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09 de outubro de 2026
Métodos Ágeis: Desafios na implementação na contratação em empresas da administração pública na prática organizacional
Métodos Ágeis: Desafios na Implementação na Contratação em Empresas da Administração Pública na Prática Organizacional
Marcia de Souza Batista Oliveira; Sarah de Oliveira Silva dos Santos
DOI: 10.22167/2675-6528-202603225
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A agilidade organizacional tornou-se crucial em ambientes corporativos complexos e voláteis, como a administração pública, onde as constantes mudanças exigem respostas rápidas e eficientes. O estudo objetivou analisar os desafios da aplicação da metodologia ágil em uma organização da administração pública, com foco na maturidade das equipes, nos processos de contratação, no uso de métricas e nos fatores organizacionais relacionados à geração de valor. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva e qualitativa, utilizando um estudo de caso como principal instrumento de pesquisa, o que permitiu comparar a literatura sobre metodologias ágeis com sua aplicação prática. A análise revelou que a maturidade das equipes representou um desafio, exigindo que os profissionais compreendessem o método ágil e suas ferramentas. Identificaram-se, ainda, oportunidades de aprimoramento nos processos, indicando que práticas ágeis bem estruturadas contribuíram para maior eficiência, alinhamento setorial e adaptação às mudanças. Concluiu-se que a efetividade da metodologia ágil na contratação pública transcendeu a mera implementação de práticas e cerimônias, demandando o desenvolvimento de competências técnicas, suporte institucional e integração entre planejamento e execução, o que reforçou a necessidade de adequações estruturais para sua consolidação no setor público.
Palavras-chave: Agilidade organizacional; Framework SAFe; Maturidade de equipes; Métricas.
1. Introdução
A transformação digital e a crescente demanda por eficiência na gestão de projetos impulsionaram organizações públicas e privadas a reavaliar seus modelos tradicionais de desenvolvimento de soluções sistêmicas (Camargo e Ribas, 2019). Esse movimento busca maior adaptabilidade, redução de desperdícios e aprimoramento dos resultados organizacionais em ambientes de complexidade crescente.
Nesse cenário, as metodologias ágeis emergiram como uma alternativa promissora, promovendo flexibilidade, colaboração entre equipes e um foco contínuo na entrega de valor. Esses métodos valorizam indivíduos e interações, a entrega incremental de soluções funcionais, a colaboração com as partes interessadas e a capacidade de adaptação às mudanças ao longo do ciclo de desenvolvimento (Prilandnicki et al., 2014).
Com a expansão da adoção dessas práticas em organizações de grande porte, o Scaled Agile Framework (SAFe) consolidou-se na literatura como um modelo estruturado para escalar métodos ágeis em ambientes organizacionais complexos (Lima e Oliveira, 2024). Sua estrutura, papéis e cerimônias contribuem para o alinhamento entre estratégia e execução, sustentando processos de planejamento, execução e melhoria contínua (Scaled Agile, Inc., 2025).
Contudo, a aplicação de abordagens ágeis na administração pública enfrenta desafios adicionais, decorrentes das exigências legais, normativas e administrativas que regem o setor. Tais condicionantes impõem restrições à governança, à conformidade jurídica e à necessidade de definição prévia e detalhada do escopo em processos licitatórios, impactando a flexibilidade inerente às práticas ágeis (Kovags et al., 2019; Rosa e Pereira, 2021). A complexidade da legislação tributária brasileira, com a edição de aproximadamente dois regulamentos fiscais por dia útil e a alteração de cerca de 96% das normas após sua promulgação, exemplifica a necessidade de agilidade e adaptação (Bossa e Nobre, 2022).
Diante desse contexto, a mensuração do desempenho de equipes e projetos em ambientes ágeis torna-se crucial. Estudos indicam que métricas adequadas possibilitam o monitoramento sistemático das entregas e subsidiam a tomada de decisão, frequentemente alinhadas a modelos de gestão por objetivos (Niebuhr e Niebuhr, 2019; Filho, 2021). Além disso, o desenvolvimento contínuo de competências técnicas, treinamentos em práticas ágeis e a manutenção de documentação adequada são fundamentais para a consolidação da transformação ágil (Baxter et al., 2023; Sutherland e Sutherland, 2014; Gonçalves et al., 2020).
A presente pesquisa foi realizada em uma organização de grande porte do setor de energia, que opera em um ambiente complexo e altamente regulado, especialmente em processos tributários. A demanda por soluções ágeis para gerenciar múltiplas tarefas simultâneas e recursos limitados nesse contexto ofereceu um ambiente propício para investigar como essas práticas contribuem para a gestão eficiente de projetos complexos. O estudo buscou responder à questão: quais foram os desafios inerentes à aplicação da metodologia ágil em instituições públicas? Nesse sentido, o presente trabalho teve como objetivo analisar os desafios da aplicação da metodologia ágil em organização da administração pública, com ênfase na maturidade das equipes, nos processos de contratação, no uso de métricas e nos fatores organizacionais relacionados à geração de valor.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como descritiva, conforme a definição de Gil (2024), que aborda a descrição de propriedades de um fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis sem a intervenção direta do pesquisador. Adotou-se uma abordagem qualitativa, que priorizou a investigação de fenômenos em seus contextos naturais, buscando interpretar os significados, valores e percepções dos sujeitos envolvidos (Gil, 2024). Essa escolha metodológica alinhou-se aos objetivos do estudo, permitindo a análise de elementos subjetivos do cenário investigado.
O delineamento da pesquisa empregou a estratégia de estudo de caso, que possibilitou o exame detalhado de um objeto específico para aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno (Gil, 2024). O objeto empírico consistiu em uma solução sistêmica implementada em uma organização de grande porte do setor de energia, localizada no estado do Rio de Janeiro. Essa instituição opera em um ambiente complexo e altamente regulado, com demandas significativas em processos tributários.
A solução sistêmica analisada foi desenvolvida para identificar notas fiscais geradoras de crédito do Programa de Integração Social [PIS] e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social [COFINS], em operações de estoque avaliadas pelo método de Custo Médio. O sistema buscou restabelecer a rastreabilidade de documentos fiscais, que apresentavam limitações recorrentes devido à perda de individualização dos itens no estoque. A análise focou em uma solução já implementada, em um contexto de múltiplas demandas e recursos limitados.
A população do estudo foi composta por profissionais envolvidos no desenvolvimento e gestão da solução sistêmica. A seleção dos participantes ocorreu de forma progressiva, considerando sua relação direta com o objeto de estudo e suas funções organizacionais. Foram entrevistados cinco participantes: dois gerentes que atuaram como Product Owner [PO] e Product Manager [PM], um coordenador e dois analistas do time ágil, com experiência em tecnologia da informação e processos tributários.
Para a coleta de dados, utilizou-se a técnica de entrevista semiestruturada. As perguntas foram elaboradas com base no referencial teórico sobre metodologias ágeis e nos objetivos do estudo, abrangendo aspectos como papéis do Framework SAFe, cerimônias ágeis, contribuições do SAFe para processos internos, definição de escopo e compatibilidade com modelos de contratação, formas de medição de desempenho, competências técnicas das equipes, obstáculos e recomendações de melhoria.
As entrevistas foram realizadas de forma online, utilizando a plataforma corporativa Microsoft Teams. Os encontros foram agendados previamente com cada participante e tiveram duração média de 40 minutos. O roteiro semiestruturado garantiu a cobertura dos temas relevantes, ao mesmo tempo em que permitiu a exploração de detalhes e percepções específicas dos entrevistados sobre a aplicação da metodologia ágil na organização.
Após a coleta, as entrevistas foram transcritas e organizadas para facilitar a análise do conteúdo. Os dados obtidos foram analisados qualitativamente, por meio da classificação em categorias temáticas. Essas categorias foram definidas com base na literatura e nos objetivos da pesquisa, contemplando aspectos como papéis da equipe, cerimônias ágeis, contratos e escopo, medições de desempenho, competência técnica e desafios organizacionais.
O presente estudo não foi submetido à apreciação de Comitê de Ética em Pesquisa [CEP]. Essa decisão fundamentou-se na Resolução nº 510, de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde, que, em seu Art. 1º, parágrafo único, caracteriza a pesquisa como análise de práticas institucionais e coleta de percepções dos participantes sem identificação direta ou indireta, não se configurando como pesquisa envolvendo seres humanos para fins de submissão ao sistema CEP/CONEP.
3. Resultados e Discussão
Os resultados obtidos por meio das entrevistas detalhadas nesta seção foram categorizados conforme o embasamento teórico e os propósitos específicos do estudo. As evidências coletadas permitiram identificar tendências e aspectos significativos do cotidiano das equipes, possibilitando um confronto direto dos achados com a literatura pertinente à aplicação de metodologias ágeis. De modo geral, a análise revelou que os principais desafios não residiram na metodologia ágil em si, mas na sua forma de contratação e operacionalização dentro do contexto organizacional específico da administração pública, que impôs particularidades à implementação.
A inadequação entre os modelos contratuais tradicionais e os princípios ágeis, somada às limitações na definição de métricas, na compreensão dos papéis e na condução das cerimônias, comprometeu a efetividade da abordagem e a geração de valor esperada. Fatores como a necessidade de maior capacitação das equipes, o aprimoramento da gestão do conhecimento e o fortalecimento do alinhamento estratégico foram identificados como elementos cruciais para a consolidação das práticas ágeis no ambiente estudado. A seguir, os achados são detalhados por categorias temáticas, refletindo os eixos de análise propostos.
Maturidade das Equipes
No que concerne à definição e execução dos papéis ágeis, conforme investigado pela pergunta P1, os participantes da pesquisa revelaram que, embora os papéis do Framework SAFe, como Product Owner e Scrum Master, estivessem formalmente estabelecidos na estrutura organizacional, sua aplicação prática no dia a dia dos projetos enfrentou desafios significativos. Observou-se uma notável resistência cultural à adoção desses novos papéis, acompanhada por dificuldades de adaptação e uma tendência à burocratização das funções, o que divergiu da flexibilidade inerente às metodologias ágeis. Essa situação, caracterizada por sobrecarga de trabalho e limitação de recursos, comprometeu a efetividade esperada desses papéis, indicando a necessidade premente de ajustes organizacionais e de um suporte contínuo para garantir o alinhamento interno e a clareza das responsabilidades. Tais achados ressaltam a complexidade de implementar mudanças culturais em ambientes públicos, onde a rigidez estrutural pode dificultar a plena adoção de novas práticas de gestão (Kovags et al., 2019).
Em relação à competência técnica das equipes, abordada pela pergunta P6, os resultados indicaram que os profissionais enfrentaram desafios tanto na disponibilidade de recursos humanos quanto nos processos organizacionais. A escassez de profissionais experientes, aliada à necessidade contínua de capacitação devido às frequentes mudanças contratuais, impactou diretamente o ritmo e a qualidade das entregas. Embora os desenvolvedores contratados demonstrassem boa capacidade técnica, eles se depararam com barreiras relacionadas ao desconhecimento dos processos internos da organização e às limitações de infraestrutura. A ausência de registros formais e de documentação robusta comprometeu a rastreabilidade, a clareza do escopo dos projetos e o monitoramento das atividades, dificultando a preservação do conhecimento organizacional. Essa lacuna contrasta com a importância da documentação útil e oportuna, conforme destacado por Prikladnicki et al. (2014), para evitar desperdícios e custos desnecessários.
A baixa maturidade das equipes na compreensão de seus papéis e na gestão do conhecimento limitou a autonomia e a colaboração esperadas em abordagens ágeis, distanciando a realidade da organização da teoria que preconiza times autônomos e transparentes. A capacitação contínua, por meio de treinamentos formais e informais, workshops e mentoring, mostrou-se um fator crítico para que os membros das equipes compreendessem suas responsabilidades e as práticas ágeis. A disponibilização de locais de consulta e repositórios de dúvidas também contribuiu para reduzir incertezas e acelerar a maturidade das equipes, reforçando que, sem esse suporte, a agilidade não alcançaria o retorno prometido (Baxter et al., 2023).
Cerimônias Ágeis
No que se refere às cerimônias ágeis, investigadas pela pergunta P2, os participantes indicaram que, em alguns momentos, a execução dessas cerimônias concentrou-se excessivamente na aplicação do método, desviando a atenção da entrega de valor estratégico. Essa situação evidenciou a necessidade de alinhar as iniciativas ágeis aos objetivos estratégicos da organização, garantindo que as cerimônias servissem ao propósito de gerar valor, e não apenas à conformidade processual. A literatura, como Scaled Agile, Inc. (2025), enfatiza que as cerimônias devem ser pilares para o alinhamento, a transparência e a entrega contínua de valor, o que não foi plenamente observado na prática.
Foi mencionado, ainda, o desejo de adotar cerimônias mais enxutas, incluindo a redução das reuniões diárias, conhecidas como *dailies*. A proposta era que essas reuniões fossem realizadas de forma mais breve, com duração de até 15 minutos, para evitar a sobrecarga de reuniões e preservar a produtividade das equipes, desde que os princípios ágeis fossem mantidos. Essa percepção alinha-se à busca por eficiência e à eliminação de desperdícios, princípios fundamentais do Lean e Agile, que visam otimizar processos e maximizar a entrega de valor (Scaled Agile, Inc., 2025).
Implementação do SAFe e Fatores Organizacionais
Quanto à percepção da implementação do Scaled Agile Framework (SAFe) e suas contribuições para os processos internos da empresa, abordada pela pergunta P3, os entrevistados informaram que o *framework* foi conceitualmente positivo, especialmente por favorecer a aproximação entre as áreas de negócio e de desenvolvimento. No entanto, destacaram que sua aplicação prática foi frequentemente percebida como pesada e complexa, principalmente devido à necessidade de sincronização entre múltiplos times. Embora o modelo apresentasse boa sustentação teórica, sua adoção em organizações de grande porte e elevada complexidade enfrentou limitações, uma vez que diversos elementos não se ajustaram plenamente à realidade operacional da instituição.
Nesse contexto, o SAFe foi utilizado pela empresa com customizações significativas, realizadas para atender à alta carga de trabalho e às particularidades da cultura e dos processos internos. Isso indicou que o *framework*, apesar de suas qualidades intrínsecas, não se adaptou integralmente às dinâmicas corporativas mais complexas sem adaptações substanciais. A percepção de sobrecarga de reuniões e cerimônias, com um foco excessivo no método em detrimento da entrega de valor estratégico, também foi um fator organizacional relevante. Essa situação contribuiu para a baixa maturidade na gestão financeira e orçamentária, com limitada visibilidade sobre custos, o que prejudicou a tomada de decisão e o alinhamento contínuo entre planejamento e mudanças.
A necessidade de maior suporte organizacional para a redução de demandas paralelas e a melhoria da priorização estratégica foi um ponto crucial. A multiplicidade de demandas simultâneas e a baixa aderência cultural às práticas ágeis foram obstáculos significativos que comprometeram a eficiência das entregas e a preservação do conhecimento organizacional. Esses fatores organizacionais evidenciaram que a mera implementação de um *framework* ágil não é suficiente; é preciso um ambiente organizacional que o suporte e o adapte às suas particularidades, conforme sugerido por Lima e Oliveira (2024) ao discutir a escalabilidade de métodos ágeis em ambientes complexos.
Contratações e Escopo
Em relação à definição do escopo nos projetos ágeis e à compatibilidade com o modelo de contratação global, conforme a pergunta P4, os entrevistados apontaram barreiras significativas à adoção efetiva de práticas ágeis. A predominância de contratos baseados em horas técnicas ou em escopos rigidamente definidos, embora proporcionasse previsibilidade e maior agilidade no processo de contratação, limitou as iniciativas de inovação e aprendizado. Essa rigidez reduziu a capacidade de explorar soluções em contextos de maior incerteza, característica fundamental das metodologias ágeis que valorizam a adaptabilidade às mudanças (Prikladnicki et al., 2014).
Houve também indicação de baixa maturidade no acompanhamento orçamentário, marcada pela falta de visibilidade sobre custos, impactos financeiros e valor agregado pelas entregas. Essa limitação prejudicou a tomada de decisão e dificultou o alinhamento contínuo entre planejamento e mudanças, o que é crucial para a gestão ágil. Observou-se, portanto, a necessidade de evolução tanto na modelagem contratual quanto na gestão financeira para que as práticas ágeis pudessem se consolidar de forma mais efetiva na organização. A incompatibilidade entre os modelos contratuais tradicionais e a natureza iterativa do ágil, aliada à alta rotatividade que impactou a continuidade das equipes e a perda de conhecimento organizacional, reforçou a necessidade de uma evolução na modelagem contratual para suportar cenários de incerteza e inovação, conforme apontado por Rosa e Pereira (2021) e Brasil (2016).
Métricas de Desempenho
No que diz respeito à forma de medição utilizada no contrato vinculado ao estudo de caso, abordada pela pergunta P5, os entrevistados avaliaram que a adoção de métodos ágeis em ambientes regulados enfrentou desafios significativos. A legislação demandou comprovação objetiva das entregas, enquanto o ágil se baseou em incrementos que nem sempre foram plenamente tangíveis no curto prazo. Essa característica dificultou a validação dos ciclos curtos de desenvolvimento com entregas incrementais (*sprints*) e a mensuração necessária para fins de aceite e pagamento, o que gerou um desalinhamento entre as métricas tradicionais de prazo e esforço e o valor ou a complexidade das entregas.
Adicionalmente, a estimativa por *story points*, uma medida relativa de esforço em tarefas ágeis, apresentou elevada subjetividade, variando conforme a experiência dos profissionais e gerando conflitos quando não havia domínio técnico suficiente para contribuir efetivamente nas discussões. Embora o *Planning Poker*, uma técnica de estimativa colaborativa, tenha se consolidado como capaz de gerar estimativas mais equilibradas, os entrevistados apontaram que sua utilização foi limitada e pouco difundida entre as equipes. Essa baixa adoção reduziu a possibilidade de alinhamento entre Product Owner, líderes técnicos, equipes da empresa e contratadas, favorecendo estimativas unilaterais e potenciais distorções na pontuação. A inexistência de métricas claras de valor agregado, com foco excessivo em prazos e pontos em detrimento da qualidade, evidenciou a necessidade de aprimorar os métodos de estimativa e gestão ágil na organização, alinhando-os à geração de valor, como proposto por Niebuhr e Niebuhr (2019) e Filho (2021) com os OKRs.
Obstáculos e Melhorias Sugeridas
Os entrevistados apontaram como obstáculos significativos (P7) à aplicação da metodologia ágil a baixa maturidade no acompanhamento financeiro e no alinhamento estratégico, a falta de clareza sobre custos e valor das entregas, e o retrabalho decorrente de *sprints* curtas. A multiplicidade de demandas simultâneas, a baixa aderência cultural às práticas ágeis, os escopos contratuais mal definidos e, em contextos de alta rotatividade, a ausência de documentação adequada foram fatores que comprometeram a eficiência das entregas e a preservação do conhecimento organizacional. Esses desafios, em conjunto, criaram um ambiente onde a agilidade não pôde ser plenamente explorada, limitando seus benefícios potenciais.
Como melhorias (P8), os participantes sugeriram a capacitação contínua de equipes e gestores, o aprimoramento das práticas de trabalho com métricas claras de valor e o reforço da governança financeira, com revisão de esforço e capacidade. Também foram propostas a redução de demandas paralelas, o aperfeiçoamento da priorização, a simplificação das cerimônias ágeis e a adoção de registros objetivos. Essas recomendações visam maior eficiência, alinhamento ao contexto organizacional e preservação do conhecimento, buscando superar as dificuldades identificadas e consolidar a transformação ágil na organização.
Em síntese, os resultados da pesquisa indicaram que a efetividade da metodologia ágil na organização da administração pública estudada transcendeu a mera implementação de práticas e cerimônias. Os desafios identificados estiveram predominantemente relacionados à maturidade das equipes, à adequação dos processos de contratação, à clareza no uso de métricas e a fatores organizacionais que impactaram a geração de valor. A superação dessas barreiras demanda o desenvolvimento contínuo de competências técnicas, um suporte institucional robusto e a integração efetiva entre planejamento e execução, reforçando a necessidade de adequações estruturais e culturais para a consolidação das práticas ágeis no setor público e para que os objetivos do estudo sejam plenamente alcançados.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar os desafios da aplicação da metodologia ágil em uma organização da administração pública, com foco na maturidade das equipes, nos processos de contratação, no uso de métricas e nos fatores organizacionais relacionados à geração de valor. Verificou-se que a maturidade das equipes representou um desafio significativo, manifestado pela resistência cultural aos novos papéis ágeis, pela sobrecarga de trabalho e pela escassez de profissionais experientes, o que comprometeu a autonomia e a colaboração. Observou-se que as cerimônias ágeis, por vezes, desviaram o foco da entrega de valor estratégico para a mera conformidade processual, e a implementação do Scaled Agile Framework (SAFe), embora conceitualmente positiva, foi percebida como pesada e complexa, exigindo customizações substanciais para se adequar à cultura interna e à alta carga de trabalho. Identificou-se, ainda, que os modelos contratuais tradicionais, baseados em escopos rígidos ou horas técnicas, limitaram a inovação e a adaptabilidade, e a medição por *story points* demonstrou subjetividade, com baixa adoção de técnicas colaborativas de estimativa, resultando em desalinhamento entre métricas e o valor real das entregas. A principal contribuição deste trabalho reside na identificação de aspectos críticos que influenciam a adoção da metodologia ágil no setor público, oferecendo subsídios para o aprimoramento de práticas contratuais, gerenciais e organizacionais, reforçando que a efetividade da agilidade transcende a simples implementação de práticas, demandando desenvolvimento de competências, suporte institucional e integração entre planejamento e execução.
Entre as limitações da pesquisa, destaca-se a concentração da análise em um único desenvolvimento sistêmico, em uma organização específica, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos da administração pública. Adicionalmente, o número e o perfil dos participantes não representaram a totalidade das percepções existentes na organização. Para estudos futuros, sugere-se a ampliação da análise para diferentes contextos da administração pública, investigando estratégias que favoreçam a adaptação de modelos contratuais, o uso de métricas orientadas à geração de valor e o fortalecimento da maturidade organizacional na adoção de metodologias ágeis, a fim de consolidar a transformação ágil no setor público.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq
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