Neurociência E Aprendizagem Na Educação
05 de outubro de 2026
A prática do xadrez nas escolas públicas: possibilidade ou desafio?
A Prática do Xadrez nas Escolas Públicas: Possibilidade ou Desafio?
Gabriel Henrique de Melo Oliveira; Jacqueline Meireles Ronconi
DOI: 10.22167/2675-6528-202602953
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O xadrez foi analisado sob sua perspectiva pedagógica, investigando seu potencial como ferramenta complementar no desenvolvimento cognitivo de estudantes, com ênfase naqueles diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). O objetivo foi verificar se o xadrez estimula a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, oferecendo uma alternativa ao protagonismo excessivo de tratamentos psicofarmacológicos no ambiente escolar. Para isso, realizou-se uma revisão bibliográfica qualitativa e levantamento documental, que incluiu a análise do imaginário social brasileiro e os entraves para a inclusão do xadrez no currículo, o mapeamento de experiências públicas bem-sucedidas no Brasil a partir de 2021, e a fundamentação científica sobre o xadrez como aliado no tratamento do TDAH. Os resultados indicaram que, apesar das barreiras culturais e da falta de incentivo governamental sistemático, iniciativas locais e evidências neurocientíficas comprovaram ganhos significativos em disciplina, tomada de decisão e ajustamento acadêmico. Concluiu-se que o jogo se posiciona como uma estratégia profilática e inclusiva essencial para a educação básica.
Palavras-chave: Desenvolvimento Cognitivo; Educação Inclusiva; Funções Executivas; TDAH; Xadrez Pedagógico.
1. Introdução
O xadrez é amplamente reconhecido por sua faceta esportiva, manifestada em campeonatos e competições que atraem participantes de diversas idades. Contudo, para além do entretenimento e da disputa, o xadrez emerge como uma valiosa ferramenta pedagógica, com potencial significativo para o uso em ambientes escolares e para o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Esta pesquisa concentra-se na dimensão pedagógica do xadrez, explorando como ele é incorporado por escolas brasileiras como parte do currículo e como o contexto escolar percebe e utiliza sua presença para o aprimoramento cognitivo.
Nesse cenário, observa-se uma crescente preocupação com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), uma condição que se caracteriza por desatenção, hiperatividade e impulsividade em crianças, adolescentes e adultos. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM 5 (2014) recomenda para esses casos a terapia comportamental, frequentemente aliada a tratamentos medicamentosos com estimulantes. Embora esses tratamentos sejam eficazes na melhoria do desempenho escolar, eles são predominantemente externos ao ambiente educacional, sendo responsabilidade de psicólogos, neuropsicólogos e psiquiatras.
A dependência do ambiente escolar em relação a esses tratamentos psicofarmacológicos resulta em uma limitação das responsabilidades de professores e gestores escolares, que se veem restritos à adaptação de provas e atividades avaliativas. Essa situação impede que a escola assuma um papel mais proativo na busca por soluções internas e profiláticas para os desafios de atenção e comportamento. Assim, surge a necessidade de explorar alternativas que permitam ao espaço escolar desenvolver o foco, a atenção e o controle inibitório dos estudantes, mitigando a dependência de diagnósticos e intervenções exclusivamente externas.
Nesse contexto, o xadrez apresenta-se como um forte aliado, oferecendo uma alternativa ao protagonismo excessivo de tratamentos psicofarmacológicos. Sua prática estimula a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, além de promover o desenvolvimento de outras funções executivas essenciais. A inclusão do xadrez no currículo escolar pode, portanto, capacitar a escola a oferecer uma estratégia pedagógica própria para lidar com as demandas de desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos alunos, especialmente aqueles com TDAH.
