Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

A formação humana e as abordagens socioemocionais no contexto escolar

A Formação Humana e as Abordagens Socioemocionais no Contexto Escolar

Lígia Lira Feitosa Nascimento; Alaina Alves

DOI: 10.22167/2675-6528-202603157

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Embora a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tenha estabelecido o compromisso com uma educação integral, as emoções, a formação de caráter, os valores e as virtudes foram abordados superficialmente nos livros didáticos. Nesse contexto, investigou-se a abordagem das propostas socioemocionais, apresentadas como temas transversais, em materiais didáticos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. O objetivo foi compreender como essas temáticas foram contempladas nas propostas pedagógicas e na promoção das competências socioemocionais. Realizou-se uma análise documental qualitativa e exploratória, que focou no conteúdo e nas metodologias pedagógicas empregadas em coleções didáticas da Editora FTD para Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Os resultados indicaram que as abordagens socioemocionais nos materiais didáticos foram pontuais, indiretas e fragmentadas, servindo mais como contexto para o desenvolvimento cognitivo do que como um eixo pedagógico estruturado e intencional. Concluiu-se pela necessidade de um programa socioemocional baseado nas virtudes para suprir as lacunas identificadas nos livros didáticos, propondo o programa “Crescer com o Coração de Leão” como uma iniciativa para promover a formação humana integral.

Palavras-chave: Educação; Material didático; Neurociência; Socioemocional; Virtudes.

1. Introdução

A formação humana transcende a mera aquisição de conhecimentos linguísticos e matemáticos, expandindo-se para o domínio da inteligência emocional, que abrange a capacidade de conhecer e lidar com as próprias emoções, motivar-se, reconhecer emoções em outros e gerenciar relacionamentos (Goleman, 2012). Nesse contexto ampliado, virtudes como autocontrole, autodomínio, autoconhecimento, educação para a vontade e a liberdade, ordem, temperança e senso de responsabilidade são consideradas essenciais para a formação integral do indivíduo, constituindo uma tarefa urgente e permanente (Faus, 2021).

No Brasil, as diretrizes educacionais recentes, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), buscam resgatar a importância das competências socioemocionais, estabelecendo um compromisso com a educação integral (Brasil, 2018). Contudo, observa-se que, apesar dessas especificações, as emoções, a formação de caráter, os valores e as virtudes são frequentemente abordados de maneira superficial nos materiais didáticos. Além disso, a atuação das famílias, muitas vezes, é secundária na formação dos filhos, gerando uma lacuna na promoção de valores como respeito, solidariedade e cooperação, que deveriam ser vivenciados tanto na escola quanto em casa (Fraiman, 2022).

As competências socioemocionais, embora preconizadas pela BNCC (Brasil, 2018) como habilidades de autorregulação emocional, empatia e convivência social, encontram seu fundamento ético na formação das virtudes, compreendidas como disposições estáveis do caráter adquiridas pelo hábito (Aristóteles, 2009). A educação socioemocional, ao articular competências e virtudes, contribui para uma formação integral do sujeito, alinhando emoção, ação e valores (Morin, 2000). No entanto, o contexto educacional contemporâneo ainda enfrenta desafios significativos para alcançar essa formação integral. A pandemia de COVID-19, por exemplo, potencializou a fragilidade emocional e a necessidade urgente de desenvolver a inteligência emocional e a formação humana para lidar com o eu e com o outro (Fraiman, 2022).

Diante desse cenário, a abordagem das propostas socioemocionais nos materiais didáticos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental tem se mostrado fragmentada e sem a intencionalidade pedagógica necessária para um desenvolvimento sistemático. A análise desses materiais revela que, embora tangenciem aspectos emocionais e sociais, o foco principal permanece no desenvolvimento cognitivo, deixando uma lacuna na promoção explícita e estruturada das competências socioemocionais e da formação de virtudes. Essa superficialidade impede a efetivação de uma educação verdadeiramente integral, onde os aspectos cognitivos e socioemocionais são processos indissociáveis no funcionamento cerebral, especialmente na infância (Damasio, 2012).

