Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

05 de outubro de 2026

Elaboração de material educativo sobre higiene do sono para cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro Autista

Elaboração de Material Educativo sobre Higiene do Sono para Cuidadores de Crianças com Transtorno do Espectro Autista

Guilherme Gonçalves Pessoa da Silva; Carolina Matteussi Lino

DOI: 10.22167/2675-6528-202602981

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

O sono exerce papel fundamental nos processos de aprendizagem e no funcionamento cognitivo, e evidências indicam que crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam alterações significativas na arquitetura do sono, com possíveis repercussões no comportamento e no desempenho escolar. Diante desses desafios, objetivou-se elaborar um material educativo direcionado a cuidadores, contendo orientações práticas sobre higiene do sono em crianças com TEA, considerando seus impactos cognitivos, comportamentais e educacionais. O estudo caracterizou-se como um relato de experiência de natureza aplicada, com abordagem qualitativa, descritiva e reflexiva. O desenvolvimento do material baseou-se em dois eixos: a experiência clínica fonoaudiológica do pesquisador, por meio de observações e registros reflexivos, e o embasamento em evidências científicas, através de revisão da literatura sobre a neurociência do sono e o desenvolvimento neurocognitivo no TEA. A análise dos registros clínicos possibilitou a identificação de padrões recorrentes relacionados às dificuldades na higiene do sono em crianças com TEA, como resistência ao adormecer e despertares noturnos. A partir desses achados, elaborou-se uma cartilha educativa com orientações práticas sobre higiene do sono. Espera-se que o material contribua para a orientação de cuidadores na promoção de hábitos de sono adequados, favorecendo melhorias no comportamento, na aprendizagem e na qualidade de vida das crianças, além de auxiliar na redução da sobrecarga parental e na condução mais efetiva da rotina de sono.

Palavras-chave: Aprendizagem; Neurociências; Sono; Transtorno do Espectro Autista.

1. Introdução

Ao longo das últimas décadas, a neurociência tem se dedicado a investigar os mecanismos neurais subjacentes à aprendizagem. Evidências atuais indicam que o sono exerce papel fundamental nesse processo, atuando na consolidação da memória e na fixação dos conteúdos aprendidos (Collins, 2007). Além disso, o sono contribui para a regulação emocional, o aprimoramento das funções executivas e a manutenção da homeostase cerebral. Durante suas diferentes fases, ocorrem processos de reorganização sináptica e de restauração metabólica, essenciais tanto ao funcionamento cognitivo quanto ao equilíbrio do sistema nervoso (Collins, 2007; Acosta, 2019; Buckley et al., 2011; Crick e Mitchison, 1983; Li et al, 2017).

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na interação social, pela presença de interesses restritos e pela manifestação de comportamentos repetitivos (Estabilo et al., 2016). Sua sintomatologia e o grau de comprometimento manifestam-se de forma heterogênea, sendo sua etiologia ainda desconhecida (Estabilo et al., 2016; Marinho et al., 2025). Estudos atuais com crianças diagnosticadas com TEA têm evidenciado diferenças significativas na arquitetura do sono, demonstrando um tempo total de sono reduzido em comparação a crianças sem o diagnóstico (Acosta, 2019; Buckley et al., 2010; Buckley et al., 2011; Buckley et al., 2015). Além disso, durante os ciclos do sono, observa-se uma menor proporção de sono Rapid Eye Movement (REM), fase que desempenha papel essencial na aprendizagem, em virtude de sua importância nos processos de consolidação da memória (Li et al., 2017).

Na perspectiva escolar no contexto do Brasil, a presença de crianças com diagnósticos de TEA na sala de aula se torna cada dia mais uma realidade mais frequente, apresentando um aumento de 425% entre 2003 a 2015 (Rodrigues e Angelucci, 2018; Scamati et al., 2025; Nunes e Schmdit, 2019). Essa realidade apresenta desafios cada vez mais significativos para profissionais que trabalham na educação. Dessa forma, investigar esses processos é fundamental para desenvolver intervenções e estratégias educacionais mais eficazes e inclusivas.