Dessa forma, a relevância deste estudo reside na busca por evidências que sustentem o xadrez como uma ferramenta pedagógica eficaz e inclusiva. O presente trabalho pretende analisar como o xadrez apresenta nas escolas uma possibilidade de protagonismo do espaço escolar para o desenvolvimento das funções executivas de seus estudantes através desse esporte, demonstrando como ele pode ser um aliado no tratamento de crianças e adolescentes com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza qualitativa, empregando a revisão bibliográfica e o levantamento documental como abordagens metodológicas principais. O objetivo central foi investigar as potencialidades do xadrez no contexto escolar brasileiro, com foco em seu papel no desenvolvimento cognitivo de estudantes, especialmente aqueles diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Para tanto, realizou-se um levantamento documental abrangente, estruturado em duas frentes principais. Primeiramente, analisaram-se os marcos regulatórios da educação brasileira, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a fim de compreender o suporte legislativo e as diretrizes oficiais para a inclusão do xadrez no currículo escolar. Em paralelo, mapearam-se experiências de xadrez já implementadas em escolas públicas brasileiras, com foco em projetos desenvolvidos a partir do ano de 2021.
Adicionalmente, consultaram-se fontes secundárias para embasar a discussão teórica e científica. Essas fontes incluíram periódicos científicos e bases de dados acadêmicas reconhecidas, como o Google Acadêmico e o Scielo. A seleção dos materiais visou identificar estudos que abordassem os benefícios cognitivos e socioemocionais do xadrez, bem como sua aplicação pedagógica e sua relação com o desenvolvimento de funções executivas.
A coleta de dados também envolveu uma análise documental de registros midiáticos e institucionais. Examinaram-se reportagens jornalísticas e editais públicos, publicados no período compreendido entre 2011 e 2025. Esse procedimento permitiu identificar e documentar estudos de caso e experiências práticas em diversas esferas, incluindo instituições privadas e projetos em escolas públicas de municípios como Fortaleza (CE) e Oriximiná (PA).
A análise documental estendeu-se a contextos de vulnerabilidade social, como os projetos desenvolvidos na Fundação Casa, em São Paulo. O escopo temporal da pesquisa, ao considerar documentos publicados entre 2011 e 2025 e experiências a partir de 2021, permitiu uma visão atualizada e contextualizada da inserção do xadrez no ambiente educacional brasileiro e suas implicações para o desenvolvimento dos estudantes.
Os dados coletados foram submetidos a uma análise interpretativa. Este método consistiu em confrontar as evidências encontradas sobre os benefícios cognitivos e socioemocionais da prática do xadrez com a realidade do imaginário social brasileiro e os desafios de sua implementação. A análise focou na eficácia do xadrez como ferramenta complementar ao manejo pedagógico do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) no ambiente escolar.
A metodologia adotada buscou, assim, fornecer uma base sólida para verificar como o xadrez pode estimular a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, conforme proposto no objetivo do estudo. Os procedimentos foram delineados para explorar as barreiras culturais e a falta de incentivo governamental, bem como para mapear iniciativas bem-sucedidas e fundamentar cientificamente o papel do xadrez como aliado no desenvolvimento de funções executivas.
3. Resultados e Discussão
A presente investigação revelou uma série de achados cruciais que elucidam o potencial do xadrez como ferramenta pedagógica no desenvolvimento cognitivo de estudantes, especialmente aqueles com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Os resultados obtidos, através de uma revisão bibliográfica qualitativa e levantamento documental, permitiram analisar o imaginário social brasileiro em relação ao xadrez, identificar os entraves para sua inclusão no currículo escolar e mapear experiências públicas bem-sucedidas. Adicionalmente, foi possível fundamentar cientificamente a eficácia do xadrez como um aliado no manejo pedagógico do TDAH, oferecendo uma perspectiva alternativa aos tratamentos psicofarmacológicos predominantes. A discussão a seguir detalha esses pontos, conectando os achados com o objetivo central do estudo e a literatura pertinente.
Os dados coletados indicaram que, apesar das barreiras culturais e da ausência de um incentivo governamental sistemático, diversas iniciativas locais e evidências neurocientíficas corroboram ganhos significativos em áreas como disciplina, tomada de decisão e ajustamento acadêmico. Esses resultados posicionam o xadrez como uma estratégia profilática e inclusiva de grande valor para a educação básica, capaz de promover o desenvolvimento de funções executivas essenciais. A análise aprofundada dos diferentes eixos temáticos permitiu compreender a complexidade da inserção do xadrez no ambiente escolar brasileiro e suas implicações para a saúde mental e o desempenho acadêmico dos estudantes.
