Artigo

Gestão Escolar

30 de setembro de 2026

Gestão da qualidade em um cursinho pré-vestibular

Gestão da Qualidade em um Cursinho Pré-vestibular

Djanelene Cristina Amancio de Melo; Marilda Aparecida Soares

DOI: 10.22167/2675-6528-202602830

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Este estudo investigou a desmotivação de professores e alunos em um cursinho pré-vestibular comunitário na Zona Leste de São Paulo. O objetivo foi aplicar ferramentas de Gestão da Qualidade, como o Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa) e o Brainstorming, para diagnosticar e propor soluções para essa questão. Adotou-se um estudo de caso com abordagem qualitativa e quantitativa. Coletaram-se dados por meio de questionários estruturados aplicados a 22 colaboradores e 350 estudantes, além de uma sessão de brainstorming com a equipe de gestão. Os dados foram analisados para identificar variáveis causais e categorizar problemas. Os resultados revelaram que a desmotivação era multifatorial, com pontos críticos na gestão de pessoas, infraestrutura física, métodos e materiais de ensino. Identificou-se alto índice de burnout entre voluntários e defasagem na base escolar dos alunos. A percepção discente sobre a didática foi majoritariamente positiva (85% satisfatória/excelente), mas o cansaço do trabalho (35%) e a insegurança com conteúdos básicos (62%) foram obstáculos à participação e motivação. Queixas sobre ruído externo e ventilação insuficiente afetaram 70% dos respondentes. Concluiu-se que a aplicação dessas ferramentas de gestão da qualidade é uma estratégia metodológica viável para aprimorar a eficiência institucional e o impacto social do cursinho. A profissionalização da gestão, mesmo em contextos sociais e voluntários, mostrou-se essencial para a sustentabilidade do projeto e a democratização do acesso ao ensino superior.

Palavras-chave: Democratização do ensino; Educação popular; Estudo de caso; Gestão da qualidade; Gestão escolar.

1. Introdução

A história da educação brasileira é marcada pela desigualdade social, pela exclusão e pelo elitismo, apresentando um forte aspecto de mercantilização (Aragão et al., 2015) e impondo grandes desafios para o ingresso no ensino superior, sobretudo nas universidades públicas. Nesse contexto, os cursinhos pré-vestibulares surgem com o propósito de democratizar o acesso à educação superior, oferecendo oportunidades às camadas sociais menos favorecidas por meio da conscientização dos estudantes e em atendimento a demandas como as cotas sociais e raciais.

O objetivo das práticas pedagógicas dos cursinhos pré-vestibulares populares é preparar jovens das camadas historicamente excluídas da educação superior, incluindo populações populares e negras, para a aprovação no vestibular e para um bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Groppo et al., 2015). Esses cursinhos comunitários ganharam força educativa e política nos anos 1990, impulsionados por movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra e os movimentos negros, a exemplo do Pré-Vestibular para Negros e Carentes. Tais instituições visam combater a exclusão educacional e promover a justiça social, funcionando como uma pedagogia decolonial essencial para a emancipação dos jovens estudantes (Cuaspa Ropaín, 2019). A Lei de Cotas (Brasil, 2012) e o Programa Diversidade na Universidade (Lei nº 10.558/2002) reforçam a relevância desses espaços na democratização do acesso.

Além de seu viés social, um cursinho pré-universitário comunitário necessita de uma gestão eficiente para que seus objetivos sejam alcançados. A incorporação de ferramentas de gestão não é apenas um modismo, mas uma integração necessária de novos conceitos para garantir a sobrevivência institucional (Cordeiro, 2025). As práticas de gestão empresarial em ambientes nos quais a educação é o objeto principal são comuns e trazem resultados proveitosos. Para Domingos (2024), a gestão da qualidade em educação deve ser vista sob enfoques teóricos que considerem as particularidades do ambiente escolar.

A Gestão da Qualidade, quando aplicada a cursinhos populares, difere da lógica industrial ou de mercado, na qual a qualidade está centrada no produto e em sua comercialização. Na educação, ela se concentra no processo de ensino-aprendizagem e em seu impacto social. Em um cursinho comunitário, a qualidade assume uma dimensão ética, significando garantir que, mesmo com poucos recursos, o processo seja padronizado, o ambiente seja acolhedor e motivador, e que os recursos materiais e humanos sejam otimizados para evitar a evasão escolar e assegurar a qualidade do ensino ofertado, resultando na aprovação e na inclusão do maior número possível de alunos. A avaliação do rendimento escolar serve como bússola para a gestão educacional, permitindo ajustes que favoreçam o aprendizado (Sousa, 2013; Dias e Melão, 2009). É fundamental que a gestão em instituições de caráter comunitário busque o que Silva (2009) e Sordi et al. (2016) denominam qualidade social, evitando o risco de o discurso da qualidade se tornar uma retórica conservadora baseada em indicadores de desempenho frios (Gentili, 2012). Ferramentas como o Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa, 1993) e o brainstorming são essenciais para uma gestão estratégica (Rosa, 2012) que não perca de vista a função social do projeto.

A desmotivação de professores e alunos em cursinhos comunitários, como o estudado, localizado na Zona Leste de São Paulo, é um problema multifatorial, que se manifesta como um sintoma de falhas operacionais passíveis de correção técnica. A profissionalização da gestão, mesmo em ambientes de caráter social e voluntário, é o caminho para garantir a sustentabilidade do projeto educacional e a efetiva democratização do acesso ao ensino superior. Este estudo de caso, portanto, justifica-se por fornecer um diagnóstico das percepções sobre infraestrutura, conteúdos e métodos, servindo como fator de reflexão para a tomada de decisões assertivas.

O trabalho reafirma a complementaridade entre eficiência educativa e compromisso social, de modo que, ao organizar os processos internos e solucionar as causas da desmotivação, a gestão e a equipe pedagógica fortalecem a missão transformadora do cursinho. Isso impacta positivamente a realidade dos jovens da Zona Leste de São Paulo, por meio do estabelecimento de condições estruturais e didático-pedagógicas adequadas, práticas afirmativas e inclusivas, contribuindo para a democratização do acesso à educação. O objetivo desta pesquisa é coletar dados sobre as dificuldades encontradas pela gestão escolar de um cursinho pré-vestibular comunitário e aplicar o Diagrama de Causa e Efeito, com o propósito de verificar se é possível, a partir da análise dos dados coletados, obter respostas concretas aos problemas identificados e, assim, orientar a tomada de decisões e a implementação de melhorias na gestão institucional.

2. Material e Métodos

O presente estudo, de natureza exploratória e descritiva, adotou a estratégia de estudo de caso, caracterizada como uma abordagem metodológica voltada à investigação aprofundada de um fenômeno dentro de seu contexto real (Gil, 2018). A pesquisa combinou abordagens qualitativa e quantitativa, buscando compreender as dinâmicas de gestão e os fatores que influenciam a motivação em um cursinho pré-vestibular comunitário. O objetivo central foi coletar dados sobre as dificuldades enfrentadas pela gestão escolar e aplicar ferramentas de gestão da qualidade para orientar a tomada de decisões.

A unidade de análise foi um cursinho pré-vestibular comunitário localizado no distrito do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo. Esta instituição, que atua desde 2004, dedica-se à preparação de jovens da periferia da capital paulista para o ingresso no ensino técnico e superior. A escolha do local justifica-se pela relevância de seu papel social e pela necessidade de aprimoramento de sua gestão.

Os participantes da pesquisa foram divididos em dois grupos: a equipe de colaboradores e o corpo discente. A equipe era composta por 27 indivíduos, sendo 2 gestores responsáveis pela coordenação pedagógica e administrativa, 23 professores e 2 profissionais de apoio. Do total da equipe, 22 colaboradores participaram do estudo, representando uma taxa de adesão de aproximadamente 81%.

O corpo discente, por sua vez, contava com aproximadamente 1.000 estudantes matriculados, distribuídos nos períodos matutino, vespertino e noturno. Para a pesquisa, obteve-se a participação de 350 estudantes, o que correspondeu a uma amostra de 35% do total de alunos. Todos os participantes eram adultos saudáveis, legalmente capazes e sem impedimentos, e foram selecionados por conveniência, a partir de sua disponibilidade e interesse em contribuir com o estudo.

Para a coleta de dados primários, utilizou-se um questionário estruturado, elaborado especificamente para a instituição em estudo. As questões direcionadas aos professores abordaram sua experiência profissional, participação e avaliação como docentes de cursinho pré-vestibular. Para os alunos, as perguntas focaram no cotidiano escolar, na percepção do processo de ensino-aprendizagem, na didática aplicada e em seus anseios em relação ao cursinho.

A aplicação dos questionários estruturados foi realizada por meio da ferramenta Google Forms, o que permitiu a sistematização e organização dos dados coletados. Após a coleta, procedeu-se à análise e depuração das informações obtidas, preparando-as para as etapas subsequentes de análise metodológica.

A técnica de análise dos dados empregada foi o Diagrama de Causa e Efeito, também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Espinha de Peixe (Ishikawa, 1993). Esta ferramenta de gestão da qualidade foi utilizada para identificar, organizar e analisar as causas que contribuem para um problema específico, permitindo a visualização das relações de causa e efeito e a determinação das causas fundamentais (Carpinetti, 2012; Chiavenato, 2016).

Para complementar a aplicação do Diagrama de Causa e Efeito e garantir a precisão na categorização das variáveis, utilizou-se o brainstorming, uma técnica de dinâmica de grupo que promove a discussão produtiva e colaborativa (Carpinetti, 2012). Uma sessão de brainstorming foi realizada com a equipe de gestão, funcionários e professores, com a finalidade de identificar o maior número possível de causas potenciais relacionadas à motivação de docentes e discentes.

O Manual de Ferramentas da Qualidade do SEBRAE (2025) serviu como base para a sistematização do uso do Diagrama de Causa e Efeito, orientando a categorização das variáveis e a organização das informações. Os dados consolidados foram inseridos na ferramenta analítica para representação gráfica das causas e suas relações de interdependência, agrupadas conforme os principais fatores determinantes.

Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados durante toda a pesquisa. Os questionários estruturados foram encaminhados aos participantes com a garantia de consentimento livre e esclarecido, além do sigilo de suas identidades. A pesquisa foi conduzida com o compromisso de proteger a privacidade e a confidencialidade de todos os envolvidos, assegurando a integridade dos dados coletados.

3. Resultados e Discussão

A investigação sobre a desmotivação de professores e alunos em um cursinho pré-vestibular comunitário na Zona Leste de São Paulo revelou um cenário multifatorial, onde a aplicação de ferramentas de Gestão da Qualidade, como o Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa) e o Brainstorming, mostrou-se eficaz para diagnosticar e propor soluções. O estudo de caso permitiu uma análise aprofundada das percepções e desafios enfrentados, evidenciando que a desmotivação não é um problema isolado, mas um sintoma de falhas operacionais e estruturais passíveis de intervenção técnica. Os achados confirmam a relevância de uma gestão profissionalizada, mesmo em contextos de caráter social e voluntário, para a sustentabilidade e o impacto educacional do projeto.

O cursinho em estudo, atuante desde 2004 no distrito do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, desempenha um papel estratégico na preparação de jovens da periferia para o ingresso no ensino técnico e superior. A equipe é composta por 27 colaboradores, incluindo 2 gestores, 23 professores e 2 profissionais de apoio, que atuam nos períodos matutino, vespertino e noturno. O corpo discente abrange aproximadamente 1.000 estudantes, com a maior densidade no período noturno, totalizando cerca de 500 alunos, o que reflete a necessidade de conciliar estudos com a jornada de trabalho. O perfil sociodemográfico predominante é de jovens e adultos de classe média-baixa e baixa, egressos da rede pública de ensino, com renda familiar de até dois salários-mínimos e faixa etária majoritária entre 13 e 20 anos. Historicamente, a instituição mantém uma taxa média de aprovação de 82% em instituições como ETECs, FATECs e outras universidades públicas.

Sistematização e análise dos dados coletados

A coleta de dados primários envolveu um universo de 1.027 indivíduos, com a aplicação de questionários estruturados a 27 colaboradores e 1.000 estudantes. Obteve-se o retorno de 22 colaboradores, o que representa uma taxa de adesão de aproximadamente 81% da equipe, e 350 estudantes, correspondendo a 35% do corpo discente. Essa amostra conferiu robustez à análise quantitativa e qualitativa dos desafios educacionais e administrativos. A sessão de brainstorming com a equipe de gestão, associada aos dados dos questionários, corroborou que a desmotivação entre profissionais e alunos é um fenômeno multifatorial, sem uma causa única, o que justifica a abordagem sistêmica das ferramentas de gestão da qualidade.

A aplicação preliminar do Diagrama de Ishikawa (6Ms) revelou pontos críticos categorizados em gestão de pessoas, infraestrutura física, método e materiais de ensino. No que tange à gestão de pessoas, identificou-se um alto índice de burnout entre os voluntários, muitos dos quais cumprem jornada dupla de trabalho. Além disso, a falta de treinamentos específicos para lidar com a defasagem escolar dos alunos foi apontada como um fator contribuinte para a desmotivação. Essa realidade sublinha a necessidade de suporte e reconhecimento para a equipe, conforme a Teoria dos Dois Fatores de Herzberg, onde o sentido do trabalho é um motivador intrínseco fundamental.

A análise da percepção discente sobre a clareza da didática e o cumprimento do conteúdo programático indicou que 55% dos 350 respondentes classificaram a atuação pedagógica como satisfatória, e 30% a consideraram excelente. Isso totaliza uma percepção positiva de 85% sobre o domínio técnico dos professores, sugerindo que, apesar das limitações de recursos, a qualidade do ensino é bem avaliada. Contudo, os 15% que avaliaram a didática como regular ou insuficiente apontam para a necessidade de ajustes metodológicos, especialmente nas disciplinas de ciências exatas e da natureza, a fim de otimizar o aprendizado de todos os estudantes.

Em relação aos fatores motivacionais dos estudantes, os dados revelaram que a perspectiva de aprovação em instituições de prestígio é o principal motor para 45% dos alunos. No entanto, um dado crítico para a gestão da qualidade é que 35% dos estudantes apontaram o cansaço derivado da jornada de trabalho como o principal obstáculo à motivação, impactando diretamente a assiduidade, especialmente no período noturno. Complementarmente, 20% dos alunos destacaram o apoio pedagógico e o acolhimento institucional como fatores essenciais para mantê-los engajados no processo de aprendizagem, reforçando a importância do suporte emocional e pedagógico.

A convergência de diagnósticos entre alunos e colaboradores foi notável. Dos 22 educadores participantes, 60% identificaram a defasagem da base escolar dos alunos como o maior desafio para o cumprimento do cronograma. Essa necessidade de retomar conteúdos básicos da educação fundamental cria um paradoxo na gestão do tempo, exigindo um esforço adicional para equilibrar o nivelamento da turma com o cronograma exigido pelos vestibulares. Enquanto 18% dos colaboradores apontaram a infraestrutura como um ponto de atenção, a questão da defasagem pedagógica permaneceu como o eixo central de preocupação, demonstrando a complexidade da gestão educacional em contextos de periferia.

As queixas sobre a infraestrutura da sala de aula foram significativas, com 70% dos respondentes considerando o conforto térmico e acústico como insatisfatório. Desse grupo, 45% enfatizaram o ruído externo como o principal distrator, e 25% apontaram a ventilação precária como o maior incômodo. Esses fatores dificultam a concentração de docentes e estudantes no período noturno, afetando diretamente o engajamento e a qualidade do ambiente de aprendizagem. A iluminação e o mobiliário foram considerados insatisfatórios por 15% dos respondentes, enquanto outros 15% consideraram as condições satisfatórias, indicando uma heterogeneidade nas percepções.

No que diz respeito aos aspectos metodológicos e às condições de aprendizagem, os alunos relataram que o ritmo das aulas, excessivamente teóricas para cumprir o cronograma do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), gerava frustração na resolução de exercícios. Verificou-se que 56% dos estudantes percebiam um excesso de teoria e um ritmo acelerado, enquanto 30% consideravam o equilíbrio entre teoria e prática adequado. A falta de aprofundamento teórico foi apontada por 8% dos alunos, e 6% tinham outras opiniões. Esses dados sugerem um descompasso entre a abordagem pedagógica e as necessidades de aprendizado dos alunos, que buscam maior equilíbrio entre teoria e prática.

