Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

O olhar das escolas para crianças com Altas Habilidades/Superdotação: formação docente e práticas de acolhimento

O Olhar das Escolas para Crianças com Altas Habilidades/superdotação: Formação Docente e Práticas de Acolhimento

Juliana Naldi Gatti Trinca; Kelly Danelon

DOI: 10.22167/2675-6528-202603096

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

O estudo analisou, por meio de revisão bibliográfica qualitativa, como a formação docente e as práticas de acolhimento escolar são discutidas na literatura em relação ao desenvolvimento de crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), subsidiando a elaboração de um Guia de Formação Docente. A pesquisa desenvolveu-se sob abordagem qualitativa, de natureza descritivo-interpretativa e orientação aplicada. Utilizou-se a análise de livros, artigos científicos, teses, dissertações e documentos oficiais, localizados em bases de dados como Google Acadêmico, SciELO, ERIC e BDTD. A análise temática de conteúdo permitiu identificar três categorias principais: lacunas na formação docente, acolhimento escolar e desenvolvimento socioemocional, e contribuições da Neurociência Educacional. Os resultados indicaram que a formação docente, o acolhimento e a oferta de experiências de aprendizagem significativas constituem dimensões articuladas e essenciais para o atendimento educacional de estudantes com AH/SD. Como produto educacional, elaborou-se um Guia de Formação Docente, cujo propósito foi ampliar o repertório dos professores e fortalecer práticas pedagógicas inclusivas. Concluiu-se que o produto pode apoiar processos de formação continuada, embora sua aplicação e seus efeitos ainda demandem investigação empírica.

Palavras-chave: Acolhimento escolar; Altas Habilidades/Superdotação; Formação docente; Inclusão educacional; Neurociência educacional.

1. Introdução

A temática das Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) tem ganhado crescente visibilidade no campo da educação inclusiva. Esse reconhecimento decorre do avanço das políticas públicas e da valorização do direito à educação que contemple as singularidades de cada estudante. No Brasil, o aumento das matrículas de alunos identificados com AH/SD indica uma maior atenção a esse público. Contudo, a literatura e os dados educacionais ainda evidenciam desafios persistentes relacionados à identificação, ao atendimento pedagógico adequado e à formação dos profissionais da educação (BRASIL, 2018; INEP, 2025).

Nesse cenário, a formação docente assume um papel estratégico, pois o reconhecimento e o desenvolvimento das potencialidades dos estudantes dependem da capacidade da escola de observar diversas manifestações de aprendizagem e de oferecer oportunidades compatíveis com suas necessidades. A compreensão da superdotação, conforme o Modelo dos Três Anéis de Renzulli (2004), transcende o elevado desempenho acadêmico ou intelectual, articulando habilidades acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. Essa perspectiva sustenta uma visão multidimensional do fenômeno, deslocando o foco de uma abordagem centrada apenas no desempenho.

A ausência de formação específica para os docentes pode dificultar tanto a identificação de estudantes com AH/SD quanto a elaboração de propostas pedagógicas que sejam suficientemente desafiadoras e flexíveis. Alencar (2014) e Falcão (2020) enfatizam a importância da preparação dos professores para que as diferenças individuais não sejam interpretadas de forma reducionista. Em vez de uniformizar as experiências de aprendizagem, a escola deve ampliar as possibilidades de participação, investigação, aprofundamento e expressão das potencialidades dos estudantes.

As contribuições da Neurociência Educacional enriquecem essa discussão ao estabelecer relações entre aprendizagem, experiências e funcionamento cognitivo. Costa (2023) destaca a conexão entre neuroplasticidade, atenção, memória, motivação, emoções e funções executivas, evidenciando a relevância desses processos para a aprendizagem. Kandel et al. (2023) e Marques, Amaral e Pantano (2022) também apresentam fundamentos neurocientíficos relacionados à aprendizagem, à memória e à cognição. No contexto deste estudo, tais contribuições não visam explicar ou diagnosticar a superdotação, mas fundamentar a importância de experiências pedagógicas significativas, desafios adequados e estratégias que favoreçam a atenção, o planejamento, a flexibilidade e a autorregulação.

A Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) reafirma o compromisso com o desenvolvimento integral dos estudantes e com uma educação que respeite suas diferenças e potencialidades. Contudo, a mera existência de orientações normativas não garante sua concretização no cotidiano escolar. A literatura analisada aponta para a necessidade de formação continuada, de materiais acessíveis e de espaços institucionais de reflexão que apoiem o professor na construção de práticas inclusivas. Assim, a formação docente funciona como uma ponte entre os princípios da educação inclusiva e sua efetivação nas práticas pedagógicas.

Nesse contexto, justifica-se este estudo pela necessidade de sistematizar conhecimentos teóricos que possam subsidiar práticas de acolhimento e desenvolvimento de estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. A articulação entre Educação Inclusiva, Psicologia e Neurociência Educacional permite analisar o fenômeno sob diferentes perspectivas, sem reduzi-lo a uma explicação exclusivamente cognitiva ou neurobiológica. A revisão bibliográfica também possibilita identificar desafios recorrentes na literatura e transformá-los em fundamentos para um produto educacional aplicável à formação docente. Dessa forma, o objetivo deste Trabalho de Conclusão de Curso foi analisar, por meio de revisão bibliográfica qualitativa, como a formação docente e as práticas de acolhimento escolar são discutidas na literatura em relação ao desenvolvimento de crianças com Altas Habilidades/Superdotação, subsidiando a elaboração de um Guia de Formação Docente.

2. Material e Métodos

O presente estudo foi desenvolvido sob uma abordagem qualitativa, de natureza descritivo-interpretativa e orientação aplicada. Esse delineamento metodológico foi selecionado para analisar como a produção científica aborda a formação docente, o acolhimento escolar e as especificidades das Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). A pesquisa buscou, ainda, utilizar essa compreensão como fundamento para a elaboração de um produto educacional.

A escolha da abordagem qualitativa justificou-se por privilegiar a interpretação de sentidos, conceitos e recorrências presentes nos textos analisados, permitindo uma compreensão aprofundada do fenômeno. O caráter aplicado do estudo, por sua vez, decorreu da intenção de transformar os achados da revisão em orientações formativas que pudessem ser aplicadas no contexto escolar, conforme as diretrizes de Gil (2019).

A unidade de análise consistiu em fontes bibliográficas secundárias, sem a coleta de dados primários ou a participação direta de sujeitos. O corpus documental foi composto por uma diversidade de materiais, incluindo livros, artigos científicos, teses, dissertações e documentos oficiais. Esses materiais estavam relacionados a temas como educação inclusiva, formação docente, AH/SD, acolhimento escolar, neurodiversidade e Neurociência Educacional.

A utilização de diferentes tipos de fontes teve como objetivo ampliar a consistência da análise e permitir a articulação entre fundamentos conceituais, evidências da literatura e documentos normativos. As buscas foram realizadas em diversas bases de dados acadêmicas, selecionadas pela sua pertinência ao objeto de estudo, a saber: Google Acadêmico, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Education Resources Information Center (ERIC) e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD).

O Google Acadêmico foi empregado para uma busca ampliada de produções. A SciELO foi utilizada para localizar artigos científicos em periódicos acadêmicos, com foco em educação, psicologia e neurociência educacional. A ERIC foi consultada para literatura científica internacional, especialmente produções vinculadas à educação e à formação de professores. A BDTD, por sua vez, foi utilizada para pesquisas acadêmicas brasileiras, como dissertações e teses.

Para a realização das buscas, empregaram-se descritores específicos relacionados ao objeto da pesquisa. Entre eles, destacam-se “Altas Habilidades/Superdotação”, “formação docente”, “acolhimento escolar”, “educação inclusiva” e “neurodiversidade”. Os descritores foram combinados por operadores booleanos, especialmente o operador AND, para refinar os resultados e garantir a relevância das produções.

Os critérios de inclusão foram definidos previamente, considerando a relação direta da publicação com o problema e os objetivos do estudo. Foram incluídas produções pertinentes ao campo das Altas Habilidades/Superdotação, formação docente, acolhimento escolar, educação inclusiva ou Neurociência Educacional, que apresentassem consistência teórica e relevância científica.

Para a literatura científica contemporânea, priorizaram-se publicações dos dez anos anteriores ao período de realização da pesquisa, buscando assegurar a atualidade do corpus analisado. Contudo, esse recorte temporal não foi aplicado de forma absoluta a referenciais considerados fundamentais para a construção teórica do estudo.

Autores clássicos, como Renzulli, Alencar, Silverman, Piske e Vigotski, foram mantidos quando suas obras apresentavam contribuição conceitual indispensável para a compreensão das AH/SD, da dimensão socioemocional ou dos fundamentos teóricos adotados. Dessa forma, o critério temporal serviu como estratégia de atualização, sem excluir referências essenciais à sustentação conceitual.

Foram excluídas publicações que não apresentassem relação direta com o objeto ou os objetivos do estudo, textos de natureza predominantemente opinativa, materiais sem fundamentação científica identificável e produções cujo conteúdo não contribuísse para as categorias temáticas investigadas. Produções duplicadas localizadas em diferentes bases de busca também foram desconsideradas.

A seleção das produções ocorreu em duas etapas: inicialmente, pela leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura integral dos textos potencialmente pertinentes. Após essa triagem, as produções que atenderam aos critérios estabelecidos foram incorporadas ao corpus de análise e organizadas para posterior análise temática de conteúdo.

A técnica de análise dos dados empregada foi a análise temática de conteúdo, que permitiu a identificação de categorias temáticas principais. Essas categorias foram definidas a partir da recorrência e pertinência dos conteúdos identificados no corpus, orientando a discussão e a construção do Guia de Formação Docente.

Para ampliar a consistência interpretativa, utilizou-se a triangulação teórica, conforme Flick (2009), articulando contribuições da Educação, da Psicologia e da Neurociência Educacional. Essa triangulação buscou confrontar diferentes perspectivas teóricas na interpretação dos achados, servindo de base para a definição das diretrizes do produto educacional e estabelecendo uma relação explícita entre os resultados da revisão e os eixos formativos do Guia.

A elaboração do Guia de Formação Docente ocorreu a partir das categorias temáticas identificadas no corpus. Após a interpretação dos achados, foram sistematizados os principais desafios e necessidades evidenciados pela literatura em relação à formação docente, ao acolhimento escolar e às especificidades cognitivas e socioemocionais dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. Esses elementos foram utilizados como fundamentos para a definição dos eixos e conteúdos do Guia.