Entraves para a expansão do xadrez em contexto escolar
No Brasil, o imaginário social e esportivo é predominantemente moldado por modalidades de grande apelo popular, como o futebol, o vôlei e o basquete. Essa preferência cultural se reflete diretamente no ambiente escolar, onde o currículo da Educação Física, conforme as diretrizes de base elaboradas para a educação brasileira (2018), tende a limitar-se ao ensino desses esportes como modelos de rendimento. Consequentemente, o prestígio e a popularidade no país gravitam em torno de atletas que personificam a performance física e o espetáculo, em detrimento de práticas corporais intelectuais ou de menor apelo comercial, como é o caso do xadrez.
Essa predisposição cultural, que privilegia modalidades de ação física e visual, em detrimento de esportes menos dinâmicos ou midiáticos, é um fator determinante. Betti (2002) observa que a migração do público para a condição de telespectador alterou a forma de consumo do esporte, priorizando estímulos excitantes e intimamente ligados ao imaginário social. O futebol, por exemplo, beneficia-se de uma simbiose com a grande mídia, que explora sua estrutura de jogo para gerar entretenimento, consolidando-o como parte integrante da identidade nacional, ao contrário do xadrez.
A diferença entre o imaginário social brasileiro e o de outros países em relação ao xadrez evidencia um problema anterior à sua adoção obrigatória no Brasil: o xadrez é percebido como um “esporte estrangeiro” pela maioria dos brasileiros. Sua presença não está intrinsecamente ligada à identidade nacional, ao contrário de outros esportes. Essa percepção é acentuada não apenas pela complexidade das regras do jogo, mas também pela ausência de sua veiculação nos veículos de imprensa e pela falta de figuras nacionalmente conhecidas que se destaquem em competições.
Um exemplo notável dessa diferença é a Armênia, onde o ensino de xadrez é obrigatório nas escolas, conforme matéria da BBC News Brasil (2011). Um dos aspectos centrais para essa conquista é a relevância dos atletas de xadrez para a representação da cultura nacional, sendo a importância de seus enxadristas comparável à de jogadores de futebol. As vitórias são celebradas com o mesmo entusiasmo, e os mestres do jogo são tratados como grandes estrelas, o que contrasta fortemente com a realidade brasileira.
No Brasil, não há obrigatoriedade do ensino de xadrez nas escolas, sendo sua inclusão optativa e dependente das diretrizes de cada instituição. Em 2021, o Projeto de Lei 2.993/2021, proposto pela senadora Nilda Gondim, buscou viabilizar a presença do esporte no ensino básico brasileiro, argumentando sobre o aumento do rendimento acadêmico e intelectual dos estudantes. Contudo, apesar dos argumentos robustos, o Senado vetou a obrigatoriedade, recomendando que a lei fosse substituída pelo termo “incentivo” ao xadrez nas escolas de todo o país.
Apesar do insucesso do Projeto de Lei no Senado Federal, Rondônia apresentou uma iniciativa pioneira no Brasil, liderada pela deputada Dra. Taissa Souza, com políticas voltadas para o desenvolvimento do xadrez nas escolas. Esse projeto reconhece o xadrez como um instrumento pedagógico significativo para crianças e adolescentes no estado. Embora ainda enfrente desafios, a iniciativa representa um avanço importante no reconhecimento do poder público sobre as possibilidades do uso pedagógico do xadrez na sala de aula, sinalizando um caminho para futuras implementações.
Em síntese, embora o xadrez apresente argumentos incontestáveis sobre sua qualidade no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes, o esporte enfrenta grandes entraves para adentrar o espaço escolar. Isso se deve tanto à falta de popularidade do xadrez no imaginário social brasileiro quanto à ausência de incentivos governamentais, seja por meio de suporte legislativo ou direcionamento de verbas. Esses fatores impedem não apenas que o xadrez ganhe notoriedade em sua faceta esportiva, mas também que o ambiente escolar encontre uma alternativa eficaz para lidar com questões clínicas, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou o TDAH.