Quanto aos materiais de ensino, a pesquisa revelou a necessidade de apostilas e outros suportes mais alinhados à realidade dos alunos de cursinhos populares, com linguagem mais acessível e exemplos práticos. A avaliação do nível de adequação da linguagem e contextualização dos exemplos nas apostilas atuais indicou que 48% dos estudantes consideravam a linguagem muito complexa ou pouco acessível. Outros 32% classificaram o material como regular, necessitando de mais exemplos práticos, e apenas 20% o consideraram adequado à realidade. Esses resultados reforçam a importância de adaptar os recursos didáticos para facilitar a compreensão e o engajamento dos alunos.

Um aspecto crucial investigado foi a percepção de engajamento em sala de aula. Enquanto os professores sentiam falta de participação ativa dos estudantes, os alunos revelaram que o silêncio em sala muitas vezes era fruto de insegurança, e não de falta de interesse. Os dados mostraram que 62% dos alunos sentiam insegurança frente a conteúdos básicos ou anteriores, e 18% tinham medo de fazer perguntas “bobas” ou errar. O cansaço extremo após a jornada de trabalho foi um fator de inibição para 12% dos alunos, e 3% apontaram outros motivos. Essa descoberta é vital para a gestão pedagógica, pois indica que a barreira para a participação não é a apatia, mas o receio de expor lacunas de aprendizado anteriores.

A pesquisa confirmou a validade do Diagrama de Causa e Efeito como uma ferramenta eficaz para este contexto, permitindo aos gestores visualizar que a desmotivação é um sintoma de falhas operacionais passíveis de correção técnica. A gestão escolar pode atuar em frentes que minimizem o impacto da defasagem escolar, identificada por 60% dos docentes e 62% dos alunos. A análise do engajamento no cursinho em estudo revelou que a motivação interna de gestores e docentes é o que sustenta a instituição desde sua criação em 2004, diferentemente de instituições privadas, onde incentivos financeiros podem ser o principal motivador. No contexto comunitário, a motivação é predominantemente intrínseca, ligada à ética do educador e ao compromisso político e social com a transformação da vida dos jovens da periferia (Freire, 1996).

De acordo com a Teoria dos Dois Fatores de Herzberg, enquanto os fatores higiênicos, como infraestrutura, ventilação e ruído, avaliados negativamente por 70% da amostra, geram insatisfação, o que gera satisfação e engajamento é o reconhecimento e o sentido do trabalho. É vital que a gestão esteja atenta ao limite entre o engajamento e o esgotamento, pois a literatura sobre o Terceiro Setor alerta para o risco da romantização da precariedade, onde o propósito social não substitui a necessidade de suporte técnico e emocional. A motivação interna precisa ser alimentada por vitórias parciais, como a manutenção da taxa de 82% de aprovação, que serve como feedback positivo e combustível para a resiliência da equipe frente aos desafios de infraestrutura e sobrecarga, reforçando a importância de uma gestão estratégica (Rosa, 2012) que valorize tanto os resultados quanto o bem-estar da equipe.

Em síntese, os resultados desta pesquisa demonstram que a desmotivação de professores e alunos no cursinho pré-vestibular comunitário é um problema complexo, enraizado em questões de gestão de pessoas, infraestrutura, métodos e materiais de ensino, e na defasagem educacional dos alunos. A aplicação do Diagrama de Causa e Efeito, em conjunto com o brainstorming, revelou-se uma estratégia metodológica robusta para identificar essas causas-raiz e orientar a tomada de decisões. Os achados reforçam que a profissionalização da gestão, focada na qualidade social e na otimização dos recursos, é fundamental para a sustentabilidade do projeto e para a efetiva democratização do acesso ao ensino superior, alinhando eficiência educativa com o compromisso social da instituição.