Do ponto de vista ético, a pesquisa não envolveu participação direta ou indireta de seres humanos, pois foi realizada exclusivamente com fontes bibliográficas e documentais. Não houve aplicação de instrumentos, entrevistas, questionários ou coleta de informações identificáveis de participantes. Foram observados os princípios de integridade acadêmica, incluindo a identificação das fontes consultadas e a correta atribuição das ideias aos respectivos autores. A pesquisa foi considerada enquadrada nas hipóteses de dispensa previstas na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, dada sua natureza bibliográfica.

3. Resultados e Discussão

Os resultados da revisão bibliográfica qualitativa foram organizados e discutidos a partir de três categorias temáticas principais, que emergiram da análise do corpus documental: lacunas na formação docente para o atendimento às Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), acolhimento escolar e desenvolvimento socioemocional, e contribuições da Neurociência Educacional. A interpretação dos materiais revelou uma interconexão intrínseca entre essas dimensões, permitindo uma compreensão abrangente das necessidades educacionais dos estudantes com AH/SD e, consequentemente, a elaboração de um Guia de Formação Docente. A discussão buscou relacionar os conceitos identificados na literatura com as necessidades pedagógicas evidenciadas e as orientações propostas no produto educacional, estabelecendo uma ponte entre a teoria e a prática.

As categorias foram analisadas à luz do referencial teórico que fundamentou o estudo. O Modelo dos Três Anéis de Renzulli (2004) foi central para sustentar a compreensão multidimensional das AH/SD, enquanto os estudos sobre formação docente, como os de Alencar (2014) e Falcão (2020), subsidiaram a análise das fragilidades profissionais. A dimensão socioemocional foi embasada pelas contribuições de Sword (2005), Silverman (2010) e Piske, Stoltz e Camargo (2014). Por fim, os estudos de Costa (2023), Kandel et al. (2023) e Marques, Amaral e Pantano (2022) apoiaram a discussão sobre aprendizagem, funções executivas e experiências pedagógicas significativas. Essa abordagem integrada garantiu que os resultados estabelecessem uma conexão direta e coerente entre a fundamentação teórica, a análise dos achados e a estrutura do produto educacional.

Lacunas na formação docente para o atendimento às AH/SD

A primeira categoria de análise revelou fragilidades significativas na formação inicial e continuada de professores para o atendimento educacional de estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. A literatura consultada, incluindo trabalhos de Alencar (2014) e Falcão (2020), enfatiza a importância crucial da preparação docente para que os educadores possam reconhecer as diferenças individuais e construir práticas pedagógicas verdadeiramente inclusivas. Observou-se que, quando os professores possuem um repertório limitado sobre AH/SD, tendem a interpretar o desempenho e os comportamentos dos estudantes com base em referências mais homogêneas, o que dificulta a identificação de potencialidades que não se manifestam exclusivamente em avaliações escolares convencionais.

Essa perspectiva se alinha diretamente com o Modelo dos Três Anéis de Renzulli (2004), que define a superdotação como a interação entre habilidades acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. A partir dessa compreensão, a identificação pedagógica não pode ser restrita apenas a notas ou ao rendimento acadêmico. O professor precisa desenvolver a capacidade de observar uma gama mais ampla de manifestações, como interesses específicos, formas inovadoras de resolução de problemas, produção criativa e níveis de engajamento em diferentes contextos de aprendizagem. Essa abordagem multidimensional é fundamental para evitar que talentos e potencialidades passem despercebidos no ambiente escolar.

A principal implicação pedagógica desses achados é a necessidade de ampliar o repertório do professor para que ele possa reconhecer as diversas manifestações das AH/SD e, consequentemente, planejar situações de aprendizagem que ofereçam desafio, escolha, aprofundamento e oportunidades de expressão. Os estudos analisados convergem para a ideia de que o fortalecimento da formação docente é uma condição essencial para o desenvolvimento de práticas inclusivas mais responsivas e eficazes. Essa conclusão fundamentou diretamente o primeiro eixo do Guia de Formação Docente, que se dedica à compreensão conceitual e multidimensional das Altas Habilidades/Superdotação, buscando superar visões reducionistas e promover um olhar mais abrangente sobre o fenômeno.

A contribuição desta categoria para o Guia de Formação Docente foi a inclusão de um eixo específico voltado à compreensão conceitual e multidimensional das AH/SD. Esse eixo foi estruturado para ir além de uma visão centrada exclusivamente na inteligência ou no desempenho acadêmico, incentivando a observação de diferentes manifestações de potencialidade. A conexão entre os resultados da revisão e o produto educacional se deu pela transformação do problema identificado na literatura – a insuficiência de repertório docente – em uma proposta formativa que visa ampliar o conhecimento e a capacidade de observação pedagógica dos educadores, fornecendo ferramentas e reflexões para uma prática mais inclusiva e sensível às necessidades dos estudantes.

Acolhimento escolar e desenvolvimento socioemocional de estudantes com AH/SD

A segunda categoria temática destacou a importância do acolhimento escolar para o desenvolvimento acadêmico e socioemocional de estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. A análise revelou que o conceito de acolhimento transcende o simples apoio emocional em momentos de dificuldade, englobando a construção de relações pedagógicas baseadas na escuta ativa, no respeito às singularidades, no senso de pertencimento e na oferta de oportunidades de participação significativa. Essa compreensão expande o conceito de inclusão, aproximando a prática pedagógica das necessidades concretas e complexas desses estudantes, que muitas vezes apresentam intensidade emocional e sensibilidade ampliada.