As dificuldades de sono apresentadas por crianças com TEA estendem-se ao contexto familiar, uma vez que seus responsáveis também relatam redução na qualidade e na duração do sono quando comparados a pais de crianças sem o diagnóstico (Kirkpatrick et al., 2019; Meltzer, 2008; Potter, 2017). A percepção dos pais pode influenciar decisões clínicas mais assertivas relacionadas ao sono, ampliando o alcance das intervenções para além do ambiente terapêutico (Kirkpatrick et al., 2019).

Nesse sentido, as alterações no padrão de sono em crianças com TEA representam uma problemática que transcende o âmbito individual, impactando o desenvolvimento cognitivo, o comportamento e a dinâmica familiar e escolar. A necessidade de suporte prático para cuidadores é evidente, justificando a elaboração de recursos que promovam a higiene do sono e melhorem a qualidade de vida dessas crianças e suas famílias. O presente estudo teve por objetivo elaborar um material educativo direcionado a cuidadores, contendo orientações práticas sobre higiene do sono em crianças com TEA, considerando seus impactos cognitivos, comportamentais e educacionais.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como um relato de experiência de natureza aplicada, com abordagem qualitativa, descritiva e reflexiva. A pesquisa qualitativa, conforme Patias e Hohendorff (2019), é relevante para descrever fenômenos comportamentais e sociais, não se limitando a dados quantitativos. O objetivo central foi elaborar um material educativo direcionado a cuidadores, contendo orientações práticas sobre higiene do sono em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), considerando seus impactos cognitivos, comportamentais e educacionais.

O desenvolvimento do material educacional em saúde para pais e cuidadores foi estruturado a partir de dois eixos principais. O primeiro eixo consistiu na experiência clínica fonoaudiológica do pesquisador, enquanto o segundo eixo baseou-se em evidências científicas. Essa abordagem permitiu integrar o conhecimento prático com o embasamento teórico, conforme a natureza de relatos de experiência que contribuem para a produção de conhecimento (Mussi et al., 2021).

A primeira etapa metodológica envolveu a sistematização da experiência clínica do fonoaudiólogo pesquisador, fundamentada em sua prática profissional no atendimento a crianças com TEA. Realizaram-se observações clínicas e registros reflexivos a partir de atendimentos conduzidos ao longo da trajetória profissional. Para tanto, consideraram-se, de forma descritiva, casos clínicos acompanhados, com a preservação integral do anonimato dos pacientes, garantindo os cuidados éticos necessários.

A análise desses registros clínicos permitiu identificar padrões recorrentes relacionados às dificuldades na higiene do sono em crianças com TEA. Observaram-se, por exemplo, resistência ao adormecer e despertares noturnos frequentes. Também foram registradas associações entre as alterações no sono e prejuízos no comportamento, na aprendizagem e na comunicação. Esses elementos subsidiaram a compreensão inicial do fenômeno e orientaram as etapas subsequentes da pesquisa.

A segunda etapa consistiu no embasamento teórico, por meio de uma revisão da literatura sobre a neurociência do sono e o desenvolvimento neurocognitivo no TEA. Foram consultados estudos que indicam o papel fundamental do sono, especialmente da fase Rapid Eye Movement (REM), na consolidação da memória e na aprendizagem (Acosta, 2019; Li et al., 2017). Essa revisão buscou compreender os mecanismos subjacentes e as implicações das alterações do sono no TEA.

Evidências da literatura apontaram alterações significativas no padrão de sono de crianças com TEA, incluindo variações no percentual de sono REM e impactos na conectividade neural (Buckley et al., 2010; Buckley et al., 2015). Tais alterações foram associadas a prejuízos no desenvolvimento cognitivo e comportamental. A literatura também destacou o impacto das dificuldades de sono no contexto familiar e na qualidade de vida (Kirkpatrick et al., 2019; Meltzer, 2008).

A partir da integração entre as evidências empíricas, obtidas da experiência clínica, e os referenciais teóricos, provenientes da revisão da literatura, elaborou-se um material educativo. Este material foi concebido como uma cartilha direcionada a cuidadores de crianças com TEA. A articulação entre esses dois eixos favoreceu uma análise consistente do fenômeno investigado e subsidiou a construção do conteúdo.

