Neurociência E Aprendizagem Na Educação
09 de outubro de 2026
A Neurociência Como Norteadora em Aulas de Ciências Naturais na Educação Básica
A Neurociência como Norteadora em Aulas de Ciências Naturais na Educação Básica
Laura Brochini Burza; Maria Fernanda Celli De Oliveira
DOI: 10.22167/2675-6528-202603181
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A neurociência constitui uma aliada poderosa na compreensão dos processos de aprendizagem, embora apenas um terço dos professores demonstre familiaridade com o tema, evidenciando uma lacuna que justifica políticas públicas. No ensino de ciências, a integração da neurociência pode favorecer o desenvolvimento de estratégias para superar barreiras de aprendizagem e melhorar o desempenho acadêmico no Brasil. Pesquisas anteriores não haviam abordado o uso, benefícios e desafios da neurociência no ensino básico brasileiro. A pesquisa objetivou verificar como professores se utilizaram da neurociência como norteadora de aulas de ciências na educação básica, compreender os desafios na aplicação de seus conceitos na docência e propor soluções práticas, incluindo uma sequência didática. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa-quantitativa, aplicada, descritiva e de levantamento de campo, com uma amostra de dez professores de ciências do ensino básico. Utilizou-se um questionário online com escalas Likert para coletar dados sócio-demográficos e sobre o uso ou não da neurociência. A análise dos dados foi descritiva, identificando padrões e tendências com gráficos e estatísticas. Os resultados indicaram que a neurociência foi valorizada, mas sua aplicação prática ainda não é expressiva. Professores que a utilizaram relataram impactos positivos consistentes, enquanto os que não a utilizavam demonstraram interesse, mas enfrentaram barreiras de formação e condições de trabalho. Apesar das limitações, o estudo contribuiu para a compreensão das relações entre neurociência e Educação Básica, propondo programas formativos e colaborativos entre neurocientistas e educadores, visando capacitar docentes a julgar a qualidade e aplicabilidade das evidências.
Palavras-chave: Aprendizagem; Ciências; Educação; Educação Básica; Neurociência.
1. Introdução
A neurociência emerge como uma aliada poderosa na compreensão dos processos cognitivos e emocionais que fundamentam a aprendizagem, oferecendo contribuições significativas para a prática educacional. A aplicação desses conhecimentos no contexto pedagógico propicia uma revisão crítica das metodologias tradicionais, incentivando abordagens que respeitam as particularidades do funcionamento cerebral dos estudantes (Gkintoni et al., 2023). A integração entre neurociência e educação é essencial não apenas para o aprimoramento das estratégias de ensino, mas também para a formação inicial e continuada dos professores, capacitando-os a interpretar e aplicar conhecimentos científicos em sala de aula de forma crítica e eficaz (Ferreira, 2025).
Essa área da ciência contribui para um melhor entendimento dos desafios específicos da aprendizagem, como as dificuldades de leitura e escrita (Dias, 2013). A formação inicial docente é fundamental para integrar a neurociência à educação, promovendo uma prática pedagógica mais reflexiva e embasada cientificamente, com políticas educacionais eficazes e ambientes que potencializam capacidades cognitivas e emocionais (Grossi, Oliveira e Aguiar, 2019; Grossi, Oliveira e Fonseca, 2024; Thomas e Arslan, 2025).
Os conceitos principais da neurociência relacionados à educação e à aprendizagem incluem a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de se modificar com a experiência, essencial para práticas pedagógicas eficazes que valorizam a prática deliberada e o feedback constante (Chang et al., 2021; Dubinsky et al., 2019; Gholami et al., 2022; Jolles e Jolles, 2021; Tan e Amiel, 2019). Também são relevantes os processos de aprendizagem e memória, que sustentam estratégias pedagógicas para a retenção do conhecimento (Azzam e Easteal, 2020); as funções executivas, como atenção e memória de trabalho, cruciais para a gestão da sala e a autorregulação dos alunos (Jolles e Jolles, 2021); e os mecanismos de motivação e emoções, que estimulam o engajamento e superam barreiras emocionais à aprendizagem (Pradeep et al., 2024).
Apesar dos benefícios da neuroeducação, pesquisas indicam que uma parcela significativa dos educadores ainda desconhece ou interpreta erroneamente esses conceitos, o que favorece a perpetuação de neuromitos, crenças equivocadas sobre o funcionamento do cérebro que influenciam negativamente as práticas pedagógicas (Amran e Sommer, 2025; Hughes et al., 2020). Dados recentes apontam que apenas cerca de um terço dos professores demonstra familiaridade com a neurociência educacional (Birkbeck-UCL Centre for Educational Neuroscience, 2022), evidenciando uma lacuna significativa que justifica a urgência de políticas públicas e programas de formação.
