Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación
08 de octubre de 2026
Material didático adaptado para a aprendizagem de crianças com TEA
Material Didático Adaptado para a Aprendizagem de Crianças com Tea
Lidiane Maria Pelais Varella; Sheila Cristina Da Silva Victorio
DOI: 10.22167/2675-6528-202603156
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A educação inclusiva, amparada por marcos legais como a Lei Brasileira de Inclusão, assegura o direito à aprendizagem de todos os alunos, incluindo aqueles com Transtorno do Espectro Autista [TEA]. Contudo, a ausência de materiais didáticos estruturados que conciliem o currículo regular com as necessidades específicas desses estudantes representa um desafio significativo. Teve-se como objetivo desenvolver uma apostila didática física e impressa, fundamentada nos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem [DUA], para promover a participação efetiva de crianças com Transtorno do Espectro Autista no processo de aprendizagem. A metodologia consistiu em pesquisa aplicada de desenvolvimento de material, de natureza descritiva e abordagem qualitativa, utilizando o [DUA] como referencial teórico para garantir múltiplos meios de engajamento, representação, ação e expressão. O produto final foi uma apostila organizada em unidades temáticas alinhadas à grade curricular do 1º ano do Ensino Fundamental, que integrou recursos visuais estruturados, sequências progressivas e alternativas de resposta. A aplicação dos princípios do [DUA] na concepção do material resultou em um recurso pedagógico acessível e flexível, capaz de reduzir barreiras de aprendizagem e atender à diversidade de necessidades dos aprendizes. Concluiu-se que o material desenvolvido constitui uma ferramenta potencialmente eficaz para apoiar práticas pedagógicas inclusivas, contribuindo para a efetiva participação de crianças com [TEA] no contexto da sala de aula comum.
Palavras-chave: Desenho Universal para a Aprendizagem [DUA]; Educação Inclusiva; Material Didático Adaptado; Transtorno do Espectro Autista [TEA].
1. Introdução
A educação inclusiva representa um princípio ético e legal essencial nos sistemas de ensino atuais, garantindo o direito à participação e à aprendizagem significativa para todos os estudantes. No Brasil, este modelo é sustentado por uma legislação abrangente, que inclui a Constituição Federal de 1988, a qual assegura a educação como um direito universal. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabelece a obrigatoriedade do atendimento educacional especializado para alunos com deficiência. Mais adiante, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e as diretrizes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) reforçaram o compromisso com a adaptação dos sistemas educacionais para acolher a diversidade humana. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) consolida essa visão, ao determinar que as instituições de ensino promovam o desenvolvimento integral de todos os alunos, respeitando suas particularidades e fomentando a equidade educacional.
Nesse cenário, a inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) emerge como uma área que demanda atenção e estratégias específicas. O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que se caracteriza por dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (American Psychiatric Association, 2013). Essa condição neurodivergente resulta em maneiras singulares de processar informações e interagir com o ambiente, frequentemente criando barreiras atitudinais, comunicacionais e metodológicas para o aluno na sala de aula regular. A superação desses obstáculos requer planejamento intencional, formação de professores e, crucialmente, o desenvolvimento de recursos e estratégias pedagógicas que facilitem a relação do aluno com o conhecimento.
A elaboração de recursos pedagógicos personalizados busca mitigar os desafios de comunicação e processamento sensorial, promovendo acessibilidade e participação ativa. Estratégias como a estruturação visual do ambiente e das atividades, o uso de apoios visuais e a criação de histórias sociais são reconhecidas na literatura como facilitadoras para indivíduos com autismo. A organização visual oferece previsibilidade, diminui a ansiedade e auxilia na compreensão de rotinas, elementos fundamentais para a segurança e o engajamento do estudante (Schirmer, 2020). Carol Gray (2010) demonstrou como narrativas personalizadas podem esclarecer situações sociais, promovendo o desenvolvimento de competências socioemocionais. Contudo, a prática de desenvolver adaptações individualizadas apenas após a identificação de dificuldades pode gerar sobrecarga para os professores e, por vezes, estigmatizar o aluno.
Diante dessa realidade, o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) surge como um referencial teórico-metodológico proativo e transformador. Desenvolvido pelo Center for Applied Special Technology (CAST) e embasado nas neurociências, o DUA preconiza que o planejamento curricular e a criação de materiais didáticos devem ser concebidos, desde o início, para contemplar a ampla variabilidade de aprendizes. Sua estrutura fundamenta-se em três princípios essenciais, que se relacionam a três redes cerebrais: oferecer múltiplos meios de representação, para que a informação seja apresentada de diversas formas; prover múltiplos meios de ação e expressão, permitindo que os alunos demonstrem seu conhecimento de maneiras variadas; e disponibilizar múltiplos meios de engajamento, estimulando o interesse e a motivação (Meyer et al, 2014).