A cartilha educativa foi organizada em eixos temáticos, visando abordar de forma abrangente as questões relacionadas à higiene do sono. Os temas contemplados incluíram: (1) Sono no TEA; (2) Organização do ambiente e rotina; (3) Comportamento e sono; e (4) Acordar durante a noite. O material foi desenvolvido para oferecer orientações práticas e acessíveis aos cuidadores.

Para a produção visual da cartilha, utilizaram-se recursos de inteligência artificial, especificamente as plataformas Canva e Chat GPT, para a geração de imagens. Essas ferramentas auxiliaram na criação de elementos visuais que complementaram o conteúdo textual, tornando o material mais didático e engajador para o público-alvo. A finalidade foi apresentar as informações de maneira clara e ilustrativa.

Durante todo o processo de sistematização da experiência clínica, o anonimato dos pacientes foi rigorosamente preservado. Não foram coletados dados identificáveis, e as observações foram tratadas de forma a garantir a confidencialidade e a privacidade dos indivíduos envolvidos. Este cuidado ético foi fundamental para a condução da pesquisa, em conformidade com os princípios de proteção aos participantes.

3. Resultados e Discussão

A análise dos registros clínicos possibilitou a identificação de padrões recorrentes relacionados à higiene do sono em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme observado em casos acompanhados ao longo da prática profissional do fonoaudiólogo pesquisador. Esses padrões revelaram desafios significativos na rotina de sono, que se manifestavam de diversas formas e impactavam diretamente o desenvolvimento e o bem-estar das crianças. A sistematização dessas observações clínicas foi crucial para compreender a complexidade das dificuldades enfrentadas por esse público e seus cuidadores, fornecendo a base empírica para as etapas subsequentes do estudo e a elaboração do material educativo.

Em um dos casos analisados, uma criança de 5 anos apresentou resistência significativa ao adormecer, exigindo mediação constante do cuidador durante a noite. Observou-se a ocorrência de episódios de terror noturno e uma notável dificuldade em atingir e manter o sono profundo. Os cuidadores relataram que, após a identificação desses prejuízos no sono, a criança manifestava dificuldades adicionais, como aumento da irritabilidade no cotidiano e impactos negativos no processo de aprendizagem, evidenciados pela baixa atenção e dificuldade de concentração. Essas dificuldades na rotina de sono repercutiam em toda a rede familiar, mantendo os cuidadores em estado de alerta constante, o que sublinha a dimensão sistêmica do problema.

Outro caso clínico envolveu uma criança de 7 anos que apresentava um padrão irregular de sono, caracterizado por horários inconsistentes para dormir e acordar. A dependência de estímulos eletrônicos no período noturno foi um fator agravante. A análise observacional da rotina indicou uma clara associação entre a desorganização da higiene do sono e dificuldades no desempenho em atividades de aprendizagem e interação social. O uso de dispositivos eletrônicos era uma prática recorrente no ambiente familiar, sem mediação consistente dos responsáveis ou limites claros de tempo e contexto, o que contribuía para a manutenção das dificuldades e a desorganização da rotina de sono da criança.

Adicionalmente, os cuidadores dessa criança relataram que, na ausência do celular, a criança apresentava aumento da irritabilidade e emissão de comportamentos interferentes em diferentes contextos, o que gerava ansiedade nos genitores e dificultava a promoção da interação social. Esse cenário destacou a interconexão entre o sono, o comportamento e a dinâmica familiar, reforçando a necessidade de intervenções que considerassem não apenas a criança, mas também o ambiente em que ela está inserida. A falta de uma rotina estruturada e o uso desregulado de telas impactavam negativamente a qualidade de vida de todos os envolvidos, conforme também apontado pela literatura (Kirkpatrick et al., 2019; Meltzer, 2008).

A partir da análise detalhada desses casos clínicos, foi possível estruturar a elaboração de uma cartilha educativa direcionada especificamente a cuidadores de crianças com TEA, com o objetivo central de promover a higiene do sono. A organização do material baseou-se nos padrões recorrentes de dificuldades identificados, como a resistência ao adormecer, os despertares noturnos frequentes, o uso inadequado de dispositivos eletrônicos e os impactos negativos no comportamento e na aprendizagem. Essa abordagem garantiu que o material fosse relevante e responsivo às necessidades práticas observadas na clínica, integrando a experiência empírica com o embasamento teórico.

Dessa forma, a cartilha foi estruturada em quatro eixos temáticos principais, visando abordar de maneira abrangente as questões mais relevantes sobre o sono em crianças com TEA. O primeiro eixo, “Sono no TEA”, oferece informações fundamentais sobre as particularidades do sono nesse transtorno. O segundo, “Organização do ambiente e rotina”, foca em estratégias para criar um ambiente propício ao sono e estabelecer rotinas previsíveis. O terceiro eixo, “Comportamento e sono”, explora a relação entre os padrões de sono e os comportamentos da criança. Por fim, o quarto eixo, “Acordar durante a noite”, apresenta orientações para lidar com despertares noturnos.

No eixo “Sono no TEA”, o material esclarece que crianças com o transtorno frequentemente apresentam maiores dificuldades para iniciar e manter o sono, podendo demorar para adormecer ou ter múltiplos despertares noturnos. Essa particularidade é atribuída a diferenças no funcionamento cerebral, como a produção de melatonina, resultando em um sono menos reparador. A cartilha também aborda a “Qualidade do sono e descanso”, explicando que, mesmo com horas suficientes de sono, a qualidade pode ser comprometida, levando a um sono mais leve e menos restaurador. Isso pode resultar em cansaço, irritabilidade e dificuldades de atenção durante o dia, impactando diretamente a capacidade de aprendizagem.

O eixo “Organização do ambiente e rotina” enfatiza a “Importância da rotina”, destacando que horários fixos para dormir e acordar ajudam o corpo a regular o ciclo circadiano. Para crianças com TEA, rotinas previsíveis são particularmente benéficas, pois reduzem a ansiedade e facilitam a aceitação do momento de dormir, enquanto mudanças frequentes podem agravar as dificuldades. A cartilha também orienta sobre “Evitar telas à noite”, explicando que a luz de dispositivos eletrônicos diminui a produção de melatonina, essencial para o sono. Recomenda-se desligar as telas pelo menos uma hora antes de dormir para preparar o corpo para o descanso.

Ainda no eixo “Organização do ambiente e rotina”, o material aborda a criação de um “Ambiente adequado”. Manter o quarto organizado, silencioso e com pouca luz é fundamental para ajudar a criança com TEA a relaxar, dada a sensibilidade a estímulos ambientais. Um espaço previsível e confortável favorece o início e a continuidade do sono, minimizando os despertares noturnos. O eixo “Comportamento e sono” detalha como a qualidade do sono influencia diretamente o comportamento da criança, afirmando que dormir mal pode aumentar a irritabilidade, a agitação e as dificuldades de aprendizagem. Um sono de boa qualidade, por outro lado, auxilia na regulação emocional e na atenção.

O eixo “Acordar durante a noite” discute a “Dificuldade em sustentar o sono”, explicando que algumas crianças com TEA acordam várias vezes à noite e podem ter dificuldade em voltar a dormir sozinhas. A cartilha sugere estratégias consistentes para ensinar a criança a retomar o sono sem ajuda, gradualmente. O material também inclui a seção “Cada criança é única”, que ressalta a individualidade de cada criança com TEA e a necessidade de estratégias específicas. Enfatiza a importância da observação parental para identificar o que funciona melhor em cada caso e menciona que, em algumas situações, a melatonina pode ser indicada por um médico, com acompanhamento profissional.

A cartilha, no eixo “Comportamento e sono”, também propõe o “Uso de apoio visual”, como pictogramas, para ajudar a criança a compreender a sequência de atividades antes de dormir. Essa ferramenta é crucial para crianças com TEA, que podem ter dificuldades com explicações verbais, tornando a rotina mais previsível e aumentando a sensação de segurança e colaboração. Além disso, são sugeridos “Momentos de relaxamento” antes de dormir, como ler uma história ou ouvir música tranquila, para diminuir a agitação do corpo e da mente. Essas atividades sinalizam que é hora de dormir, facilitando a transição para o descanso.

Para “Redução de comportamentos desafiadores” que atrapalham o sono, a cartilha enfatiza a manutenção de uma rotina previsível e o uso de recursos visuais para a compreensão. Recomenda-se reforçar comportamentos positivos e diminuir gradualmente o uso de eletrônicos à noite. Ensinar alternativas, como permanecer na cama ou pedir ajuda, pode ser bastante útil. A participação consistente dos cuidadores é destacada como um fator determinante para o sucesso dessas estratégias. Essas orientações visam não apenas melhorar o sono, mas também promover um ambiente familiar mais tranquilo e funcional, alinhado às práticas baseadas em evidências.

O material educativo elaborado incluiu orientações práticas e acessíveis aos cuidadores, considerando as demandas observadas nos contextos familiares e buscando oferecer estratégias de prevenção para diminuir a sobrecarga parental. O principal intuito da cartilha não foi apenas orientar, mas também promover maior autonomia dos cuidadores na condução da rotina de sono da criança. Assim, os resultados evidenciam a relevância de materiais educativos como ferramentas de apoio na interface entre a prática clínica e o contexto familiar, facilitando a transposição do conhecimento científico para o dia a dia dos responsáveis e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida.

Os achados observados nos casos clínicos reforçam as evidências da literatura de que alterações no sono em crianças com TEA estão associadas a prejuízos no funcionamento cognitivo, comportamental e emocional. Estudos apontam que dificuldades no início e na manutenção do sono impactam diretamente processos como atenção, memória e aprendizagem, além de intensificarem comportamentos desadaptativos (Richdale e Schreck, 2009; Reynolds e Malow, 2011). Nesse sentido, o material educativo incorporou explicações acessíveis sobre a importância do sono para o desenvolvimento infantil, bem como orientações para identificação de sinais de privação de sono e seus efeitos no cotidiano.

Também foram incluídas estratégias voltadas à organização do ambiente e à redução de estímulos noturnos, alinhadas às recomendações baseadas em evidências para o manejo do sono no TEA (Malow et al., 2012; Johnson et al., 2013). Além disso, a cartilha reiterou estratégias fundamentadas na análise do comportamento e em intervenções em comunicação funcional, visando o manejo de comportamentos interferentes associados ao sono. A literatura destaca que o ensino de habilidades comunicativas e o uso de estratégias como modelagem de rotina visual e treinamento de comunicação funcional contribuem para a redução de comportamentos desafiadores (Carr e Durand, 1985; Brady et al., 2016).

Dessa forma, o material propôs o uso de rotinas estruturadas, reforço positivo de comportamentos adequados e ensino de alternativas funcionais, considerando o papel ativo dos cuidadores nesse processo. Tal abordagem amplia a efetividade das intervenções no contexto familiar, promovendo não apenas a melhora do sono, mas também ganhos na interação social e na autonomia da criança. A cartilha educacional, construída com linguagem acessível e direcionada aos pais, pode atuar como uma ponte eficaz entre o conhecimento científico e a prática cotidiana no cuidado de crianças com TEA, facilitando a compreensão e a adesão das famílias às estratégias recomendadas.

Evidências apontam que o sono desempenha papel fundamental na consolidação da memória e nos processos de aprendizagem, sendo especialmente relevante na infância (Acosta, 2019; Li et al., 2017). Ademais, considerando a alta prevalência de alterações no sono em crianças com TEA (Reynolds e Malow, 2011; Richdale e Schreck, 2009), a disponibilização de informações estruturadas e acessíveis contribui para intervenções mais consistentes no ambiente familiar, favorecendo a organização de rotinas e a previsibilidade, aspectos essenciais para esse público. A cartilha, portanto, preenche uma lacuna importante ao oferecer um guia prático e embasado.

Adicionalmente, ao abordar de forma didática a relação entre sono, atenção e aprendizagem, a cartilha possibilita que os responsáveis compreendam melhor os impactos do descanso inadequado no comportamento diurno, como dificuldades de autorregulação e manutenção do foco. Intervenções mediadas pelos pais, quando bem orientadas, demonstram potencial para melhorar significativamente os padrões de sono e, consequentemente, o funcionamento global da criança (Johnson et al., 2013; Malow et al., 2012). Nesse contexto, materiais educativos acessíveis também favorecem o engajamento familiar e ampliam o alcance de práticas baseadas em evidências, reduzindo a distância entre produção científica e aplicação prática (Nunes e Schmidt, 2019; Mussi et al., 2021).

Assim, a cartilha se configura não apenas como um recurso informativo, mas como uma ferramenta de apoio à promoção do desenvolvimento integral da criança com TEA. Contudo, é importante reconhecer a principal limitação deste estudo, que se refere à ausência de validação formal do material educativo elaborado. A cartilha desenvolvida não foi submetida a processos formais de validação, como avaliação por especialistas da área ou aplicação sistemática junto ao público-alvo, os cuidadores de crianças com TEA. Essa etapa, embora desejável, não foi contemplada no escopo do presente trabalho.

Entretanto, mesmo sem validação formal, o material educativo apresenta aplicabilidade relevante como recurso inicial de apoio e orientação, podendo ser utilizado de forma exploratória em diferentes contextos. A cartilha pode ser aplicada como instrumento piloto em contextos clínicos, auxiliando profissionais no processo de orientação de cuidadores sobre higiene do sono em crianças com TEA. Nesse sentido, seu uso pode contribuir para a organização de rotinas e para a mediação de práticas baseadas em evidências, ainda que de forma não padronizada. Essa flexibilidade permite que o material seja adaptado às necessidades específicas de cada família e profissional.

Além disso, o material pode ser utilizado no contexto educacional, servindo como material complementar para equipes escolares, favorecendo a articulação entre escola e família no manejo de questões comportamentais associadas ao sono. Importante destacar que, diante da ausência de validação, a cartilha também pode ser utilizada como instrumento em estudos futuros, permitindo sua aplicação prática com coleta de dados para avaliação de clareza, relevância, adesão e efetividade. Dessa forma, seu uso não apenas contribui para a prática profissional, mas também para o avanço científico na área, gerando novos conhecimentos e aprimorando as intervenções.

Em síntese, os resultados obtidos a partir da análise dos casos clínicos e do embasamento teórico indicam que as alterações na higiene do sono em crianças com TEA estão diretamente relacionadas a prejuízos no comportamento, na aprendizagem e na dinâmica familiar. Dificuldades como resistência ao adormecer, despertares noturnos e o uso inadequado de dispositivos eletrônicos não impactam apenas o funcionamento da criança, mas também aumentam a sobrecarga dos cuidadores, evidenciando que essas questões ultrapassam o indivíduo e afetam todo o contexto familiar. A elaboração da cartilha educativa, portanto, representa uma estratégia relevante e alinhada à prática clínica, traduzindo evidências científicas em orientações claras e aplicáveis para o dia a dia dos cuidadores, fortalecendo sua autonomia e a eficácia das intervenções.

4. Conclusão

O estudo teve por objetivo elaborar um material educativo direcionado a cuidadores, contendo orientações práticas sobre higiene do sono em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), considerando seus impactos cognitivos, comportamentais e educacionais. Verificou-se, por meio da análise de registros clínicos, que crianças com TEA frequentemente apresentavam dificuldades significativas na higiene do sono, como resistência ao adormecer, despertares noturnos e dependência de estímulos eletrônicos. Esses padrões estavam associados a prejuízos no comportamento, na atenção e na aprendizagem, além de aumentarem a sobrecarga parental. A partir desses achados, elaborou-se uma cartilha educativa que sintetiza evidências científicas e práticas clínicas em orientações acessíveis, abordando temas como a organização do ambiente, a rotina de sono e o manejo de comportamentos desafiadores. Este material representa uma contribuição prática relevante, ao fornecer aos cuidadores ferramentas para promover hábitos de sono mais adequados, visando a melhoria do desenvolvimento global da criança e a redução do impacto negativo na dinâmica familiar.

