio sobre “rapport”, enquanto outros temas como estruturação de perguntas, detecção de mentiras, identificação e manejo de emoções, e registro e documentação foram mencionados por 60% dos investigadores. Contudo, a análise dos temas de maior interesse para desenvolvimento futuro revelou uma contradição: nenhum investigador demonstrou querer aprender mais sobre “rapport”. Os temas de maior interesse foram estruturação de perguntas (80%) e detecção de mentiras (60%), indicando que, apesar de se considerarem proficientes em “rapport”, os profissionais buscam aprimoramento em outras áreas, talvez percebendo a necessidade de formalização de habilidades que atualmente são exercidas de forma intuitiva.

A percepção sobre o apoio organizacional para o desenvolvimento de competências também foi avaliada. O nível de satisfação com treinamentos internos ministrados por colegas mostrou-se elevado, com 60% dos respondentes satisfeitos e 20% muito satisfeitos, o que se alinha com a realização do “Workshop” interno mencionado pelo Diretor da área. Em contraste, a satisfação com os incentivos para treinamentos externos foi significativamente menor, com apenas 20% dos respondentes demonstrando algum nível de satisfação, e 20% indicando insatisfação ou a ausência de incentivos. Este resultado reforça a observação de que o desenvolvimento técnico é predominantemente interno, limitando a exposição a conhecimentos externos e especializados.

O ambiente de trabalho foi apontado por 40% dos respondentes como a principal fonte de aprendizado, e por outros 40% como um fator que contribui significativamente para o desenvolvimento técnico. Essa dependência do ambiente de trabalho para a aquisição de conhecimento, embora promova a troca de experiências entre colegas, pode dificultar a introdução de novas e importantes técnicas estudadas pela literatura especializada, que não são naturalmente disseminadas em um contexto de aprendizado exclusivamente interno. A falta de incentivo para capacitação externa pode, portanto, perpetuar práticas intuitivas em detrimento de abordagens formalmente validadas, como as baseadas em “rapport” (Alison e Alison, 2020).

Em perguntas abertas sobre o próprio comportamento durante as entrevistas, os investigadores utilizaram termos como “acolhimento”, “adaptação ao entrevistado”, “empatia”, “calma” e “confiança”, demonstrando uma correlação intuitiva com os princípios do “rapport” descritos na literatura. A visão dos entrevistadores sobre o objetivo das conversas também se alinhou à literatura, com todos os cinco respondentes mencionando a “coleta de informações” e dois deles destacando a “criação de um espaço de segurança psicológica”. Esses achados reforçam que, embora a intenção e a prática intuitiva se aproximem dos ideais do “rapport”, a falta de conhecimento formal das técnicas pode limitar a profundidade e a consistência dessa aplicação.

Em síntese, os resultados indicam que, apesar da maturidade da estrutura de Compliance da organização e da autopercepção de segurança dos investigadores, existe uma lacuna notável no conhecimento técnico formal e na capacitação em técnicas de entrevistas investigativas cientificamente validadas. A predominância de práticas intuitivas e a dependência do aprendizado interno, aliadas à percepção de investimentos insuficientes em capacitação externa, sugerem um espaço significativo para o aprimoramento. Este cenário pode impactar diretamente a qualidade das investigações e, consequentemente, a efetividade do programa de integridade, ao não otimizar a coleta de informações acuradas e completas, que é o objetivo central das entrevistas investigativas.

4. Conclusão

Este estudo teve como objetivo diagnosticar a aderência de práticas de entrevistas investigativas, empregadas por profissionais de Compliance em uma multinacional farmacêutica, a metodologias cientificamente validadas. Verificou-se que, apesar da estrutura de Compliance da organização ser madura e independente, os investigadores demonstraram um baixo domínio de técnicas formais de entrevista investigativa, com a predominância de práticas intuitivas. Observou-se que o alinhamento com os princípios do “rapport” ocorria de forma não fundamentada em conhecimento formal de metodologias validadas, e que os investimentos em capacitação e desenvolvimento técnico externo eram percebidos como insuficientes. A principal fonte de aprendizado para a equipe consistia em treinamentos internos e na experiência prática, o que limitava a exposição a novas e importantes técnicas estudadas pela literatura especializada. A contribuição deste trabalho reside em evidenciar uma lacuna crítica no conhecimento técnico formal e na capacitação dos investigadores, indicando um espaço para aprimoramento que pode impactar diretamente a qualidade das investigações e a efetividade do programa de integridade da empresa.