O xadrez e as possibilidades de desenvolvimento cognitivo
Uma das principais motivações para a elaboração desta pesquisa reside na crescente incidência de diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) no ambiente escolar. Após a obtenção do laudo, é comum que as famílias busquem diretamente o tratamento psiquiátrico, visando a medicação e a consequente melhoria do desempenho escolar do estudante. Essa dinâmica, no entanto, gera uma expectativa de que a escola ofereça adaptações curriculares e flexibilidade acadêmica, tornando o ambiente escolar dependente de soluções externas e incapaz de apresentar uma solução profilática para mitigar esses problemas.
De acordo com Moysés (2013), o aumento exacerbado de diagnósticos psiquiátricos, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar, inibe a diversidade da criatividade e da inteligência humana, promovendo a normatização dos comportamentos por meio de medicações e tratamentos psiquiátricos. Essa situação gera dois problemas adicionais para o ambiente escolar: a crescente demanda por psicólogos e psicopedagogos para atender às necessidades de aprendizagem desses estudantes, e o aumento do número de crianças e adolescentes medicados com Ritalina ou Metilfenidato, tornando o Brasil o segundo maior consumidor mundial de Metilfenidato, conforme ressalta Moysés (2023).
Diante do aumento exponencial de casos e diagnósticos no ambiente escolar, o xadrez emerge como uma alternativa promissora para as escolas lidarem com o perfil de alunos diagnosticados. Contudo, é fundamental que a presença do xadrez no ambiente escolar não seja implementada de maneira mal planejada ou focada exclusivamente no desenvolvimento das funções executivas. A possibilidade de uso do xadrez como atividade esportiva e lúdica também deve ser incentivada, a fim de atrair os estudantes para o jogo e seus benefícios de forma mais abrangente.
As escolas podem se inspirar em exemplos de manchetes jornalísticas que destacam o protagonismo de estudantes medalhistas em competições de xadrez. Títulos como “Aluno Breno foi o primeiro colocado no campeonato de Xadrez em São Paulo” ou “Pedro Andrade ganha o campeonato brasileiro de xadrez nos jogos abertos do Rio” enfatizam o caráter esportivo do xadrez, que conquista o interesse de jovens entre 7 e 15 anos nas primeiras fases da vida escolar. Essa abordagem lúdica e competitiva serve como um portal para o engajamento dos alunos.
O interesse dos jovens estudantes pelo xadrez é motivado, em parte, pela relação entre o longo treinamento exigido e os resultados obtidos nas competições. Além disso, diferentemente de outros esportes como futebol, vôlei, basquete ou tênis, o desenvolvimento da performance individual no xadrez não acarreta consequências físicas para o corpo e a aparência do estudante. Pelo contrário, os ganhos são estritamente cognitivos, promovendo o desenvolvimento da atenção, concentração, aprimoramento da tomada de decisão e capacidade de calcular múltiplas possibilidades em uma mesma partida, conforme reforçam Aciego, García e Betancort (2012).
Portanto, o uso do xadrez em sua faceta esportiva representa uma oportunidade estratégica para as escolas atraírem alunos e incorporarem o jogo à grade horária e ao cotidiano. A partir desse engajamento inicial, o uso esportivo pode ser conciliado com o uso pedagógico, orientando-o para o desenvolvimento das funções executivas em crianças e adolescentes. Essa prática tem o potencial de se tornar uma forte aliada no desenvolvimento cognitivo de estudantes de diversas faixas etárias, com ou sem Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH), ampliando o alcance de seus benefícios.
Apesar dos entraves midiáticos e jurídicos, o Brasil possui experiências significativas no uso do xadrez em sala de aula. A classificação do campeonato brasileiro escolar nos últimos três anos (2023, 2024 e 2025), disponível no site Casa de Xadrez (2025), indica que a maioria das experiências competitivas ocorre em instituições particulares, que se destacam pela facilidade em mobilizar professores, materiais e verbas. No entanto, instituições públicas em todo o país também demonstram que o xadrez pode ser uma ferramenta substantiva na formação de seus estudantes, apesar dos desafios de recursos.
