Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

07 de outubro de 2026

Autorregulação da Aprendizagem em Crianças do Ensino Fundamental: Uma Análise do Projeto Sarilhos do Amarelo sob a perspectiva da Neurociência e Aprendizagem

Autorregulação da Aprendizagem em Crianças do Ensino Fundamental: uma Análise do Projeto Sarilhos do Amarelo sob a Perspectiva da Neurociência e Aprendizagem.

Isabela Ruivo Salles; Maria Fernanda Celli De Oliveira

DOI: 10.22167/2675-6528-202603005

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A autorregulação da aprendizagem em crianças do ensino fundamental constitui um campo de estudo relevante para a educação. O estudo analisou a eficácia do Projeto Sarilhos do Amarelo como recurso didático para professores do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, bem como sua relação com a Neurociência aplicada à Educação. O projeto propôs o desenvolvimento de estratégias de autorregulação da aprendizagem, baseadas em planejamento, definição de objetivos, organização de recursos, monitoramento e avaliação de resultados, fundamentando-se no livro “Travessuras do Amarelo” e no modelo cíclico PLEA (Planejar, Executar e Avaliar). A metodologia empregada consistiu na análise documental sistemática e aplicada, voltada à compreensão das relações entre aprendizagem autorregulada, neurociência e funções executivas. Os resultados evidenciaram que o projeto oferece subsídios teóricos relevantes para a prática docente, favorecendo o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais eficientes. Contudo, observou-se que o projeto não estabeleceu uma articulação consistente com os conceitos neurocientíficos da aprendizagem, o que se configurou como uma lacuna em seu embasamento teórico. A pesquisa contribuiu para evidenciar o potencial e as limitações do material na formação continuada de professores e na qualificação das práticas pedagógicas.

Palavras-chave: Aprendizagem Autorregulada; Ensino Fundamental; Funções Executivas e Aprendizagem; Neurociência e Educação; Projeto Sarilhos do Amarelo.

1. Introdução

A autorregulação da aprendizagem constitui um campo de estudo de crescente relevância no cenário educacional contemporâneo, especialmente no ensino fundamental. Este processo, que capacita os estudantes a gerenciar seus próprios comportamentos, pensamentos e sentimentos em relação ao aprendizado, é fundamental para o desenvolvimento da autonomia e para o sucesso acadêmico, conforme apontam Zimmerman e Schunk (2011). Nesse contexto, o Projeto Sarilhos do Amarelo emerge como um recurso didático concebido para fomentar a autorregulação em crianças do primeiro ciclo do ensino fundamental.

O Projeto Sarilhos do Amarelo, desenvolvido por Rosário et al. (2007) no Grupo de Investigação Universitária em Autorregulação (GUIA) da Universidade do Minho, em Portugal, utiliza o livro infantil “Sarilhos do Amarelo” (conhecido no Brasil como “As Travessuras do Amarelo”) como base narrativa. A proposta pedagógica do projeto fundamenta-se na teoria social cognitiva de Albert Bandura (2008) e no modelo cíclico de Zimmerman (2000), sugerindo a infusão curricular de estratégias de autorregulação. Tais estratégias abrangem o planejamento, a definição de objetivos, a organização de recursos, o monitoramento e a avaliação de resultados, estruturadas no modelo cíclico PLEA (Planejar, Executar e Avaliar), conforme descrito por Rosário et al. (2004).

A compreensão dos processos de autorregulação da aprendizagem é significativamente enriquecida pela perspectiva da Neurociência e Aprendizagem, que investiga como o cérebro aprende e como as funções cognitivas se desenvolvem. As Funções Executivas, por exemplo, que englobam o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, são habilidades cognitivas essenciais para o planejamento e a execução de ações intencionais, sendo diretamente relacionadas à autorregulação, como destacam Cosenza e Guerra (2011), Barros e Hazin (2013) e Fonseca (2014). O desenvolvimento dessas funções, que se intensifica na faixa etária do ensino fundamental, permite às crianças engajar-se em comportamentos complexos e tomar decisões mais elaboradas (Rosário et al., 2007).

Apesar da relevância do Projeto Sarilhos do Amarelo para o desenvolvimento de competências autorregulatórias, observa-se uma lacuna em seu embasamento teórico. O documento orientador do projeto não estabelece uma articulação consistente e explícita com os conceitos neurocientíficos da aprendizagem. A relação entre o projeto e a neurociência é mencionada de forma superficial, como “desenvolvimento cognitivo”, sem aprofundar a conexão com o funcionamento do córtex pré-frontal, as conexões sinápticas, a plasticidade cerebral ou os diferentes tipos de memória, conforme identificado na análise do TCC.