Contudo, as conclusões aqui apresentadas não devem ser generalizadas para todo o setor farmacêutico ou para o universo empresarial brasileiro. A pesquisa foi conduzida em uma única organização, com a participação de apenas cinco investigadores, e parte dos dados foi obtida por meio da autopercepção dos respondentes, o que pode introduzir vieses inerentes à avaliação subjetiva das próprias competências. Tais limitações sugerem cautela na interpretação dos resultados. Para estudos futuros, recomenda-se a replicação desta pesquisa em outras empresas do mesmo setor, visando comparações, e a realização de uma análise longitudinal na organização estudada para acompanhar o desenvolvimento das práticas ao longo do tempo.

Referências Bibliográficas

Alison, E.; Alison, L. 2020. “Rapport”: The Four Ways to Read People. Penguin Random House, London, UK.

Anti-Torture Initiative [ATI]. 2021.Principles on effective interviewing for investigations and information gathering. Disponível em: <https://www.interviewingprinciples.com>. Acesso em: 21 set. 2025.

Brasil. 2022. Decreto nº 11.129, de 11 de julho de 2022. Regulamenta a Lei nº 12.846, de 1º de agosto de 2013, que dispõe sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 12 jul. 2022. Seção 1, p. 7.

Brimbal, L.; Kleinman, S.; Oleszkiewicz, S.; Meissner, C.A. Developing “Rapport” and Trust in the Interrogative Context: An Empirically-Supported Alternative to Customary Interrogation Practices. p. 141-196. In: Barela, S.J.; Fallon, M.; Gaggioli, G.; Ohlin, J.D. 2020. Interrogation and Torture: Integrating Efficacy with Law and Morality. Oxford University Press, New York, EUA.

Catlin, M.; Wilson, D.; Redlich, A.D.; Bettens, T.; Meissner, C.; Bhatt, S.; Brandon, S. 2024; Interview and interrogation methods and their effects on true and false confessions: A systematic review update and extension. Campbell Syst Rev 20(4): Article e1441.

Cecconello, W.W.; Stein, L.M. Manual de Entrevista Investigativa para a Polícia Judiciária. Goiânia, GO, 2023.

Evans, J.R.; Meissner, C.A.; Ross, A.B.; Houston, K.A.; Russano, M.B.; Horgan, A.J. 2013; Obtaining guilty knowledge in human intelligence interrogations: Comparing accusatorial and information-gathering approaches with a novel experimental paradigm. Journal of Applied Research in Memory and Cognition 2(2): 83-88.

Moscatelli, L.Y.N. 2020; Considerações sobre a confissão e o método Reid aplicado na investigação criminal. Revista Brasileira de Direito Processual Penal 6(1): 361-394.

Russano, M.B.; Meissner, C.A.; Atkinson, D.J.; Brandon, S.E.; Wells, S.; Kleinman, S.M.; Ray, D.G.; Jones, M.S. 2024; Evaluating the effectiveness of a 5-day training on science-based methods of interrogation with U.S. federal, state, and local law enforcement investigators. Psychology, Public Policy, and Law 30(2): 105-120.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

Compliance E Esg

13 de outubro de 2026

Compliance Digital e Vieses Algorítmicos: Estudo de Caso sobre Governança Ética da IA Conversacional.