A aplicação do DUA na elaboração de materiais didáticos permite que estes se tornem flexíveis, acessíveis e desafiadores para todos, removendo barreiras antes que elas se manifestem. Embora o DUA não elimine a necessidade de adaptações individuais em todos os casos, ele minimiza a dependência delas, promovendo um ambiente educacional mais equitativo e eficiente para todos os aprendizes, assegurando que estudantes com deficiência ou necessidades específicas tenham acesso ao conhecimento (Alves e Martins, 2020). As contribuições do DUA são cruciais para a criação de materiais adaptados, pois fomentam a flexibilidade, a inclusão e a acessibilidade desde a fase de planejamento até a implementação dos recursos didáticos. Assim, o presente trabalho justifica-se pela necessidade de materiais que atendam às especificidades de crianças com TEA e tem como objetivo desenvolver e apresentar um recurso pedagógico adaptado, ancorado nos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem, que sirva como ferramenta de acesso à aprendizagem de crianças com TEA, buscando promover a superação de barreiras de comunicação e processamento sensorial, facilitar a compreensão de conceitos abstratos e fomentar a participação ativa, o engajamento e a efetiva inclusão de crianças com Transtorno do Espectro Autista no contexto da sala de aula comum.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, de natureza descritiva e com abordagem metodológica qualitativa. O objetivo central foi o desenvolvimento de um material didático, sem envolver a aplicação prática com alunos ou a coleta de dados empíricos em sala de aula nesta fase inicial. A pesquisa aplicada visou, portanto, a produção de uma apostila como ferramenta de apoio à aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), respondendo à lacuna de materiais estruturados que conciliassem o currículo regular com suas necessidades específicas de processamento sensorial e comunicação. A abordagem qualitativa e descritiva permitiu uma análise crítica do processo de design, dos fundamentos teóricos e das características do produto final.
O desenvolvimento do material pedagógico foi norteado pelos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), que serviram como referencial teórico central. A aplicação do DUA visou garantir a incorporação de múltiplos meios de engajamento, representação, ação e expressão no design do recurso. O material foi concebido como uma apostila didática física e impressa, organizada em unidades temáticas alinhadas à grade curricular do 1º ano do Ensino Fundamental, com foco inicial nos conteúdos de Língua Portuguesa.
Para fundamentar a estruturação pedagógica e garantir a pertinência do material, consultaram-se documentos legais e curriculares vigentes no Brasil. Foram analisadas a Constituição Federal (1988), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), a Lei Brasileira de Inclusão (2015), a Base Nacional Comum Curricular (2018) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Especial (2020). Estes documentos asseguraram o alinhamento do material às normativas educacionais e às competências esperadas.
Na concepção do material, incorporaram-se elementos visuais e textuais para atender aos princípios do DUA. Utilizaram-se desenhos, figuras e tamanho de fonte adequado para promover a legibilidade e enriquecer a representação da informação. As atividades foram planejadas para estimular o interesse e a participação de crianças com autismo, priorizando a estruturação visual e o uso de apoios visuais para previsibilidade e redução da ansiedade. A diagramação foi limpa, com espaçamento ampliado para reduzir a sobrecarga visual e facilitar a focalização, considerando a hipersensibilidade sensorial (Grandin, 2020).
A operacionalização do princípio de Múltiplos Meios de Representação foi realizada pela apresentação visual da informação, por meio de imagens realistas e pictogramas, complementando o texto verbal. Em atividades de escrita de nomes de animais marinhos, a representação visual concretizou o conceito. Em tarefas de sequência numérica, o conceito abstrato de número foi duplamente representado por símbolos e quantidades visuais de frutas, tornando-o mais tangível e acessível.
O princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão foi contemplado pela oferta de diversas alternativas para que os alunos pudessem demonstrar seu conhecimento. Em atividades de completar sequências numéricas, permitiu-se que o aluno respondesse escrevendo o numeral ou desenhando a quantidade correspondente. Em tarefas de interpretação de texto, as respostas puderam ser fornecidas por escrita, seleção de alternativas ou apontando em uma lista, respeitando diferentes perfis motores e comunicativos. A atividade de labirinto utilizou uma resposta não verbal e motora, por meio do traçado de um caminho.
Para o princípio de Múltiplos Meios de Engajamento, buscaram-se estratégias que estimulassem o interesse e a motivação intrínseca dos aprendizes. A temática de animais marinhos foi utilizada para explorar interesses específicos. A atividade de interpretação de texto foi personalizada com o nome do aluno e abordou temas de seu interesse, aumentando a relevância pessoal. A atividade de labirinto foi apresentada como um jogo ou missão, incorporando elementos lúdicos e de fantasia para promover a persistência e a autorregulação.
O protótipo físico do material foi confeccionado e, posteriormente, impresso em papel de gramatura de 120g. Esta escolha visou permitir um manuseio adequado e a aplicação de recursos táteis, como texturas coladas, em atividades específicas. A combinação de suporte visual com estímulo à discriminação visual de grafemas foi uma constante, buscando contornar dificuldades de compreensão de linguagem não literal e de processamento de informações ambíguas. O processo de design foi guiado pela análise crítica dos fundamentos teóricos do DUA e pela busca por estratégias pedagógicas que pudessem mitigar barreiras de aprendizagem para crianças com TEA.
3. Resultados e Discussão
O material didático desenvolvido, denominado “Complementação Pedagógica – Volume 2”, foi estruturado em unidades temáticas que se alinham aos eixos de aprendizagem de Língua Portuguesa para o 1º ano do Ensino Fundamental. Essas unidades abordam conteúdos essenciais, como o reconhecimento de vogais, a formação de sílabas simples e a leitura de palavras inseridas em contextos significativos. A concepção do material priorizou a clareza e a previsibilidade, elementos fundamentais para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que frequentemente se beneficiam de estruturas bem definidas para reduzir a ansiedade e facilitar a transição entre tarefas, conforme apontado pela American Psychiatric Association (2013).
Cada página de abertura das unidades temáticas incorpora um pictograma e um tema visual distintivo, servindo como sinalizadores claros do conteúdo a ser explorado. Essa estratégia de organização visual é crucial para promover a antecipação e a compreensão, minimizando as dificuldades de processamento sensorial e de linguagem não literal que são comuns no TEA. As atividades são apresentadas em sequências progressivas, com um aumento gradual de complexidade, o que permite que o aluno avance em seu próprio ritmo, apoiado por imagens realistas e instruções que são objetivas e de fácil compreensão.
A clareza visual e linguística empregada na apostila visa superar as dificuldades de compreensão de linguagem não literal e de processamento de informações ambíguas, características frequentemente observadas no espectro autista. O material integra suporte visual, utilizando imagens realistas, com estímulos para a discriminação visual de grafemas, o que atende diretamente ao princípio de Múltiplos Meios de Representação do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA). Essa abordagem multifacetada garante que a informação seja acessível a diferentes estilos de aprendizagem e processamento cognitivo.
Atividades que envolvem a ordenação de cenas e a construção de frases simples, com o auxílio de pictogramas, foram incluídas para desenvolver a noção de tempo, a sequência lógica e a estruturação frasal. Essas habilidades são particularmente importantes para crianças com TEA, que podem apresentar desafios na organização temporal, na narrativa e na compreensão de relações de causa e efeito, conforme destacado por Bosa (2006). A utilização de temas do cotidiano nessas sequências foi uma estratégia intencional para aumentar o engajamento dos alunos, conectando o conteúdo a experiências significativas e relevantes, em consonância com o princípio de Múltiplos Meios de Engajamento do DUA.
A diagramação do material foi cuidadosamente planejada para ser limpa, com espaçamento ampliado, visando reduzir a sobrecarga visual e facilitar a focalização da atenção. A hipersensibilidade sensorial, incluindo a visual, é uma característica frequente no TEA, como observado por Grandin (2020), e um layout “limpo” auxilia a direcionar o foco para os estímulos mais relevantes. A fonte utilizada foi a Arial, em tamanho maior, escolhida por sua alta legibilidade e baixa complexidade gráfica, contribuindo para uma experiência de leitura mais confortável e acessível.
Para promover a autonomia do aluno e fornecer pistas claras sobre o fluxo de trabalho, foram incorporados marcadores visuais de transição, como setas, caixas altas e ícones que indicam o fim de uma atividade e o início da próxima. Essa estruturação visual reduz a dependência de mediação constante, permitindo que o estudante compreenda e siga as etapas das tarefas de forma mais independente. A flexibilidade foi um pilar na concepção das atividades, oferecendo múltiplas alternativas de resposta, como circular, pintar o quadro correto ou colar a figura correspondente, respeitando diferentes perfis motores e preferências de interação, o que exemplifica o princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão do DUA.