Estudiosos como Sword (2005) e Silverman (2010) abordam aspectos relacionados ao desenvolvimento emocional de indivíduos com altas habilidades, enquanto Piske, Stoltz e Camargo (2014) contribuem para a compreensão das emoções e sentimentos de crianças superdotadas no ambiente escolar. Esses referenciais foram cruciais para interpretar a dimensão socioemocional como parte integrante da experiência educativa. É importante ressaltar que essas contribuições não foram utilizadas para generalizar características emocionais a todos os estudantes com AH/SD, mas sim para reforçar a necessidade de práticas que considerem a singularidade de cada estudante e ofereçam espaços seguros para diálogo, escuta e construção de vínculos de confiança.

A análise também evidenciou a interdependência entre a formação docente e o acolhimento. Um professor que compreende a diversidade das AH/SD está mais apto a interpretar comportamentos complexos sem recorrer a explicações simplificadoras e a ajustar suas estratégias pedagógicas de forma adequada. Dessa forma, o acolhimento se integra ao próprio processo de ensino-aprendizagem, em vez de ser uma ação paralela ou complementar. Essa relação fundamental embasou o segundo eixo do Guia de Formação Docente, que oferece orientações para a criação de ambientes pedagogicamente seguros, o estabelecimento de relações de confiança e a atenção contínua às dimensões socioemocionais dos estudantes, promovendo um desenvolvimento integral.

A contribuição desta categoria para o Guia de Formação Docente foi a inclusão de orientações que promovem a escuta ativa, o vínculo pedagógico, a valorização das singularidades e a construção de ambientes emocionalmente seguros. Essas diretrizes foram elaboradas a partir da análise dos estudos, apresentadas como possibilidades de reflexão e ação docente, evitando a prescrição de uma única forma de acolhimento. O produto educacional, portanto, traduz os achados teóricos em situações de reflexão que podem ser incorporadas à formação continuada e ao planejamento pedagógico, capacitando os professores a lidar com a intensidade emocional e as necessidades sociais dos estudantes com AH/SD de maneira mais eficaz e empática.

Contribuições da Neurociência Educacional para a compreensão das AH/SD

A terceira categoria temática reuniu as contribuições da Neurociência Educacional que são relevantes para a compreensão da aprendizagem de estudantes com diferentes perfis cognitivos. Costa (2023) destaca a relação entre neuroplasticidade, as funções nervosas superiores e o processo de aprendizagem, evidenciando a capacidade do cérebro de se reorganizar a partir das experiências. Kandel et al. (2023) complementam essa perspectiva ao apresentar fundamentos neurocientíficos sobre aprendizagem, memória e cognição, que são essenciais para entender como o cérebro processa e armazena informações. Marques, Amaral e Pantano (2022) aprofundam a discussão sobre estratégias relacionadas às funções executivas, como planejamento, autorregulação, flexibilidade cognitiva e memória operacional, que são cruciais para o desempenho acadêmico e para a vida.

Esses estudos, em conjunto, ajudam a fundamentar a importância de experiências de aprendizagem significativas e de propostas pedagógicas que exijam participação cognitiva ativa dos estudantes. A neurociência educacional, nesse contexto, oferece subsídios para compreender como o ambiente de aprendizagem pode otimizar o funcionamento cerebral e, consequentemente, o desenvolvimento das potencialidades dos alunos. Contudo, é fundamental interpretar a contribuição desses referenciais com cautela, pois a Neurociência Educacional, isoladamente, não permite determinar uma metodologia específica para estudantes com AH/SD, nem sustenta a ideia de que exista um “cérebro superdotado” que exija uma prática pedagógica única e exclusiva.

O que os achados permitem afirmar é que processos cognitivos como atenção, memória, motivação, flexibilidade e autorregulação são componentes intrínsecos da aprendizagem e podem ser significativamente favorecidos por experiências pedagógicas que sejam desafiadoras e significativas (Costa, 2023; Kandel et al., 2023). Essa perspectiva enriquece a discussão sobre diferenciação pedagógica, sugerindo que, em vez de reduzir o atendimento a atividades adicionais ou ao aumento da quantidade de exercícios, o professor pode propor problemas abertos, investigações, projetos, escolhas, aprofundamento e situações que demandem planejamento e resolução de problemas complexos. Tais estratégias dialogam diretamente com o desenvolvimento das funções executivas, conforme descrito por Marques, Amaral e Pantano (2022), e se aproximam do conceito de envolvimento com a tarefa, enfatizado por Renzulli (2004).

A contribuição desta categoria para o Guia de Formação Docente foi a inclusão de orientações para o planejamento de experiências pedagógicas desafiadoras, flexíveis e significativas. O eixo correspondente não apresenta a Neurociência como uma justificativa para práticas deterministas, mas utiliza conceitos como funções executivas e neuroplasticidade para ampliar a reflexão sobre como o ambiente de aprendizagem pode favorecer os processos cognitivos envolvidos no aprender. A conexão entre a teoria e o produto educacional ocorre pela tradução desses conceitos em perguntas de planejamento e possibilidades de intervenção pedagógica, capacitando os professores a criar ambientes que estimulem o desenvolvimento integral dos estudantes com AH/SD.