A relevância deste estudo reside em evidenciar a necessidade de propostas pedagógicas que integrem de forma mais sistemática as dimensões emocionais, éticas e sociais ao processo de aprendizagem, reconhecendo o papel central das emoções, vínculos e valores na educação. Assim, este trabalho visou investigar como o contexto socioemocional é abordado nos Materiais Didáticos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, através, principalmente da elucidação da virtude, a fim de compreender como ocorre a formação humana na escola atual.

2. Material e Métodos

A presente investigação realizou-se por meio de uma análise documental de natureza qualitativa e exploratória, com o propósito de compreender como os materiais didáticos abordam a temática socioemocional, apresentada como tema transversal. Este tipo de pesquisa permitiu um exame aprofundado do conteúdo e das metodologias pedagógicas empregadas, buscando identificar a forma como a formação humana é contemplada no contexto escolar atual, conforme o objetivo geral do estudo.

O objeto empírico da pesquisa consistiu em materiais didáticos destinados à Educação Infantil e aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Especificamente, analisaram-se duas coleções da Editora FTD: “Na Ponta do Lápis”, voltada para a Educação Infantil, e “Porta Aberta para o Mundo”, direcionada aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

A seleção dessas coleções justificou-se pela sua ampla distribuição e circulação em escolas públicas brasileiras, o que as torna representativas das propostas pedagógicas em uso. Para a Educação Infantil, foram examinadas as edições a partir de 2018, abrangendo a faixa etária de 2 a 5 anos. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, o foco recaiu sobre os materiais do 2º e 5º ano, com o intuito de observar possíveis variações na abordagem da temática socioemocional ao longo da escolarização.

Os instrumentos de coleta de dados foram os próprios materiais didáticos, que incluíram livros do aluno, guias para a família, materiais de caligrafia e atividades complementares. Adicionalmente, examinaram-se os manuais do professor, que contêm orientações teóricas e recursos extras para aprofundar as propostas de aprendizagem em sala de aula, fornecendo um panorama completo das diretrizes pedagógicas.

Os procedimentos de coleta e análise de dados envolveram a submissão desses materiais a uma análise documental rigorosa. Examinou-se o conteúdo e a metodologia pedagógica empregada sob o viés da temática da pesquisa, buscando identificar a clareza das propostas socioemocionais, a maneira como as atividades são realizadas e a presença de emoções, valores e virtudes no ato educativo.

Para uma análise aprofundada, examinaram-se os conteúdos das aulas contidas nos livros do professor, que orientam as práticas pedagógicas. Consideraram-se também as orientações aos docentes que precedem os planejamentos das aulas. A análise buscou compreender a proposta dos livros didáticos sobre o socioemocional, a intencionalidade pedagógica e a forma como as atividades são desenvolvidas.

A técnica de análise dos dados foi a análise documental qualitativa e exploratória, conforme a metodologia da pesquisa em educação (Mattar e Ramos, 2021). O objetivo foi traçar um cenário real e concreto da consideração dos temas socioemocionais e da aplicação dos assuntos abordados e sugeridos pelas coleções, sem apresentar achados empíricos ou interpretações.

A pesquisa, de natureza aplicada, teve como propósito fornecer contribuições práticas para reflexões sobre o panorama educacional contemporâneo no que tange à temática estudada. A organização dos dados para análise focou na identificação e categorização das abordagens socioemocionais presentes nos materiais, permitindo uma compreensão sistemática de sua presença e tratamento pedagógico.

3. Resultados e Discussão

A análise dos materiais didáticos investigados revelou que, embora a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) preconize uma educação integral, a abordagem das competências socioemocionais e da formação de virtudes nos livros didáticos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental ainda se manifesta de forma pontual, indireta e fragmentada. Este cenário contrasta com as evidências da neurociência, que, conforme Damasio (2012), indicam a integração intrínseca entre processos emocionais e cognitivos no funcionamento cerebral, com as experiências afetivas exercendo influência significativa na aprendizagem e na construção do conhecimento, especialmente na infância. A compreensão dessa interdependência é crucial para o desenvolvimento de propostas pedagógicas eficazes.

O desenvolvimento socioemocional, sob a ótica neurocientífica, não pode ser dissociado dos processos neurobiológicos da aprendizagem. Estruturas cerebrais como o sistema límbico, responsável pelo processamento das emoções, e o córtex pré-frontal, associado às funções executivas, atuam de forma interdependente na construção do conhecimento (Damasio, 2012). Experiências educativas que promovem a nomeação e a compreensão das emoções, por meio da rotulagem afetiva, contribuem para a modulação da amígdala e para o fortalecimento das conexões com o córtex pré-frontal, favorecendo a autorregulação emocional, uma habilidade fundamental para a aprendizagem e a convivência social. Materiais didáticos que incentivam a identificação de sentimentos e a reflexão sobre atitudes podem, assim, consolidar processos cognitivos complexos.

Entretanto, a investigação dos materiais didáticos da coleção “Porta Aberta para o Mundo”, destinada aos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, evidenciou uma limitação na explicitação e sistematização das propostas socioemocionais. No 2º ano, as atividades que abordavam temas como amizade e convivência, como a que convidava os alunos a observar uma ilustração da Turma da Mônica e listar nomes de amigos, tinham como foco principal o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como escrita, classificação e organização de informações. A dimensão socioemocional, embora presente no contexto, não era objeto de aprendizagem estruturada, carecendo de orientações para reflexão sobre sentimentos ou resolução de conflitos.

A análise detalhada das temáticas socioemocionais no material do 2º ano da coleção “Porta Aberta para o Mundo” revelou que o autoconhecimento era abordado por meio de atividades pontuais de interpretação de texto que solicitavam a opinião pessoal do aluno, de forma indireta e superficial, sem intencionalidade pedagógica clara para nomeação de sentimentos ou aprofundamento emocional. A empatia, presente em textos narrativos sobre convivência ou conflitos, era tratada de maneira implícita, dependendo exclusivamente da mediação do professor para ser trabalhada como habilidade. A cooperação, manifestada em atividades em dupla ou grupo, era operacional, focando na execução da tarefa e não na reflexão sobre o respeito ou a escuta. A expressão de sentimentos, por meio de perguntas abertas como “O que você faria?”, era esporádica e carecia de estratégias para ampliar o vocabulário emocional e a consciência afetiva. Por fim, a relação social, abordada por meio de interpretação ou leitura de imagens, não era estruturada, sem orientação para análise emocional ou construção de vínculos afetivos.

No 5º ano da coleção “Porta Aberta para o Mundo”, apesar do aumento da complexidade textual e temática, a abordagem socioemocional manteve-se predominantemente cognitiva e com menor aprofundamento intencional. Um exemplo foi a atividade da seção “Porta para leitura e escrita” que convidava os alunos a interpretar uma tirinha sobre preconceito. Embora a proposta estimulasse a reflexão sobre um tema social relevante, o tratamento pedagógico permaneceu centrado na compreensão conceitual do termo e na interpretação textual. Não foram identificadas orientações para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais como empatia, respeito às diferenças ou resolução de conflitos, evidenciando uma abordagem pontual e contextualizada, sem sistematicidade.

As temáticas socioemocionais no material do 5º ano da coleção “Porta Aberta para o Mundo” também apresentaram limitações. A autonomia era incentivada na produção textual autoral e resolução de atividades individuais, mas tratada apenas no campo acadêmico, sem reflexão emocional ou ética. A responsabilidade, abordada em textos informativos e propostas de pesquisa, era conteudista, sem articulação entre a responsabilidade acadêmica e a socioemocional. A convivência e cidadania, presentes em textos com temáticas sociais, eram conceituais, com falta de mediação reflexiva sobre sentimentos, preconceito, escuta e posicionamento ético. As memórias e experiências pessoais, que refletiam sobre acontecimentos marcantes e associavam emojis a emoções, eram reflexivas e contextuais, mas sem orientações pedagógicas para o reconhecimento, compreensão ou regulação das emoções.

Outro exemplo no livro de Língua Portuguesa do 5º ano, na unidade intitulada “Recordar é viver”, propunha a reflexão sobre acontecimentos marcantes e a associação de emojis a fotografias que representavam emoções. Embora essa atividade favorecesse a expressão de opiniões e lembranças, não foram identificadas orientações pedagógicas que promovessem o reconhecimento, a compreensão ou a regulação das emoções envolvidas. A dimensão socioemocional, nesse caso, apareceu como um elemento contextual da atividade, sem configurar uma proposta estruturada de desenvolvimento de competências socioemocionais. Essa constatação reforça a percepção de que, mesmo quando tangenciam aspectos emocionais, os materiais didáticos não oferecem um tratamento sistemático e intencional.

Em síntese, a análise da coleção “Porta Aberta para o Mundo” demonstrou que, embora aspectos relacionados às emoções, relações interpessoais e convivência apareçam ocasionalmente, eles são predominantemente utilizados como contexto para o desenvolvimento de habilidades cognitivas. A abordagem socioemocional, portanto, ocorre de maneira indireta e fragmentada, sem uma proposta pedagógica estruturada que vise ao desenvolvimento progressivo das competências socioemocionais. Essa dependência da iniciativa individual do professor para a mediação socioemocional representa uma lacuna significativa na efetivação de uma educação integral, conforme preconizado pela BNCC (Brasil, 2018).

A investigação da coleção “Na Ponta do Lápis”, voltada para a Educação Infantil, também indicou um aprofundamento limitado no desenvolvimento das habilidades socioemocionais, com aplicações desprovidas de intencionalidade pedagógica. As temáticas socioemocionais, como o reconhecimento das emoções, eram abordadas por meio de ilustrações e histórias que demonstravam alegria, tristeza ou medo, de forma visual e implícita, sem que as emoções fossem nomeadas ou exploradas intencionalmente. A convivência social, presente em atividades em grupo e rotinas escolares, era comportamental, focando na adaptação à rotina e não no desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

A empatia, abordada em situações cotidianas com personagens, era indireta, sem mediação reflexiva sobre os sentimentos do outro. As regras e limites coletivos, inseridos em paisagens com elementos de intervenção humana, permaneciam implícitos e não sistematizados na dimensão socioemocional. A expressão pessoal e identidade, por meio de produções de desenho ou colagem de imagens, era espontânea, mas carecia de intencionalidade pedagógica para explorar sonhos, interesses da criança, autoestima e autoconhecimento. Um exemplo foi a atividade em que as crianças observavam uma paisagem com intervenções humanas e eram convidadas a identificar mudanças e desenhar, contribuindo para a percepção espacial, mas não para reflexões sobre responsabilidade social ou cuidado com espaços coletivos.

Outra atividade da coleção “Na Ponta do Lápis” convidava as crianças a responder “O que você quer ser quando crescer?” por meio de desenho ou colagem. Embora a proposta favorecesse a expressão da imaginação e a manifestação de interesses futuros, não foram identificadas orientações pedagógicas que estimulassem reflexões sobre sentimentos, valores ou motivações relacionadas às escolhas. Assim, a dimensão socioemocional permaneceu implícita e não sistematizada, centrada na expressão criativa e representação gráfica, sem uma proposta estruturada de desenvolvimento socioemocional. Esses achados corroboram a percepção de que, mesmo na Educação Infantil, onde os temas são mais próximos do universo afetivo e relacional da criança, a intencionalidade pedagógica para o desenvolvimento socioemocional é insuficiente.

A análise comparativa entre as coleções “Na Ponta do Lápis” (Educação Infantil) e “Porta Aberta para o Mundo” (Ensino Fundamental) revelou uma tendência pedagógica de aumento do foco nos conteúdos cognitivos à medida que os anos escolares avançam, acompanhada por uma menor explicitação das dimensões socioemocionais. Na Educação Infantil, os temas são mais próximos do universo afetivo e relacional da criança, mas ainda sem um eixo pedagógico estruturado para o desenvolvimento socioemocional. Já no Ensino Fundamental, as dimensões emocionais e relacionais tornam-se ainda mais indiretas e restritas ao contexto temático das propostas, com um enfoque predominantemente cognitivo e informativo. Essa lacuna na abordagem sistemática das competências socioemocionais no currículo escolar reforça a necessidade de propostas pedagógicas específicas que integrem o desenvolvimento emocional, ético e relacional ao processo de aprendizagem.

Diante dos desafios escolares contemporâneos, como a indisciplina e a falta de foco, que abrangem tanto a dimensão ética e de valores quanto a cognitiva, a escola assume um papel cada vez mais relevante na promoção de experiências educativas que favoreçam a formação integral dos estudantes. A fragilidade emocional potencializada pela pandemia de COVID-19 (Fraiman, 2022) e a crescente medicalização de questões comportamentais (Moysés e Collares, 2016) evidenciam a urgência de um olhar personalizado e atento. A neurociência, por sua vez, reforça que os aspectos cognitivos e emocionais atuam de forma integrada no funcionamento cerebral, sendo as emoções fundamentais para o comportamento e a aprendizagem (Cosenza e Guerra, 2011; Damasio, 2012).

Nesse contexto, as competências socioemocionais, embora essenciais para a convivência e o desenvolvimento pessoal, encontram seu fundamento ético e estabilidade na formação das virtudes, compreendidas como disposições estáveis do caráter adquiridas pelo hábito (Aristóteles, 2009; Payot, 2018). A educação personalizada, como proposta por Víctor García Hoz (1911–1998) e Malheiro (2012), busca o desenvolvimento integral do estudante, contemplando dimensões formativas como a cognitiva, social, afetiva e ética. Inspirado nesses princípios, o programa “Crescer com o Coração de Leão” foi desenvolvido como uma proposta pedagógica complementar, visando suprir as lacunas identificadas nos materiais didáticos e promover o desenvolvimento socioemocional e a formação de virtudes de forma estruturada.

O programa “Crescer com o Coração de Leão” foi concebido para fortalecer as dimensões socioemocionais da aprendizagem, cultivando virtudes, valores e habilidades relacionais que favoreçam a formação humana e a convivência ética no ambiente escolar, com o objetivo de impactar positivamente os resultados cognitivos. O nome do programa, “coração de leão”, simboliza qualidades como coragem, força interior, liderança, generosidade e senso de proteção, representando virtudes humanas como empatia, responsabilidade, perseverança, fortaleza e respeito ao outro. A figura do mascote Leo acompanha os estudantes ao longo das etapas escolares, evoluindo em sua representação para simbolizar o processo gradual de amadurecimento e desenvolvimento das virtudes, reforçando a ideia de que o desenvolvimento socioemocional é um processo contínuo e intencional.

A neurociência corrobora a eficácia de experiências educativas que integram dimensões emocionais e cognitivas, pois estas promovem ambientes de aprendizagem mais seguros e motivadores, favorecendo a plasticidade cerebral e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais essenciais (Damasio, 2012). O programa “Crescer com o Coração de Leão” organiza o desenvolvimento socioemocional de forma progressiva, introduzindo virtudes centrais adequadas a cada estágio de desenvolvimento da criança. Na Educação Infantil, prioriza-se a amizade, com o desenvolvimento de vínculos positivos e atitudes de cuidado, por meio de dinâmicas sobre amizade e resolução de pequenos conflitos. No 1º ano, o foco é o respeito, com o reconhecimento das diferenças e regras de convivência, através da construção de combinados da turma e dramatizações de situações de convivência.

No 2º ano, a virtude central é a empatia, com o reconhecimento de emoções próprias e dos outros, utilizando histórias com o mascote Leo e rodas de conversa sobre emoções. No 3º ano, a responsabilidade é trabalhada, visando à compreensão das consequências das próprias atitudes, por meio de reflexões sobre escolhas e atividades de compromisso coletivo. No 4º ano, a cooperação é o foco, com o trabalho em grupo e a valorização da colaboração, desenvolvendo projetos coletivos e desafios cooperativos. Finalmente, no 5º ano, a autonomia e a ética são abordadas, com a tomada de decisões responsáveis e a reflexão sobre valores, por meio de discussões sobre dilemas morais e projetos de protagonismo dos alunos. Essa progressão intencional permite que as competências socioemocionais sejam construídas de forma gradual e integrada às experiências escolares.

A proposta pedagógica do programa “Crescer com o Coração de Leão” articula a formação de virtudes com o desenvolvimento de competências socioemocionais. A virtude do respeito, por exemplo, associa-se à consciência social, desenvolvendo o reconhecimento do outro, a escuta ativa e a convivência harmoniosa. A responsabilidade está ligada à autogestão, promovendo organização, cumprimento de tarefas e compromisso com atividades. A empatia, também relacionada à consciência social, busca a compreensão das emoções alheias, a cooperação e atitudes solidárias. A coragem, associada à autoconfiança e tomada de decisão, visa ao enfrentamento de desafios, à expressão de opiniões e à perseverança. Essa articulação busca superar a compreensão das habilidades socioemocionais como meros comportamentos treinados, orientando-as por princípios éticos para uma formação integral do estudante.

Um exemplo de sequência didática do programa, voltada para o 2º ano do Ensino Fundamental, foca na virtude da empatia e na competência da consciência social, com duração de uma semana e três momentos pedagógicos. No primeiro momento, de sensibilização, o professor apresenta a história “O dia em que Leo percebeu um amigo triste”, na qual o personagem Leo ajuda um amigo, e conduz uma roda de conversa para introduzir o conceito de empatia e estimular a identificação de emoções, escuta ativa e percepção do outro. No segundo momento, de atividade prática, os alunos reconhecem emoções em diferentes situações por meio de cartões com imagens e discutem em grupos o que poderia ajudar as crianças representadas, desenvolvendo reconhecimento emocional, comunicação e cooperação.

No terceiro momento, de aplicação na vida cotidiana, cada aluno desenha ou escreve uma situação em que pode praticar empatia na escola, como ajudar um colega ou convidar para brincar, e os desenhos são expostos no “Painel do Coração de Leão”, destacando atitudes empáticas. Esta etapa visa à reflexão sobre atitudes e hábitos, tomada de perspectiva e responsabilidade social. A estrutura do programa, com objetivos claros, progressão pedagógica e atividades específicas, favorece a consistência nas práticas educativas, diferentemente das abordagens pontuais observadas nos materiais didáticos analisados. Pesquisas internacionais, como a meta-análise de Durlak et al. (2011), demonstram que programas estruturados de aprendizagem socioemocional resultam em melhorias significativas nas habilidades dos alunos e no desempenho acadêmico.

Em suma, a pesquisa evidenciou que os materiais didáticos analisados, embora tangenciem aspectos socioemocionais, não oferecem uma abordagem sistemática e intencional para o desenvolvimento dessas competências e virtudes. A superficialidade e fragmentação observadas limitam a efetivação de uma educação integral, que reconheça a indissociabilidade entre os processos cognitivos e emocionais. O programa “Crescer com o Coração de Leão” surge como uma proposta complementar e estruturada, alinhada aos princípios da educação personalizada e fundamentada na neurociência, buscando promover o desenvolvimento integral dos estudantes ao longo de sua trajetória escolar, articulando virtudes e competências socioemocionais de forma progressiva e intencional.

4. Conclusão

O estudo visou compreender como as propostas socioemocionais, apresentadas como temas transversais, foram contempladas em materiais didáticos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, e como promoviam as competências socioemocionais. Verificou-se que a abordagem dessas temáticas nos materiais didáticos analisados, especificamente nas coleções da Editora FTD, foi pontual, indireta e fragmentada. Observou-se que os aspectos socioemocionais serviram predominantemente como contexto para o desenvolvimento cognitivo, sem constituir um eixo pedagógico estruturado e intencional. Identificou-se uma lacuna na explicitação e sistematização de estratégias para a nomeação de emoções, a reflexão ética e a construção progressiva de virtudes, o que limita a efetivação de uma educação integral, conforme preconizado pela Base Nacional Comum Curricular. A neurociência, por sua vez, reforça a indissociabilidade entre processos emocionais e cognitivos, evidenciando a necessidade de uma integração mais sistemática.

Diante dessas constatações, a principal contribuição deste trabalho reside na proposição do programa “Crescer com o Coração de Leão”. Este programa foi desenvolvido como uma iniciativa pedagógica complementar e estruturada, fundamentada nos princípios da educação personalizada e nas evidências da neurociência, visando suprir as lacunas identificadas nos materiais didáticos. Ele busca promover o desenvolvimento integral dos estudantes, articulando virtudes e competências socioemocionais de forma progressiva e intencional ao longo da trajetória escolar. A natureza qualitativa e exploratória da análise documental, focada em coleções específicas, limita a generalização irrestrita dos achados a todos os materiais didáticos. Contudo, os resultados apontam para a urgência de estudos futuros que investiguem a implementação e a eficácia de programas socioemocionais estruturados, como o “Crescer com o Coração de Leão”, na promoção da formação humana integral e no impacto positivo sobre os resultados cognitivos dos alunos.

Referências Bibliográficas

Aristóteles. (2009). Ética a Nicômaco. Tradução de Antonio de Castro Caeiro. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Brasil. Ministério da Educação [MEC]. (2018). Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/implementacao/praticas/caderno-de-praticas/aprofundamentos/195-competencias-socioemocionais-como-fator-de-protecao-a-saude-mental-e-ao-bullying. Acesso em: 01 de nov.2025.

Cosenza, Ramon M.; Guerra, Leonor B. (2011). Neurociência e educação: Como o cérebro aprende. Editora Artmed, Porto Alegre RS, Brasil.

Damasio, Antonio. (2012). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Companhia das Letras – São Paulo, SP, Brasil.

Durlak, J. A., et al. (2011). The impact of enhancing students’ social and emotional learning: A meta-analysis of school-based universal interventions. Child Development.

Faus F. (2021). A conquista das virtudes, 1 ed. Editora Cultor de Livros São Paulo, SP, Brasil.

Fraiman L. (2022). Superação e equilíbrio emocional, 1ed. Editora Gutemberg, São Paulo, SP, Brasil.

Goleman, D. (2012). Inteligência Emocional, A teoria revolucionária que define o que é ser inteligente. 2ed. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Malheiro, João. (2012). Educação personalizada: desafios e perspectivas. CRV. Curitiba SP, Brasil.

Mattar, J.; Ramos, D. K. (2021). Metodologia da pesquisa em educação: Abordagens Qualitativas, Quantitativas e Mistas. Edições 70. São Paulo, SP, Brasil.

Morin, Edgar. (2000). Os sete saberes necessários à educação do futuro. Cortez São Paulo, SP, Brasil.

Moysés, M. A. A; Collares, C. A. L. (2016). Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização. São Paulo: Cortez. São Paulo, SP, Brasil.

Payout J. (2018). A educação da vontade, 1ed. Editora Kirion, Campinas, SP, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

Quando sentir é aprender: a relação entre emoções e a aprendizagem escolar.

A compreensão das relações entre emoções e aprendizagem escolar emergiu como demanda crescente no contexto educacional contemporâneo, sublinhando a necessidade de integrar aspectos cognitivos e socioemocionais. O estudo objetivou analisar como as dimensões emocionais e socioemocionais foram contempladas na Base Nacional Curricular Comum (BNCC), buscando compreender suas implicações para a formação integral dos estudantes. Realizou-se uma pesquisa qualitativa, de caráter documental, que analisou as competências gerais e as normas para os Anos Finais do Ensino Fundamental, com foco nas concepções explícitas e implícitas sobre o papel das emoções na aprendizagem. Os resultados indicaram a relevância da integração entre emoção e cognição no processo educativo, evidenciando que a BNCC incorpora aspectos socioemocionais de forma transversal. Como principal lacuna, a articulação com a neurociência manteve-se no campo teórico devido à duração da pesquisa. Como contribuição, propôs-se uma prática pedagógica para o ensino de História no 6º ano, articulando conteúdos curriculares, competências socioemocionais e fundamentos da neurociência, visando aproximar a realidade da sala de aula das diretrizes normativas e favorecer aprendizagens significativas para a formação integral.

Palavras-chave: Base Nacional Comum Curricular; Competências socioemocionais; Formação integral; Neurociência educacional; Práticas pedagógicas.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

Consequências do Uso de IA Generativa na Capacidade Cognitiva e Saúde Mental de Profissionais Brasileiros

A integração de ferramentas de inteligência artificial generativa (GenAI) no trabalho acelerou-se nos últimos anos, levantando questões sobre seus efeitos nos processos cognitivos e no bem-estar emocional dos profissionais. O estudo objetivou mensurar o impacto do uso de GenAI sobre capacidades cognitivas autorreferidas e indicadores de saúde mental de profissionais brasileiros, comparando os achados com evidências empíricas internacionais. Adotou-se uma abordagem mista, com delineamento transversal e não experimental, aplicando um questionário digital estruturado a 108 profissionais adultos brasileiros, recrutados via LinkedIn e WhatsApp. O instrumento avaliou memória de trabalho, atenção sustentada e alternada, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tecnoestresse, saúde mental e senso de propósito profissional, além de percepções qualitativas. Os resultados revelaram que 92,6% dos respondentes utilizaram GenAI regularmente, com impacto percebido majoritariamente positivo no desempenho, mas acompanhado por dependência declarada em 52,8% da amostra. A atenção sustentada mostrou-se a dimensão cognitiva mais fragilizada, e os indicadores de equilíbrio emocional e desconexão digital concentraram os resultados mais críticos. A análise comparativa identificou uma relação entre maior frequência de uso, maior dependência e menores escores cognitivos, com declínio progressivo da atenção focada ao longo do tempo de uso. Concluiu-se que o uso intensivo de GenAI coexiste com fragilidades cognitivas e emocionais mensuráveis, cujos efeitos tendem a se acumular, reforçando a necessidade de práticas conscientes que preservem a autonomia intelectual dos profissionais.

Palavras-chave: Cognição; Dependência tecnológica; Inteligência artificial; Saúde mental.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

A contribuição da neuroaprendizagem na elaboração de objetos educacionais multimídia para a recomposição de aprendizagens

A defasagem de aprendizagem na educação brasileira, agravada pela pandemia de Covid-19 e evidenciada por resultados insatisfatórios do SAEB, tornou a recomposição de aprendizagens uma prioridade nacional. O presente trabalho analisou como a produção audiovisual, integrante de um programa de recomposição de aprendizagens em Língua Portuguesa e Matemática, desenvolvido para estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental de uma rede estadual, incorporou fundamentos da neurociência da aprendizagem em sua estrutura metodológica. A pesquisa caracterizou-se como estudo de caso qualitativo e aplicado, e analisou 20 roteiros pedagógicos e as respectivas videoaulas produzidas e aplicadas em 2024. A partir do referencial teórico, construíram-se sete dimensões de análise: ludicidade e interatividade, funcionamento cerebral e aprendizagem, emoção e cognição, singularidade do estudante, contexto sociocultural, mediação pedagógica consistente e aprendizagem ativa. Os resultados indicaram que elementos da neuroaprendizagem foram incorporados de forma estrutural à metodologia do programa. Identificou-se que a personalização da aprendizagem não reside exclusivamente no objeto audiovisual, mas na cadeia sistêmica que o envolve, incluindo diagnóstico, produção, mediação presencial e monitoramento. A integração entre neurociência, conteúdos dedicados à superação de lacunas e linguagem audiovisual demonstrou ser uma estratégia metodologicamente consistente e com potencial relevante para ampliar a eficácia de programas de recomposição de aprendizagens.

Palavras-chave: Defasagem; Eduentretenimento; Mediação pedagógica; Plasticidade cerebral; Videoaula.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

O olhar das escolas para crianças com Altas Habilidades/Superdotação: formação docente e práticas de acolhimento

O estudo analisou, por meio de revisão bibliográfica qualitativa, como a formação docente e as práticas de acolhimento escolar são discutidas na literatura em relação ao desenvolvimento de crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), subsidiando a elaboração de um Guia de Formação Docente. A pesquisa desenvolveu-se sob abordagem qualitativa, de natureza descritivo-interpretativa e orientação aplicada. Utilizou-se a análise de livros, artigos científicos, teses, dissertações e documentos oficiais, localizados em bases de dados como Google Acadêmico, SciELO, ERIC e BDTD. A análise temática de conteúdo permitiu identificar três categorias principais: lacunas na formação docente, acolhimento escolar e desenvolvimento socioemocional, e contribuições da Neurociência Educacional. Os resultados indicaram que a formação docente, o acolhimento e a oferta de experiências de aprendizagem significativas constituem dimensões articuladas e essenciais para o atendimento educacional de estudantes com AH/SD. Como produto educacional, elaborou-se um Guia de Formação Docente, cujo propósito foi ampliar o repertório dos professores e fortalecer práticas pedagógicas inclusivas. Concluiu-se que o produto pode apoiar processos de formação continuada, embora sua aplicação e seus efeitos ainda demandem investigação empírica.

Palavras-chave: Acolhimento escolar; Altas Habilidades/Superdotação; Formação docente; Inclusão educacional; Neurociência educacional.

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