O protótipo físico do material foi desenvolvido para ser impresso em papel de gramatura adequada (120g), o que facilita o manuseio e a aplicação de recursos táteis, como texturas coladas. Essa característica física do material visa enriquecer a experiência sensorial do aprendizado, tornando-o mais concreto e engajador. A integração desses elementos físicos e visuais demonstra um compromisso com a criação de um recurso pedagógico que atende às diversas necessidades dos alunos, especialmente aqueles com TEA.
A análise detalhada das atividades do material “Complementação Pedagógica – Volume 2” revela a aplicação integrada dos princípios do DUA. A atividade “Escreva o nome dos animais marinhos” apresenta imagens de animais marinhos em sequência, solicitando que o aluno escreva seus nomes em linhas tracejadas. Esta tarefa, embora aparentemente simples, mobiliza processos cognitivos complexos como reconhecimento visual, acesso ao léxico, memória semântica, coordenação motora para a escrita e compreensão de sequências, elementos que são frequentemente desafiadores para alunos com TEA, especialmente no que tange ao conceito abstrato de tempo (Bosa, 2006).
A sequência visual concretiza o tempo, transformando uma abstração em elementos espaciais organizados, o que facilita a integração de informações para o aluno com TEA. A atividade, planejada sob a perspectiva do DUA, transcende seu objetivo acadêmico aparente, tornando-se uma ferramenta para desenvolver conceitos temporais, fortalecer funções executivas, promover comunicação e expressão, e construir autonomia e autorregulação. A aplicação intencional dos princípios do DUA potencializa o alcance pedagógico do material, garantindo que o aluno demonstre sua compreensão pela escrita, com o suporte das linhas tracejadas para a expressão motora, e que a temática dos animais marinhos aumente a motivação intrínseca.
A atividade “Complete a sequência numérica”, que utiliza imagens de frutas, propõe que o aluno observe uma sequência lógica (por exemplo, 1, 2, __, 4) e preencha o elemento faltante, associando o numeral à quantidade de figuras. Esta tarefa integra conceitos matemáticos fundamentais e envolve múltiplos processos cognitivos, como percepção visual de padrões, contagem sequencial, correspondência termo a termo entre numeral e quantidade, raciocínio lógico e coordenação motora para registrar a resposta. Para alunos com TEA, o pensamento abstrato e a compreensão de padrões implícitos podem ser desafios significativos (Bosa, 2006).
A estrutura da atividade 2 aborda essas dificuldades ao oferecer um duplo suporte: a representação visual concreta das quantidades (as frutas) ao lado dos símbolos numéricos abstratos. Essa estratégia, alinhada ao princípio de Múltiplos Meios de Representação do DUA, transforma um conceito abstrato em algo tangível e acessível. A criança pode contar visualmente as frutas para confirmar ou descobrir o número que falta, construindo a compreensão numérica a partir de uma base concreta antes de avançar para a abstração. A flexibilidade na forma de expressão, permitindo que o aluno escreva o numeral ou desenhe a quantidade de frutas, contempla o princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão, respeitando diferentes perfis de desenvolvimento e níveis de habilidade.
A atividade “História: Allan e o Sapo Verde” / Interpretação de texto, apresenta um texto curto e personalizado, seguido de perguntas objetivas de interpretação. Esta tarefa mobiliza processos cognitivos complexos como decodificação leitora, compreensão semântica, localização de informações explícitas, memória de trabalho e capacidade de selecionar ou produzir respostas adequadas. Para alunos com TEA, a compreensão de textos pode ser particularmente desafiadora devido a dificuldades na inferência, na compreensão de linguagem não literal e na identificação de informações relevantes em meio a múltiplos estímulos (APA, 2013).
A atividade 3 aborda essas barreiras por meio de estratégias cuidadosamente planejadas à luz do DUA. O princípio de Múltiplos Meios de Representação é operacionalizado pela combinação do texto verbal com um contexto altamente visual e personalizado, utilizando o nome do próprio aluno (“Allan”) como protagonista e abordando uma temática de seu interesse (“desenhar animais”), o que facilita a construção de significado e a conexão com conhecimentos prévios. O princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão é contemplado pela oferta de diferentes formatos de resposta, como escrita convencional, seleção (marcar com X) ou apontar em uma lista de opções, respeitando diferentes perfis comunicativos e níveis de desenvolvimento da linguagem escrita. O engajamento é promovido pelo uso do nome do aluno na narrativa, gerando relevância pessoal e motivação intrínseca para a leitura e compreensão.