Embora o xadrez seja reconhecido como esporte competitivo, observa-se nas falas de professores, gestores e coordenadores escolares uma preocupação pedagógica que transcende as competições. De acordo com Scholz et al. (2008) e Barrett e Fischi (2011), o “Jogo de Xadrez (JX) tornou-se uma ferramenta para além do lazer e do esporte”. Entre os principais argumentos para a adoção do xadrez nas escolas, destacam-se as consequências positivas no desenvolvimento cognitivo dos estudantes e em outras áreas do ambiente escolar, como leitura, avaliações, raciocínio lógico e desenvolvimento socioemocional.
Um exemplo disso é o projeto da Universidade Federal de Lavras (UFLA), intitulado “Xadrez Pedagógico”, desenvolvido em parceria com o Centro de Atenção à Criança e ao Adolescente (Ceacad) e a Secretaria Municipal de Educação. O projeto atende crianças de 9 a 11 anos da rede pública, e, segundo o professor Kleber Tuxen Carneiro Azevedo, um dos fundamentos é pensar o xadrez não apenas como instrumento lúdico, mas como ferramenta para o desenvolvimento do raciocínio lógico de crianças e adolescentes (Portal Lavras, 2022).
Outro caso relevante é a experiência da Escola Municipal de Ensino Fundamental Antônio Bezerra de Farias, em Vila Velha, Espírito Santo, conforme noticiado pelo G1 Espírito Santo (2017). A inserção do xadrez na grade horária, iniciada por um professor de língua portuguesa, visava aprimorar as notas dos estudantes. O professor relatou melhorias significativas na postura, disciplina, concentração e, consequentemente, no comportamento e nas notas dos alunos em sala de aula, demonstrando o impacto positivo do xadrez no ambiente escolar.
A incorporação do xadrez nas grades curriculares escolares desempenha um papel fundamental no desenvolvimento das funções executivas dos estudantes, incluindo memória de trabalho (manter e manipular informações), controle inibitório (autocontrole e atenção seletiva) e flexibilidade cognitiva (adaptar-se a mudanças). Essa percepção dos professores encontra respaldo em estudos científicos sobre os benefícios cognitivos e socioemocionais do xadrez, como os de Krogius (1972) e Bilalic, McLeod e Gobet (2007), que validam a eficácia do jogo nesse contexto.
Krogius (1972) destaca que o processo intelectual de jogar xadrez traz consequências significativas para o desenvolvimento do foco, concentração, memória, criatividade e, sobretudo, disciplina. Bilalic, McLeod e Gobet (2007) observam que crianças jogadoras de xadrez tendem a apresentar uma personalidade mais agradável, extrovertida e aberta a novas experiências intelectuais. Esses benefícios do xadrez sobre o temperamento de crianças e adolescentes os auxiliam a lidar com situações de conflito, tanto dentro quanto fora do jogo, promovendo um desenvolvimento integral.
Um exemplo relevante que corrobora o potencial do xadrez para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional é a experiência de sua inserção na Fundação Casa, em São Paulo. Uma reportagem do jornal Estadão (2023) indicou que a prática tem se mostrado positiva para os reeducandos, estabelecendo uma rotina de estudo e treinamento semanal. O professor Cícero Tavares da Silva, responsável pelo projeto, afirmou que “o xadrez ajuda a organizar o pensamento”, e que os jovens “passam a dialogar mais e a resolver situações com menos impulsividade”, evidenciando o impacto no controle inibitório e na reflexão.
O professor da Fundação Casa enfatizou que, se os jovens “saírem daqui sabendo esperar o momento certo, respeitar o outro e entender que toda escolha tem consequência, o xadrez já cumpriu o papel dele”. Esses aspectos corroboram a hipótese de Aciego, García e Betancort (2012) de que o xadrez promove ajustamento acadêmico, ajustamento pessoal e capacidade de enfrentamento. A prática do xadrez, nesse contexto, transcende o esporte, tornando-se uma ferramenta pedagógica e intelectual no processo de ressocialização desses jovens e adultos.