4. Conclusão

O presente estudo buscou coletar dados sobre as dificuldades enfrentadas pela gestão escolar de um cursinho pré-vestibular comunitário e aplicar o Diagrama de Causa e Efeito, com o propósito de verificar a viabilidade de obter respostas concretas aos problemas de desmotivação de professores e alunos, orientando a tomada de decisões e a implementação de melhorias. Verificou-se que a desmotivação era um fenômeno multifatorial, enraizado em questões de gestão de pessoas, infraestrutura física, métodos e materiais de ensino. Identificou-se um alto índice de burnout entre os voluntários, muitos dos quais enfrentavam jornada dupla de trabalho, e a falta de treinamentos específicos para lidar com a defasagem escolar dos alunos. A percepção discente sobre a didática foi majoritariamente positiva, com 85% dos estudantes classificando-a como satisfatória ou excelente. Contudo, o cansaço decorrente da jornada de trabalho e a insegurança frente a conteúdos básicos foram apontados como os principais obstáculos à motivação e participação dos alunos. Queixas sobre ruído externo e ventilação insuficiente afetaram significativamente o ambiente de aprendizagem, e os materiais de ensino foram considerados complexos ou pouco acessíveis por grande parte dos estudantes. A aplicação das ferramentas de Gestão da Qualidade, como o Diagrama de Causa e Efeito e o brainstorming, revelou-se uma estratégia metodológica robusta para diagnosticar essas causas-raiz.

A principal contribuição deste estudo reside na demonstração de que a profissionalização da gestão, mesmo em contextos sociais e voluntários, é essencial para a sustentabilidade de projetos educacionais e para a efetiva democratização do acesso ao ensino superior. Ao organizar os processos internos e solucionar as causas da desmotivação, a gestão e a equipe pedagógica fortalecem a missão transformadora do cursinho, impactando positivamente a realidade dos jovens da Zona Leste de São Paulo. Embora o estudo de caso ofereça um diagnóstico aprofundado para a instituição específica, suas limitações incluem a generalização direta dos achados para outros contextos sem validação adicional. Sugere-se que estudos futuros explorem a implementação das soluções propostas, avaliando seu impacto a longo prazo na motivação e no desempenho dos alunos, e que a metodologia seja replicada em outros cursinhos comunitários para ampliar a compreensão sobre a gestão da qualidade na educação popular.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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Palavras-chave: Afrodescendente; Educação antirracista; Formação inicial.

Gestão Escolar

30 de setembro de 2026

A formação dos Diretores Escolares em Escolas Confessionais: Uma análise curricular à luz da Liderança para a Aprendizagem.

O aumento de instituições de ensino e de matrículas na Educação Básica destaca um duplo desafio para as escolas confessionais: manter a qualidade educacional e alinhar o crescimento sustentável aos princípios e valores institucionais. Nesse contexto, a liderança educacional estratégica do diretor escolar é crucial para conduzir o planejamento pedagógico e institucional. O estudo investigou em que medida os cursos de formação continuada de gestores escolares, voltados ao contexto das escolas confessionais protestantes, incorporaram a liderança estratégica orientada à aprendizagem, alinhada ao referencial teórico-normativo da Liderança para a Aprendizagem (LA) e da Base Nacional de Competências para Diretores Escolares (BNC-DE). A metodologia empregou uma abordagem qualitativa de análise documental comparada, operacionalizada pela técnica de análise de conteúdo categorial. A interpretação das matrizes curriculares, guiada por categorias emergentes e analíticas, revelou que os currículos incorporaram dimensões importantes da formação gestora, como gestão estratégica, desenvolvimento humano, articulação entre teoria e prática e identidade institucional. No entanto, essas dimensões mostraram-se predominantemente fragmentadas, sem um eixo integrador centrado na aprendizagem dos estudantes. Diante disso, propôs-se um modelo analítico incipiente, estruturado em quatro dimensões, que compreende a aprendizagem baseada em evidências como princípio organizador da liderança educacional, sugerindo uma reorientação curricular para superar a fragmentação e promover uma liderança educacional eficaz.

Palavras-chave: BNC-DE; Formação de gestores; Liderança Educacional; Liderança para a Aprendizagem; Planejamento Estratégico.