A atividade “Ajude os cavaleiros a chegarem ao castelo” (Labirinto) propõe que o aluno encontre, traçando uma linha, o caminho correto entre o ponto de partida (cavaleiro) e o destino (castelo). Esta tarefa lúdica envolve processos cognitivos como percepção visual-espacial, planejamento de rotas, antecipação de obstáculos, tomada de decisão sequencial, controle inibitório e coordenação motora fina. Para alunos com TEA, desafios nas funções executivas, incluindo planejamento, flexibilidade cognitiva e monitoramento de ações, são frequentemente relatados (Bosa, 2006).
A atividade 4 aborda essas dificuldades por meio de uma estrutura que oferece suporte ao desenvolvimento dessas habilidades. O princípio de Múltiplos Meios de Representação é operacionalizado pela natureza predominantemente visual da tarefa, onde as regras e o objetivo são compreendidos quase inteiramente através de processamento visual-espacial, reduzindo a dependência de instruções verbais complexas. O princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão é contemplado pela forma de resposta não verbal e motora, permitindo que a criança expresse sua solução simplesmente traçando o caminho com um lápis, o que é valioso para alunos com dificuldades na expressão escrita ou comunicação verbal. O engajamento é evidenciado pela apresentação da atividade como um jogo ou missão (“Ajude os cavaleiros”), que incorpora elementos de fantasia e narrativa, aumentando o interesse e a persistência na tarefa.
A atividade “Numere as cenas de acordo com a ordem dos acontecimentos” (Rotina diária) propõe que o aluno organize uma série de imagens em sequência temporal lógica, atribuindo números a cada cena para contar uma história coerente. As cenas retratam uma rotina diária familiar, envolvendo processos cognitivos como reconhecimento de ações cotidianas, compreensão de relações temporais (antes/depois), inferência de sequências lógicas, memória de trabalho e capacidade de narrar eventos em sequência. Para alunos com TEA, a compreensão e organização do tempo constituem desafios significativos, pois o tempo é um conceito abstrato que não pode ser diretamente percebido pelos sentidos (Bosa, 2006).
A atividade 5 aborda essas barreiras de forma particularmente eficaz à luz do DUA. O princípio de Múltiplos Meios de Representação é operacionalizado pela apresentação do conceito de temporalidade de forma dupla: visualmente, através das imagens que retratam cada momento da rotina, e verbalmente, com frases descritivas abaixo de cada cena. Essa redundância de informações oferece suporte para diferentes estilos de processamento e reforça a compreensão. O princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão é contemplado pela flexibilidade na forma de demonstrar a compreensão da sequência, permitindo que o aluno expresse a ordem escrevendo números nos quadrinhos, ligando as cenas em sequência ou, em uma adaptação adicional, ordenando fisicamente cartões recortados com as imagens. O engajamento é evidenciado pela escolha do tema da rotina diária, que é altamente relevante, previsível e significativo para a vida do aluno, promovendo autonomia e reduzindo a ansiedade.
A atividade “Pinte um círculo para cada animal… anote o numeral” (Quantificação) propõe que o aluno conte conjuntos de animais, represente a quantidade pintando um círculo para cada unidade contada e, finalmente, anote o numeral total correspondente. Esta tarefa, que trabalha o conceito de número e quantidade, envolve processos cognitivos como contagem um a um (correspondência termo a termo), representação pictórica de quantidades, transcodificação de quantidade concreta para símbolo abstrato, coordenação motora para pintar e escrever, e compreensão do princípio de cardinalidade. Para alunos com TEA, a compreensão do conceito de número e a transição do concreto para o abstrato podem representar desafios significativos (APA, 2013).
A atividade 6 aborda essas dificuldades por meio de uma estrutura progressiva que oferece múltiplos níveis de representação, alinhada ao princípio de Múltiplos Meios de Representação do DUA. A atividade apresenta a quantidade em três níveis integrados: o nível concreto, com imagens dos animais; o nível intermediário/pictórico, com círculos para pintar; e o nível abstrato/simbólico, com o numeral escrito. Essa progressão oferece um suporte cognitivo poderoso, permitindo que a criança construa a compreensão numérica passo a passo, partindo do tangível e avançando gradualmente para a representação simbólica. O princípio de Múltiplos Meios de Ação e Expressão é contemplado pela integração de diferentes ações na mesma atividade, como contagem oral ou mental, ação motora de pintar os círculos e ação motora de escrever o numeral, respeitando o perfil de cada aprendiz. O engajamento é evidenciado pela segmentação da atividade em etapas claras e sequenciais (contar, pintar, escrever), o que favorece a autorregulação e oferece uma estrutura previsível que reduz a ansiedade.
