Gestão Escolar
30 de setembro de 2026
Gestão da qualidade em um cursinho pré-vestibular
Gestão da Qualidade em um Cursinho Pré-vestibular
Djanelene Cristina Amancio de Melo; Marilda Aparecida Soares
DOI: 10.22167/2675-6528-202602830
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Este estudo investigou a desmotivação de professores e alunos em um cursinho pré-vestibular comunitário na Zona Leste de São Paulo. O objetivo foi aplicar ferramentas de Gestão da Qualidade, como o Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa) e o Brainstorming, para diagnosticar e propor soluções para essa questão. Adotou-se um estudo de caso com abordagem qualitativa e quantitativa. Coletaram-se dados por meio de questionários estruturados aplicados a 22 colaboradores e 350 estudantes, além de uma sessão de brainstorming com a equipe de gestão. Os dados foram analisados para identificar variáveis causais e categorizar problemas. Os resultados revelaram que a desmotivação era multifatorial, com pontos críticos na gestão de pessoas, infraestrutura física, métodos e materiais de ensino. Identificou-se alto índice de burnout entre voluntários e defasagem na base escolar dos alunos. A percepção discente sobre a didática foi majoritariamente positiva (85% satisfatória/excelente), mas o cansaço do trabalho (35%) e a insegurança com conteúdos básicos (62%) foram obstáculos à participação e motivação. Queixas sobre ruído externo e ventilação insuficiente afetaram 70% dos respondentes. Concluiu-se que a aplicação dessas ferramentas de gestão da qualidade é uma estratégia metodológica viável para aprimorar a eficiência institucional e o impacto social do cursinho. A profissionalização da gestão, mesmo em contextos sociais e voluntários, mostrou-se essencial para a sustentabilidade do projeto e a democratização do acesso ao ensino superior.
Palavras-chave: Democratização do ensino; Educação popular; Estudo de caso; Gestão da qualidade; Gestão escolar.
1. Introdução
A história da educação brasileira é marcada pela desigualdade social, pela exclusão e pelo elitismo, apresentando um forte aspecto de mercantilização (Aragão et al., 2015) e impondo grandes desafios para o ingresso no ensino superior, sobretudo nas universidades públicas. Nesse contexto, os cursinhos pré-vestibulares surgem com o propósito de democratizar o acesso à educação superior, oferecendo oportunidades às camadas sociais menos favorecidas por meio da conscientização dos estudantes e em atendimento a demandas como as cotas sociais e raciais.
O objetivo das práticas pedagógicas dos cursinhos pré-vestibulares populares é preparar jovens das camadas historicamente excluídas da educação superior, incluindo populações populares e negras, para a aprovação no vestibular e para um bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Groppo et al., 2015). Esses cursinhos comunitários ganharam força educativa e política nos anos 1990, impulsionados por movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra e os movimentos negros, a exemplo do Pré-Vestibular para Negros e Carentes. Tais instituições visam combater a exclusão educacional e promover a justiça social, funcionando como uma pedagogia decolonial essencial para a emancipação dos jovens estudantes (Cuaspa Ropaín, 2019). A Lei de Cotas (Brasil, 2012) e o Programa Diversidade na Universidade (Lei nº 10.558/2002) reforçam a relevância desses espaços na democratização do acesso.
Além de seu viés social, um cursinho pré-universitário comunitário necessita de uma gestão eficiente para que seus objetivos sejam alcançados. A incorporação de ferramentas de gestão não é apenas um modismo, mas uma integração necessária de novos conceitos para garantir a sobrevivência institucional (Cordeiro, 2025). As práticas de gestão empresarial em ambientes nos quais a educação é o objeto principal são comuns e trazem resultados proveitosos. Para Domingos (2024), a gestão da qualidade em educação deve ser vista sob enfoques teóricos que considerem as particularidades do ambiente escolar.
A Gestão da Qualidade, quando aplicada a cursinhos populares, difere da lógica industrial ou de mercado, na qual a qualidade está centrada no produto e em sua comercialização. Na educação, ela se concentra no processo de ensino-aprendizagem e em seu impacto social. Em um cursinho comunitário, a qualidade assume uma dimensão ética, significando garantir que, mesmo com poucos recursos, o processo seja padronizado, o ambiente seja acolhedor e motivador, e que os recursos materiais e humanos sejam otimizados para evitar a evasão escolar e assegurar a qualidade do ensino ofertado, resultando na aprovação e na inclusão do maior número possível de alunos. A avaliação do rendimento escolar serve como bússola para a gestão educacional, permitindo ajustes que favoreçam o aprendizado (Sousa, 2013; Dias e Melão, 2009). É fundamental que a gestão em instituições de caráter comunitário busque o que Silva (2009) e Sordi et al. (2016) denominam qualidade social, evitando o risco de o discurso da qualidade se tornar uma retórica conservadora baseada em indicadores de desempenho frios (Gentili, 2012). Ferramentas como o Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa, 1993) e o brainstorming são essenciais para uma gestão estratégica (Rosa, 2012) que não perca de vista a função social do projeto.