Além dos projetos autônomos, iniciativas municipais também buscam fomentar o uso do xadrez nas escolas. A Prefeitura de Fortaleza (2023), por exemplo, lançou um clube de xadrez em dezembro de 2022, com a justificativa de desenvolver funções executivas, estratégia, pensamento lógico e raciocínio rápido nos estudantes. O prefeito José Sarto destacou que o jogo “ensina muitas coisas, ensina estratégia, pensamento lógico, raciocínio rápido, desenvolve uma série de habilidades”, ancorando a adesão esperada em uma estratégia real para o desenvolvimento lógico e a tomada de decisões dos alunos.
Na mesma linha, a Prefeitura de Oriximiná, no Pará, lançou em 2023 o “Projeto de Xadrez na Escola”, visando a formação de jovens e adolescentes por meio desse esporte intelectual. Uma nota no site da prefeitura reforça o objetivo de estimular o desenvolvimento cognitivo, social e emocional dos alunos. Dione Mara, responsável pelo projeto, explicou que “o xadrez mostrou que vai muito além de um simples jogo. Ele ensina foco, disciplina, respeito às regras e estratégia. Observamos uma mudança significativa no comportamento dos nossos estudantes, tanto em sala quanto na convivência social”, reforçando a percepção de que o xadrez é um aliado pedagógico.
Em diversos relatos analisados, o raciocínio lógico, a criatividade e o desenvolvimento das relações socioemocionais emergem como aspectos centrais dos benefícios do xadrez. Esses elementos são amplamente embasados por estudos científicos que investigam os impactos do xadrez em sala de aula. As experiências brasileiras apontam que o xadrez tem o potencial de transcender uma atividade extracurricular isolada, tornando-se uma ferramenta pedagógica integrada ao dia a dia escolar, contribuindo significativamente para o desenvolvimento integral dos estudantes.
O ensino de xadrez como possibilidade no tratamento de TDAH
A presença do xadrez nas escolas públicas é adotada por professores como uma oportunidade para aprimorar o desempenho dos estudantes, focando no desenvolvimento cognitivo, na atenção e na organização do pensamento. Considerando o uso já estabelecido do xadrez em algumas escolas públicas, esta seção discute em que medida o xadrez pode atuar como um aliado oferecido pelas próprias instituições escolares no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH), mitigando a dependência de intervenções exclusivamente externas.
A incorporação do xadrez por algumas instituições é fundamental, pois representa uma alternativa concreta para o ambiente escolar lidar com o crescente número de casos de TDAH. Jou et al. (2010) observam um aumento significativo de diagnósticos de déficit de atenção, tornando insustentável para a escola depender exclusivamente de professores, coordenadores e inspetores. Essa realidade impulsionou a necessidade de incorporar psicólogos, psiquiatras e neuropsicólogos para mediar o conhecimento, os desafios de saúde mental e o bem-estar dos estudantes no ambiente escolar.
Consequentemente, o jargão da psicologia e psiquiatria passou a ser incorporado nas falas de professores, coordenadores, diretores, estudantes e familiares. Termos como “provas adaptadas”, “laudos”, “Transtorno e Déficit de Atenção (TDAH)”, “Transtorno de Espectro Autista (TEA)”, “inclusão” e “adaptação curricular” tornaram-se comuns no dia a dia escolar. Essa postura evidencia a fundamentalidade da presença de profissionais da saúde na mediação entre o estudante e a escola, mas também ressalta a necessidade de a escola buscar soluções internas e profiláticas.
Para além da incorporação de profissionais da saúde, a escola deve repensar e reestruturar seu currículo obrigatório para oferecer alternativas que mediem o estudante com o conhecimento. A hipótese central deste trabalho é que medicações e profissionais externos não devem ser os únicos recursos. Dentre os princípios para essa reestruturação, o xadrez representa um forte aliado no combate à dispersão da atenção dos estudantes, oferecendo uma abordagem pedagógica que complementa as intervenções clínicas e promove o protagonismo escolar no desenvolvimento integral dos alunos.