A análise detalhada das seis atividades do material “Complementação Pedagógica – Volume 2” demonstra que o desenvolvimento do recurso não se limitou a aplicar isoladamente cada princípio do DUA, mas os integrou de forma sinérgica em cada atividade. Em todas as tarefas, observou-se a representação da informação por múltiplas vias (visual, verbal, concreta, simbólica), garantindo acessibilidade para diferentes perfis de processamento. A oferta de múltiplos meios de ação e expressão permitiu que os alunos demonstrassem seu conhecimento de acordo com suas possibilidades e preferências, e a incorporação de estratégias de engajamento tornou a aprendizagem relevante, significativa e motivadora, seja pela personalização, pelo caráter lúdico ou pela conexão com experiências concretas.
Essa flexibilidade embutida no design das atividades é a essência da abordagem proativa do DUA (Meyer et al, 2014; Alves e Martins, 2020). Ela permite que o professor e o aluno negociem os melhores caminhos para a aprendizagem, reduzindo barreiras desde o planejamento e atendendo não apenas às necessidades específicas de alunos com TEA, mas à variabilidade natural de toda a turma. A personificação, a temática baseada em interesses específicos e a estruturação visual cuidadosa, como observado nas atividades, são estratégias que diretamente promovem o engajamento e a significância da aprendizagem (Schirmer, 2020; Gray, 2010), corroborando a eficácia do desenho instrucional proposto. Dessa forma, o material desenvolvido representa uma ferramenta pedagógica que, ao incorporar os princípios do DUA, busca promover a superação de barreiras de comunicação e processamento sensorial, facilitar a compreensão de conceitos abstratos e fomentar a participação ativa, o engajamento e a efetiva inclusão de crianças com Transtorno do Espectro Autista no contexto da sala de aula comum.
4. Conclusão
O presente estudo teve como objetivo desenvolver um recurso pedagógico adaptado, fundamentado nos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), para promover a participação efetiva de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no processo de aprendizagem. Verificou-se a elaboração da apostila “Complementação Pedagógica – Volume 2”, estruturada em unidades temáticas alinhadas ao currículo de Língua Portuguesa do primeiro ano do Ensino Fundamental. Os achados indicaram que o material incorporou elementos visuais estruturados, sequências progressivas de atividades e múltiplas alternativas de resposta, visando a clareza e a previsibilidade. Observou-se que a aplicação sinérgica dos princípios do DUA, ao oferecer diversos meios de representação, ação/expressão e engajamento, resultou em um recurso acessível e flexível. Essa abordagem proativa demonstrou potencial para reduzir barreiras de comunicação e processamento sensorial, facilitar a compreensão de conceitos abstratos e fomentar a participação ativa, contribuindo para a efetiva inclusão de crianças com TEA no contexto da sala de aula comum e beneficiando a diversidade de aprendizes.
Contudo, reconhece-se que o trabalho apresenta limitações inerentes à sua natureza de desenvolvimento de material, como a ausência de validação empírica em ambiente escolar, o que restringe a comprovação imediata de sua eficácia pedagógica. Além disso, o escopo de conteúdo ficou restrito à Língua Portuguesa do primeiro ano do Ensino Fundamental, e a concepção inicial não incluiu avaliação por educadores ou especialistas em educação inclusiva, bem como um recorte geográfico e cultural específico. Para estudos futuros, sugere-se a submissão do material à avaliação de educadores e especialistas, a realização de estudos de aplicação prática em sala de aula para validação e aprimoramento, a expansão do conteúdo para outras áreas e séries, o desenvolvimento de versões digitais interativas e a criação de orientações para professores sobre a mediação e uso complementar do recurso.
Referências Bibliográficas
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Brasil. 1988. Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988.
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Brasil. 2008. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. MEC/SEESP, Brasília.
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Gray, C. 2010. The new social story book. Future Horizons, Arlington, TX, EUA.
Meyer, A.; Rose, D.H.; Gordon, D.
Schirmer, C.R. 2020. Comunicação e linguagem no autismo: estratégias e recursos pedagógicos. Memnon, São Paulo, SP, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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