Articulação entre as categorias e implicações para o Guia de Formação Docente

A articulação entre as três categorias temáticas – lacunas na formação docente, acolhimento escolar e contribuições da Neurociência Educacional – evidencia que essas dimensões não são independentes, mas sim interligadas e complementares. A formação docente oferece ao professor o repertório necessário para reconhecer as potencialidades e compreender as necessidades específicas dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. O acolhimento escolar, por sua vez, cria as condições relacionais fundamentais para que esses estudantes se sintam seguros, participem ativamente e desenvolvam um senso de pertencimento. Os fundamentos da Neurociência Educacional, por sua vez, contribuem para a concepção de experiências de aprendizagem que mobilizem eficazmente os processos cognitivos e socioemocionais.

A integração desses elementos sustenta uma abordagem de atendimento às AH/SD que vai além da mera identificação do estudante, considerando suas condições de desenvolvimento no cotidiano escolar de forma holística. A literatura analisada também aponta para a relevância da atuação colaborativa entre professores, gestores e famílias como um fator crucial para o sucesso da inclusão. No âmbito do Guia de Formação Docente, essa dimensão é incorporada como um princípio de trabalho, reforçando que a responsabilidade pelo desenvolvimento integral do estudante não recai exclusivamente sobre a escola, mas é compartilhada por uma rede de apoio. A análise dos resultados indica que as práticas inclusivas se fortalecem quando diferentes profissionais e a família compartilham informações, observações e estratégias, respeitando as atribuições de cada participante e promovendo uma comunicação eficaz.

Essa compreensão reforça a necessidade de formação continuada institucionalizada e de espaços coletivos de discussão, onde os educadores possam refletir sobre suas práticas e aprimorar suas abordagens. Com base nas categorias analisadas e em sua articulação, o Guia de Formação Docente foi estruturado como um desdobramento direto do percurso metodológico e dos achados da revisão bibliográfica. Seus eixos retomam os problemas identificados na literatura: a insuficiência de repertório sobre AH/SD, a necessidade de um acolhimento socioemocional efetivo e a demanda por práticas pedagógicas desafiadoras e flexíveis. O produto educacional, portanto, não tem como propósito diagnosticar estudantes ou substituir avaliações especializadas, mas sim apoiar professores e equipes escolares na reflexão e no planejamento de práticas mais inclusivas e adequadas às singularidades dos estudantes com AH/SD.

Em síntese, a revisão bibliográfica demonstrou que a formação docente é uma dimensão central para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas voltadas a estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. A compreensão multidimensional das AH/SD, que considera habilidades, criatividade, envolvimento com a tarefa e características socioemocionais, amplia as possibilidades de identificação pedagógica e de atendimento. O acolhimento escolar, entendido como parte integrante do processo educativo, e as contribuições da Neurociência Educacional, que informam sobre a importância de experiências significativas e estratégias que envolvam participação cognitiva ativa, são elementos cruciais que se articulam para fundamentar o Guia de Formação Docente, oferecendo um recurso valioso para aprimorar o olhar e as práticas dos educadores.

4. Conclusão

O presente estudo analisou, por meio de revisão bibliográfica qualitativa, como a formação docente e as práticas de acolhimento escolar são abordadas na literatura em relação ao desenvolvimento de crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), com o propósito de subsidiar a elaboração de um Guia de Formação Docente. Verificou-se que a formação de professores apresenta lacunas significativas, o que limita o reconhecimento das potencialidades dos estudantes para além do desempenho acadêmico convencional. A literatura enfatizou a necessidade de uma compreensão multidimensional das AH/SD, que articule habilidades acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa, conforme o Modelo dos Três Anéis de Renzulli (2004). Observou-se, ainda, que o acolhimento escolar transcende o mero apoio emocional, configurando-se como a construção de relações pedagógicas baseadas na escuta ativa, no respeito às singularidades e na promoção do senso de pertencimento, elementos cruciais para o desenvolvimento socioemocional desses estudantes. As contribuições da Neurociência Educacional, por sua vez, evidenciaram que processos cognitivos como atenção, memória, motivação, flexibilidade e autorregulação são favorecidos por experiências pedagógicas desafiadoras e significativas, embora se ressalte que esses fundamentos não determinam uma metodologia única para o atendimento às AH/SD. A principal contribuição deste trabalho foi a elaboração de um Guia de Formação Docente, que sistematiza esses achados teóricos em orientações práticas para ampliar o repertório dos educadores e fortalecer suas práticas pedagógicas inclusivas.

Como limitação, destaca-se que o presente estudo se baseou exclusivamente em revisão bibliográfica, não realizando a avaliação empírica da aplicação do Guia de Formação Docente nem de seus efeitos sobre as práticas pedagógicas ou o desenvolvimento dos estudantes. Recomenda-se que pesquisas futuras investiguem a utilização deste produto educacional em diversos contextos escolares, considerando a percepção de professores, gestores, famílias e estudantes. Tais investigações poderão analisar as possibilidades de aperfeiçoamento do material e validar sua eficácia na promoção de práticas mais sensíveis e inclusivas. Assim, este trabalho representa uma etapa inicial de sistematização teórica e proposição formativa, que demanda validação e desenvolvimento por meio de novos estudos.

Referências Bibliográficas

ALENCAR, Eunice Maria Lima Soriano de. Ajustamento emocional e social do superdotado: fatores correlatos. In: PISKE, F. H. R. et al. (org.). Altas habilidades/superdotação (AH/SD): criatividade e emoção. Curitiba: Juruá, 2014. p. 149-162.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Censo Escolar da Educação Básica 2024: notas estatísticas. Brasília, DF: Inep, 2025. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/estatisticas_e_indicadores/notas_estatisticas_censo_da_educacao_basica_2024.pdf. Acesso em: 30 ago. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.

COSTA, Raquel Lima Silva. Neurociência e aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 28, e280010, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/S1413-24782023280010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/ZPmWbM6n7JN5vbfj8hfbyfK/. Acesso em: 30 ago. 2026.

FALCÃO, Giovana Maria Belém. Educação especial inclusiva e formação de professores: contribuições teóricas e práticas. Curitiba: Appris, 2020.

FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

KANDEL, Eric R.; KOESTER, John D.; MACK, Sarah H.; SIEGELBAUM, Steven A. Princípios de neurociências. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.

MARQUES, Ana Paula Pissarra; AMARAL, Alison Vanessa Morroni; PANTANO, Telma. Treino de funções executivas e aprendizado. 2. ed. Barueri: Manole, 2022.

PISKE, F. H. R.; STOLTZ, T.; CAMARGO, D. Emoções e sentimentos de crianças superdotadas no contexto escolar: contribuições a partir de Vigotski. In: PISKE, F. H. R. et al. (org.). Altas habilidades/superdotação (AH/SD): criatividade e emoção. Curitiba: Juruá, 2014. p. 163-183.

RENZULLI, Joseph S. O que é esta coisa chamada superdotação e como a desenvolvemos? Uma retrospectiva de vinte e cinco anos. Educação, Porto Alegre, v. 27, n. 1 (52), p. 75-131, 2004.

SILVERMAN, Linda Kreger. The giftedness of women. Scottsdale: Great Potential Press, 2010.

SWORD, L. The gifted child’s emotional development. Gifted Child Today, v. 28, n. 4, p. 14-21, 2005.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

Consequências do Uso de IA Generativa na Capacidade Cognitiva e Saúde Mental de Profissionais Brasileiros

A integração de ferramentas de inteligência artificial generativa (GenAI) no trabalho acelerou-se nos últimos anos, levantando questões sobre seus efeitos nos processos cognitivos e no bem-estar emocional dos profissionais. O estudo objetivou mensurar o impacto do uso de GenAI sobre capacidades cognitivas autorreferidas e indicadores de saúde mental de profissionais brasileiros, comparando os achados com evidências empíricas internacionais. Adotou-se uma abordagem mista, com delineamento transversal e não experimental, aplicando um questionário digital estruturado a 108 profissionais adultos brasileiros, recrutados via LinkedIn e WhatsApp. O instrumento avaliou memória de trabalho, atenção sustentada e alternada, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tecnoestresse, saúde mental e senso de propósito profissional, além de percepções qualitativas. Os resultados revelaram que 92,6% dos respondentes utilizaram GenAI regularmente, com impacto percebido majoritariamente positivo no desempenho, mas acompanhado por dependência declarada em 52,8% da amostra. A atenção sustentada mostrou-se a dimensão cognitiva mais fragilizada, e os indicadores de equilíbrio emocional e desconexão digital concentraram os resultados mais críticos. A análise comparativa identificou uma relação entre maior frequência de uso, maior dependência e menores escores cognitivos, com declínio progressivo da atenção focada ao longo do tempo de uso. Concluiu-se que o uso intensivo de GenAI coexiste com fragilidades cognitivas e emocionais mensuráveis, cujos efeitos tendem a se acumular, reforçando a necessidade de práticas conscientes que preservem a autonomia intelectual dos profissionais.

Palavras-chave: Cognição; Dependência tecnológica; Inteligência artificial; Saúde mental.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

A contribuição da neuroaprendizagem na elaboração de objetos educacionais multimídia para a recomposição de aprendizagens

A defasagem de aprendizagem na educação brasileira, agravada pela pandemia de Covid-19 e evidenciada por resultados insatisfatórios do SAEB, tornou a recomposição de aprendizagens uma prioridade nacional. O presente trabalho analisou como a produção audiovisual, integrante de um programa de recomposição de aprendizagens em Língua Portuguesa e Matemática, desenvolvido para estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental de uma rede estadual, incorporou fundamentos da neurociência da aprendizagem em sua estrutura metodológica. A pesquisa caracterizou-se como estudo de caso qualitativo e aplicado, e analisou 20 roteiros pedagógicos e as respectivas videoaulas produzidas e aplicadas em 2024. A partir do referencial teórico, construíram-se sete dimensões de análise: ludicidade e interatividade, funcionamento cerebral e aprendizagem, emoção e cognição, singularidade do estudante, contexto sociocultural, mediação pedagógica consistente e aprendizagem ativa. Os resultados indicaram que elementos da neuroaprendizagem foram incorporados de forma estrutural à metodologia do programa. Identificou-se que a personalização da aprendizagem não reside exclusivamente no objeto audiovisual, mas na cadeia sistêmica que o envolve, incluindo diagnóstico, produção, mediação presencial e monitoramento. A integração entre neurociência, conteúdos dedicados à superação de lacunas e linguagem audiovisual demonstrou ser uma estratégia metodologicamente consistente e com potencial relevante para ampliar a eficácia de programas de recomposição de aprendizagens.

Palavras-chave: Defasagem; Eduentretenimento; Mediação pedagógica; Plasticidade cerebral; Videoaula.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

Componentes da Comunicação Não Violenta: contribuições para a melhoria da convivência escolar

A convivência escolar representa um desafio contemporâneo, marcado por conflitos interpessoais e dificuldades de comunicação entre alunos e professores. Analisou-se como os componentes da Comunicação Não Violenta (CNV) podem contribuir para a melhoria da convivência em uma comunidade escolar da rede municipal de São Paulo. Realizou-se uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, que incluiu análise documental do Projeto Político-Pedagógico (PPP), observações do contexto escolar e a condução de três oficinas formativas com professores e equipe gestora. A análise documental organizou-se pelos quatro elementos da CNV: observação, sentimentos, necessidades e pedidos. Os resultados indicaram que, embora o PPP contemple princípios de convivência e respeito, faltava explicitação de estratégias comunicativas estruturadas. As oficinas, focadas em CNV, cultura de paz, mediação de conflitos e neurociência, favoreceram a autorreflexão sobre padrões comunicativos, escuta ativa e a relação entre emoções e aprendizagem. Concluiu-se que a incorporação consciente dos elementos da CNV pode favorecer a mediação de conflitos, fortalecer vínculos e promover um clima escolar mais acolhedor, contribuindo para relações interpessoais e práticas pedagógicas mais humanizadas, resultando em um processo de ensino-aprendizagem mais eficiente e significativo.

Palavras-chave: Clima escolar; Comunicação não violenta; Convivência escolar; Mediação de conflitos; Práticas pedagógicas.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

08 de outubro de 2026

Interfaces entre neurociência da aprendizagem e políticas normativas brasileiras para a formação inicial docente

A formação inicial de professores no Brasil tem recebido atenção crescente devido à complexidade dos processos de aprendizagem e à necessidade de práticas pedagógicas cientificamente embasadas. O estudo analisou como os fundamentos da neurociência da aprendizagem estão expressos nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores da Educação Básica. Realizou-se uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada na análise documental de normativas oficiais, incluindo a LDB, o PNE, o Parecer CNE/CP n° 22/2019 e a Resolução CNE/CP n° 2/2019. Os dados foram organizados a partir de categorias analíticas baseadas na neurociência da aprendizagem: atenção, emoção, memória, neuroplasticidade e autorregulação. Os resultados evidenciaram a presença implícita desses fundamentos nos documentos, especialmente na valorização da aprendizagem ativa, da dimensão socioemocional e da formação ao longo da vida. Contudo, observou-se a ausência de sistematização explícita dos conceitos, indicando limites do discurso normativo frente à complexidade da aprendizagem. Concluiu-se que existem convergências entre as políticas educacionais e os princípios da neurociência, mas é necessário aprofundar essa articulação na formação docente.

Palavras-chave: Desenvolvimento cognitivo; Educação básica; Legislação educacional; Prática pedagógica; Processos de aprendizagem.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

07 de outubro de 2026

Autorregulação da Aprendizagem em Crianças do Ensino Fundamental: Uma Análise do Projeto Sarilhos do Amarelo sob a perspectiva da Neurociência e Aprendizagem

A autorregulação da aprendizagem em crianças do ensino fundamental constitui um campo de estudo relevante para a educação. O estudo analisou a eficácia do Projeto Sarilhos do Amarelo como recurso didático para professores do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, bem como sua relação com a Neurociência aplicada à Educação. O projeto propôs o desenvolvimento de estratégias de autorregulação da aprendizagem, baseadas em planejamento, definição de objetivos, organização de recursos, monitoramento e avaliação de resultados, fundamentando-se no livro “Travessuras do Amarelo” e no modelo cíclico PLEA (Planejar, Executar e Avaliar). A metodologia empregada consistiu na análise documental sistemática e aplicada, voltada à compreensão das relações entre aprendizagem autorregulada, neurociência e funções executivas. Os resultados evidenciaram que o projeto oferece subsídios teóricos relevantes para a prática docente, favorecendo o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais eficientes. Contudo, observou-se que o projeto não estabeleceu uma articulação consistente com os conceitos neurocientíficos da aprendizagem, o que se configurou como uma lacuna em seu embasamento teórico. A pesquisa contribuiu para evidenciar o potencial e as limitações do material na formação continuada de professores e na qualificação das práticas pedagógicas.

Palavras-chave: Aprendizagem Autorregulada; Ensino Fundamental; Funções Executivas e Aprendizagem; Neurociência e Educação; Projeto Sarilhos do Amarelo.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

07 de outubro de 2026

Modelo neuroeducacional para crianças expostas à violência crônica derivado de contextos de Israel e Brasil

A exposição de crianças à violência crônica representa um fator de risco significativo para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional, impactando diretamente os processos de aprendizagem. O estudo objetivou analisar estratégias neuroeducacionais para crianças expostas à violência crônica, a partir de uma abordagem documental e comparativa entre contextos de guerra em Israel e de violência urbana no Brasil, e sistematizar um modelo neuroeducacional estruturado. A metodologia consistiu na análise de documentos científicos da neurociência do desenvolvimento e de documentos institucionais relacionados a políticas e práticas educacionais, organizados por meio de procedimentos de análise de conteúdo temática. Os resultados indicaram que, no contexto israelense, observou-se maior nível de sistematização das respostas educacionais, com integração entre práticas pedagógicas, regulação emocional e organização institucional. No Brasil, identificou-se menor articulação entre evidências científicas e práticas educacionais estruturadas, apesar das diretrizes relevantes. Como principal contribuição, o estudo sistematizou um modelo neuroeducacional estruturado, de caráter aplicado, voltado à atuação em contextos escolares situados em territórios de vulnerabilidade. Concluiu-se que o desafio central reside na articulação entre conhecimento científico e sua tradução em práticas neuroeducacionais sistematizadas, evidenciando a necessidade de modelos organizadores que integrem neurociência e educação em contextos de violência crônica.