A crescente adoção de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) conversacional em serviços financeiros ampliou ganhos de eficiência, mas introduziu riscos éticos relacionados a vieses algorítmicos e à opacidade dos processos decisórios automatizados. Investigou-se, a partir de um estudo de caso único, de que forma mecanismos de compliance digital podem identificar, prevenir e mitigar vieses algorítmicos em ferramentas de IA conversacional aplicadas à aquisição digital de produtos financeiros. Adotou-se abordagem qualitativa e natureza aplicada, fundamentada em análise documental de uma solução de IA utilizada por instituição financeira de atuação nacional. Confrontou-se a ferramenta com frameworks internacionais de governança ética, incluindo os princípios do Al4People, da OCDE, da UNESCO, do Conselho da Europa, do AI Act e da LGPD. Os resultados indicaram que, embora a ferramenta apresentasse rastreabilidade e supervisão humana parciais, persistiram lacunas significativas na formalização de controles de compliance voltados à mitigação de riscos algorítmicos. Essas lacunas incluíram a ausência de métricas de equidade, de políticas de auditoria algorítmica e de avaliações de impacto ético. Concluiu-se que a conformidade regulatória e os controles técnicos, isoladamente, não bastam para uma governança responsável, sendo necessário um modelo de compliance digital com avaliação contínua de risco algorítmico, accountability formalizada e governança ética institucionalizada para lidar com a complexidade desses sistemas.

Palavras-chave: Accountability corporativa; Auditoria algorítmica; Equidade em sistemas automatizados; LGPD; Proteção de dados pessoais.

Compliance E Esg

13 de outubro de 2026

Mecanismos de integridade na contratação de terceiros por organizações sociais da saúde

A expansão das organizações sociais da saúde no Brasil consolidou um modelo de gestão caracterizado pela descentralização da execução de serviços públicos e pela intensificação das contratações de terceiros. Neste contexto, analisou-se os mecanismos de integridade aplicados à contratação de empresas terceirizadas por organizações sociais da saúde, utilizando como objeto empírico duas entidades localizadas nos estados de Goiás e Santa Catarina. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, com método de estudo de caso múltiplo, fundamentada na análise documental de contratos de gestão, regulamentos internos, programas de integridade, códigos de ética, dados de portais de transparência e informações sobre contratações e aditivos contratuais. Os resultados evidenciaram que ambas as organizações possuíam instrumentos formais de compliance, como programas de integridade e normas de conduta. Contudo, apresentaram limitações relevantes na transparência das contratações de terceiros, na publicidade de contratos e na divulgação de resultados de auditorias e apurações internas, revelando um descompasso entre a estrutura formal e sua efetiva operacionalização. Concluiu-se que a efetividade das parcerias entre o Estado e as organizações sociais depende não apenas da existência formal de programas de integridade, mas da aplicação concreta de práticas de controle, fiscalização e transparência compatíveis com a gestão de recursos públicos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Palavras-chave: Compliance; Contratos de gestão; Organizações sociais da saúde; Programas de integridade; Serviços públicos.

Compliance E Esg

09 de outubro de 2026

Inventários Corporativos de Emissões de Gases de Efeito Estufa: Metodologias, Desafios e Boas Práticas

O presente estudo analisou os inventários corporativos de emissões de gases de efeito estufa (GEE) de empresas multinacionais do setor energético. O objetivo foi avaliar comparativamente os inventários da Petrobras e Eletrobras, no período de 2019 a 2023, com foco nas metodologias, desafios técnicos e institucionais, e boas práticas de mensuração, gestão e reporte. A pesquisa, de caráter descritivo-analítico e documental, examinou as abordagens adotadas para a definição de limites organizacionais, a contabilização dos escopos 1, 2 e 3, o uso de indicadores de intensidade de carbono e os mecanismos de governança climática corporativa. Os resultados indicaram a adoção generalizada de referenciais metodológicos internacionais consolidados, mas revelaram desafios persistentes relacionados à comparabilidade dos inventários, à qualidade dos dados, à variabilidade sistêmica do setor e à gestão de emissões indiretas. Observou-se convergência entre as empresas na institucionalização dos inventários como instrumentos de governança ambiental, com integração a processos decisórios, verificação independente e divulgação pública. Concluiu-se que a consolidação de boas práticas metodológicas e institucionais fortaleceu a transparência, a credibilidade e a utilidade estratégica dos inventários corporativos de GEE, contribuindo para o papel do setor energético na transição para uma economia de baixo carbono.