De acordo com Jou et al. (2010), entre os casos de TDAH no ambiente escolar, 62% das crianças apresentam uma combinação de falta de atenção e hiperatividade, sendo a desatenção o principal prejuízo à saúde mental. No cotidiano escolar, a falta de atenção manifesta-se em tarefas simples e complexas, como na compreensão das aulas, no cuidado com pertences e na organização de materiais pedagógicos. A criança com TDAH é frequentemente descrita como “alguém que sonha acordada, que não escuta, que está sempre perdendo as coisas, que é esquecida e facilmente distraída pelo ambiente” (Jou et al., 2010, p. 30).
Esses desafios enfrentados por crianças e adolescentes com TDAH têm se tornado cada vez mais frequentes globalmente, com os diagnósticos e percentuais de estudantes portadores de TDAH representando uma estimativa significativa. Nos EUA, a prevalência entre a população escolar varia de 3% a 15% (Jou et al., 2010). Na Alemanha, é de cerca de 9% (Facion, 2004), enquanto no Brasil, Rohde et al. (1999) apontam para 5,8%. Um estudo em Salvador, Bahia, por Freire e Pondé (2005), indicou que crianças com TDAH em idade escolar atingem um índice entre 5,5% e 8,5%.
A estimativa de casos de TDAH é complexa de catalogar e notificar, pois pode variar conforme a região e o índice socioeconômico. Contudo, a pesquisa citada constata que o TDAH é uma realidade presente e possivelmente crescente nos ambientes escolares, com o aumento de laudos e suporte para as crianças afetadas. O Ministério da Saúde (2022) informa que “o número de casos de TDAH variam entre 5% e 8% a nível mundial”, e estima-se que 70% das crianças com o transtorno apresentem outra comorbidade, e pelo menos 10% apresentem três ou mais comorbidades. Essa prevalência representa um desafio considerável para professores e gestores escolares.
Nesse contexto, os artigos científicos sobre o xadrez como ferramenta pedagógica oferecem contribuições substanciais para seu aproveitamento no ambiente escolar. Andrade e Silva (2020) indicam que o xadrez pode ser uma alternativa no tratamento de dependentes químicos, portadores de Transtornos do Espectro Autista e Esquizofrenia, além de ser um aliado para idosos na prevenção de quadros neurodegenerativos. Trata-se de uma atividade ampla que, conforme a bibliografia, transcende os limites de uma atividade produtiva para promover o bem-estar de portadores de transtornos de atenção.
ElDar e El-Shamieh (2015) realizaram um treinamento de xadrez com crianças diagnosticadas com TDAH, utilizando escalas de tarefas de concentração para avaliação. Ao final da intervenção, observou-se que as crianças demoraram mais tempo para apresentar comportamento inadequado, mantiveram-se mais atentas na busca por respostas e focaram nos aspectos importantes das tarefas. Blasco-Fontecilla et al. (2016) examinaram a efetividade do treinamento de xadrez em crianças com TDAH ao longo de 11 semanas, e os resultados em testes psicológicos de atenção indicaram uma diminuição significativa na severidade da desatenção, atestando a contribuição do xadrez para o desenvolvimento cognitivo.
Haag (2018) reflete sobre as relações entre desatenção e déficit intelectual, destacando que a deficiência intelectual é caracterizada por uma perda significativa do funcionamento intelectual, associada a déficits no comportamento adaptativo, manifestando-se até os dezoito anos. Há consenso nos artigos sobre os prejuízos causados pela falta de atenção no desenvolvimento da vida escolar e social de indivíduos com TDAH. Rezende (2005) ressalta o prestígio do xadrez entre os esportes por seu foco no desenvolvimento do raciocínio lógico, concentração e atenção, fundamentado na necessidade de reflexão em cada jogada e na longa duração de uma partida intelectual.
A contribuição do xadrez para a atenção e o desenvolvimento das capacidades intelectuais e emocionais dos estudantes é fundamental, pois reivindica para a escola um protagonismo diante dos desafios impostos pelos transtornos psiquiátricos. A incorporação do xadrez nas grades curriculares, seja de forma obrigatória ou opcional, oferece às famílias uma ferramenta alternativa e lúdica para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional de crianças com TDAH. Piaget (1975), citado por Haag (2018), enfatiza a importância dos jogos em todas as fases escolares, pois permitem à criança experimentar o mundo, buscar soluções e exercitar o intelecto através da análise, observação, atenção, imaginação e linguagem.