No ensino de ciências, a integração da neurociência pode favorecer o desenvolvimento de estratégias pedagógicas que promovam a aprendizagem ativa, a atenção, a memória e o engajamento motivacional dos alunos (Abdullah et al., 2018; Oliver, 2011; Pereira et al., 2018). Isso é particularmente relevante no contexto brasileiro, marcado por desafios educacionais e desigualdades, onde práticas fundamentadas na neurociência podem contribuir para a superação de barreiras de aprendizagem e a melhoria do desempenho acadêmico. Contudo, no Brasil, há uma escassez de pesquisas focadas no ensino de ciências no ensino básico com relação ao uso, benefícios e desafios da implementação da neurociência.
Diante do exposto, a investigação sobre a aplicação da neurociência no ensino de ciências no Brasil mostra-se fundamental para a inovação educacional e para a melhoria da qualidade do ensino. Esta pesquisa pretende contribuir para identificar lacunas e desafios, subsidiando a elaboração de políticas formativas e pedagógicas que valorizem o conhecimento neurocientífico como recurso essencial para o desenvolvimento de práticas educativas mais eficazes e inclusivas no ensino de ciências. O objetivo geral deste estudo é verificar como professores se utilizam da neurociência (conhecimentos e práticas sobre plasticidade neural, funcionamento de mecanismos de memória e aprendizagem, funções executivas, motivação e emoção, aprendizagem ativa, reconhecimento de neuromitos) como norteadora de aulas de ciências naturais no ensino básico e como ela é aplicada na prática, além de elucidar e entender os motivos pelos quais alguns professores não aplicam os conceitos da neurociência (citados anteriormente) na docência e planejamentos, propondo soluções práticas e uma sequência didática adaptável para os que ainda não se utilizam da neurociência em suas aulas.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de abordagem mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos. Quanto aos objetivos, classificou-se como pesquisa aplicada, visando a proposição de soluções práticas para um problema educacional. Em relação aos procedimentos, adotou-se uma natureza descritiva, com o propósito de descrever as características de uma população ou fenômeno, e de levantamento de campo (
survey
), que envolveu a coleta de dados diretamente dos participantes em seu ambiente natural, por meio de um questionário.
A unidade de análise foi composta por professores de ciências do ensino básico. A amostra de participantes totalizou dez docentes (N=10), selecionados da população geral não clínica. Os voluntários não foram remunerados pela participação e foram recrutados por meio de redes sociais online, incluindo plataformas como Facebook e Instagram, além de comunicação via e-mails. Este processo visou alcançar professores interessados na temática da neurociência e educação.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário online, desenvolvido na plataforma Google Forms. O instrumento foi estruturado em três partes distintas para abordar os diferentes aspectos do objetivo da pesquisa. Essa organização permitiu uma coleta sistemática de informações, desde o perfil dos participantes até suas percepções e práticas relacionadas à neurociência no contexto educacional.
A primeira parte do questionário consistiu em um levantamento sócio-demográfico, que incluiu perguntas sobre a idade dos participantes, o tempo de experiência na docência e as disciplinas lecionadas. A segunda parte apresentava uma questão dicotômica: “Você usa conceitos de neurociência conscientemente e ativamente em suas aulas?”, com opções de resposta “Sim” ou “Não”. A resposta a essa pergunta direcionava o participante para uma das seções subsequentes do questionário.
Para os docentes que responderam “Sim” à questão sobre o uso de neurociência, foi apresentada a seção “Utilizo conceitos de neurociência no meu cotidiano como docente”. Esta seção era composta por um questionário do tipo Likert, com escala de 1 a 5, onde 1 significava “discordo completamente” e 5 “concordo completamente”. As frases avaliavam aspectos como o auxílio da neurociência no planejamento de aulas, os efeitos positivos da aprendizagem ativa, a consideração de motivação/emoção e o uso da neurociência como norteadora do planejamento de aulas de ciências.
Já para os participantes que indicaram “Não” utilizar conceitos de neurociência, a seção apresentada foi “Não utilizo conceitos de neurociência no meu cotidiano como docente”. Similarmente, esta parte também empregou um questionário tipo Likert, com a mesma escala de 1 a 5. As frases investigavam a crença no potencial da neuroeducação e as barreiras percebidas para o aprofundamento na neurociência, como a falta de tempo para estudo.
O questionário foi aplicado de forma online, permitindo que os participantes respondessem no momento e local de sua preferência. Antes do início da coleta, foi disponibilizado o Consentimento Livre e Esclarecido (CLE), e a participação na pesquisa estava condicionada à concordância eletrônica com seus termos. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o número CAAE n° 93153425.7.0000.9927, garantindo a observância dos princípios éticos.
A análise dos dados coletados foi realizada de forma descritiva, com o objetivo de resumir o conjunto de informações e identificar padrões e tendências. Para tanto, foram empregados gráficos e estatísticas descritivas, como média, mediana e desvio-padrão, utilizando o software Microsoft Excel. Após a análise e a conclusão do trabalho, todos os dados coletados foram permanentemente deletados, assegurando a privacidade e a segurança dos participantes.
Como parte dos procedimentos para propor soluções práticas, elaborou-se uma sequência didática adaptável para o ensino de ciências naturais na educação básica. Este material foi concebido para auxiliar docentes que ainda não aplicam conceitos de neurociência em suas aulas e planejamentos, fornecendo um recurso prático para a integração desses conhecimentos. A criação da sequência didática alinhou-se ao objetivo de oferecer alternativas aplicáveis à realidade educacional.
3. Resultados e Discussão
A presente investigação buscou compreender a aplicação da neurociência no ensino de ciências na educação básica, identificando padrões de uso, benefícios percebidos, desafios enfrentados e a prevalência de neuromitos entre os docentes. Os resultados obtidos, a partir de uma amostra de dez professores, revelaram um cenário complexo, onde a neurociência é valorizada, mas sua integração prática ainda encontra barreiras significativas. A análise detalhada dos dados permitiu traçar um panorama sobre a relação dos educadores com os conceitos neurocientíficos, fornecendo subsídios para a proposição de soluções práticas e formativas que visam aprimorar a qualidade do ensino de ciências no Brasil, conforme o objetivo geral do estudo.
Perfil dos Participantes
A amostra do estudo foi composta por dez docentes de ciências atuantes na educação básica, com idades que variaram de 24 a 51 anos, demonstrando uma diversidade etária entre os participantes. O tempo de experiência na docência também se mostrou bastante heterogêneo, abrangendo desde professores em início de carreira, com apenas um ano de atuação, até profissionais com vasta experiência, totalizando 32 anos de docência. A média de tempo de docência foi de 12,9 anos, com um desvio-padrão de 10,5 anos, indicando a presença de um grupo diversificado em termos de vivência profissional.
Em relação à formação acadêmica, 60% dos participantes afirmaram possuir pós-graduação, e todos eles indicaram ter histórico de formação continuada na área de Ciências da Natureza. Este dado sugere um perfil de docentes engajados com o aprimoramento de seus conhecimentos na área de atuação, o que é um fator relevante para a discussão sobre a incorporação de novas abordagens pedagógicas. Todos os respondentes manifestaram concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assegurando a conformidade do estudo com os princípios éticos da pesquisa.
Uso Consciente de Conceitos de Neurociência na Prática Docente
Ao investigar se os docentes utilizam conceitos de neurociência de forma consciente e ativa em suas aulas, a pesquisa revelou uma divisão equitativa entre os participantes. Metade da amostra, correspondente a cinco professores, afirmou incorporar ativamente esses conceitos em suas práticas pedagógicas, enquanto os outros cinco declararam não o fazer. Essa distribuição sugere que, apesar da crescente visibilidade da neurociência no campo educacional, sua aplicação sistemática na rotina docente ainda não se consolidou de maneira predominante no contexto educacional brasileiro.
A análise mais aprofundada dos dados, que incluiu a correlação entre o uso da neurociência e a formação específica na área, indicou que, entre os cinco docentes que utilizam a neurociência, três possuíam formação específica em neurociência, como cursos livres ou especializações. Por outro lado, entre os cinco que não utilizam, dois também relataram ter alguma formação na área. Este achado é crucial, pois sugere que a formação em neurociência, por si só, não é um preditor direto da aplicação consciente desses conceitos em sala de aula, apontando para a necessidade de uma formação mais direcionada e prática.
Docentes que Utilizam Conceitos de Neurociência
Os cinco docentes que afirmaram utilizar conceitos de neurociência demonstraram uma percepção altamente positiva dos benefícios dessa integração. As análises das escalas Likert revelaram uma elevada concordância em relação à eficácia da neurociência no planejamento e na prática pedagógica. O item “A neurociência me ajuda a planejar minhas aulas” obteve uma média de 4,2 em uma escala de 1 a 5, onde 5 representa concordância completa, indicando que esses professores percebem a neurociência como um valioso recurso para estruturar suas atividades didáticas.
A percepção de impacto positivo foi ainda mais acentuada no que se refere à “aprendizagem ativa”, que obteve a média mais alta, de 4,8. Este resultado sublinha a crença de que a neurociência valida e potencializa metodologias que colocam o estudante como protagonista do processo de construção do conhecimento. Além disso, os itens relacionados ao “bem-estar dos alunos” e à “melhora do planejamento” também apresentaram médias de 4,2, reforçando a visão de que a neurociência contribui para um ambiente de aprendizagem mais eficaz e acolhedor, alinhado com a literatura que destaca a importância do engajamento emocional (Pradeep et al., 2024).
Os conceitos neurocientíficos mais frequentemente mobilizados por esses docentes incluíram motivação e emoção, funções executivas, neuroplasticidade e mecanismos de memória e aprendizagem. Essa seleção de temas está em consonância com a literatura científica, que os identifica como pilares para a compreensão dos processos de aprendizagem em níveis mecânico e sináptico (Dubinsky et al., 2019; Schwartz et al., 2019). A valorização desses aspectos pelos professores que utilizam a neurociência sugere uma prática pedagógica mais intencional e alinhada aos conhecimentos sobre o funcionamento cerebral, buscando otimizar o processo de ensino-aprendizagem.
Docentes que Não Utilizam Conceitos de Neurociência
Os cinco docentes que declararam não utilizar conceitos de neurociência em suas aulas, embora não os apliquem ativamente, demonstraram uma atitude geralmente favorável em relação ao potencial da neuroeducação. A média de 3,6 na escala Likert para a pergunta sobre a crença no potencial da neuroeducação indica que há um reconhecimento da relevância da área, mesmo entre aqueles que não a incorporam em sua prática. Este interesse, contudo, é acompanhado por uma série de barreiras que impedem a transposição do conhecimento teórico para a ação pedagógica.
As principais barreiras identificadas foram a falta de tempo para estudo, com média de 3,2, e a ausência de incentivo institucional, com média de 3,0. Esses fatores apontam para desafios estruturais e de gestão que dificultam o aprofundamento e a aplicação da neurociência na rotina docente. Outras barreiras significativas incluíram a percepção de que as metodologias de ensino já utilizadas entravam em conflito com os preceitos da neurociência (média de 2,6) e a insegurança quanto à aplicação prática dos conhecimentos neurocientíficos (média de 2,6).
Menos frequentemente, os docentes que não utilizam a neurociência mencionaram a falta de utilidade em aulas de ciências (média de 2,4), a falta de formação adequada (média de 2,0) ou a descrença nos benefícios da neurociência na educação (média de 2,0). Esses dados sugerem que a não utilização da neurociência não se deve, em sua maioria, a uma rejeição conceitual da área, mas sim a limitações de ordem estrutural, institucional e formativa. Tal cenário reforça a existência de um descompasso entre o interesse dos docentes e as condições objetivas para a implementação de práticas pedagógicas baseadas em neurociência (Ching et al., 2020; Schwartz et al., 2019).
Crença em Neuromitos
A investigação sobre a adesão a neuromitos revelou níveis variados de crenças equivocadas entre os participantes. O neuromito dos “estilos de aprendizagem”, que postula que os alunos aprendem melhor quando ensinados de acordo com seu estilo preferencial (visual, auditivo, etc.), apresentou a maior média de concordância, com 4,5. Este achado é particularmente relevante, pois a literatura científica refuta amplamente a eficácia dessa abordagem (Coch, 2018; Jolles & Jolles, 2021), indicando uma persistência de crenças pseudocientíficas no ambiente educacional.
Outros neuromitos investigados incluíram a crença de que exercícios como o Brain Gym melhoram a literacia ou as capacidades cognitivas, que obteve uma média de 3,3. A ideia de que utilizamos apenas 10% do nosso cérebro apresentou uma média de 2,5, enquanto a crença na predominância hemisférica (lado esquerdo ou direito do cérebro determinando capacidades) obteve a menor média, de 2,0. Ao comparar os grupos, verificou-se que a prevalência de neuromitos foi significativamente menor entre os docentes que utilizam a neurociência em sala de aula, em comparação com aqueles que não a utilizam.
Esses resultados apontam para uma coexistência paradoxal entre a formação em neurociência e a adesão a crenças pseudocientíficas, especialmente na ausência de uma formação crítica e aprofundada (Ching et al., 2020). O simples contato ou interesse pela neurociência não garante a aplicação pedagógica correta nem a redução de neuromitos, principalmente quando a formação não é sistemática e baseada em evidências (Im et al., 2018; Privitera, 2021). A alta adesão ao mito dos estilos de aprendizagem é um exemplo claro de como informações intuitivamente plausíveis, mas cientificamente infundadas, podem se perpetuar (Coch, 2018; Pashler et al., 2009).
Análise das Correlações
As análises de correlação de Pearson entre as variáveis-chave do estudo revelaram a ausência de associações lineares estatisticamente significativas. A correlação entre a formação em neurociência e o uso consciente desses conceitos em sala de aula foi nula (r = 0,00), indicando que a posse de formação específica na área não se traduz diretamente em uma maior probabilidade de aplicação prática. Isso significa que, independentemente de terem ou não formação, a proporção de docentes que utilizam e não utilizam a neurociência foi idêntica na amostra investigada.
De forma similar, a correlação entre a formação em neurociência e a crença em neuromitos foi praticamente inexistente (r = 0,013). Este resultado sugere que a formação específica em neurociência, tal como percebida pelos participantes, não foi eficaz em reduzir a adesão a crenças pseudocientíficas. Tais achados corroboram a literatura que indica que o mero contato com a neurociência não garante sua aplicação pedagógica nem a desmistificação de crenças equivocadas, especialmente se a formação não for crítica, sistemática e baseada em evidências (Im et al., 2018; Privitera, 2021).
Discussão e Análise Crítica
A distribuição equilibrada entre docentes que utilizam e não utilizam a neurociência na educação básica corrobora estudos que apontam a neuroeducação como um campo em expansão, mas ainda carente de integração formal nos currículos de formação docente (Ching et al., 2020; Privitera, 2021). A observação de que os professores que aplicam conceitos neurocientíficos possuem formação prévia específica reforça a importância de um treinamento explícito e direcionado, em vez de depender apenas da experiência docente, para a aquisição de conhecimento sobre o funcionamento cerebral (Dubinsky et al., 2019; Schwartz et al., 2019).
A elevada concordância dos docentes com os benefícios da aprendizagem ativa (média de 4,2) e com o uso da neurociência no planejamento pedagógico (média de 4,0) sustenta a compreensão da neurociência como um “porquê biológico” que valida práticas centradas no aluno (Schwartz et al., 2019). A valorização da motivação e da emoção (média de 4,0) está alinhada ao conceito de selo emocional ou marcação emocional, que postula que os estados emocionais modulam diretamente a consolidação da memória de longo prazo (Immordino-Yang & Gotlieb, 2017; Wolfe, 2006).
As barreiras relatadas pelos docentes que não utilizam a neurociência, como a falta de tempo, formação e incentivo institucional, podem refletir a existência de um “abismo de tradução” ou uma “ponte longe demais” entre a produção científica e a prática pedagógica (Bruer, 1997; Clement & Lovat, 2011). A insegurança quanto à aplicação prática reforça a tese de que a transposição direta dos achados laboratoriais para a sala de aula é percebida como complexa, inadequada e carente de mediação pedagógica (Ching et al., 2020; Kaygısız, 2022). Isso evidencia a necessidade de programas formativos que não apenas transmitam informações, mas que também capacitem os docentes a adaptar e aplicar esses conhecimentos de forma contextualizada.
A persistência de neuromitos, como o dos “estilos de aprendizagem” (média de 4,5), mesmo entre docentes com alguma formação em neurociência, ressalta a insuficiência da formação atual para promover uma alfabetização neurocientífica crítica. Este fenômeno é descrito na literatura como um paradoxo, onde professores interessados no cérebro podem ser mais suscetíveis a informações pseudocientíficas de fontes não acadêmicas (Dekker et al., 2012; Jolles & Jolles, 2021). A menor aceitação de mitos como o “uso de 10% do cérebro” (média de 2,5) e a “dominância hemisférica” (média de 2,0) sugere algum sucesso de campanhas de desmistificação, mas ainda aponta para a necessidade de esforços contínuos (Howard-Jones, 2014).
Para propor soluções práticas aos docentes que ainda não utilizam a neurociência, o estudo desenvolveu uma sequência didática adaptável para o Ensino Fundamental 1, com o tema “Neurociência: como o cérebro funciona?”. Essa sequência, detalhada no apêndice do trabalho original, utiliza o espaço da sala de aula e laboratórios, integrando conceitos e práticas da neuroeducação para ensinar aos estudantes sobre o sistema nervoso, os mecanismos de aprendizagem e a neuroplasticidade. A estrutura é fundamentada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e inclui instruções e dicas de aplicação para os docentes, visando reduzir o desafio de incorporar a neurociência no planejamento e nas aulas de ciências.
A sequência didática proposta aborda temas como a neurodiversidade, a construção da inteligência através da neuroplasticidade, o processamento ativo, a reflexão metacognitiva, e os sentidos e percepção. Ela enfatiza a importância de uma abordagem centrada no aluno, que valorize a prática deliberada, o feedback emocional positivo e a consolidação multimodal da memória. A cartilha, que acompanha a sequência, oferece recursos complementares e planos de aula detalhados, buscando empoderar o professor como um “transformador de cérebros”, capaz de projetar experiências sensoriais e cognitivas que moldam a arquitetura neural dos estudantes.
Em síntese, os resultados indicam que a neurociência é amplamente valorizada pelos docentes participantes, embora sua aplicação prática seja restrita a metade da amostra. Os professores que a utilizam relatam impactos positivos no planejamento e engajamento dos estudantes, enquanto os que não a utilizam demonstram interesse, mas enfrentam barreiras estruturais e formativas. A ausência de correlação entre formação e uso consciente, bem como a persistência de neuromitos, evidenciam a necessidade de programas formativos que promovam uma alfabetização neurocientífica crítica e prática, como a sequência didática proposta, contribuindo para a compreensão das relações entre neurociência, formação docente e prática pedagógica na Educação Básica e respondendo ao objetivo do estudo de verificar e propor soluções para a aplicação da neurociência no ensino de ciências.
4. Conclusão
A presente investigação buscou verificar como professores de ciências da educação básica se utilizavam da neurociência como norteadora de suas aulas e os desafios enfrentados na aplicação de seus conceitos. Verificou-se que, embora a neurociência seja amplamente valorizada pelos docentes, sua aplicação prática ainda se mostrava restrita a metade da amostra. Os professores que incorporaram conceitos neurocientíficos relataram impactos positivos consistentes no planejamento pedagógico e no engajamento dos estudantes, destacando a relevância da aprendizagem ativa, motivação e emoção, funções executivas, neuroplasticidade e mecanismos de memória. Por outro lado, os docentes que não a utilizavam demonstraram interesse, mas enfrentavam barreiras significativas, como a falta de tempo para estudo, ausência de incentivo institucional e insegurança quanto à aplicação prática. Identificou-se também a persistência de neuromitos, como o dos estilos de aprendizagem, embora em menor grau entre os que aplicavam a neurociência. A principal contribuição do estudo reside na proposição de uma sequência didática adaptável para o Ensino Fundamental 1, com o tema “Neurociência: como o cérebro funciona?”, visando capacitar os docentes a integrar esses conhecimentos de forma prática e fundamentada na Base Nacional Comum Curricular, superando os desafios identificados.
As limitações do estudo incluíram o tamanho reduzido da amostra e a dependência de dados autorrelatados, o que pode influenciar a generalização dos achados. Contudo, os resultados apresentaram coerência interna e alinhamento com a literatura especializada, servindo como base para a compreensão das relações entre neurociência, formação docente e prática pedagógica na Educação Básica. Sugere-se que futuras pesquisas ampliem a amostra e explorem metodologias complementares para aprofundar a investigação sobre a eficácia de programas formativos que promovam uma alfabetização neurocientífica crítica e a desmistificação de crenças equivocadas, especialmente no ensino de ciências, um campo ainda pouco abordado no contexto brasileiro.
Referências Bibliográficas
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GKINTONI, E.; DIMAKOS, I.; HALKIOPOULOS, C.; ANTONOPOULOU, H. 2023. Contributions of neuroscience to educational praxis: a systematic review. Emerging Science Journal 7: art. 12. DOI: 10.28991/ESJ-2023-SIED2-012.
GROSSI, M. G. R.; OLIVEIRA, E. S.; AGUIAR, F. A. 2019. A neurociência na formação inicial de professores: uma investigação científica. Ensino em Re-Vista 26(3): 871-895. DOI: 10.14393/ER-v26n3a2
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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