Essa lacuna é significativa, pois a integração da neurociência aplicada à educação é fundamental para uma compreensão mais aprofundada de como os processos autorregulatórios se desenvolvem e se consolidam no funcionamento cerebral (Cosenza e Guerra, 2011). A ampliação dessa perspectiva teórica é crucial para qualificar as práticas pedagógicas e a formação continuada de professores, permitindo que educadores compreendam a complexidade do fenômeno educativo e as variáveis envolvidas na relação entre aluno, professor e as diferentes formas de aprender. O tema constitui um campo profícuo para a pesquisa e o aprimoramento da prática docente, ao integrar conhecimentos da neurociência e da autorregulação para favorecer a aprendizagem e o desenvolvimento sociocognitivo dos estudantes.

A relevância deste estudo, portanto, justifica-se pela necessidade de aprimorar a fundamentação teórica do Projeto Sarilhos do Amarelo e de contribuir para a formação de professores, oferecendo uma visão mais integrada sobre a autorregulação da aprendizagem. Diante do exposto, este trabalho teve como objetivo investigar sob a luz da Neurociência e Aprendizagem, com enfoque nas Funções Executivas, como o Projeto Sarilhos do Amarelo contribui de maneira significativa para aprendizagem e para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes, além de ser um potente documento para o aprimoramento das práticas docentes em sala de aula.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza aplicada, conforme a classificação de Fleury e Werlang (2017). A pesquisa aplicada tem como finalidade testar ou refutar teorias por meio de sua relação com a prática, buscando intervir e propor soluções para problemas oriundos das demandas do mundo social. Neste trabalho, a abordagem aplicada foi utilizada com o objetivo de confirmar resultados a partir dos dados coletados, tendo como princípio a própria teorização do processo de transformação, visando garantir uma intensificação da relação entre a teoria e a prática no contexto educacional.

A abordagem metodológica central consistiu na análise documental sistemática e aplicada. Segundo Almeida e Guindani (2009), essa metodologia se vale de métodos e técnicas para a compreensão e interpretação de documentos de diferentes naturezas. O objeto empírico principal desta análise foi o documento orientador “Sarilhos do Amarelo”, desenvolvido por Rosário et al. (2007) no Grupo de Investigação Universitária em Autorregulação (GUIA) da Universidade do Minho, em Portugal.

No processo de análise do documento “Sarilhos do Amarelo”, examinaram-se diversos elementos. Incluíram-se a descrição da metodologia do projeto, o ensino de estratégias e processos de autorregulação da aprendizagem, o conceito de modelação social, a operacionalização do projeto, a proposta de trabalho, a análise das etapas do livro “As Travessuras do Amarelo”, e o guia de leitura com sugestões de atividades. Essa exploração detalhada visou compreender a estrutura e o conteúdo do projeto em relação à autorregulação.

Para aprofundar o estudo teórico e contextualizar a análise documental, realizou-se uma pesquisa bibliográfica complementar. Esta etapa teve como propósito analisar produções acadêmicas relacionadas às contribuições da Neurociência e Aprendizagem, das Funções Executivas e da Autorregulação da Aprendizagem. As fontes de dados consultadas foram o Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o catálogo on-line do Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo (USP), a Scientific Electronic Library Online (SciELO) e o Google Acadêmico.

A seleção dos trabalhos bibliográficos seguiu critérios de similaridade e aproximação com o tema central da pesquisa. Priorizou-se a leitura de estudos que abordassem a aplicação prática do Projeto Sarilhos do Amarelo nos anos iniciais do Ensino Fundamental, bem como pesquisas relacionadas à Neurociência e Educação, às Funções Executivas e à Aprendizagem Autorregulada. As palavras-chave empregadas para as buscas foram: Neurociência e Educação; Funções Executivas e Aprendizagem; Projeto Sarilhos do Amarelo; Aprendizagem Autorregulada; e Ensino Fundamental.

A análise do Projeto Sarilhos do Amarelo foi realizada sob a luz de referenciais teóricos específicos. Utilizaram-se as contribuições da Neurociência aplicada à Educação, com base nos estudos de Cosenza e Guerra (2011), Barros e Hazin (2013), León et al. (2013) e Fonseca et al. (2014). Adicionalmente, a fundamentação teórica sobre a Autorregulação da Aprendizagem incluiu a teoria social cognitiva de Albert Bandura (2008) e o modelo cíclico de Zimmerman (2008), que serviram como lentes para a interpretação do material.