Dessa forma, ao integrar o xadrez ao cotidiano escolar, a instituição não apenas cumpre seu papel acadêmico, mas se estabelece como um espaço de acolhimento e suporte especializado. Essa prática transforma o ambiente de aprendizagem, combinando rigor intelectual e prazer lúdico, e oferece respostas concretas às necessidades de inclusão e desenvolvimento integral dos alunos. Os relatos encontrados nas experiências de xadrez em instituições públicas a partir de 2021 reforçam os benefícios do jogo na fala de professores e estudantes, destacando o desenvolvimento das funções executivas, como memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva.
Essas experiências ressaltam o desafio de converter o reconhecimento científico do xadrez em uma prática institucionalizada, garantindo que o jogo deixe de ser uma “possibilidade” dependente de esforços isolados e se torne um direito pedagógico. As pesquisas analisadas apontam para os ganhos obtidos com a adoção do xadrez no ambiente escolar, demonstrando sua contribuição significativa para o desenvolvimento da atenção, concentração e o desenvolvimento cognitivo do estudante. Essas habilidades são estimuladas de forma lúdica e agradável, tornando o xadrez uma ferramenta valiosa e eficaz para o desenvolvimento integral dos alunos.
4. Conclusão
O presente estudo analisou o potencial pedagógico do xadrez como ferramenta complementar no desenvolvimento cognitivo de estudantes, com foco naqueles diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), buscando verificar sua capacidade de estimular a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Verificou-se que, apesar dos significativos entraves culturais e da ausência de incentivo governamental sistemático no Brasil, diversas iniciativas locais em escolas públicas e a fundamentação neurocientífica corroboraram ganhos notáveis. Observou-se que a prática do xadrez promoveu melhorias em disciplina, tomada de decisão, ajustamento acadêmico, atenção e concentração, oferecendo uma alternativa promissora ao protagonismo excessivo de tratamentos psicofarmacológicos no ambiente escolar. A principal contribuição reside em posicionar o xadrez como uma estratégia pedagógica profilática e inclusiva, capaz de capacitar a escola a assumir um papel mais proativo no desenvolvimento das funções executivas dos alunos.
Contudo, a pesquisa evidenciou que a efetivação do xadrez como ferramenta pedagógica em larga escala enfrenta a limitação da falta de institucionalização e de apoio legislativo robusto, mantendo-o muitas vezes como uma “possibilidade” dependente de esforços isolados. A ausência de sua popularidade no imaginário social brasileiro e a dificuldade em converter o reconhecimento científico em prática pedagógica generalizada representam desafios persistentes. Sugere-se que estudos futuros investiguem modelos de implementação curricular que superem essas barreiras, bem como avaliem o impacto de políticas públicas de incentivo ao xadrez em diferentes contextos socioeconômicos. Recomenda-se, ainda, a elaboração de planos de ação que visem a integração do xadrez como um direito pedagógico, e não apenas uma atividade extracurricular, fortalecendo o protagonismo escolar no desenvolvimento integral dos estudantes.
Referências Bibliográficas
Aciego, R.; García, L.; Betancort, M. 2012. The Benefits of Chess for the Intellectual and Social-Emotional Enrichment in Schoolchildren. The Spanish Journal of Psychology 15 (2): 551-559.
American Psychiatric Association. 2014. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ed. Artmed, Porto Alegre, RS, Brasil.
Barrett e Fischi, 2011 [Referência completa não encontrada no documento original]
BBC News Brasil. 2011. Armênia torna ensino de xadrez obrigatório nas escolas. BBC News Brasil 1: 1.
Betti, M. 1998. A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. 1ed. Papirus, Campinas, SP, Brasil.
Brasil. 2018. Base Nacional Comum Curricular. Diário Oficial da União, Brasília, 20 dez. 2018. Seção 1, p. 1-600.
Casa de Xadrez, 2025 [Referência completa não encontrada no documento original]
Moysés, 2013 [Referência completa não encontrada no documento original]
Moysés, 2023 [Referência completa não encontrada no documento original]
Scholz et al., 2008 [Referência completa não encontrada no documento original]
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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