A desmotivação de professores e alunos em cursinhos comunitários, como o estudado, localizado na Zona Leste de São Paulo, é um problema multifatorial, que se manifesta como um sintoma de falhas operacionais passíveis de correção técnica. A profissionalização da gestão, mesmo em ambientes de caráter social e voluntário, é o caminho para garantir a sustentabilidade do projeto educacional e a efetiva democratização do acesso ao ensino superior. Este estudo de caso, portanto, justifica-se por fornecer um diagnóstico das percepções sobre infraestrutura, conteúdos e métodos, servindo como fator de reflexão para a tomada de decisões assertivas.
O trabalho reafirma a complementaridade entre eficiência educativa e compromisso social, de modo que, ao organizar os processos internos e solucionar as causas da desmotivação, a gestão e a equipe pedagógica fortalecem a missão transformadora do cursinho. Isso impacta positivamente a realidade dos jovens da Zona Leste de São Paulo, por meio do estabelecimento de condições estruturais e didático-pedagógicas adequadas, práticas afirmativas e inclusivas, contribuindo para a democratização do acesso à educação. O objetivo desta pesquisa é coletar dados sobre as dificuldades encontradas pela gestão escolar de um cursinho pré-vestibular comunitário e aplicar o Diagrama de Causa e Efeito, com o propósito de verificar se é possível, a partir da análise dos dados coletados, obter respostas concretas aos problemas identificados e, assim, orientar a tomada de decisões e a implementação de melhorias na gestão institucional.
2. Material e Métodos
O presente estudo, de natureza exploratória e descritiva, adotou a estratégia de estudo de caso, caracterizada como uma abordagem metodológica voltada à investigação aprofundada de um fenômeno dentro de seu contexto real (Gil, 2018). A pesquisa combinou abordagens qualitativa e quantitativa, buscando compreender as dinâmicas de gestão e os fatores que influenciam a motivação em um cursinho pré-vestibular comunitário. O objetivo central foi coletar dados sobre as dificuldades enfrentadas pela gestão escolar e aplicar ferramentas de gestão da qualidade para orientar a tomada de decisões.
A unidade de análise foi um cursinho pré-vestibular comunitário localizado no distrito do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo. Esta instituição, que atua desde 2004, dedica-se à preparação de jovens da periferia da capital paulista para o ingresso no ensino técnico e superior. A escolha do local justifica-se pela relevância de seu papel social e pela necessidade de aprimoramento de sua gestão.
Os participantes da pesquisa foram divididos em dois grupos: a equipe de colaboradores e o corpo discente. A equipe era composta por 27 indivíduos, sendo 2 gestores responsáveis pela coordenação pedagógica e administrativa, 23 professores e 2 profissionais de apoio. Do total da equipe, 22 colaboradores participaram do estudo, representando uma taxa de adesão de aproximadamente 81%.
O corpo discente, por sua vez, contava com aproximadamente 1.000 estudantes matriculados, distribuídos nos períodos matutino, vespertino e noturno. Para a pesquisa, obteve-se a participação de 350 estudantes, o que correspondeu a uma amostra de 35% do total de alunos. Todos os participantes eram adultos saudáveis, legalmente capazes e sem impedimentos, e foram selecionados por conveniência, a partir de sua disponibilidade e interesse em contribuir com o estudo.
Para a coleta de dados primários, utilizou-se um questionário estruturado, elaborado especificamente para a instituição em estudo. As questões direcionadas aos professores abordaram sua experiência profissional, participação e avaliação como docentes de cursinho pré-vestibular. Para os alunos, as perguntas focaram no cotidiano escolar, na percepção do processo de ensino-aprendizagem, na didática aplicada e em seus anseios em relação ao cursinho.
A aplicação dos questionários estruturados foi realizada por meio da ferramenta Google Forms, o que permitiu a sistematização e organização dos dados coletados. Após a coleta, procedeu-se à análise e depuração das informações obtidas, preparando-as para as etapas subsequentes de análise metodológica.
A técnica de análise dos dados empregada foi o Diagrama de Causa e Efeito, também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Espinha de Peixe (Ishikawa, 1993). Esta ferramenta de gestão da qualidade foi utilizada para identificar, organizar e analisar as causas que contribuem para um problema específico, permitindo a visualização das relações de causa e efeito e a determinação das causas fundamentais (Carpinetti, 2012; Chiavenato, 2016).
Para complementar a aplicação do Diagrama de Causa e Efeito e garantir a precisão na categorização das variáveis, utilizou-se o brainstorming, uma técnica de dinâmica de grupo que promove a discussão produtiva e colaborativa (Carpinetti, 2012). Uma sessão de brainstorming foi realizada com a equipe de gestão, funcionários e professores, com a finalidade de identificar o maior número possível de causas potenciais relacionadas à motivação de docentes e discentes.
O Manual de Ferramentas da Qualidade do SEBRAE (2025) serviu como base para a sistematização do uso do Diagrama de Causa e Efeito, orientando a categorização das variáveis e a organização das informações. Os dados consolidados foram inseridos na ferramenta analítica para representação gráfica das causas e suas relações de interdependência, agrupadas conforme os principais fatores determinantes.
Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados durante toda a pesquisa. Os questionários estruturados foram encaminhados aos participantes com a garantia de consentimento livre e esclarecido, além do sigilo de suas identidades. A pesquisa foi conduzida com o compromisso de proteger a privacidade e a confidencialidade de todos os envolvidos, assegurando a integridade dos dados coletados.
3. Resultados e Discussão
A investigação sobre a desmotivação de professores e alunos em um cursinho pré-vestibular comunitário na Zona Leste de São Paulo revelou um cenário multifatorial, onde a aplicação de ferramentas de Gestão da Qualidade, como o Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa) e o Brainstorming, mostrou-se eficaz para diagnosticar e propor soluções. O estudo de caso permitiu uma análise aprofundada das percepções e desafios enfrentados, evidenciando que a desmotivação não é um problema isolado, mas um sintoma de falhas operacionais e estruturais passíveis de intervenção técnica. Os achados confirmam a relevância de uma gestão profissionalizada, mesmo em contextos de caráter social e voluntário, para a sustentabilidade e o impacto educacional do projeto.
O cursinho em estudo, atuante desde 2004 no distrito do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, desempenha um papel estratégico na preparação de jovens da periferia para o ingresso no ensino técnico e superior. A equipe é composta por 27 colaboradores, incluindo 2 gestores, 23 professores e 2 profissionais de apoio, que atuam nos períodos matutino, vespertino e noturno. O corpo discente abrange aproximadamente 1.000 estudantes, com a maior densidade no período noturno, totalizando cerca de 500 alunos, o que reflete a necessidade de conciliar estudos com a jornada de trabalho. O perfil sociodemográfico predominante é de jovens e adultos de classe média-baixa e baixa, egressos da rede pública de ensino, com renda familiar de até dois salários-mínimos e faixa etária majoritária entre 13 e 20 anos. Historicamente, a instituição mantém uma taxa média de aprovação de 82% em instituições como ETECs, FATECs e outras universidades públicas.
Sistematização e análise dos dados coletados
A coleta de dados primários envolveu um universo de 1.027 indivíduos, com a aplicação de questionários estruturados a 27 colaboradores e 1.000 estudantes. Obteve-se o retorno de 22 colaboradores, o que representa uma taxa de adesão de aproximadamente 81% da equipe, e 350 estudantes, correspondendo a 35% do corpo discente. Essa amostra conferiu robustez à análise quantitativa e qualitativa dos desafios educacionais e administrativos. A sessão de brainstorming com a equipe de gestão, associada aos dados dos questionários, corroborou que a desmotivação entre profissionais e alunos é um fenômeno multifatorial, sem uma causa única, o que justifica a abordagem sistêmica das ferramentas de gestão da qualidade.
A aplicação preliminar do Diagrama de Ishikawa (6Ms) revelou pontos críticos categorizados em gestão de pessoas, infraestrutura física, método e materiais de ensino. No que tange à gestão de pessoas, identificou-se um alto índice de burnout entre os voluntários, muitos dos quais cumprem jornada dupla de trabalho. Além disso, a falta de treinamentos específicos para lidar com a defasagem escolar dos alunos foi apontada como um fator contribuinte para a desmotivação. Essa realidade sublinha a necessidade de suporte e reconhecimento para a equipe, conforme a Teoria dos Dois Fatores de Herzberg, onde o sentido do trabalho é um motivador intrínseco fundamental.
A análise da percepção discente sobre a clareza da didática e o cumprimento do conteúdo programático indicou que 55% dos 350 respondentes classificaram a atuação pedagógica como satisfatória, e 30% a consideraram excelente. Isso totaliza uma percepção positiva de 85% sobre o domínio técnico dos professores, sugerindo que, apesar das limitações de recursos, a qualidade do ensino é bem avaliada. Contudo, os 15% que avaliaram a didática como regular ou insuficiente apontam para a necessidade de ajustes metodológicos, especialmente nas disciplinas de ciências exatas e da natureza, a fim de otimizar o aprendizado de todos os estudantes.
Em relação aos fatores motivacionais dos estudantes, os dados revelaram que a perspectiva de aprovação em instituições de prestígio é o principal motor para 45% dos alunos. No entanto, um dado crítico para a gestão da qualidade é que 35% dos estudantes apontaram o cansaço derivado da jornada de trabalho como o principal obstáculo à motivação, impactando diretamente a assiduidade, especialmente no período noturno. Complementarmente, 20% dos alunos destacaram o apoio pedagógico e o acolhimento institucional como fatores essenciais para mantê-los engajados no processo de aprendizagem, reforçando a importância do suporte emocional e pedagógico.
A convergência de diagnósticos entre alunos e colaboradores foi notável. Dos 22 educadores participantes, 60% identificaram a defasagem da base escolar dos alunos como o maior desafio para o cumprimento do cronograma. Essa necessidade de retomar conteúdos básicos da educação fundamental cria um paradoxo na gestão do tempo, exigindo um esforço adicional para equilibrar o nivelamento da turma com o cronograma exigido pelos vestibulares. Enquanto 18% dos colaboradores apontaram a infraestrutura como um ponto de atenção, a questão da defasagem pedagógica permaneceu como o eixo central de preocupação, demonstrando a complexidade da gestão educacional em contextos de periferia.
As queixas sobre a infraestrutura da sala de aula foram significativas, com 70% dos respondentes considerando o conforto térmico e acústico como insatisfatório. Desse grupo, 45% enfatizaram o ruído externo como o principal distrator, e 25% apontaram a ventilação precária como o maior incômodo. Esses fatores dificultam a concentração de docentes e estudantes no período noturno, afetando diretamente o engajamento e a qualidade do ambiente de aprendizagem. A iluminação e o mobiliário foram considerados insatisfatórios por 15% dos respondentes, enquanto outros 15% consideraram as condições satisfatórias, indicando uma heterogeneidade nas percepções.
No que diz respeito aos aspectos metodológicos e às condições de aprendizagem, os alunos relataram que o ritmo das aulas, excessivamente teóricas para cumprir o cronograma do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), gerava frustração na resolução de exercícios. Verificou-se que 56% dos estudantes percebiam um excesso de teoria e um ritmo acelerado, enquanto 30% consideravam o equilíbrio entre teoria e prática adequado. A falta de aprofundamento teórico foi apontada por 8% dos alunos, e 6% tinham outras opiniões. Esses dados sugerem um descompasso entre a abordagem pedagógica e as necessidades de aprendizado dos alunos, que buscam maior equilíbrio entre teoria e prática.
Quanto aos materiais de ensino, a pesquisa revelou a necessidade de apostilas e outros suportes mais alinhados à realidade dos alunos de cursinhos populares, com linguagem mais acessível e exemplos práticos. A avaliação do nível de adequação da linguagem e contextualização dos exemplos nas apostilas atuais indicou que 48% dos estudantes consideravam a linguagem muito complexa ou pouco acessível. Outros 32% classificaram o material como regular, necessitando de mais exemplos práticos, e apenas 20% o consideraram adequado à realidade. Esses resultados reforçam a importância de adaptar os recursos didáticos para facilitar a compreensão e o engajamento dos alunos.
Um aspecto crucial investigado foi a percepção de engajamento em sala de aula. Enquanto os professores sentiam falta de participação ativa dos estudantes, os alunos revelaram que o silêncio em sala muitas vezes era fruto de insegurança, e não de falta de interesse. Os dados mostraram que 62% dos alunos sentiam insegurança frente a conteúdos básicos ou anteriores, e 18% tinham medo de fazer perguntas “bobas” ou errar. O cansaço extremo após a jornada de trabalho foi um fator de inibição para 12% dos alunos, e 3% apontaram outros motivos. Essa descoberta é vital para a gestão pedagógica, pois indica que a barreira para a participação não é a apatia, mas o receio de expor lacunas de aprendizado anteriores.
A pesquisa confirmou a validade do Diagrama de Causa e Efeito como uma ferramenta eficaz para este contexto, permitindo aos gestores visualizar que a desmotivação é um sintoma de falhas operacionais passíveis de correção técnica. A gestão escolar pode atuar em frentes que minimizem o impacto da defasagem escolar, identificada por 60% dos docentes e 62% dos alunos. A análise do engajamento no cursinho em estudo revelou que a motivação interna de gestores e docentes é o que sustenta a instituição desde sua criação em 2004, diferentemente de instituições privadas, onde incentivos financeiros podem ser o principal motivador. No contexto comunitário, a motivação é predominantemente intrínseca, ligada à ética do educador e ao compromisso político e social com a transformação da vida dos jovens da periferia (Freire, 1996).
De acordo com a Teoria dos Dois Fatores de Herzberg, enquanto os fatores higiênicos, como infraestrutura, ventilação e ruído, avaliados negativamente por 70% da amostra, geram insatisfação, o que gera satisfação e engajamento é o reconhecimento e o sentido do trabalho. É vital que a gestão esteja atenta ao limite entre o engajamento e o esgotamento, pois a literatura sobre o Terceiro Setor alerta para o risco da romantização da precariedade, onde o propósito social não substitui a necessidade de suporte técnico e emocional. A motivação interna precisa ser alimentada por vitórias parciais, como a manutenção da taxa de 82% de aprovação, que serve como feedback positivo e combustível para a resiliência da equipe frente aos desafios de infraestrutura e sobrecarga, reforçando a importância de uma gestão estratégica (Rosa, 2012) que valorize tanto os resultados quanto o bem-estar da equipe.
Em síntese, os resultados desta pesquisa demonstram que a desmotivação de professores e alunos no cursinho pré-vestibular comunitário é um problema complexo, enraizado em questões de gestão de pessoas, infraestrutura, métodos e materiais de ensino, e na defasagem educacional dos alunos. A aplicação do Diagrama de Causa e Efeito, em conjunto com o brainstorming, revelou-se uma estratégia metodológica robusta para identificar essas causas-raiz e orientar a tomada de decisões. Os achados reforçam que a profissionalização da gestão, focada na qualidade social e na otimização dos recursos, é fundamental para a sustentabilidade do projeto e para a efetiva democratização do acesso ao ensino superior, alinhando eficiência educativa com o compromisso social da instituição.
4. Conclusão
O presente estudo buscou coletar dados sobre as dificuldades enfrentadas pela gestão escolar de um cursinho pré-vestibular comunitário e aplicar o Diagrama de Causa e Efeito, com o propósito de verificar a viabilidade de obter respostas concretas aos problemas de desmotivação de professores e alunos, orientando a tomada de decisões e a implementação de melhorias. Verificou-se que a desmotivação era um fenômeno multifatorial, enraizado em questões de gestão de pessoas, infraestrutura física, métodos e materiais de ensino. Identificou-se um alto índice de burnout entre os voluntários, muitos dos quais enfrentavam jornada dupla de trabalho, e a falta de treinamentos específicos para lidar com a defasagem escolar dos alunos. A percepção discente sobre a didática foi majoritariamente positiva, com 85% dos estudantes classificando-a como satisfatória ou excelente. Contudo, o cansaço decorrente da jornada de trabalho e a insegurança frente a conteúdos básicos foram apontados como os principais obstáculos à motivação e participação dos alunos. Queixas sobre ruído externo e ventilação insuficiente afetaram significativamente o ambiente de aprendizagem, e os materiais de ensino foram considerados complexos ou pouco acessíveis por grande parte dos estudantes. A aplicação das ferramentas de Gestão da Qualidade, como o Diagrama de Causa e Efeito e o brainstorming, revelou-se uma estratégia metodológica robusta para diagnosticar essas causas-raiz.
A principal contribuição deste estudo reside na demonstração de que a profissionalização da gestão, mesmo em contextos sociais e voluntários, é essencial para a sustentabilidade de projetos educacionais e para a efetiva democratização do acesso ao ensino superior. Ao organizar os processos internos e solucionar as causas da desmotivação, a gestão e a equipe pedagógica fortalecem a missão transformadora do cursinho, impactando positivamente a realidade dos jovens da Zona Leste de São Paulo. Embora o estudo de caso ofereça um diagnóstico aprofundado para a instituição específica, suas limitações incluem a generalização direta dos achados para outros contextos sem validação adicional. Sugere-se que estudos futuros explorem a implementação das soluções propostas, avaliando seu impacto a longo prazo na motivação e no desempenho dos alunos, e que a metodologia seja replicada em outros cursinhos comunitários para ampliar a compreensão sobre a gestão da qualidade na educação popular.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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