A principal limitação deste estudo reside na ausência de validação formal do material educativo elaborado, que não foi submetido à avaliação de especialistas ou testado sistematicamente com o público-alvo. Contudo, a cartilha possui aplicabilidade como recurso inicial de apoio e orientação em contextos clínicos e educacionais, podendo auxiliar profissionais e famílias na organização de rotinas e na mediação de práticas baseadas em evidências. Sugere-se que estudos futuros investiguem a aplicação prática deste material, coletando dados para avaliar sua clareza, relevância, adesão e efetividade em diferentes contextos. Dessa forma, o presente trabalho não apenas oferece um guia prático, mas também pavimenta o caminho para pesquisas que aprimorem o suporte às famílias de crianças com TEA, fortalecendo a interface entre o conhecimento científico e a intervenção cotidiana.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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05 de outubro de 2026

As Funções Executivas em Crianças com Deficiência Intelectual

O estudo analisou a importância das funções executivas no contexto educacional, considerando sua relevância para o desenvolvimento cognitivo, emocional e acadêmico de crianças com deficiência intelectual. O objetivo foi analisar como as funções executivas ocorreram nesses indivíduos e de que maneira interferiram no processo de aprendizagem. A pesquisa caracterizou-se como qualitativa e explicativa, desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico, análise documental e aplicação de questionário eletrônico a 14 profissionais da educação. Os dados foram analisados com base na técnica de análise de conteúdo, que permitiu identificar categorias temáticas sobre práticas pedagógicas, desafios e estratégias. Os resultados indicaram que o desenvolvimento das funções executivas associou-se diretamente à mediação pedagógica, à adaptação das atividades e ao uso de estratégias estruturadas e individualizadas, com destaque para recursos lúdicos, visuais e tecnológicos e para a participação familiar. Evidenciaram-se desafios como a falta de formação continuada e dificuldades na adaptação curricular. Concluiu-se que as funções executivas puderam ser estimuladas no contexto escolar por meio de práticas pedagógicas intencionais, contribuindo para a aprendizagem e a autonomia.

Palavras-chave: Aprendizagem; Deficiência intelectual; Desenvolvimento cognitivo; Funções executivas; Inclusão escolar.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

05 de outubro de 2026

Organização da rotina como estratégia para a autonomia e otimização da aprendizagem: uma revisão sistemática.

A organização da rotina foi investigada como estratégia para o desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem, sob a perspectiva das funções executivas. O estudo objetivou analisar a eficácia dessa organização para a autonomia e otimização da aprendizagem. Realizou-se uma revisão sistemática da literatura, de caráter exploratório e abordagem quali-quantitativa. As buscas ocorreram nas bases SciELO, Portal CAPES e Google Acadêmico, resultando na seleção de 11 publicações brasileiras datadas entre 2015 e 2025. Os resultados evidenciaram que a sistematização da rotina contribuiu para a redução da carga cognitiva e o fortalecimento das funções executivas, distribuídas em quatro eixos temáticos centrais. Observou-se, contudo, a escassez de pesquisas que articulassem os três conceitos principais de forma integrada e a prevalência de intervenções de curto prazo. Concluiu-se que a organização da rotina constituiu uma base neuropsicológica essencial para a construção da independência estudantil. A pesquisa abriu caminhos para que novos estudos revelem, com maior precisão, o potencial transformador das interações entre esses construtos no cenário educacional.