Gestão Escolar

30 de setembro de 2026

O negligenciamento de pautas étnico-raciais e a inação da gestão escolar na formação de professores

O presente estudo discutiu o negligenciamento das pautas étnico-raciais e a inação da gestão escolar na formação continuada de professores, apesar das Leis 10.639/03 e 11.645/08. O objetivo foi identificar o nível de prioridade dado ao antirracismo no cotidiano escolar e propor uma metodologia de gestão para combater práticas racistas e colonizadoras. Realizou-se uma pesquisa documental, que analisou 38 pautas de Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC) de uma escola pública estadual do Programa de Ensino Integral (PEI) na cidade de São Paulo, durante um ano. O estudo fundamentou-se na pedagogia libertadora de Paulo Freire, em teorias de gestão democrática e nos conceitos de Colonialidade e Epistemicídio. Os resultados indicaram que, apesar do marco legal, a implementação das leis ocorreu de forma episódica e superficial, muitas vezes restrita a datas comemorativas, evidenciando a invisibilidade dos temas étnico-raciais nas formações. A pesquisa indicou a implementação de uma metodologia de gestão, como o Design Thinking, para iniciar um projeto de mudança cultural no espaço escolar. Para isso, a coordenação pedagógica deve atuar como articuladora da formação docente, desempenhando um papel crucial na superação do verbalismo estéril e na transformação da escola em um espaço efetivo de descolonização do saber.

Palavras-chave: Epistemicídio; Formação de Professores; Gestão Escolar; Lei 10.639/03; Relações Étnico-Raciais.

Gestão Escolar

30 de setembro de 2026

Políticas de Inclusão e Antibullying: Uma Perspectiva Jurídico-Gestora nas escolas de ensino regular

A violência e a exclusão escolar, manifestadas em suas diversas formas, representam desafios persistentes no contexto educacional brasileiro, conforme amplamente noticiado. Objetivou-se revisitar as leis que regem a educação e analisar sua aplicação prática, propondo abordagens jurídico-éticas mais assertivas para as escolas. Para isso, analisaram-se documentos federais sobre bullying e inclusão, confrontando-os com casos reais. Realizou-se uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, que investigou, por meio de estudos de caso em escolas do Brasil, as ações corretas e errôneas de gestores e demais profissionais envolvidos em conflitos. Verificou-se que, apesar da existência de leis protetivas para crianças e adolescentes, sua efetividade é comprometida pela falta de capacitação profissional, dificuldade na detecção dos atos ou pelo silenciamento de muitos casos. Evidenciou-se a necessidade de capacitar os adultos no ambiente escolar para identificar, prevenir e combater eficazmente o bullying e a exclusão. Como contribuição, apresentaram-se diversas sugestões para aprimorar a resolução de conflitos, enfatizando a importância da parceria entre a família e a escola, e o investimento na educação para proporcionar um ambiente adequado à aprendizagem.

Palavras-chave: Direitos fundamentais; Estudos de casos; Gestão democrática; Legislação educacional; Resolução de conflitos.

Gestão Escolar

30 de setembro de 2026

Do conteúdo ao protagonismo: a implementação da Aprendizagem Baseada em Projetos no Ensino Médio e suas implicações para a gestão escolar

Este estudo analisou a implementação da Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) na disciplina de Inglês em turmas de 1º e 2º ano do Ensino Médio de uma instituição privada de São Paulo, com o objetivo de investigar suas implicações pedagógicas e para a gestão escolar. A pesquisa, de natureza qualitativa, caracterizou-se como um relato de experiência, fundamentado na observação participante e na análise das produções discentes ao longo de um semestre letivo. A proposta pedagógica consistiu na produção de curtas-metragens autorais, estruturada por uma sequência didática que articulou teoria e prática, favorecendo o uso da língua inglesa em contextos significativos. Os resultados evidenciaram aumento do engajamento e do protagonismo discente, bem como o desenvolvimento de competências como colaboração, criatividade e pensamento crítico. Identificaram-se, contudo, desafios relacionados à gestão do tempo, à adaptação dos estudantes à autonomia e à adequação dos instrumentos avaliativos. Destacou-se o papel da gestão escolar na criação de condições institucionais para sustentar a proposta. Concluiu-se que a efetividade da ABP está condicionada ao alinhamento entre práticas pedagógicas e gestão escolar, demandando planejamento estruturado, acompanhamento contínuo e abertura a ajustes.

Palavras-chave: Aprendizagem significativa; Ensino de inglês; Gestão escolar; Metodologias ativas; Protagonismo discente.

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