Neurociência E Aprendizagem Na Educação
09 de outubro de 2026
Neurociência, Desenhos e a Formação Docente: Presenças e Lacunas nas Ementas
Neurociência, Desenhos e a Formação Docente: Presenças e Lacunas nas Ementas
Leandro Veríssimo Delcaro; Maria Fernanda Celli De Oliveira
DOI: 10.22167/2675-6528-202603164
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A neurociência aplicada à educação oferece ferramentas essenciais para a compreensão do desenvolvimento cognitivo, mas observou-se um distanciamento entre esses conhecimentos teóricos e a prática pedagógica. O estudo objetivou diagnosticar a presença de conteúdos de neurociência e grafismo infantil em currículos de cursos de Pedagogia, propondo a elaboração de um material digital de divulgação científica para apoio docente. A metodologia caracterizou-se como pesquisa documental, com análise sistematizada, de caráter exploratório e abordagem quali-quantitativa. Realizou-se um levantamento bibliográfico e uma busca por matrizes curriculares e ementas em páginas oficiais de instituições de ensino superior. Para o tratamento dos dados, utilizou-se o mapeamento de metadados em planilhas eletrônicas, o que permitiu a análise de frequências e a identificação de lacunas curriculares. Os resultados indicaram uma escassez de disciplinas que integrassem diretamente o neurodesenvolvimento ao estudo do grafismo, embora temas gerais de neurociência tenham sido identificados em parte das ementas analisadas. Como produto final, desenvolveu-se um guia digital com orientações práticas fundamentadas nas etapas de desenvolvimento propostas por Luquet, Lowenfeld e Derdyk. O estudo proporcionou um diagnóstico atualizado das grades curriculares e ofereceu uma ferramenta pedagógica para aproximar a ciência da rotina escolar.
Palavras-chave: Desenho infantil; Educação; Matrizes curriculares; Neuroeducação; Pedagogia.
1. Introdução
Os estudos sobre neurociências têm ganhado força na comunidade docente e científica, sendo cada vez mais utilizados por professores que buscam aprimorar práticas pedagógicas e elevar o desempenho dos alunos. Uma pesquisa rápida pelo termo “neurociência” no buscador Google mostrou aproximadamente 3.780.000 resultados entre livros, artigos, vídeos e sites. Concomitantemente, o Google Scholar registrou mais de nove mil publicações sobre o tema no ano de 2025, enquanto o Google Trends indicou que, no Brasil, o interesse público pelo assunto atingiu seu pico de popularidade em dezesseis de março de 2025. Esses indicadores demonstram a expansão do campo e sua contemporânea relevância.
A neurociência se dedica ao estudo das interações do sistema nervoso com fatores internos e externos ao organismo, oferecendo contribuições valiosas para auxiliar as práticas educativas. Quando aplicada à educação, essa área do conhecimento reforça a compreensão de que cada cérebro é único e, consequentemente, os processos de aprendizagem ocorrem de maneiras distintas em cada estudante. Essa perspectiva impulsiona a necessidade de repensar estratégias didáticas, métodos de avaliação e a própria organização curricular, visando atender às variadas formas de aprender presentes em uma sala de aula.
Apesar das significativas contribuições teóricas que têm influenciado a práxis docente, observa-se que esse conhecimento nem sempre é contemplado de forma expressiva nas grades curriculares dos cursos de Pedagogia. Essa situação aponta para uma possível distância entre a produção científica sobre o funcionamento cerebral e a formação inicial de professores, o que pode limitar a aplicação desses saberes no cotidiano escolar. Investigações anteriores já indicaram essa fragilidade curricular, com Grossi et al. (2014) identificando que apenas 6,25% dos cursos de Pedagogia incluíam disciplinas relacionadas às neurociências. Em uma revisão posterior, em 2019, o percentual aumentou apenas para 7,97% (Grossi et al., 2019), sugerindo que, mesmo com o crescente interesse acadêmico, a incorporação de conteúdos neurocientíficos na formação docente permanece limitada.
Nesse contexto, o grafismo infantil emerge como um campo de interesse que dialoga diretamente com a neurociência e a prática pedagógica. O desenho infantil funciona como uma forma de escuta sensível e de expressão, permitindo o acesso a indicadores do desenvolvimento neuro-motor e cognitivo das crianças. A progressão do traço simples ao desenho narrativo revela avanços que contribuem para o processo de alfabetização e para a construção de representações mentais. A literatura aponta que o ato de desenhar mobiliza redes cerebrais envolvidas na linguagem e na formação de estruturas narrativas, além de ativar o córtex pré-frontal e fortalecer funções executivas como o planejamento e a antecipação de ações. Adicionalmente, o desenho favorece estados emocionais positivos e reduz indicadores de ansiedade (Lima e Lima, 2018), tornando-se uma prática pedagógica com potencial para promover aprendizagens integradas entre motricidade, cognição e afetividade.
Considerando a relevância simultânea da neurociência e do desenho para o processo educativo, torna-se crucial investigar como a discussão sobre desenho e grafismo infantil, sob a ótica dos conceitos neurocientíficos, tem sido abordada nos cursos de formação de professores em todo o Brasil. A neuropsicopedagogia, por exemplo, é um campo essencial para compreender as funções cerebrais e a plasticidade neural na infância (Avelino, 2019; Silva, 2020), enquanto ambientes emocionalmente seguros e estímulos artísticos impactam positivamente a motivação e a consolidação da memória (Silva e Barbosa, 2023). A ausência de uma integração explícita desses temas na formação docente representa uma lacuna que pode comprometer a capacidade dos futuros educadores de aplicar esses conhecimentos em sala de aula.
Diante da evidente lacuna entre os avanços da neurociência e a formação docente, bem como da subvalorização do potencial pedagógico do grafismo infantil, este estudo se justifica pela necessidade de diagnosticar a presença e a natureza desses conteúdos nos currículos de Pedagogia. Assim, o objetivo central deste projeto foi analisar as grades curriculares e documentos pedagógicos dos cursos de Pedagogia em instituições públicas brasileiras para verificar a presença e a natureza de conteúdos relacionados à neurociência e ao estudo do desenho e grafismo infantil, buscando, além do aporte teórico, produzir um material de ampla divulgação para que docentes tivessem acesso ao conhecimento e conteúdos explorados.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se por sua natureza exploratória e abordagem quali-quantitativa, com o propósito de aprofundar a familiaridade com o tema e formular hipóteses sobre a inserção de conteúdos de neurociência e desenho na formação de professores. Partiu-se da premissa de que os docentes, em sua formação, poderiam não ter recebido orientações sistemáticas sobre neurociência e desenho, conforme indicado por Grossi et al. (2019). Essa hipótese foi testada por meio do mapeamento documental e da análise dos dados coletados.
Adotou-se o delineamento de pesquisa documental, seguindo as diretrizes estabelecidas por Gil (2002). Essa escolha metodológica justificou-se pela utilização de fontes que demandaram tratamento analítico, como matrizes curriculares e ementas de instituições de ensino superior. A pesquisa documental permitiu a obtenção dos dados necessários a partir de documentos conservados em arquivos digitais de órgãos públicos e instituições educacionais, garantindo a objetividade na verificação das grades curriculares e eliminando a necessidade de interação direta com sujeitos.
O universo da pesquisa compreendeu cursos de Pedagogia oferecidos por instituições de ensino superior públicas brasileiras que disponibilizavam informações publicamente. A amostra foi selecionada com o intuito de assegurar representatividade regional. Foram incluídos apenas cursos devidamente regularizados junto ao Ministério da Educação (MEC), cujas ementas e matrizes curriculares estavam acessíveis em formato digital. Para preservar o sigilo institucional, as fontes de dados foram identificadas apenas pelo nome da cidade e estado.
Os currículos analisados foram priorizados de modo que fossem posteriores ao ano de 2019, visando complementar as investigações de Grossi (2014 e 2019). Contudo, alguns documentos datavam de anos anteriores, mas foram mantidos na análise por serem considerados recorrentes pelas instituições para os ingressantes de 2025. Essa seleção buscou refletir a situação mais atualizada da oferta de conteúdos nas grades curriculares.
As etapas de coleta de dados foram divididas em dois momentos principais. Inicialmente, realizou-se um levantamento bibliográfico abrangente sobre a relevância da neurociência para a aprendizagem e a importância do desenho para o desenvolvimento infantil. Em seguida, procedeu-se à pesquisa documental nos sites oficiais das instituições de ensino superior para a análise das ementas das disciplinas.
Para a pesquisa documental, foram empregadas palavras-chave específicas, como “neurociência e desenho”, “neurociência e formação de professores”, “neurociência e aprendizagem”, “desenvolvimento do desenho infantil” e “importância do grafismo infantil”. As buscas foram realizadas em plataformas acadêmicas como Google Scholar e SciELO. Para garantir a validade científica da análise, utilizou-se o método de mapeamento de metadados, conforme as normas institucionais para este tipo de pesquisa.
A organização dos dados coletados foi realizada por meio de uma planilha eletrônica na plataforma Google Planilhas. Cada coluna da planilha representou um dado relevante para a pesquisa, incluindo: “cidade / estado”, “pública / particular”, “nome do curso”, “ano do currículo analisado”, “palavra-chave: desenho”, “palavra-chave: grafismo”, “palavra-chave: neuro”, “quantidade de ementas e disciplinas analisadas”, “disciplinas relacionadas ao estudo das neurociências, neuroeducação ou neurodesenvolvimento”, “disciplinas relacionadas ao estudo do desenho, grafismo infantil e desenvolvimento do grafismo infantil”, “disciplinas que relacionam o desenho infantil com o neurodesenvolvimento dos alunos” e “observações”. Os materiais analisados foram armazenados em uma pasta no Google Drive para futuras verificações.
Para o tratamento dos dados, utilizou-se o mapeamento de metadados organizado nas planilhas eletrônicas. Essa técnica permitiu a análise de frequências e a identificação de lacunas curriculares, conforme o objetivo de diagnosticar a presença e a natureza dos conteúdos investigados. A análise foi conduzida de forma a identificar padrões e ausências nos currículos, sem antecipar interpretações ou resultados.
Do ponto de vista ético, o projeto não foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Essa dispensa de registro e análise fundamentou-se nos Incisos II e VI do parágrafo único do Artigo 1º da Resolução CNS nº 510 de 2016, uma vez que a pesquisa utilizou exclusivamente informações de acesso público e textos científicos para a revisão da literatura, não envolvendo a coleta de dados diretamente de seres humanos.
Como um dos objetivos do estudo, desenvolveu-se um material digital de divulgação científica. Este material foi concebido para docentes, com linguagem acessível e recomendações práticas, visando aproximar o conteúdo neurocientífico da prática pedagógica. Para a criação desse recurso digital, utilizou-se a plataforma Canva, e sua fundamentação teórica baseou-se na condensação de informações e extração de imagens e figuras de obras de Georges-Henri Luquet (1979), Viktor Lowenfeld (1997) e Edith Derdyk (2015), que serviram como base para o desenvolvimento do conteúdo.
3. Resultados e Discussão
A presente seção de Resultados e Discussão detalha os achados da pesquisa, interpretando-os à luz do referencial teórico e dos objetivos propostos. Inicialmente, apresenta-se o levantamento bibliográfico que fundamentou o estudo, seguido pela análise documental das matrizes curriculares dos cursos de Pedagogia. Por fim, discute-se o processo de desenvolvimento do material digital, que constitui o produto final deste trabalho. Os resultados revelam um panorama sobre a inserção de conteúdos de neurociência e grafismo infantil na formação docente, identificando tanto as presenças quanto as lacunas existentes nos currículos investigados, o que permite uma compreensão aprofundada da interface entre teoria e prática pedagógica.
Levantamento Bibliográfico
O levantamento bibliográfico inicial demonstrou a intrínseca relação entre as emoções e o processo de ensino-aprendizagem, conforme apontado por Silva e Barbosa (2023). Os autores conceituaram as emoções como um sistema complexo de reações químicas e neurais que formam padrões reguladores para a preservação da vida. Verificou-se que emoções positivas, como alegria e interesse, potencializam a motivação, a memória e a concentração, enquanto emoções negativas podem inibir o aprendizado. Essa perspectiva reforça a importância de a escola promover ambientes emocionalmente seguros, utilizando recursos como histórias, músicas e artes para tornar o conteúdo mais significativo e memorável, contribuindo para o desenvolvimento integral dos estudantes.
A neuropsicopedagogia emergiu como um campo transdisciplinar essencial para a compreensão das funções cerebrais e a plasticidade neural na infância, visando a prevenção e reabilitação de problemas escolares (Avelino, 2019; Silva, 2019). Avelino (2019) destacou que o primeiro curso de pós-graduação na área, criado em 2008 no Brasil, já oferecia contribuições significativas para as práticas pedagógicas. Esse especialista colabora na avaliação das necessidades cognitivas dos alunos, propondo atividades diferenciadas que respeitam o ritmo individual de cada estudante. A plasticidade neural, base do aprendizado, exige estímulos nos primeiros anos de vida para o desenvolvimento de habilidades futuras, evidenciando a necessidade de uma formação docente que contemple esses saberes.
Silva (2019) investigou as contribuições da neuropsicopedagogia para a formação de professores no contexto da alfabetização, com foco em intervenções para transtornos de aprendizagem, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O estudo enfatizou a necessidade de maximizar o potencial funcional de cada indivíduo e considerar a individualidade das crianças no processo de ensino, desconstruindo preconceitos e evitando rótulos como “preguiçosos” ou “incompetentes”. Embora as neurociências não busquem recriar a pedagogia, elas validam práticas de ensino que respeitam o funcionamento cerebral, tornando-as mais eficientes. Avelino (2019) defendeu a inclusão da neuropsicopedagogia como disciplina obrigatória em licenciaturas para garantir o suporte necessário aos alunos.
As funções executivas (FE) foram descritas como habilidades cognitivas cruciais para comportamentos complexos e adaptação a mudanças ambientais, incluindo planejamento, monitoramento de tarefas, atenção, abstração, flexibilidade mental, autocontrole e memória operacional (Hamdan e Pereira, 2009). Essas habilidades atingem seu potencial máximo na vida adulta, mas sofrem modificações neurais significativas na adolescência. Niederauer (2019) observou que, durante a puberdade e adolescência, o encéfalo passa por reorganizações, com perda de receptores de dopamina que podem causar tédio e apatia. Assim, o papel do adulto é auxiliar o adolescente na busca de opções e resoluções de conflitos, promovendo um ambiente de apoio.
A gestão de conflitos na escola, um desafio inerente à diversidade de perspectivas, foi investigada por Lopes et al. (2024). O estudo revelou que 82% dos educadores e gestores sentiam frustração e esperança em relação aos conflitos, e apenas 37% dos conflitos vivenciados pelos estudantes em 2023 foram plenamente solucionados. Preocupantemente, 61% dos educadores ainda recorriam a punições autoritárias, indicando a necessidade urgente de formação continuada para abordagens mais dialógicas, como a Comunicação Não-Violenta (CNV). Os autores propuseram estratégias baseadas na divulgação científica e no aprimoramento contínuo da docência, visando ambientes emocionalmente seguros e o desenvolvimento da criatividade (Silva, 2021; Silva, 2023).
Nesse panorama, o grafismo infantil emergiu como uma linguagem multifacetada e um pilar indispensável na educação, interligando a criança às suas experiências vividas (Silva, 2025). Historicamente, o desenho foi utilizado para mensurar a capacidade cognitiva e como recurso projetivo em testes de personalidade, evoluindo para uma ferramenta consolidada na avaliação psicológica e psicoterapia infantil (Oliveira e Grubits, 2020). O desenho também atua como facilitador do vínculo entre terapeuta e criança, auxiliando na redução de sentimentos de desconforto e ansiedade em ambientes hospitalares, conforme exemplificado pelas autoras. Essa versatilidade do grafismo o expandiu para além do contexto terapêutico, tornando-o uma linguagem significativa em diversos cenários.
A perspectiva de Barbosa-Lima e Carvalho (2008) corroborou a ideia de que o desenho infantil é uma ferramenta de avaliação no Ensino Fundamental, utilizando o conceito de “relato gráfico” para expressar o conhecimento construído. As crianças desenham o que sabem, não apenas o que veem, transformando o grafismo em um modo simbólico de objetivar o conhecimento e a imaginação. Concluiu-se que o desenho é um instrumento valioso para o professor identificar a necessidade de retomar assuntos e reforçar conceitos, sem utilizá-lo para classificar turmas, mas sim para promover a construção conceitual. Santos (2013) adicionou uma dimensão psicológica, descrevendo o desenho como uma forma de pensamento onde os mundos interior e exterior se confrontam, tornando-o essencial para compreender o que a criança deseja transmitir.
Oliveira (2023) ampliou o escopo, relacionando a prática do desenho como um recurso pedagógico fundamental para a alfabetização na Educação Infantil. O desenho permite que a criança analise e referencie suas atividades cotidianas, construindo uma base para a aprendizagem. Ele atua como indicador do progresso e desenvolvimento infantil, refletindo a capacidade de interagir com o ambiente. Durante a alfabetização, o desenho serve como canal de comunicação para expressar imaginação, fantasias, alegrias e medos, emergindo como uma linguagem significativa que retrata a visão de mundo e a vivência cotidiana da criança de forma autêntica. O grafismo facilita a inclusão no “mundo letrado” e encoraja a criação de hipóteses sobre o sistema de escrita.
A análise da literatura confirmou a relevância e a assistência que o grafismo infantil pode oferecer em diferentes contextos da educação básica. Desde a alfabetização até a assimilação de conceitos complexos das ciências naturais, o desenho se mostrou uma ferramenta prática e eficaz para o desenvolvimento global dos estudantes, além de ser um meio de avaliação e mediação em diversas faixas etárias. O educador, portanto, possui o papel de estimular o processo criativo e motivar o aluno, apropriando-se da discussão de que o grafismo infantil é um canal crucial para a criança acessar símbolos gráficos essenciais para a leitura e escrita, funcionando também como um importante meio de socialização (Santos, 2013).
Análise dos Dados Obtidos
A análise documental abrangeu 31 grades curriculares de 30 cursos de licenciatura em Pedagogia e um curso de Ciências Biológicas, todos de instituições públicas brasileiras, totalizando 2.236 ementas. As instituições foram distribuídas regionalmente, com 6 no Sul, 10 no Sudeste, 6 no Centro-Oeste, 5 no Nordeste e 4 no Norte. A coleta de dados foi organizada em planilhas eletrônicas, mapeando metadados como cidade/estado, tipo de instituição, nome do curso, ano do currículo, e a presença de palavras-chave como “desenho”, “grafismo” e “neuro”. Os currículos analisados foram selecionados para serem posteriores a 2019, embora alguns documentos anteriores ainda fossem recorrentes para os ingressantes de 2025.
Na busca inicial por palavras-chave, o termo “desenho” foi encontrado em 103 ementas, representando aproximadamente 4,6% do total. Essa busca ampla revelou que o conceito de desenho era abordado principalmente no ensino de artes plásticas, desenho de mapas, desenhos experimentais e fundamentos em História e Geografia. O termo “desenho universal” também apareceu no contexto de acessibilidade e inclusão, visando reduzir barreiras de aprendizado. Em contraste, a palavra “grafismo” teve apenas 6 ocorrências (0,3%), focando no grafismo indígena e, em menor medida, no desenvolvimento infantil, com base na obra de Edith Derdyk (2015). Notavelmente, 29 instituições não registraram nenhuma ocorrência do termo “grafismo”.
A pesquisa pelo prefixo “neuro” resultou em 54 ocorrências (2,4%) nas ementas analisadas, com abordagens que transitaram entre neurolinguística, desenvolvimento neurológico e neuromotor, neuroses e neurodesenvolvimento típico e atípico. Uma análise mais aprofundada, focada em disciplinas que se relacionavam diretamente ao objetivo do estudo, identificou 141 disciplinas (aproximadamente 6,3%) com foco em neurociências. Essas disciplinas estavam inseridas em áreas como Educação Especial, Libras, Introdução à Psicologia, Psicomotricidade, Educação Infantil, Ensino de Línguas, Desenvolvimento de Crianças em Espaços Não Escolares, Psicolinguística, Disfunções da Linguagem e Estágios Supervisionados, indicando uma distribuição temática variada.
Ao comparar os dados com estudos anteriores de Grossi et al. (2014, 2019), que identificaram 6,25% e 7,97% de cursos de Pedagogia com disciplinas relacionadas às neurociências, o presente estudo constatou uma prevalência de aproximadamente 6% nas ementas analisadas. Este resultado corrobora a hipótese inicial de que a formação docente ainda não incorporou significativamente os avanços da neurociência, mantendo a lacuna entre a produção científica e a prática pedagógica. Observou-se que, embora o conhecimento neurocientífico estivesse presente, raramente aparecia no título das disciplinas, sendo tratado sob nomenclaturas da Psicologia, como “Desenvolvimento Cognitivo” ou “Bases Biológicas”, o que sugere uma abordagem mais técnica e menos integrada.
A área de Educação Especial e Inclusiva foi o principal foco do estudo do neurodesenvolvimento, com 27 instituições tratando explicitamente desses temas. Nesses contextos, o neurodesenvolvimento foi frequentemente abordado sob a ótica de transtornos como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), deficiências intelectuais e transtornos globais do desenvolvimento. Essa concentração do conhecimento neurocientífico em nichos específicos, em vez de torná-lo uma base para o desenvolvimento global dos discentes, alinha-se às reflexões de Avelino (2019), que alertou para o risco de restringir esses saberes, limitando sua aplicação mais ampla na formação docente.
No refinamento da busca por conteúdos sobre desenho e grafismo infantil, foram identificados 112 resultados (aproximadamente 5%) nas 2.236 ementas. Os objetivos dessas disciplinas estavam voltados para o ensino de artes plásticas, pesquisa em arte e educação, produção de conhecimento, desenvolvimento da linguagem, educação estética, ensino de ciências humanas e naturais, história da educação, fundamentos da alfabetização, desenvolvimento de materiais didáticos, didática e estágios supervisionados. Embora o maior número de ocorrências tenha se concentrado nas Artes Visuais (59 disciplinas), o desenho também se manifestou como ferramenta simbólica na alfabetização (33 disciplinas) e no letramento espacial (17 disciplinas em Geografia/Cartografia), além de ser utilizado para registro quantitativo e raciocínio lógico em Matemática (10 disciplinas).
Apesar da presença multidisciplinar do desenho, não foram encontradas matérias que relacionassem diretamente o neurodesenvolvimento dos alunos com suas produções de desenhos em suas ementas. Contudo, dez disciplinas estabeleceram alguma relação entre a produção do desenho infantil e conceitos da neurociência, como em “Educação Especial”, “Psicologia e Educação”, “Ensino de Artes”, “Estudos de Psicomotricidade” e “Tópicos Especiais”. Nessas disciplinas, a conexão foi estabelecida por meio de bibliografias que abordavam processos psiconeurológicos da formação da imagem, desenvolvimento das funções psicológicas superiores, ou a integração da produção artística infantil ao funcionamento cerebral e cognitivo, conforme obras de Howard Gardner (1999).
A análise das referências bibliográficas presentes nas matrizes curriculares revelou a proeminência de autores clássicos. Lev Vigotski foi citado 25 vezes, sendo uma base teórica para disciplinas de Psicologia e Educação, Alfabetização e Desenvolvimento Infantil, com destaque para “A Formação Social da Mente” (Vigotski, 2007) e “Imaginação e Criação na Infância” (Vigotski, 2009). Alexander Luria foi citado 14 vezes, principalmente em Neuropsicologia, Psicologia do Desenvolvimento e Alfabetização, com a obra “Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem” (Vigotski, Luria e Leontiev, 2010). A ausência de Luquet e Lowenfeld nas referências bibliográficas examinadas, apesar de sua relevância histórica para o grafismo, reforçou a lacuna na divulgação desses saberes na formação docente, enquanto Edith Derdyk (2015) teve alguma presença, destacando uma abordagem contemporânea mais sensível ao corpo e ao gesto.
A lacuna central identificada foi a ausência de disciplinas que relacionassem diretamente o neurodesenvolvimento às produções gráficas infantis em suas descrições. Embora a base teórica de autores clássicos como Vigotski e Luria seja essencial para a compreensão dos processos psicológicos superiores, sua predominância pareceu reduzir a discussão de conceitos neurocientíficos contemporâneos sobre a aprendizagem e a significância do grafismo e suas fases nos currículos analisados. As limitações da pesquisa incluíram a heterogeneidade no formato dos documentos institucionais, que dificultou a sistematização dos dados, e a falta de distinção entre disciplinas obrigatórias e optativas, o que pôde mascarar a real exposição dos graduandos aos temas investigados. Contudo, a representatividade regional da amostra contribuiu para um diagnóstico abrangente.
Produção do Material Digital e Outras Reflexões
No processo de desenvolvimento do material digital proposto, percebeu-se a escassez de artigos que relacionassem diretamente o grafismo infantil e o neurodesenvolvimento na literatura científica. Essa lacuna evidenciou um campo fértil para investigação, uma vez que o desenho atua como motivador e estimulador de processos cognitivos e motores fundamentais no trabalho com a infância (Silva, 2025). O recurso digital foi criado na plataforma Canva, fundamentado na condensação de informações e extração de imagens dos livros que compuseram a base teórica, visando oferecer um guia prático e acessível para docentes.
A seleção dos teóricos para embasar o material priorizou abordagens que oferecessem suporte ao tema do desenvolvimento do desenho. Georges-Henri Luquet (1979) foi incluído por seu pioneirismo na classificação das quatro fases do desenho: Realismo Fortuito, Realismo Falhado, Realismo Intelectual e Realismo Visual. Essas etapas detalham a evolução gráfica da criança, desde os rabiscos iniciais até a representação com perspectiva e proporções métricas, buscando compreender a evolução sob uma ótica cognitiva. A progressão do desenho reflete o amadurecimento biológico e intelectual, sendo um indicador valioso para educadores.
Viktor Lowenfeld (1997) complementou essa discussão ao detalhar os estágios de desenvolvimento do grafismo infantil, vinculados à autoconfiança e ao amadurecimento. Suas etapas incluem: Garatujas, Pré-Esquemática, Esquemática, Idade do Bando e Pseudo-Naturalista. Essas fases descrevem a evolução dos riscos desordenados para traços controlados e nomeados, as primeiras tentativas de representação do real, a definição do conceito de forma e o uso da linha de base, até a consciência social e a autocrítica. A compreensão desses estágios oferece aos professores uma ferramenta para identificar o nível de desenvolvimento gráfico e emocional de seus alunos.
Edith Derdyk (2015) foi selecionada por sua perspectiva contemporânea, que defende uma visão processual e não linear do grafismo, compreendido como um percurso de “idas e vindas”. Derdyk (2015) organizou o desenvolvimento do grafismo infantil por conteúdos vivenciais, como a Garatuja, a Conquista do Eu e o Primeiro Círculo, a Fase dos Diagramas e Combinações, o Desenho do Saber e Hierarquias Afetivas, a Observação e Causalidade, e a Transição para a Escrita. Essa abordagem valoriza o gesto gráfico de forma processual e sensível, permitindo que a criança acesse símbolos gráficos cruciais para a leitura e escrita, e funciona como um importante meio de socialização.
Embora Jean Piaget (2010) tenha sido uma referência importante, suas ideias sobre os estágios do desenvolvimento cognitivo foram consideradas em conjunto com as bases elaboradas por Luquet e Lowenfeld. De acordo com Silva (2025), o desenho expressa o desenvolvimento da inteligência infantil e a habilidade gráfica aumenta à medida que a cognição é ampliada e estimulada. A correspondência entre esses autores permitiu sustentar que o desenho infantil não é uma atividade isolada, mas uma manifestação do amadurecimento biológico e intelectual da criança. A ausência de Luquet e Lowenfeld nas referências bibliográficas examinadas, apesar de sua relevância histórica, reforçou a necessidade de divulgação desses saberes para apoiar a formação docente.
Silva (2025) assumiu que o desenho é um pilar indispensável na educação, interligando a criança às experiências vividas e destacando o interesse de educadores e pais nas produções gráficas como fundamental para incentivar a expressão. Complementando essas perspectivas, Lima e Lima (2018) reforçaram a relação essencial entre a prática do desenho e a neurociência. Para os autores, o grafismo integra a vida intelectual e emocional, mobilizando redes neurais que fortalecem funções executivas, como planejamento e tomada de decisões. Além de atuar como regulador emocional, o desenho foi descrito como uma “mensagem para o futuro”, permitindo que a criança crie memórias que servirão de base para o domínio posterior da escrita e de outras abstrações complexas, evidenciando seu potencial pedagógico.
Em síntese, os resultados da pesquisa confirmaram a hipótese inicial de que os currículos de Pedagogia em instituições públicas brasileiras ainda apresentam uma inserção limitada de conteúdos neurocientíficos e uma abordagem predominantemente estética do grafismo infantil, dissociada dos processos biológicos de aprendizagem. A prevalência de apenas 6% de ementas com foco em neurociências e a ausência de disciplinas que relacionem diretamente o neurodesenvolvimento à produção gráfica infantil demonstram a persistência de uma lacuna significativa entre os avanços da neurociência e a formação inicial de professores. O material digital desenvolvido, fundamentado em Luquet, Lowenfeld e Derdyk, busca preencher essa lacuna, oferecendo aos docentes ferramentas práticas e acessíveis para integrar o conhecimento científico sobre o neurodesenvolvimento e o grafismo infantil na rotina escolar, respondendo assim ao objetivo central do estudo de diagnosticar e propor soluções para essa deficiência curricular.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar as grades curriculares e documentos pedagógicos de cursos de Pedagogia em instituições públicas brasileiras, buscando verificar a presença de conteúdos relacionados à neurociência e ao grafismo infantil. Verificou-se que a inserção de conteúdos neurocientíficos nos currículos permaneceu limitada, com aproximadamente 6% das ementas abordando o tema, frequentemente sob nomenclaturas da Psicologia ou Biologia, e concentrado na Educação Especial. Em relação ao grafismo infantil, observou-se uma abordagem multidisciplinar, mas predominantemente estética, com escassa integração direta com o neurodesenvolvimento nas descrições das ementas. A proeminência de autores clássicos como Vigotski e Luria foi notada, contudo, a ausência de teóricos fundamentais para o grafismo, como Luquet e Lowenfeld, nas referências bibliográficas examinadas, evidenciou uma lacuna na formação docente. Como principal contribuição, o estudo ofereceu um diagnóstico atualizado das matrizes curriculares e desenvolveu um guia digital com orientações práticas, fundamentadas nas etapas de desenvolvimento do desenho propostas por Luquet, Lowenfeld e Derdyk, visando aproximar o conhecimento científico da prática pedagógica.
A pesquisa apresentou limitações decorrentes da heterogeneidade no formato dos documentos institucionais e da impossibilidade de distinguir entre disciplinas obrigatórias e optativas, o que pôde mascarar a real exposição dos graduandos aos temas. Além disso, a análise restringiu-se a instituições públicas, não abrangendo o universo completo da formação docente no Brasil. Sugere-se que futuras investigações busquem compreender como a ausência desses temas impacta a prática cotidiana dos professores em sala de aula, com o objetivo de aprimorar o suporte oferecido ao desenvolvimento integral dos estudantes. Recomenda-se, ainda, a necessidade de revisões curriculares que superem a dependência exclusiva de bases teóricas clássicas e que incorporem diálogos contemporâneos sobre neurociência e grafismo infantil, valorizando o desenho como um indicador do desenvolvimento neuro-motor e cognitivo.
Referências Bibliográficas
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Google Trends, 2025 [Referência completa não encontrada no documento original]
Grossi, M.G.R.; Lopes, A.M.; Couto, P.A. 2014. A neurociência na formação de professores: um estudo da realidade brasileira. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade 23(41): 27-40.
Grossi, M.G.R.; Oliveira, E.S.; Aguiar, F.A. 2019. A neurociência na formação inicial de professores: uma investigação científica. Ensino em Re-Vista 26(3): 871-895.
Lima, E.S.; Lima, M.G. 2018. Neurociência na educação infantil: o significado do ato de desenhar. Paidéia: Revista do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Humanas, Sociais e da Saúde, Universidade FUMEC 13(20): 149-165.
Silva, E.V. 2020. Contribuições da neuropsicopedagogia para a formação docente: um olhar para as dificuldades de aprendiz
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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