Palavras-chave: Autorregulação; Autonomia da aprendizagem; Funções executivas; Neurociência educacional.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

05 de outubro de 2026

Princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem em recursos de geometria molecular

Este estudo investigou, sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química, com foco na geometria molecular. O objetivo foi identificar em que medida esses materiais favorecem a aprendizagem de conceitos abstratos, especialmente para estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). A pesquisa apresentou caráter aplicado e abordagem qualitativa, utilizando como procedimento metodológico a análise documental de dois tipos de recursos amplamente empregados: o simulador digital Molecule Shapes: Basics, da plataforma PhET Interactive Simulations, e kits de modelos moleculares físicos. A análise orientou-se pelos três princípios do DUA: múltiplos meios de representação, ação e expressão, e engajamento. Os resultados indicaram que ambos os recursos apresentaram potencial inclusivo relevante, embora por vias distintas: o simulador digital destacou-se pela visualização dinâmica e interatividade, enquanto o modelo físico favoreceu a materialização concreta dos conceitos. Concluiu-se que a articulação intencional desses recursos, mediada pelo professor, pode ampliar as possibilidades de acesso, participação e aprendizagem no ensino de Química, contribuindo para práticas pedagógicas mais inclusivas.

Palavras-chave: Educação inclusiva; Ensino de química; Neuroeducação; Representação espacial; Recursos didáticos.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

05 de outubro de 2026

Barreiras Religiosas no Acesso ao Tratamento Psicopedagógico: Uma Perspectiva Neurocientífica sobre Crenças e Resistências

Um estudo abordou a interface entre religiosidade e psicopedagogia, contextualizou o crescimento de discursos virtuais que minimizam as bases biológicas de transtornos do neurodesenvolvimento. O objetivo consistiu em analisar as principais barreiras religiosas que dificultaram o acesso e a permanência no tratamento psicopedagógico, investigando narrativas de resistência e integração sob uma perspectiva neurocientífica. A metodologia caracterizou-se como pesquisa qualitativa e exploratória, fundamentada na netnografia e na análise documental. Foram extraídos e analisados 51 comentários públicos de seis vídeos do YouTube referentes a transtornos (TDAH e Autismo) e espiritualidade. A análise de conteúdo revelou profunda polarização, dividiu a amostra em dois eixos: resistência (51%), marcada pela moralização dos sintomas e ativação de sistemas neurais de defesa; e integração (49%), na qual a psicoeducação virtual desconstruiu estigmas, promoveu alívio e validação clínica associados à regulação emocional e à flexibilidade cognitiva. Concluiu-se que o analfabetismo científico e o medo instrumentalizado atuaram como fortes barreiras à adesão terapêutica. No entanto, a psicoeducação mediada demonstrou ser uma ponte eficaz para desarmar os mecanismos de defesa moral e incluir sujeitos neurodivergentes.

Palavras-chave: Neurociência cognitiva; Psicopedagogia; Religiosidade; Resistência ao tratamento; Rigidez cognitiva.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

05 de outubro de 2026

Funções executivas e resolução de problemas matemáticos na percepção de professores de matemática

A percepção de professores de Matemática da rede estadual de São Paulo sobre a relação entre funções executivas e a resolução de problemas matemáticos em sua prática docente foi investigada. O estudo objetivou compreender como professores de Matemática percebem essa relação, identificando aspectos cognitivos relevantes para o ensino e a aprendizagem. A pesquisa, de natureza aplicada e abordagem mista, utilizou um questionário on-line aplicado a 15 professores de Matemática. Os dados quantitativos foram analisados por estatística descritiva, e as respostas discursivas, por Análise de Conteúdo. Os resultados revelaram que os professores reconheceram a importância das funções executivas, como memória de trabalho, planejamento, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, para a resolução de problemas matemáticos, embora essa compreensão pudesse ser implícita. Observou-se que dificuldades dos estudantes, como impulsividade, problemas de interpretação e ausência de planejamento, foram percebidas como fatores que comprometem o desempenho. Identificaram-se estratégias pedagógicas, como leitura orientada do enunciado, incentivo à elaboração de estratégias e verificação das respostas, que favoreceram o uso dessas funções. Os achados indicaram a necessidade de maior intencionalidade pedagógica para apoiar a autorregulação cognitiva e otimizar o desempenho dos alunos na resolução de problemas matemáticos.

Palavras-chave: Ensino de Matemática; Neurociência cognitiva; Prática docente.

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