A técnica de análise dos dados consistiu na interpretação sistemática do conteúdo do documento “Sarilhos do Amarelo” em confronto com os referenciais teóricos selecionados. Este processo buscou identificar a articulação entre os conceitos de autorregulação da aprendizagem presentes no projeto e os princípios da Neurociência e das Funções Executivas. Os dados coletados da análise documental e da pesquisa bibliográfica foram organizados para permitir uma compreensão integrada das relações entre os campos de estudo.

A organização dos dados permitiu uma avaliação da coerência do Projeto Sarilhos do Amarelo com os conhecimentos neurocientíficos sobre aprendizagem e funções executivas. O objetivo foi elucidar como o projeto, em sua concepção e propostas, se alinha ou diverge desses conhecimentos, fornecendo subsídios para a compreensão de seu potencial e suas limitações na formação de professores e no desenvolvimento da autonomia dos estudantes no ensino fundamental.

3. Resultados e Discussão

O presente estudo buscou analisar o Projeto Sarilhos do Amarelo como recurso didático para professores do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, sob a perspectiva da Neurociência e Aprendizagem, com foco nas Funções Executivas. Os resultados da análise documental sistemática e aplicada revelaram que o projeto, fundamentado na Teoria Sociocognitiva de Albert Bandura (2008) e no modelo cíclico de Zimmerman (2000), oferece um arcabouço teórico e prático robusto para o desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem em crianças. Contudo, identificou-se uma lacuna significativa na articulação explícita entre as estratégias propostas pelo projeto e os conceitos neurocientíficos da aprendizagem, o que limita uma compreensão mais aprofundada de seus mecanismos subjacentes.

O Projeto Sarilhos do Amarelo

O Projeto Sarilhos do Amarelo, desenvolvido por Rosário et al. (2007) no Grupo de Investigação Universitária em Autorregulação (GUIA) da Universidade do Minho, em Portugal, constitui um documento orientador para educadores e familiares. Seu principal objetivo é fomentar a autorregulação da aprendizagem em crianças da educação pré-escolar e do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, utilizando como base narrativa o livro infantil “As Travessuras do Amarelo”. A proposta pedagógica do projeto, que se estende por 17 capítulos, visa o desenvolvimento de estratégias de autorregulação por meio de tarefas que envolvem planejamento, definição de objetivos, organização de recursos, monitoramento e avaliação de resultados, estruturadas no modelo cíclico PLEA (Planejar, Executar e Avaliar).

A análise do documento revelou que os autores, Rosário et al. (2007), preocuparam-se em apresentar uma sólida fundamentação teórica para o projeto, dedicando o primeiro capítulo e seus subcapítulos à explanação do “Racional da Ferramenta”. Essa abordagem teórica visa capacitar educadores e demais interessados a compreender as concepções de autorregulação da aprendizagem que sustentam o livro “As Travessuras do Amarelo”. A exposição teórica busca conferir maior profundidade ao trabalho desenvolvido em sala de aula e favorecer a melhoria da qualidade das interações sociais no ambiente escolar, conforme apontado pelos autores.

O conceito da autorregulação da aprendizagem no documento “Sarilhos do Amarelo”

A autorregulação da aprendizagem é definida no projeto como um processo consciente e voluntário de autogoverno, que permite ao indivíduo gerenciar seus comportamentos, pensamentos e sentimentos para alcançar metas pessoais (Bandura, 1991; Bandura, 2008; Zimmerman, 2000). Desde meados da década de 1980, a pesquisa sobre autorregulação tem se intensificado no contexto educacional, buscando formas de desenvolver a autonomia dos estudantes em suas aprendizagens (Zimmerman e Schunk, 2011). A Teoria Social Cognitiva de Albert Bandura, que fundamenta o projeto, explora a relação recíproca entre fatores pessoais, comportamentais e ambientais no funcionamento humano (Evely e Boruchovitch, 2018).

Bandura (1978) propôs que a autorregulação do comportamento humano é um fenômeno multifacetado, operando por meio de três subprocessos de autogerenciamento: a auto-observação, o julgamento e a autorreação (Polydoro e Azzi, 2009; Zimmerman e Schunk, 2011). A auto-observação refere-se ao monitoramento do próprio desempenho, enquanto o julgamento envolve a avaliação desse desempenho com base em valores pessoais e normas sociais. A autorreação, por sua vez, compreende as respostas emocionais, cognitivas e comportamentais diante dessa avaliação, que podem incluir autocorreções ou incentivos motivacionais. Esses processos permitem ao indivíduo intervir intencionalmente em seu ambiente para alcançar metas pré-estabelecidas.

Os processos neurológicos responsáveis pela autorregulação do pensamento e comportamento são ciclicamente voltados e adaptados para a obtenção de metas pessoais e guiados por padrões sociais de comportamentos. A autorregulação, portanto, possibilita melhores condições para o aprendizado, sendo um processo que se aprende e envolve o ensino explícito de estratégias (Cosenza e Guerra, 2011). A interação com o ambiente, ao longo do desenvolvimento humano, facilita a formação de conexões nervosas, promovendo a aprendizagem e o surgimento de novos comportamentos. Ambientes que oferecem estímulos adequados para o desenvolvimento de competências autorregulatórias contribuem para a internalização dessas estratégias.

A aprendizagem, sob uma perspectiva neurocientífica, é uma consequência da facilitação da passagem de informações ao longo das sinapses, onde mecanismos bioquímicos liberam neurotransmissores em maior quantidade (Cosenza e Guerra, 2011). Para que a aprendizagem sobre autorregulação seja duradoura, é necessária a estabilização de novas conexões sinápticas, o que demanda tempo e esforço pessoal. O conceito de autorregulação da aprendizagem, conforme Rosário et al. (2007), destaca o caráter intencional da ação do sujeito como essencial para o aprendizado, permitindo que crianças com competências autorregulatórias analisem as exigências do ambiente e selecionem as estratégias mais adequadas para seus objetivos.

O papel do docente é fundamental nesse processo, pois os professores exercem influência significativa no desenvolvimento da autoeficácia e autoconfiança dos estudantes por meio da observação de comportamentos (Lima et al., 2025). Cosenza e Guerra (2011) e Tortella e Forner (2019) ressaltam que o professor deve facilitar a aprendizagem, apresentando e ensinando estratégias, acompanhando sua utilização e fornecendo feedbacks contínuos. Isso favorece a autonomia dos estudantes, embora a aprendizagem seja um fenômeno individual, moldado pelas circunstâncias históricas de cada um.

O modelo cíclico de Zimmerman (2000, 2002) é um dos principais conceitos explorados no projeto, descrevendo a autorregulação da aprendizagem como um processo dinâmico e aberto, com três fases principais: a fase prévia, a fase do controle volitivo e a fase da autorreflexão. Essas fases ocorrem de forma simultânea e interativa, sem uma hierarquia rígida. O modelo cíclico explicativo de Zimmerman fundamenta o modelo “PLEA” (Planejar, Executar e Avaliar) de Rosário et al. (2004, 2007), que também é composto por três fases interativas, cada uma com um conjunto de estratégias que orientam o desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem.

A fase de planificação, ou planejamento, é a primeira etapa do modelo PLEA, onde se constrói um conjunto de estratégias para alcançar os objetivos estabelecidos. Essa fase tem uma relação estreita com a memória operacional e a memória prospectiva, conforme Cosenza e Guerra (2011). A memória operacional, ou de curta duração, é responsável por disponibilizar e manipular informações necessárias para o planejamento. A memória prospectiva, por sua vez, é crucial para memorizar eventos e prever situações futuras, auxiliando no monitoramento da tarefa e na supervisão do comportamento, sendo fundamental para o planejamento de estratégias comportamentais.

A fase de execução corresponde ao momento em que o plano definido é colocado em prática, com a implementação de estratégias de aprendizagem para a realização das atividades e o acompanhamento de seu progresso, visando o alcance das metas. Por fim, a fase de avaliação envolve uma reflexão crítica sobre a conformidade das etapas anteriores com o planejado. O objetivo da avaliação é analisar a relação entre o plano, as metas e os resultados, servindo como base para a planificação das tarefas subsequentes e dando continuidade ao ciclo da autorregulação. O estímulo à autorregulação é uma forma eficaz de mitigar dificuldades de aprendizagem, sendo uma habilidade que pode ser aprimorada por meio de ensino explícito e experiências pessoais, envolvendo a ação intencional do sujeito e os recursos do ambiente.

Entre 6 e 9 anos, período correspondente ao Ensino Fundamental I, as crianças demonstram um desenvolvimento mais acentuado das competências autorregulatórias, tornando-se mais conscientes de suas capacidades e mais aptas a escolher estratégias para atingir objetivos (Rosário et al., 2007). Nesse período, ocorre um aumento da consciência em relação às ações e pensamentos, associado ao desenvolvimento do córtex e das funções executivas. As crianças nessa faixa etária são capazes de elaborar um trabalho metacognitivo intencional, formulando questões que projetam consequências de seus comportamentos a curto, médio e longo prazo, o que justifica a relevância do projeto para essa faixa etária.

Funções Executivas e a Autorregulação da aprendizagem no projeto Sarilhos do Amarelo

A análise da relação entre as Funções Executivas e o Projeto Sarilhos do Amarelo revelou uma estreita aproximação entre o conceito de autorregulação, as estratégias PLEA e o campo das Funções Executivas. As Funções Executivas são um conjunto de habilidades cognitivas que permitem a organização do pensamento e do comportamento, essenciais para o planejamento e monitoramento de ações cotidianas e objetivos (Cosenza e Guerra, 2011; Barros e Hazin, 2013; León et al., 2013; Fonseca et al., 2014). Embora o documento orientador do projeto não se fundamente explicitamente na Neurociência ou nas características das Funções Executivas, estas são, em síntese, os elementos que possibilitam a interação organizada do indivíduo com o mundo.

Do ponto de vista anatômico, o córtex pré-frontal é a região cerebral mais diretamente relacionada às Funções Executivas, desempenhando um papel fundamental na articulação de diferentes aspectos do controle executivo (Barros e Hazin, 2013). Contudo, o desempenho dessas funções não depende exclusivamente do córtex pré-frontal, mas da atuação integrada de diversos circuitos neurais, exigindo a participação do cérebro em sua totalidade para um funcionamento eficiente (Pires, 2010). Fonseca (2014) descreve as Funções Executivas como o “maestro neurofuncional”, destacando sua importância na otimização do controle cognitivo, especialmente em situações de aprendizagem.

As principais habilidades das Funções Executivas que se articulam com o embasamento teórico do Projeto Sarilhos do Amarelo e o modelo PLEA são o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. O controle inibitório refere-se à capacidade de selecionar estímulos, pensar antes de agir e inibir distratores, favorecendo a autodisciplina e o autocontrole sobre a atenção e ações intencionais (Léon et al., 2013; Barros e Hazin, 2013). Essa competência é crucial para regular pensamentos, emoções e comportamentos em função de metas definidas, sendo um mecanismo essencial para o planejamento e monitoramento da execução das ações, tanto na Teoria Sociocognitiva de Bandura (2008) quanto nos modelos de autorregulação da aprendizagem.

A memória de trabalho, por sua vez, é a capacidade de manter informações ativas no cérebro por um período limitado e manipulá-las conforme as demandas do contexto. Essa habilidade permite relacionar ideias, integrar informações e recordar sequências, sendo fundamental para a organização do pensamento e o planejamento de comportamentos complexos, em consonância com o modelo PLEA. A memória sequencial e prospectiva, que envolve a projeção de ações futuras, é diretamente associada a essa capacidade, contribuindo para a organização e execução eficaz de tarefas.

A flexibilidade cognitiva, a terceira habilidade das Funções Executivas, permite ao indivíduo adaptar-se às demandas do ambiente e adequar seu comportamento a novas regras ou acontecimentos. Essa habilidade envolve a mudança de foco atencional e de perspectiva sobre situações, auxiliando no gerenciamento de soluções alternativas para a resolução de problemas. No contexto do modelo PLEA, a flexibilidade cognitiva é particularmente relevante em sua dimensão cíclica, pois, após a avaliação das ações, ela promove ajustes e direciona o sujeito à elaboração de um novo planejamento, garantindo a continuidade e aprimoramento do processo autorregulatório.

Em síntese, as Funções Executivas, que incluem autocontrole, atenção seletiva e sustentada, manipulação de ideias, mudanças de perspectivas e adaptação a novas demandas, são habilidades necessárias para a construção de novos conhecimentos e o raciocínio em ambientes distratores. O desenvolvimento dessas funções inicia-se na primeira infância, intensifica-se entre os 6 e 8 anos e se prolonga até a idade adulta. Na faixa etária do Ensino Fundamental (6-10 anos), as crianças demonstram maior capacidade para engajar-se em comportamentos complexos, planejar ações e resolver problemas, o que justifica a relevância do Projeto Sarilhos do Amarelo para esse público.

Metodologia do Projeto Sarilhos do Amarelo

A metodologia do Projeto Sarilhos do Amarelo, conforme Rosário et al. (2007), utiliza o estilo narrativo do livro “As Travessuras do Amarelo” por seu caráter dinâmico e adaptável, permitindo aos educadores flexibilizar o projeto. A proximidade dos personagens com o universo infantil favorece a reflexão dos educandos sobre os desafios vivenciados, auxiliando no desenvolvimento de competências e na atribuição de valores ao modelo PLEA, especialmente através da identificação com a história. A narrativa, portanto, serve como um ponto de partida para a construção de sentido e a internalização das estratégias de autorregulação.

O subcapítulo “Ensino de estratégias, processos de autorregulação da aprendizagem e modelação” enfatiza que a “infusão curricular” do projeto aumenta as possibilidades de transferência das informações aprendidas para novas situações cotidianas (Rosário et al., 2007). Cosenza e Guerra (2011) corroboram essa ideia ao apontar que a plasticidade do sistema nervoso permite ao cérebro formar e desfazer ligações neuronais. Quando a aprendizagem é intencional, sistematizada e diversificada, e o aprendiz atribui significado ao processo, a repetição e a aprendizagem adquirida favorecem a formação de novas sinapses, facilitando o fluxo de informações e contribuindo para a internalização e uso das estratégias de autorregulação na vida pessoal e na resolução de problemas.

O processo de transferência de estratégias de aprendizagem, segundo Phye (1992) e Rosário et al. (2007), ocorre em três etapas: aquisição, retenção e transferência. Na fase de aquisição, os educandos recebem informações diretas e sistematizadas sobre as estratégias e seu uso, acompanhadas de prática intencionada. Na fase de retenção, busca-se a prática autônoma do que foi aprendido, com orientações que reforçam a utilidade das estratégias. Por fim, na fase de transferência, o educador oferece novas situações-problema para que os alunos recorram às mesmas estratégias de forma autônoma, reforçando a motivação pelo uso e a compreensão de sua utilidade em diversos contextos.

O processo didático de ensino das estratégias de autorregulação da aprendizagem, conforme Paris e Paris (2001) e Rosário et al. (2004), é progressivo. Inicia-se com o ensino direto, onde o professor explica as estratégias, seus objetivos e vantagens, desenvolvendo o conhecimento declarativo. Em seguida, a modelação permite que os alunos observem o educador planejar, executar e avaliar tarefas, tornando visível o processo de autorregulação e a prática do modelo PLEA. Posteriormente, os alunos realizam atividades por meio da prática guiada e feedback, recebendo apoio do professor e dos pares, o que favorece a motivação e a transferência do controle para o próprio aluno.

Após essa progressão, os estudantes aplicam as estratégias em novas tarefas e contextos, testando sua eficácia, até alcançarem a prática autônoma, demonstrando capacidade de usar e adaptar essas estratégias de forma independente em diversos contextos acadêmicos e sociais (Paris e Paris, 2001; Rosário et al., 2004). O processo didático, que visa promover a prática autorreflexiva ou metacognitiva, leva ao aumento da complexidade das ligações neuronais e à associação de circuitos previamente independentes, resultando na aprendizagem de novos conceitos a partir de conhecimentos já existentes. Dessa forma, os indivíduos planejam suas ações, monitoram seus processos e avaliam seus resultados, intencional ou não.

O conhecimento declarativo, procedimental e condicional são categorias essenciais para a compreensão e aplicação das estratégias de autorregulação (Rosário et al., 2007; Paris e Byrnes, 1989; Paris e Cunningham, 1996; Schraw e Moshman, 1995). O conhecimento declarativo envolve a compreensão das etapas do pensamento antes, durante e após a tarefa, incluindo organização, prática e revisão. O conhecimento procedimental relaciona-se à tomada de decisão sobre o que pensar e como usar as estratégias em contextos específicos, o “saber fazer”. O conhecimento condicional, por sua vez, está associado à capacidade de compreender quando e por que utilizar determinada estratégia, permitindo à criança conhecer suas vantagens e limitações.

A centralidade da modelação social no Projeto Sarilhos do Amarelo

A modelação social, conceito central na Teoria Social Cognitiva de Bandura (2008), é intrínseca à narrativa “As Travessuras do Amarelo”. Os conflitos vivenciados pelos personagens principais são resolvidos por meio de pistas sociais fornecidas pelos personagens secundários, que atuam como modelos de comportamento aprendido. Bandura (2008) destaca que os modelos sociais oferecem orientações informativas, permitindo mudanças pessoais, organizacionais e sociais, e são um meio importante para o desenvolvimento de competências, crenças, atitudes e comportamentos. A aprendizagem não decorre apenas da experiência direta, mas também da observação das ações e consequências vivenciadas por outros.

O conceito de modelação social, conforme Bandura (2008), envolve quatro subfunções cognitivas: atenção, representação, tradução ativa e motivação. A observação do comportamento não resulta em imitação direta, mas em um processo multifacetado influenciado por crenças sociais e expectativas de resultados. Os indivíduos padronizam seus estilos de pensamento e comportamento com base em exemplos funcionais, que servem como referência para orientar e motivar suas ações. A modelação social permite abstrair informações de modelos, interpretar novas informações e produzir novas versões do comportamento, combinando diferentes aspectos do próprio padrão comportamental com a nova informação (Bandura, 1986).

A aprendizagem por observação, seja comportamental, cognitiva ou afetiva, possibilita a expansão de conhecimentos e habilidades, permitindo a mudança dos indivíduos de acordo com seus objetivos e interesses pessoais (Lima et al., 2025). A teoria da modelação social de Bandura (2008) está intrinsecamente relacionada à narrativa “As Travessuras do Amarelo” e ao modelo PLEA. Ao longo da história, o planejamento, a execução e a avaliação são apresentados por meio da modelação social dos personagens, que atuam como modeladores sociais para as cores do arco-íris, facilitando a compreensão e apropriação das estratégias de autorregulação da aprendizagem pelos estudantes.

Operacionalização do Projeto Sarilhos do Amarelo

A operacionalização do Projeto Sarilhos do Amarelo, segundo Rosário et al. (2007), ocorre em formato de infusão curricular, trabalhando os processos de autorregulação de maneira transversal. Isso inclui planificar tarefas, estabelecer objetivos, organizar recursos, monitorizar tarefas, combater distratores e avaliar resultados. A narrativa serve como ponto de partida para o desenvolvimento dessas competências e habilidades autorregulatórias. A infusão curricular reforça a aprendizagem, pois as estratégias de autorregulação podem ser trabalhadas em diversas disciplinas escolares e em situações da vida cotidiana dos estudantes, o que favorece a consolidação da informação na memória de longo prazo.

Cosenza e Guerra (2011) destacam que a infusão curricular, a repetição e a diversificação das aprendizagens autorregulatórias são cruciais para a consolidação na memória de longo prazo, dada a plasticidade do sistema nervoso e a necessidade de exposição repetida ao estímulo. O trabalho teórico do projeto, que inclui a análise da narrativa e a realização de propostas, deve ser articulado com a prática em sala de aula. O docente articulador possui autonomia para adaptar a leitura, a linguagem e as atividades sugeridas às necessidades do público-alvo, garantindo a coerência das avaliações com os objetivos, formato e faixa etária dos estudantes (Rosário et al., 2007).

Propostas de Trabalho

As propostas de trabalho do Projeto Sarilhos do Amarelo são um conjunto diversificado de atividades que auxiliam o educador na escolha das estratégias mais adequadas a cada momento ou contexto de aprendizagem (Rosário et al., 2007). O guia de atividades não é rígido, permitindo um trabalho transdisciplinar que integra o conceito de autorregulação com diferentes disciplinas e contextos sociais dos estudantes. Ao final de cada etapa, os tópicos fundamentais devem ser sistematizados para auxiliar as crianças na organização de suas aprendizagens e na consolidação das competências trabalhadas.

Guia de leitura e Atividades propostas

O guia de leitura e atividades propostas por Rosário et al. (2007) sugere a leitura do livro “As Travessuras do Amarelo” em três etapas. Na primeira etapa, correspondente aos capítulos 1 a 7, são propostas 36 atividades. O objetivo é que os estudantes definam as fases do modelo PLEA, identifiquem as etapas da autorregulação e apliquem essas estratégias em situações cotidianas para resolução de problemas. Além disso, busca-se que valorizem o esforço, a importância de pedir ajuda e o trabalho em equipe. Um exemplo de atividade é a produção de um desenho ou texto para o “tio Jarbinhas”, onde as crianças planejam a tarefa com perguntas norteadoras como “O que vou escrever ou desenhar?” e “De quais materiais preciso?”.

A segunda etapa de leitura abrange os capítulos 8 a 12, com 19 atividades que visam, além dos objetivos anteriores, capacitar as crianças a definir objetivos conforme a tarefa, compreender as exigências do trabalho em grupo, utilizar o modelo PLEA na resolução de problemas e projetar as consequências de seus comportamentos a curto, médio e longo prazo (Rosário et al., 2007). Um exemplo de atividade é a análise da história “Os Três Porquinhos”, onde os processos de autorregulação são explorados para comparar comportamentos e objetivos dos personagens, e a “construção de uma casa” em grupos, seguindo as fases do modelo PLEA, culminando na avaliação do resultado coletivo.

Por fim, a terceira etapa do livro, que compreende os capítulos 13 a 17, apresenta 23 propostas de atividades. O objetivo é desenvolver nos estudantes competências para recorrer a soluções divergentes, favorecendo a flexibilidade cognitiva, e analisar as tarefas de forma crítica, compreendendo a importância das estratégias de autorregulação (Rosário et al., 2007). Um exemplo de atividade é a criação de um esquema de trajeto com obstáculos, onde as crianças utilizam o modelo PLEA para identificar e superar os desafios, escolhendo recursos e explicando suas escolhas. Essas atividades, amplas e variadas, funcionam como sugestões adaptáveis às necessidades e especificidades de cada turma.

Os resultados da análise evidenciam que o Projeto Sarilhos do Amarelo possui um grande potencial para a educação e para a formação continuada de professores, oferecendo subsídios teóricos relevantes para a prática docente e o desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem em crianças do Ensino Fundamental. A teorização sobre autorregulação e modelação social, juntamente com as sugestões de atividades, contribui para a melhoria das práticas pedagógicas e para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes. No entanto, a pesquisa revelou uma lacuna no embasamento teórico do projeto, que não estabelece uma articulação consistente e explícita com os conceitos neurocientíficos da aprendizagem, como o funcionamento do córtex pré-frontal, as conexões sinápticas, a plasticidade cerebral, as funções executivas, os processos atencionais, os diferentes tipos de memória e a relação entre emoções e aprendizagem. Essa ausência limita uma compreensão mais aprofundada dos processos autorregulatórios e impacta a formação dos docentes, que poderiam se beneficiar de uma visão mais integrada da complexidade do fenômeno educativo e das variáveis envolvidas na relação entre aluno, professor e as diferentes formas de aprender.

4. Conclusão

O presente estudo investigou, sob a luz da Neurociência e Aprendizagem com enfoque nas Funções Executivas, como o Projeto Sarilhos do Amarelo contribui para a aprendizagem e o desenvolvimento da autonomia de estudantes, além de seu potencial para o aprimoramento das práticas docentes. Verificou-se que o projeto oferece um arcabouço teórico e prático robusto para o desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem em crianças do ensino fundamental, fundamentado na Teoria Sociocognitiva de Albert Bandura e no modelo cíclico PLEA (Planejar, Executar e Avaliar). Observou-se que as estratégias propostas, que envolvem planejamento, definição de objetivos, organização de recursos, monitoramento e avaliação de resultados, articulam-se estreitamente com as Funções Executivas, como o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. A narrativa do livro “As Travessuras do Amarelo” e o modelo PLEA demonstraram ser intrínsecos à modelação social, um mecanismo crucial para a internalização de comportamentos autorregulatórios. A infusão curricular, por sua vez, mostrou-se eficaz para a consolidação da aprendizagem na memória de longo prazo, reforçando o potencial do projeto como recurso didático e para a formação continuada de professores, qualificando as práticas pedagógicas e fomentando a autonomia dos estudantes.

Contudo, identificou-se uma lacuna significativa no embasamento teórico do Projeto Sarilhos do Amarelo, que não estabeleceu uma articulação consistente e explícita com os conceitos neurocientíficos da aprendizagem, como o funcionamento do córtex pré-frontal, as conexões sinápticas, a plasticidade cerebral, os processos atencionais, os diferentes tipos de memória e a relação entre emoções e aprendizagem. Essa ausência limita uma compreensão mais aprofundada dos mecanismos subjacentes aos processos autorregulatórios e impacta a formação dos docentes, que poderiam se beneficiar de uma visão mais integrada da complexidade do fenômeno educativo. Sugere-se que estudos futuros explorem a integração explícita desses conceitos neurocientíficos ao projeto, a fim de enriquecer sua fundamentação teórica e aprimorar ainda mais as práticas pedagógicas e a formação de educadores.

Referências Bibliográficas

BANDURA, A.; AZZI, R. G.; POLYDORO, Soely A. J. (org.). 2008. Teoria social cognitiva: conceitos básicos. 1. ed. Artmed, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

ROSÁRIO, P.; NÚÑEZ, J. C.; GONZÁLEZ-PIENDA, J. 2007. Projecto Sarilhos do Amarelo: auto-regulação em crianças sub-10. Porto Editora, Porto, Portugal.

ROSÁRIO, P.; SOARES, S.; NÚÑEZ, J. C.; GONZÁLEZ-PIENDA, J.; RUBIO, M. 2004. Processos de autorregulação da aprendizagem e realização escolar no ensino básico. Psicologia, Educação & Cultura 8 (1): 141-157. Disponível em: https://repositorium.uminho.pt/entities/publication/6

Zimmerman e Schunk, 2011 [Referência completa não encontrada no documento original]

ZIMMERMAN, B. J. 2000. Attaining self-regulation: A social cognitive perspective. p. 15-41. In: BOEKAERTS, M.; PINTRICH, P.; ZEIDNER, M. (org.). Handbook of self-regulation. 1. ed. Academic Press, San Diego, Califórnia, Estados Unidos.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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08 de outubro de 2026

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Palavras-chave: Direito subjetivo; Profissional de apoio pedagógico; Procuradoria-Geral do Estado; Tribunal de Justiça; Transtorno do espectro autista.

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