Palavras-chave: Estresse tóxico; Funções executivas; Neuroeducação; Regulação emocional; Vulnerabilidade social.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

07 de outubro de 2026

Práticas de Mindfulness e Ansiedade Escolar no 9° Ano em Escola Pública Paulista: Análise Documental

A ansiedade escolar configurou-se como um desafio significativo ao desenvolvimento integral de estudantes do 9º ano do ensino fundamental II em escolas públicas paulistas, agravado pela transição acadêmica, pelas pressões avaliativas e pelos impactos residuais da pandemia de COVID-19. Nesse contexto, o estudo objetivou analisar evidências científicas e institucionais acerca dos efeitos das práticas de mindfulness na redução da ansiedade e no aumento do engajamento escolar, em consonância com as competências socioemocionais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A problemática central consistiu na identificação de estratégias pedagógicas preventivas, viáveis e cientificamente fundamentadas para o enfrentamento da ansiedade no contexto da educação pública. Adotou-se abordagem qualitativa de caráter exploratório-descritivo, com análise documental e pesquisa bibliográfica de fontes oficiais, como MEC e UNESCO, e de literatura científica indexada nas bases SciELO e PubMed, no período de 2018 a 2025, complementadas por observação não participativa em contexto escolar. Os resultados indicaram que as práticas de mindfulness apresentaram potencial para favorecer a regulação emocional, reduzir manifestações de ansiedade situacional e contribuir para o engajamento acadêmico, embora seus efeitos tenham dependido de fatores contextuais. Como limitações, destacaram-se a escassez de estudos nacionais controlados e a necessidade de investigações empíricas futuras.

Palavras-chave: bem-estar escolar; engajamento acadêmico; regulação emocional.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

07 de outubro de 2026

A Neurociência e a Inteligência Artificial no Processo de Aprendizagem

A interseção entre neurociência e Inteligência Artificial (IA) no processo de aprendizagem foi explorada. O estudo objetivou analisar o impacto da mediação tecnológica no desempenho acadêmico de estudantes. Empregou-se um método misto, combinando análise de conteúdo documental e estatística inferencial sobre dados secundários. A investigação baseou-se em um levantamento de bancos de dados consolidados, garantindo anonimato e ausência de contato direto com os alunos. Foram analisados relatórios de plataformas de IA, registros pedagógicos de conselhos de classe e indicadores de desempenho acadêmico, como notas e frequência. Os dados quantitativos, provenientes de 40 registros, revelaram um impacto significativo da mediação tecnológica. Observou-se um aumento de aproximadamente 46,6% na média geral de desempenho, que passou de 4,93 antes da intervenção para 7,23 após a implementação de ferramentas de IA. O teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas confirmou a relevância estatística dessa mudança (p=0,001), indicando que a melhoria resultou da intervenção. Adicionalmente, um modelo de regressão linear apontou que a intervenção introduziu novos determinantes de mudança, independentes do nível de conhecimento prévio dos usuários. A perspectiva neurocientífica sugeriu que os Recursos Educacionais Digitais (RED) promovem autonomia, mas podem causar atrofia cognitiva se usados apenas para automatizar funções. Concluiu-se que a IA representa um suporte adaptativo valioso, cuja eficácia está vinculada à intervenção do professor para assegurar um aprendizado crítico e consolidado.

Palavras-chave: Aprendizagem personalizada; Inteligência artificial educacional; Neurociência cognitiva; Tecnologias educacionais.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

07 de outubro de 2026

Judicialização da Educação Inclusiva para Crianças com Tea: Avaliação de Casos no Estado de São Paulo

Analisou-se a judicialização da educação inclusiva para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Estado de São Paulo. Objetivou-se investigar o comportamento processual do Estado e os padrões decisórios do Tribunal de Justiça em ações que pleiteavam profissional de apoio pedagógico. Adotou-se abordagem qualitativa, com análise documental e de conteúdo de contestações, apelações, decisões de tutela de urgência, sentenças e acórdãos de sete processos judiciais da comarca de Santo André/SP, iniciados entre 2023 e 2025, após a vigência do Decreto Estadual n. 67.635/2023. Os resultados revelaram que a Procuradoria-Geral do Estado empregou uma estratégia argumentativa padronizada, baseada em teses abstratas como a inexistência legal do professor auxiliar e o caráter segregacionista do apoio individualizado, com pouca referência às particularidades de cada aluno. O Poder Judiciário, por sua vez, estabeleceu jurisprudência consolidada, reconhecendo o direito subjetivo ao acompanhamento especializado por docente e determinando a disponibilização do profissional sem exclusividade, fundamentado em legislação federal e súmula do TJSP. A análise transversal identificou lacunas comuns a ambas as instituições, como a ausência de individualização das peças e decisões, a falta de mecanismos de acompanhamento e fiscalização, a não escuta da família e do aluno, e o foco restrito na presença do profissional de apoio. Concluiu-se que a superação da dependência da judicialização individual requer a reformulação da política pública, a qualificação do processo judicial e o diálogo interinstitucional para uma educação inclusiva efetiva.

Palavras-chave: Direito subjetivo; Profissional de apoio pedagógico; Procuradoria-Geral do Estado; Tribunal de Justiça; Transtorno do espectro autista.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade