Neurociência E Aprendizagem Na Educação
05 de outubro de 2026
As Funções Executivas em Crianças com Deficiência Intelectual
As Funções Executivas em Crianças com Deficiência Intelectual
Gabriele Godinho da Silva; Jacqueline Meireles Ronconi
DOI: 10.22167/2675-6528-202602950
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O estudo analisou a importância das funções executivas no contexto educacional, considerando sua relevância para o desenvolvimento cognitivo, emocional e acadêmico de crianças com deficiência intelectual. O objetivo foi analisar como as funções executivas ocorreram nesses indivíduos e de que maneira interferiram no processo de aprendizagem. A pesquisa caracterizou-se como qualitativa e explicativa, desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico, análise documental e aplicação de questionário eletrônico a 14 profissionais da educação. Os dados foram analisados com base na técnica de análise de conteúdo, que permitiu identificar categorias temáticas sobre práticas pedagógicas, desafios e estratégias. Os resultados indicaram que o desenvolvimento das funções executivas associou-se diretamente à mediação pedagógica, à adaptação das atividades e ao uso de estratégias estruturadas e individualizadas, com destaque para recursos lúdicos, visuais e tecnológicos e para a participação familiar. Evidenciaram-se desafios como a falta de formação continuada e dificuldades na adaptação curricular. Concluiu-se que as funções executivas puderam ser estimuladas no contexto escolar por meio de práticas pedagógicas intencionais, contribuindo para a aprendizagem e a autonomia.
Palavras-chave: Aprendizagem; Deficiência intelectual; Desenvolvimento cognitivo; Funções executivas; Inclusão escolar.
1. Introdução
As funções executivas correspondem a um conjunto de processos cognitivos de ordem superior responsáveis pela regulação do comportamento orientado a objetivos, incluindo habilidades como planejamento, controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva (Diamond, 2013; Barkley, 2012). Tais funções desempenham papel central no desenvolvimento humano, uma vez que estão diretamente relacionadas à aprendizagem, à autorregulação emocional e à adaptação social.
Do ponto de vista neurodesenvolvimental, essas habilidades apresentam um processo de maturação gradual ao longo da infância e adolescência, estando fortemente associadas ao desenvolvimento do córtex pré-frontal (Miyake & Friedman, 2012). Entretanto, esse percurso não ocorre de maneira uniforme em todos os indivíduos. Em crianças com deficiência intelectual, observa-se um desenvolvimento mais lento e heterogêneo das funções executivas, o que pode impactar significativamente o desempenho acadêmico e o comportamento adaptativo (Fonseca, 2014).
A deficiência intelectual caracteriza-se por limitações no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, manifestadas antes dos 18 anos, afetando habilidades conceituais, sociais e práticas (APA, 2022). Nesse contexto, as funções executivas assumem papel ainda mais relevante, uma vez que influenciam diretamente a capacidade do indivíduo de organizar ações, manter a atenção, resolver problemas e regular emoções no ambiente escolar.
No cotidiano educacional, tais limitações se expressam em dificuldades para seguir instruções, concluir tarefas, manter o foco e lidar com situações que exigem planejamento e flexibilidade. No entanto, a literatura contemporânea aponta que as funções executivas são passíveis de desenvolvimento quando estimuladas por meio de práticas pedagógicas intencionais e contextualizadas (Diamond, 2013; Ardila, 2018), o que reforça a importância da atuação docente nesse processo.
A escolha do tema desta pesquisa está relacionada à trajetória profissional da pesquisadora na área da educação, construída a partir da atuação como pedagoga, professora e psicopedagoga. A experiência em diferentes contextos educacionais e de acompanhamento da aprendizagem possibilitou o contato com crianças que apresentam diferentes necessidades e desafios em seu percurso escolar, despertando um olhar mais atento para os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem e para os fatores que podem favorecer ou dificultar esse desenvolvimento. No exercício da docência e, posteriormente, da atuação psicopedagógica, tornou-se possível observar que algumas dificuldades apresentadas pelas crianças ultrapassavam a aquisição ou a compreensão de determinados conteúdos escolares. Em situações cotidianas, dificuldades para manter a atenção, memorizar informações, seguir uma sequência de instruções, iniciar ou concluir uma atividade, controlar respostas impulsivas e adaptar-se a mudanças nas propostas mostraram-se diretamente relacionadas à forma como as crianças organizavam e regulavam seu próprio comportamento diante das demandas de aprendizagem. Essas vivências profissionais despertaram o interesse em compreender de maneira mais aprofundada a relação entre tais manifestações e o funcionamento das funções executivas, especialmente no caso de crianças com deficiência intelectual. A aproximação com os estudos em Neurociências e Aprendizagem ampliou essa perspectiva, possibilitando compreender que determinados comportamentos observados no ambiente escolar podem estar relacionados a processos cognitivos ainda em desenvolvimento e que, por meio de intervenções adequadas, estratégias pedagógicas planejadas e estímulos contextualizados, é possível favorecer a aprendizagem e a autonomia dos estudantes.
Nesse sentido, a experiência profissional não apenas contribuiu para a escolha do tema, mas também para a construção do olhar investigativo que orienta esta pesquisa. A vivência cotidiana com os desafios encontrados no processo de aprendizagem motivou a busca por conhecimentos que pudessem contribuir para uma compreensão mais ampla das necessidades apresentadas por crianças com deficiência intelectual, evitando que suas dificuldades fossem compreendidas exclusivamente como limitações relacionadas ao desempenho acadêmico. Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender como essas habilidades se manifestam em crianças com deficiência intelectual e de que forma interferem no processo de aprendizagem. Tal compreensão possibilita não apenas a ampliação do conhecimento teórico sobre o tema, mas também o aprimoramento das práticas pedagógicas voltadas à educação inclusiva. Assim, esta pesquisa tem como objetivo analisar como ocorrem as funções executivas em crianças com deficiência intelectual e de que maneira essas habilidades interferem em seu processo de aprendizagem, buscando ainda contribuir com subsídios teóricos e práticos que possam orientar a atuação de profissionais da educação, promovendo estratégias que favoreçam o desenvolvimento cognitivo e a autonomia dos estudantes.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza qualitativa, com abordagem explicativa, buscando aprofundar a compreensão sobre as manifestações das funções executivas em crianças com deficiência intelectual e suas implicações no processo de aprendizagem. O objetivo central consistiu em analisar como essas funções se desenvolvem e de que maneira interferem na aprendizagem, a partir da perspectiva de profissionais da área da educação. A escolha por essa abordagem metodológica justificou-se pela necessidade de interpretar fenômenos complexos que envolvem aspectos cognitivos, pedagógicos e contextuais, permitindo uma análise aprofundada das percepções e experiências dos participantes.
Os procedimentos metodológicos foram estruturados em três eixos complementares, visando a uma coleta e análise de dados abrangente e multifacetada. Inicialmente, realizou-se um levantamento bibliográfico extensivo, fundamentado em livros, artigos científicos e produções acadêmicas. Essa etapa concentrou-se em obras relevantes sobre funções executivas e deficiência intelectual, priorizando autores contemporâneos e de reconhecida contribuição para a área. O propósito desse levantamento foi construir uma base teórica sólida, essencial para subsidiar tanto a elaboração do instrumento de coleta de dados quanto a posterior análise e interpretação dos achados.
Em seguida, desenvolveu-se uma pesquisa documental, que envolveu a análise de materiais institucionais, documentos educacionais e registros pedagógicos. Esta fase teve como finalidade compreender como as práticas e diretrizes relacionadas ao desenvolvimento das funções executivas são abordadas e implementadas no contexto escolar. A análise desses documentos permitiu uma contextualização mais precisa do fenômeno investigado, oferecendo subsídios para entender o ambiente em que as funções executivas se manifestam e são estimuladas em crianças com deficiência intelectual.
Por fim, procedeu-se à coleta de dados empíricos, realizada por meio da aplicação de um questionário eletrônico. Este instrumento foi cuidadosamente elaborado na plataforma Google Forms e direcionado a 14 profissionais atuantes na área da educação. Os participantes incluíram professores, coordenadores pedagógicos e psicopedagogos, selecionados por sua experiência e contato direto com o público-alvo da pesquisa, garantindo a relevância das informações coletadas.
Os participantes da pesquisa foram selecionados por possuírem um perfil profissional que lhes conferia uma perspectiva valiosa sobre o tema. Majoritariamente, apresentavam formação em Pedagogia, atuavam nos níveis de Ensino Fundamental I e II e possuíam experiência profissional significativa na área da educação. Essas características dos participantes foram consideradas essenciais para a consistência das informações obtidas, uma vez que suas vivências e conhecimentos práticos contribuíram para a riqueza dos dados coletados.
Os dados coletados por meio do questionário eletrônico foram submetidos à técnica de análise de conteúdo, conforme a metodologia proposta por Bardin. Este método permitiu a organização sistemática, a categorização e a interpretação das respostas dos participantes em eixos temáticos predefinidos. A aplicação da análise de conteúdo possibilitou a identificação de padrões, recorrências e significados presentes nos relatos, articulando-os de forma coerente com o referencial teórico adotado no estudo.
No que concerne aos aspectos éticos, a pesquisa garantiu o anonimato de todos os participantes e a confidencialidade das informações fornecidas. Ressalta-se que o estudo foi enquadrado como uma pesquisa de opinião com participantes não identificados, o que, de acordo com as normativas vigentes, dispensou a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Todos os procedimentos foram conduzidos com o máximo respeito à privacidade e integridade dos envolvidos.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os resultados obtidos por meio da pesquisa qualitativa, de caráter explicativo, que envolveu a aplicação de um questionário eletrônico a 14 profissionais da educação. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, conforme a abordagem de Bardin, permitindo a identificação de padrões e a categorização das respostas em eixos temáticos. Esta análise possibilitou uma compreensão aprofundada das percepções dos participantes sobre as funções executivas em crianças com deficiência intelectual e sua interferência no processo de aprendizagem, articulando os achados empíricos com o referencial teórico estabelecido.
Os resultados iniciais permitiram traçar o perfil dos participantes, revelando que a maioria possuía formação em Pedagogia, representando 71,4% da amostra. Este dado é particularmente relevante, pois indica que as percepções e experiências compartilhadas pelos profissionais estão fortemente enraizadas na prática pedagógica cotidiana. A formação em Pedagogia confere uma base sólida para a compreensão dos desafios e potencialidades no ambiente escolar, especialmente no que tange à mediação do desenvolvimento cognitivo, conforme ressaltado por Fonseca (2014), que destaca o papel central do professor nesse processo.
Adicionalmente, observou-se que a maior parte dos participantes, 69,2%, possuía mais de seis anos de experiência profissional na área da educação. Este tempo de atuação significativo confere maior consistência e profundidade às análises, uma vez que as percepções apresentadas são fruto de uma vivência prática consolidada e da observação contínua do desenvolvimento dos alunos. A experiência docente, como apontado por Tardif (2002), é fundamental para a construção do saber pedagógico, integrando conhecimentos teóricos e práticos e, assim, contribuindo para uma leitura mais refinada das necessidades educacionais dos estudantes com deficiência intelectual.
Quanto ao nível de atuação, verificou-se um equilíbrio entre os profissionais que trabalham no Ensino Fundamental I e no Ensino Fundamental II, ambos representando 38,5% da amostra. Essa distribuição é significativa, pois essas etapas do ensino concentram demandas crescentes relacionadas ao desenvolvimento das funções executivas, como a organização, o planejamento e a autonomia na execução de tarefas. Segundo Diamond (2013), este período do desenvolvimento é marcado por avanços importantes nas funções executivas, tornando o ambiente escolar um espaço privilegiado para sua estimulação e para a identificação de dificuldades e potencialidades dos alunos.
A menor participação de profissionais da Educação Infantil na amostra pode, contudo, sinalizar uma lacuna na investigação precoce das funções executivas. Miyake e Friedman (2012) enfatizam que essas habilidades começam a se desenvolver desde os primeiros anos de vida, o que sugere a importância de estudos e intervenções focadas nessa fase inicial. A predominância de profissionais experientes nos níveis fundamental I e II, no entanto, fortalece a análise sobre as estratégias e desafios enfrentados em fases mais avançadas do desenvolvimento escolar, onde as demandas cognitivas se tornam mais complexas.
Desenvolvimento das funções executivas: mediação e contexto
A análise das respostas dos participantes revelou que o desenvolvimento das funções executivas em crianças com deficiência intelectual é um processo heterogêneo, fortemente influenciado por um conjunto de fatores inter-relacionados. Os profissionais destacaram a importância das estratégias pedagógicas utilizadas, o contexto escolar e o envolvimento familiar como elementos cruciais para o progresso dessas habilidades. Esse achado corrobora a perspectiva de Diamond (2013), que enfatiza que as funções executivas não se desenvolvem de maneira isolada, mas são moldadas pelas experiências e mediações oferecidas ao indivíduo em seu ambiente.
Os relatos indicaram avanços significativos no desenvolvimento das funções executivas quando as atividades pedagógicas eram adaptadas à realidade da criança. Estratégias como o uso de checklists compartilhados com a família, a implementação de rotinas estruturadas e a aplicação de abordagens individualizadas foram mencionadas como eficazes. Tais práticas funcionam como suportes externos às funções executivas, auxiliando na organização do comportamento e na redução da sobrecarga cognitiva. Barkley (2012) reforça que a externalização de estratégias é fundamental para indivíduos que apresentam dificuldades no controle inibitório e na memória de trabalho, elementos centrais das funções executivas.
A utilização de jogos pedagógicos, como quebra-cabeças e outras atividades lúdicas, foi observada como um fator que favorece não apenas a interação social, mas também o desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais, como a memória, a atenção e a flexibilidade. O caráter lúdico dessas atividades contribui significativamente para o engajamento dos estudantes e para o sentimento de pertencimento ao ambiente escolar. Corso et al. (2013) destacam que esses aspectos estão diretamente relacionados ao desenvolvimento metacognitivo e à autorregulação, componentes importantes para a autonomia na aprendizagem.
Além disso, o uso de recursos visuais, como pranchas de comunicação, e a incorporação de tecnologias digitais foram associados a melhorias no foco atencional e na regulação emocional das crianças. Este achado é consistente com a visão de Miyake e Friedman (2012), que evidenciam a interdependência entre os diferentes componentes das funções executivas. O fortalecimento da atenção, por exemplo, pode impactar positivamente outras habilidades, como a memória de trabalho, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento cognitivo.
A contextualização dos conteúdos pedagógicos, partindo dos interesses e rotinas dos alunos, também se mostrou uma estratégia eficaz para promover a significação da aprendizagem e reduzir demandas cognitivas desnecessárias. Essa abordagem está alinhada às diretrizes do DSM-5 (APA, 2022), que enfatiza a importância de ambientes estruturados e adaptados para otimizar o desempenho de indivíduos com deficiência intelectual. A personalização do ensino, portanto, não apenas facilita a compreensão, mas também promove um ambiente mais inclusivo e responsivo às necessidades individuais.
Em síntese, os relatos dos profissionais indicam que os avanços no desenvolvimento das funções executivas estão intrinsecamente ligados à mediação pedagógica qualificada, à adaptação das atividades e à criação de ambientes estruturados e previsíveis. Esses elementos reforçam a ideia de que o desenvolvimento dessas habilidades depende menos de fatores exclusivamente individuais e mais da qualidade das interações e das estratégias educacionais adotadas no contexto escolar. A intervenção intencional e planejada, portanto, emerge como um pilar fundamental para o progresso cognitivo e adaptativo desses estudantes.
Funções executivas e aprendizagem
Os achados da pesquisa revelaram que as dificuldades de aprendizagem apresentadas por crianças com deficiência intelectual estão diretamente relacionadas a comprometimentos nas funções executivas. Aspectos como a dificuldade em manter o foco, seguir instruções complexas e concluir tarefas foram consistentemente observados pelos profissionais. Essas manifestações podem ser compreendidas como déficits na memória de trabalho e no controle inibitório, habilidades cruciais para o desempenho acadêmico e para a regulação do comportamento em sala de aula.
Segundo Mattos e Fuentes (2020), tais dificuldades não devem ser interpretadas como uma incapacidade intrínseca de aprendizagem, mas sim como um reflexo de um funcionamento cognitivo diferenciado que exige abordagens pedagógicas específicas e adaptadas. Os resultados da pesquisa reforçam, portanto, a necessidade de desenvolver práticas educacionais que considerem o modo particular como o aluno com deficiência intelectual processa as informações e interage com o ambiente de aprendizagem, promovendo estratégias que contemplem suas necessidades específicas.
Observou-se, ainda, que avanços significativos na aprendizagem ocorrem quando o ensino é mediado por estratégias concretas, adaptadas e contextualizadas. Este dado está em consonância com as recomendações do DSM-5 (APA, 2022), que destaca que indivíduos com deficiência intelectual apresentam um melhor desempenho e maior engajamento em ambientes que são estruturados e que oferecem suporte adequado. A personalização do ensino e a utilização de recursos que facilitem a compreensão e a organização das informações são, portanto, elementos-chave para promover a aprendizagem efetiva.
Desafios e possibilidades para o trabalho com funções executivas no contexto escolar
No que se refere aos desafios enfrentados pelos profissionais da educação, a pesquisa evidenciou que a falta de formação continuada constitui um dos principais entraves para o trabalho eficaz com as funções executivas em crianças com deficiência intelectual. Essa lacuna na preparação docente para lidar com demandas cognitivas específicas limita a capacidade dos educadores de implementar estratégias pedagógicas adequadas e de compreender as particularidades do desenvolvimento desses estudantes. Fonseca (2014) argumenta que a ausência de conhecimento sobre o funcionamento das funções executivas pode levar à adoção de práticas pouco eficazes, comprometendo o desenvolvimento integral dos alunos.
Além da formação, fatores estruturais também foram destacados como obstáculos significativos. O elevado número de alunos por turma e a escassez de recursos materiais e humanos dificultam a implementação de estratégias individualizadas e o acompanhamento mais próximo de cada estudante. Esse cenário revela uma contradição no processo de inclusão escolar, onde, embora o acesso à educação seja garantido, a permanência com qualidade e o suporte adequado nem sempre são assegurados, impactando diretamente a capacidade de promover o desenvolvimento das funções executivas.
As dificuldades relacionadas à regulação emocional e ao manejo de comportamentos desafiadores também foram mencionadas pelos participantes. Essas questões podem ser compreendidas como manifestações de déficits no controle inibitório, uma das funções executivas centrais. Barkley (2012) explica que a autorregulação emocional está intrinsecamente vinculada às funções executivas, o que reforça a necessidade de práticas pedagógicas que contemplem não apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também o socioemocional, promovendo habilidades de autogestão e resiliência.
Por outro lado, os profissionais apontaram que o trabalho intencional e sistemático com as funções executivas amplia significativamente as possibilidades de aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento da autonomia e a participação ativa dos alunos no ambiente escolar. Este achado está em consonância com a literatura, que reconhece as funções executivas como habilidades centrais para o desempenho acadêmico e social, e que são passíveis de desenvolvimento por meio de intervenções planejadas e contextualizadas, conforme defendido por Diamond (2013) e Ardila (2018). A crença na plasticidade cerebral e na capacidade de desenvolvimento dessas funções é um motivador importante para a prática pedagógica inclusiva.
De modo geral, os resultados indicam que o desenvolvimento das funções executivas em crianças com deficiência intelectual é um processo complexo, mas possível, que depende de um conjunto de fatores inter-relacionados. A mediação pedagógica qualificada, o uso de estratégias estruturadas e individualizadas, a participação ativa da família e as condições institucionais favoráveis são elementos cruciais para o sucesso. As dificuldades observadas não são exclusivamente individuais, mas resultam da interação entre o sujeito e o contexto em que está inserido, reforçando a importância de práticas educacionais inclusivas que considerem a singularidade do desenvolvimento e promovam intervenções intencionais e sistemáticas para a aprendizagem e a autonomia dos estudantes.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar como as funções executivas se manifestam em crianças com deficiência intelectual e de que maneira essas habilidades interferem em seu processo de aprendizagem. Verificou-se que o desenvolvimento dessas funções é um processo heterogêneo, fortemente influenciado pela mediação pedagógica, pelo contexto escolar e pelo envolvimento familiar. Os achados indicaram que práticas pedagógicas intencionais, como a adaptação de atividades, o uso de rotinas estruturadas, recursos lúdicos, visuais e tecnológicos, e abordagens individualizadas, contribuem significativamente para o avanço dessas habilidades. Observou-se que as dificuldades de aprendizagem, como a manutenção do foco e a conclusão de tarefas, estão diretamente relacionadas a comprometimentos nas funções executivas, exigindo estratégias educacionais específicas e contextualizadas para promover a aprendizagem e a autonomia.
A pesquisa oferece subsídios teóricos e práticos relevantes para profissionais da educação, destacando a importância de um olhar sensível e crítico sobre o processo de ensino-aprendizagem inclusivo. Contudo, evidenciaram-se limitações como a falta de formação continuada dos educadores, as condições estruturais desfavoráveis nas instituições escolares e as dificuldades na adaptação curricular. Tais desafios apontam para a necessidade de investimentos em políticas públicas que garantam não apenas o acesso, mas a qualidade da educação inclusiva. Sugere-se a realização de estudos futuros com amostras mais amplas e em diferentes contextos educacionais, a fim de aprofundar a compreensão sobre o tema e fortalecer práticas pedagógicas que promovam o desenvolvimento integral e a autonomia dos estudantes com deficiência intelectual.
Referências Bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. 2022. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM-5. Porto Alegre: Artmed.
ARDILA, A. 2018. Neuropsychology of executive functions. Cham: Springer.
Barkley (2012) [Referência completa não encontrada no documento original]
CORSO, H. V.; SPERB, T. M.; JOU, G. I.; SALLES, J. F. 2013. Metacognição e funções executivas: relações entre os conceitos e implicações para a aprendizagem. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
DIAMOND, A. 2013. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135–168.
Fonseca (2014) [Referência completa não encontrada no documento original]
Mattos e Fuentes (2020) [Referência completa não encontrada no documento original]
Miyake & Friedman (2012) [Referência completa não encontrada no documento original]
Miyake e Friedman (2012) [Referência completa não encontrada no documento original]
Tardif (2002) [Referência completa não encontrada no documento original]
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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