Palavras-chave: Gases de efeito estufa; Governança climática; Inventário de emissões; Setor energético; Sustentabilidade corporativa.

Compliance E Esg

09 de outubro de 2026

Comunicação e Ética Corporativa: O Papel da Comunicação na Efetividade dos Programas de Compliance

O estudo analisou o papel da comunicação corporativa na efetividade do programa de compliance e integridade em uma organização do setor de engenharia e construção pesada. O objetivo foi analisar a influência da comunicação corporativa na internalização de valores éticos e na efetividade do programa de compliance, identificando instrumentos, analisando práticas e apontando oportunidades de aprimoramento. Utilizou-se uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de um estudo de caso único, com base em análise documental e observação de práticas institucionais, no período de novembro de 2025 a fevereiro de 2026. Examinaram-se documentos como código de conduta, políticas de compliance, registros de treinamentos e comunicados internos. Os resultados evidenciaram que a organização possuía instrumentos formais estruturados para a comunicação do compliance, contribuindo para a disseminação de diretrizes éticas. Contudo, verificou-se que a efetividade do programa não dependia apenas da existência desses mecanismos, mas da forma como eram comunicados e incorporados às práticas cotidianas, destacando-se o papel das lideranças na tradução das diretrizes institucionais em comportamentos concretos. Propôs-se um indicador de efetividade da comunicação de compliance (IECC) para monitoramento contínuo.

Palavras-chave: comunicação interna; cultura organizacional; ética empresarial; governança corporativa; liderança organizacional.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores da Indústria Automobilística e de Autopeças Brasileira

O Grupo Axion, atuante na produção de equipamentos e sistemas automotivos, recebeu a exigência de implementar práticas de gestão sustentável e ESG em sua cadeia de valor. Diante disso, o estudo teve como objetivo verificar a existência de instrumentos, no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, passíveis de adesão pelo Grupo Axion para educação e implementação ESG em sua cadeia de valor, especialmente junto aos pequenos e médios fornecedores. Para tanto, a pesquisa foi dividida em duas partes. Primeiramente, exploraram-se os instrumentos de educação e implementação ESG presentes na cadeia de fornecimento do setor automobilístico e de autopeças brasileiros, por meio da análise de relatórios de sustentabilidade divulgados por empresas listadas na Bolsa de Valores do Brasil (B3) no período de 2015 a 2025. Em seguida, desenvolveu-se um Plano de Educação e Implementação ESG na Cadeia de Pequenos e Médios Fornecedores do Grupo Axion. Nos resultados, concluiu-se que, no setor automobilístico e de autopeças brasileiro, conquanto escassos em termos quantitativos, existem instrumentos de qualidade técnica passíveis de adesão. Ademais, estruturou-se o Plano de Educação e Implementação ESG em quatro etapas essenciais: estruturação, diagnóstico e engajamento, implementação e desenvolvimento, e monitoramento e consolidação, visando suprir a lacuna identificada na estratégia ESG da corporação.

Palavras-chave: Cadeia de Fornecimento; Educação ESG; Gestão Sustentável; Práticas ESG; Setor Automobilístico e de Autopeças.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Práticas ESG no setor alimentício: estratégias sustentáveis e impactos em um modelo de negócio brasileiro

O presente estudo analisou como a adoção de práticas ESG (Environmental, Social and Governance) contribui para a consolidação de um modelo de negócio sustentável no setor alimentício brasileiro. A pesquisa foi conduzida como um estudo de caso qualitativo de uma empresa nacional de chocolates que implementou políticas voltadas à sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança corporativa. A coleta de dados baseou-se em análise documental, relatórios institucionais e entrevistas públicas com executivos, produtores e cofundadores da empresa, tratadas como fontes secundárias. Identificou-se que a empresa adotou o sistema cabruca para o cultivo de cacau, eliminou progressivamente o plástico das embalagens, participou de projetos de créditos de carbono e garantiu remuneração justa aos produtores, visando uma renda digna. Implementou também políticas anticorrupção, conformidade com a LGPD e rastreabilidade da cadeia de suprimentos. Os resultados indicaram impactos socioambientais positivos, como a preservação da biodiversidade e a melhoria da renda de produtores, além do fortalecimento da reputação corporativa. Contudo, a empresa ainda não alcançou lucratividade plena devido aos investimentos em sustentabilidade. Concluiu-se que a adoção de práticas ESG pode ser uma estratégia de diferenciação competitiva e um instrumento de transformação social, demonstrando a viabilidade de alinhar propósito e rentabilidade, embora exija investimentos significativos e condições favoráveis para sua escalabilidade.

Palavras-chave: Estudo de caso; Governança; Setor alimentício; Sustentabilidade corporativa.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Governança no contexto ESG: proposição de métrica para avaliação da divulgação de informações em relatórios integrados

A crescente relevância das práticas ESG no contexto corporativo ampliou a necessidade de transparência e prestação de contas nas divulgações organizacionais, especialmente na governança, evidenciando uma lacuna em instrumentos de avaliação sistemática e comparável. Diante disso, o estudo objetivou desenvolver e propor uma métrica de avaliação para o eixo de governança dos relatórios ESG, com foco nas práticas de divulgação de informações em empresas do setor de telecomunicações listadas na B3. A pesquisa, de natureza aplicada, adotou abordagem qualitativa, exploratória e descritiva. Realizou-se análise documental e de conteúdo em relatórios ESG de empresas do setor, elaborados conforme padrões GRI, SASB e IFRS Sustainability, a partir de indicadores previamente definidos e organizados em dimensões analíticas de governança. Os resultados revelaram diferentes níveis de maturidade informacional entre as empresas, com maior consolidação em indicadores de ética, integridade e gestão de riscos, mas fragilidades na divulgação de informações estruturais, como composição acionária e conflitos de interesses. Observou-se predominância de um nível intermediário de maturidade, com assimetrias na qualidade e consistência das informações divulgadas. A partir desses achados, propôs-se o Índice de Divulgação da Prestação de Contas (IDPC). Concluiu-se que o setor avançou na institucionalização da governança ESG, mas ainda carece de maior padronização e alinhamento às melhores práticas de transparência. O IDPC constitui um instrumento analítico sistematizado e replicável para avaliar a transparência, rastreabilidade e comparabilidade das informações socioinstitucionais.

Palavras-chave: Divulgação de Informações; ESG; Governança; Métrica de Avaliação; Transparência.

Compliance E Esg

08 de outubro de 2026

Investimentos em Programas de Privacidade

O avanço do tratamento de dados pessoais em larga escala e a consolidação de marcos regulatórios, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Regulamento Europeu de Proteção de Dados (RGPD), intensificaram a necessidade de estruturas organizacionais voltadas à proteção de dados. Nesse contexto, o estudo teve como objetivo analisar os investimentos em programas de privacidade sob a perspectiva da gestão de riscos, considerando seus impactos operacionais, estratégicos e regulatórios. A pesquisa combinou revisão bibliográfica com estudo de caso aplicado a uma empresa global de grande porte do setor de tecnologia e a construção comparativa de matrizes de risco, a partir da análise de informações públicas sobre a implementação de seu programa de privacidade. Os investimentos realizados pela empresa contribuíram significativamente para a redução da probabilidade de ocorrência de riscos relacionados ao tratamento de dados pessoais, além de promover avanços na governança, na maturidade organizacional e na incorporação da privacidade como elemento transversal às atividades empresariais. Assim, os programas de privacidade, quando sustentados por investimentos contínuos, ultrapassam a função de compliance regulatório e se estabelecem como instrumentos estratégicos capazes de gerar valor e fortalecer a confiança de stakeholders, ainda que persistam limites práticos na mitigação total de riscos inerentes ao ambiente tecnológico.

Palavras-chave: Conformidade regulatória; Estratégia organizacional; Governança; Proteção de dados pessoais; Riscos.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade