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Neuroscience And Learning In Education

October 08, 2026

A formação básica de professores especialistas em português e matemática.

A Formação Básica de Professores Especialistas em Português e Matemática.

Leticia Orlandi Baldow; Maria Fernanda Celli de Oliveira

DOI: 10.22167/2675-6528-202603145

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Com base nos dados do Censo Escolar de 2025, que revelaram mais de 90% dos alunos com necessidades educacionais especiais matriculados em salas de aula comuns e um crescimento anual contínuo desse número, buscou-se compreender como a formação mínima exigida para os docentes os prepara para essa nova realidade educacional. O estudo analisou os elementos formativos de professores especialistas em Língua Portuguesa e Matemática, habilitados para atuar no Ensino Fundamental – Anos Finais e Ensino Médio. Para tanto, examinaram-se os currículos dos cursos de Licenciatura em Letras e Matemática da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas, utilizando documentos públicos dessas universidades. Observou-se que a formação oferecida aos docentes é insuficiente para acompanhar as demandas presentes no cotidiano escolar, principalmente ao considerar o amplo espectro de possibilidades incluídas na atipicidade. As formações, em sua maioria, abordaram questões didáticas ou o desenvolvimento humano de forma superficial, sem um foco aprofundado na inclusão real.

Palavras-chave: Currículos universitários; Docentes; Educação inclusiva; Formação acadêmica.

1. Introdução

A educação está intrinsecamente ligada à ideia do professor, uma figura indissociável do processo de ensino-aprendizagem. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 1996, reconhece a educação formal como um pilar social. Historicamente, a transmissão de conhecimento e o desenvolvimento de aptidões sempre foram valorizados, embora com acesso restrito a poucos em períodos anteriores, como detalhado por Ribeiro (1993) ao descrever a educação inicial no país.

A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a educação como um direito social, garantindo a educação básica obrigatória para crianças e adolescentes. Em seu Artigo 208, inciso III, a Constituição já previa o atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. Essa diretriz foi reforçada pela Lei nº 12.796, de 2013, que alterou a LDB, assegurando o atendimento às necessidades de educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. A legislação exige professores com especialização adequada e docentes do ensino regular capacitados para a integração desses alunos nas classes comuns.

Um marco significativo para a inclusão foi a promulgação da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146, de 2015). Esta lei, em seu Artigo 27, enfatiza a necessidade de uma inclusão holística, que respeite as necessidades, demandas, interesses e características individuais dos estudantes, indo além do acesso físico para garantir sua efetiva participação no sistema educacional.

Apesar dos avanços legais que visam garantir uma educação inclusiva para todos, a realidade escolar brasileira apresenta uma disparidade considerável entre o que é proposto e o que é efetivamente realizado. Dados do Censo Escolar de 2025 indicam que mais de 90% dos alunos de inclusão estão matriculados em salas de aula comuns, e esse número cresce anualmente (BRASIL, INEP, 2025). Essa crescente demanda impõe aos professores do ensino regular o desafio de lidar com as especificidades da atipicidade, levantando questões sobre a adequação de sua formação básica.

A formação inicial e continuada dos profissionais da educação mostra-se, muitas vezes, insuficiente frente a essa realidade. Professores percebem dificuldades em sua relação com alunos neurodivergentes, abrangendo aspectos comportamentais, demandas pedagógicas e a interação escola-família (Coutinho e Tessaro, 2024). A adaptação de atividades e metodologias depende de um conhecimento aprofundado sobre as deficiências, transtornos e altas habilidades, bem como das características individuais de cada aluno, o que exige repertório e ferramentas que nem sempre são fornecidos pela formação.

A estrutura educacional também enfrenta desafios, com dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica (2025) mostrando que apenas 25,1% das escolas possuem salas de recursos multifuncionais e 54,8% contam com banheiros acessíveis. A formação de professores no Brasil é considerada deficitária, com currículos fragmentados e disciplinas de formação específica que abordam o “o quê” e “porquê” ensinar, mas negligenciam o “como” (Gatti, 2010). A predominância de uma perspectiva cognitivo-racional e tecnicista na formação docente, desde o final dos anos 1990, não tem sido suficiente para reverter essa lógica, e a inclusão de disciplinas eletivas sobre desenvolvimento humano ou inclusão não supre a necessidade de uma formação mais abrangente (Carvalho, 2002).

Nesse contexto, torna-se crucial compreender como a formação mínima exigida para o docente o prepara para esta nova realidade da educação inclusiva. A presente pesquisa justifica-se pela necessidade de analisar os elementos formativos dos docentes especialistas em Língua Portuguesa e Matemática, habilitados a atuarem no Ensino Fundamental – Anos Finais e Ensino Médio, a fim de verificar a adequação de sua preparação para as demandas atuais. Assim, o objetivo deste trabalho é compreender como a formação mínima exigida para o docente o prepara para esta nova realidade.

2. Material e Métodos

Para compreender como a formação mínima exigida para o docente o prepara para a nova realidade da educação inclusiva, esta pesquisa adotou uma abordagem qualitativa de natureza exploratória e descritiva. O estudo buscou analisar os elementos formativos presentes nos currículos de cursos de graduação, visando identificar a adequação da preparação docente frente às demandas crescentes da inclusão de alunos com atipicidade no ensino regular.

A estratégia de pesquisa empregada foi a análise documental sistematizada. Esta metodologia permitiu examinar informações contidas em documentos públicos, que serviram como fonte primária para a investigação. A escolha por esta abordagem justificou-se pela necessidade de investigar a estrutura formal da formação acadêmica oferecida aos futuros professores, conforme delineado pelas instituições de ensino superior.

A unidade de análise consistiu nos currículos dos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Letras – Português e Matemática. O foco recaiu sobre a formação de professores especialistas habilitados para atuar no Ensino Fundamental – Anos Finais (do 6º ao 9º ano) e no Ensino Médio. Esta seleção foi motivada pela observação de que, nesses níveis de ensino, o percentual de disciplinas ministradas por professores com formação adequada se reduz consideravelmente, conforme dados do Censo Escolar de 2024.

As instituições de ensino superior selecionadas para a análise foram a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Ambas são universidades públicas de grande relevância no estado de São Paulo, reconhecidas pela qualidade e abrangência de seus programas de graduação. A escolha visou obter uma representação significativa da formação oferecida em instituições de referência.

Os instrumentos de coleta de dados foram os documentos públicos dessas universidades, especificamente os catálogos e informações básicas dos currículos dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Letras e Matemática. Além disso, foram consultados dados complementares dos Censos mais recentes da educação e do Plano Nacional de Educação, que fornecem o contexto e as metas para a educação brasileira, tanto em relação ao alunado quanto aos profissionais.

Os procedimentos de coleta de dados envolveram o acesso e a compilação de informações disponíveis nos portais eletrônicos das universidades e de órgãos governamentais. Os currículos dos cursos de Licenciatura em Letras e Matemática da USP e UNICAMP foram acessados e revisados em 29 de março de 2026. Os dados do Censo Escolar da Educação Básica 2024 e o Plano Nacional de Educação foram consultados em fevereiro e março de 2026, respectivamente, para contextualização e embasamento da análise.

A técnica de análise dos dados consistiu na avaliação sistematizada do conteúdo dos currículos. Foram examinadas as ementas, cargas horárias e objetivos das disciplinas, buscando identificar a presença de conteúdos relacionados à educação inclusiva, ao desenvolvimento humano, à psicologia da educação e às especificidades da atipicidade. Verificou-se a existência de disciplinas obrigatórias e eletivas que abordassem esses temas, bem como a profundidade com que eram tratados na formação básica dos docentes.

A organização dos dados coletados foi realizada por meio da categorização das informações curriculares, agrupando-as por universidade e por curso, e destacando as disciplinas que apresentavam alguma relação com a temática da inclusão. Este processo permitiu uma comparação estruturada entre as ofertas formativas e as demandas identificadas na literatura e nos documentos oficiais da educação brasileira.

Considerando que a pesquisa se baseou exclusivamente na análise de documentos de acesso público e não envolveu a participação direta de seres humanos, não houve necessidade de submissão a um comitê de ética em pesquisa. Todos os dados utilizados são de domínio público e foram tratados com a devida referência às suas fontes originais.

3. Resultados e Discussão

A análise dos currículos de licenciatura em Letras e Matemática das universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (UNICAMP) revelou um panorama da formação docente que, embora robusto em conteúdos específicos, apresenta lacunas significativas na preparação para a educação inclusiva. Os cursos de bacharelado, que servem como base para a licenciatura, focam primordialmente na compreensão aprofundada das matérias. No caso de Letras, as disciplinas abordam a estrutura da língua portuguesa, suas influências históricas como o latim e o grego, e a literatura lusófona, com eletivas que aprofundam aspectos linguísticos e literários.

Para o bacharelado em Matemática, a fundamentação concentra-se na álgebra, geometria, introdução à física e computação, além da análise de dados e outros requisitos essenciais ao pensamento matemático. Este enfoque genérico, embora crucial para a maestria do conteúdo, estabelece uma base que, por si só, não contempla as especificidades pedagógicas e inclusivas necessárias para a atuação em sala de aula. A transição para a licenciatura deveria preencher essa lacuna, mas a profundidade e obrigatoriedade dos temas inclusivos variam consideravelmente.

A estrutura das licenciaturas em ambas as universidades e cursos segue um padrão comum, focando em como ensinar as disciplinas, o momento adequado para sua introdução e o aprofundamento em tópicos específicos. Na Universidade de São Paulo, a licenciatura em Matemática exige 32 créditos em disciplinas eletivas, sendo 16 de aprofundamento. Destas, apenas uma disciplina é obrigatória nos blocos “Elementos para o ensino da matemática” e “Projeto de Ensino de Matemática”, que abordam tópicos de ensino e aprendizagem da matemática, enquanto os demais blocos eletivos se concentram no aprofundamento de conteúdos matemáticos.

No bloco de “disciplinas eletivas da área pedagógica” da USP para Matemática, é exigida uma disciplina de cada um dos blocos que tratam de questões escolares. Entre elas, destaca-se a “Introdução aos estudos da educação”, que oferece um enfoque filosófico, histórico e sociológico. Dentro deste bloco, a disciplina 4705291 – Educação Escolar Inclusiva, com duração de um semestre, tem como objetivos a compreensão das diretrizes nacionais da educação inclusiva, a identificação das dificuldades e possibilidades, e a exploração de novas teorias da área, conforme sua ementa.

Ainda na USP, o bloco “Psicologia da educação” busca uma visão mais holística e psicossocial dos sujeitos e sua relação com o processo educativo. A disciplina EDF0298 – Psicologia da Educação, Desenvolvimento e Práticas Escolares, por exemplo, aborda a conexão do indivíduo com o coletivo, diferentes modelos de ensino e psicológicos, e o papel do professor. Esses conteúdos são importantes para a compreensão do desenvolvimento humano, mas sua natureza eletiva e a profundidade de abordagem podem não ser suficientes para a complexidade da inclusão.

Na Licenciatura em Letras da USP, a obrigatoriedade de disciplinas eletivas no departamento de Educação inclui a disciplina EDF0290 – Teorias do desenvolvimento, Práticas Escolares e Processos de Subjetivação. Esta disciplina possui um objetivo similar ao de Matemática, visando a compreensão do sujeito, debates filosóficos sobre o papel social da educação e seu impacto no indivíduo. Tais abordagens são fundamentais para uma perspectiva mais humanizada da docência, mas precisam ser integradas de forma mais sistemática à formação.

Outra disciplina relevante na Licenciatura em Letras da USP é a EDF0294 – Psicologia da educação: constituição do sujeito, desenvolvimento e aprendizagem na escola, cultura e sociedade. Esta disciplina foca em “Noções fundamentais do campo psicológico, tais como aprendizagem e desenvolvimento, devem ser entendidas em referência ao contexto histórico que as abriga e as influencia em sua dinâmica” (USP, 2026). As disciplinas de metodologias I e II, juntamente com as de Didática, totalizam 120 horas e se concentram nos processos de aprendizagem e nas correntes de pensamento educacional, com metade da carga horária dedicada a atividades práticas.

Na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a oferta de disciplinas voltadas para o desenvolvimento humano e a inclusão é ainda mais limitada. Na Licenciatura em Matemática, o currículo inclui a disciplina EL213 – Libras e Educação de Surdos, com 60 horas, e a EL511 – Psicologia e Educação, que aborda fundamentos teóricos da psicologia aplicados à educação. Contudo, outros eixos, como Ensino da Matemática e Práticas Pedagógicas, priorizam o “o quê” ensinar em detrimento do “como” ensinar para diversas faixas etárias.

Para a Licenciatura em Letras da UNICAMP, as disciplinas básicas relacionadas à língua seguem um padrão similar ao da USP. A disciplina HL424 – Neurolinguística e Ensino de Língua visa a compreensão dos “Fundamentos teórico-metodológicos em Neurolinguística: as relações entre cérebro, linguagem e cognição”. Assim como em Matemática, o curso de Letras também conta com as disciplinas EL213 – Libras e Educação de Surdos e EL511 – Psicologia e Educação. É fundamental ressaltar que, em ambos os cursos e universidades, muitas das disciplinas mencionadas são eletivas, o que significa que nem todos os graduandos as cursam, limitando a abrangência da formação inclusiva.

Os dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2024, publicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, revelam um cenário desafiador. Foram registradas 26 milhões de matrículas, com 11.504.123 nos Anos Finais do Ensino Fundamental e 7,8 milhões no Ensino Médio. Deste total, 2,1 milhões de alunos são da educação especial, e mais de 90% deles estão incluídos em classes comuns, com exceção da EJA (BRASIL, INEP, 2024). Essa estatística demonstra uma demanda crescente e urgente por profissionais da educação regular capacitados para lidar com as especificidades da inclusão.

Apesar da crescente demanda, a formação inicial e continuada dos professores mostra-se insuficiente para a realidade da educação brasileira. Essa insuficiência é percebida pelos próprios docentes, que relatam dificuldades em sua relação com alunos neurodivergentes, abrangendo aspectos comportamentais, demandas pedagógicas e a interação escola-família (Coutinho e Tessaro, 2024). A adaptação de atividades e metodologias exige um conhecimento aprofundado sobre deficiências, transtornos e altas habilidades, bem como das características individuais de cada aluno, o que demanda um repertório e ferramentas que a formação atual não tem fornecido adequadamente.

A infraestrutura escolar também agrava a situação, conforme dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica. Apenas 25,1% das escolas possuem salas de recursos multifuncionais para o Atendimento Educacional Especializado (AEE), e somente 54,8% contam com banheiros acessíveis para alunos com deficiência ou mobilidade reduzida. Além disso, desde o início de 2026, o Brasil encontra-se sem um Plano Nacional de Educação vigente, pois o Projeto de Lei 2.614/2024, embora aprovado pelo Senado, aguarda sanção presidencial. A ausência de um plano com olhar específico para a inclusão de alunos com necessidades especiais impede um monitoramento eficaz das metas e um direcionamento claro para a formação de docentes e gestão.

Em relação à qualificação dos docentes, o Censo Escolar de 2024 indica que 90,1% dos professores do Ensino Fundamental – Anos Finais e 91,5% dos do Ensino Médio possuem licenciatura. Contudo, 1,8% dos docentes nos Anos Finais e 4,4% no Ensino Médio possuem apenas bacharelado. Na disciplina de Língua Portuguesa, 82,6% no Ensino Médio e 71,1% nos Anos Finais possuem “formação adequada”, que engloba tanto licenciatura quanto bacharelado. Em Matemática, esses percentuais são de 79,4% no Ensino Médio e 66,9% nos Anos Finais. A Meta 16 do Plano Nacional de Educação, que visava formar 50% dos docentes na pós-graduação até 2025, foi atingida em 48%, indicando que a qualificação em nível superior ainda é um desafio.

A análise desses dados revela que, mesmo com o grau acadêmico de licenciatura, a formação básica dos professores não os prepara adequadamente para as demandas da educação inclusiva. Muitos docentes carecem do complemento da licenciatura que os capacitaria para a atividade pedagógica, e mesmo aqueles com licenciatura enfrentam uma realidade escolar que exige mais do que a formação atual oferece. Gatti (2010) já apontava a deficiência na formação de professores, muitas vezes fragmentada e superficial, focando no “o quê” e “porquê” ensinar, mas negligenciando o “como”.

A predominância de uma perspectiva cognitivo-racional e tecnicista nas políticas de formação de professores, observada desde o final dos anos 1990 (Carvalho, 2002), contribui para um mecanicismo nas relações educacionais. A inclusão de disciplinas eletivas sobre desenvolvimento humano ou inclusão, como as identificadas nos currículos analisados, não é suficiente para reverter essa lógica. Essas abordagens pontuais não suprem a necessidade de uma formação mais abrangente e integrada que prepare os profissionais para lidar com a complexidade e diversidade das salas de aula inclusivas.

Para formar um professor apto ao novo contexto da inclusão escolar, é necessário ir além do foco individual no docente, considerando a organização, os espaços e o currículo escolar como um todo (Pantaleão e Silva de Sá, 2017). É preciso uma “produção de conhecimento que articule o atendimento das especificidades de sua população público-alvo à educação geral, de modo a superar a perspectiva clínica historicamente construída nesse campo de atuação”. Isso implica em repensar a formação inicial para que ela ofereça um repertório de ferramentas e conhecimentos que permitam aos professores atuar de forma eficaz e humanizada.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que a formação mínima exigida para os docentes especialistas em Língua Portuguesa e Matemática, embora abranja aspectos didáticos e, em menor grau, o desenvolvimento humano, é insuficiente para a nova realidade da educação inclusiva. A natureza eletiva de muitas disciplinas relacionadas à inclusão e a superficialidade com que o tema é tratado nos currículos analisados da USP e UNICAMP não preparam os professores para as demandas complexas da atipicidade. Os resultados indicam que, apesar dos avanços legais e do aumento de alunos com necessidades educacionais especiais em salas comuns, a formação docente ainda não acompanha essa evolução, falhando em prover as ferramentas e o conhecimento necessários para uma inclusão efetiva, o que responde diretamente ao objetivo do estudo.

4. Conclusão

O presente estudo buscou compreender como a formação mínima exigida para docentes especialistas em Língua Portuguesa e Matemática os prepara para a realidade da educação inclusiva. Verificou-se, por meio da análise dos currículos de licenciatura da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas, que, embora a formação seja robusta em conteúdos específicos, ela apresenta lacunas significativas na preparação para as demandas da inclusão. Observou-se que as disciplinas voltadas para o desenvolvimento humano e a educação inclusiva são, em sua maioria, eletivas e abordam o tema de forma superficial, sem aprofundamento necessário para o amplo espectro da atipicidade. Essa insuficiência formativa contrasta com os dados do Censo Escolar de 2024 e 2025, que indicam mais de 90% dos alunos com necessidades educacionais especiais matriculados em salas de aula comuns, evidenciando uma crescente demanda por professores capacitados.

A principal contribuição deste trabalho reside em evidenciar a disparidade entre os avanços legais e a realidade da formação docente, que não tem acompanhado a evolução da educação inclusiva no Brasil. A pesquisa revelou que a formação atual não fornece o repertório de ferramentas e conhecimentos necessários para que os professores lidem eficazmente com as especificidades dos alunos neurodivergentes, conforme percebido pelos próprios docentes. Uma limitação do estudo é o foco em duas universidades específicas, o que restringe a generalização dos achados para o cenário nacional. Contudo, os resultados sugerem a necessidade urgente de reformular os currículos de licenciatura, tornando disciplinas sobre educação inclusiva e desenvolvimento humano obrigatórias e mais aprofundadas, além de promover uma abordagem sistêmica que considere a organização e o currículo escolar como um todo para uma inclusão efetiva.

Referências Bibliográficas

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CARVALHO, J. M. (Org.). Diferentes perspectivas da profissão docente na atualidade. Vitória: Edufes, 2002.

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PANTALEÃO, E. SILVA DE SÁ, M. das G. C. Perspectivas da formação docente no contexto da inclusão escolar: possibilidades e limites. p. 49 – 71 In: IVONE et al. Formação de professores, práticas pedagógicas e inclusão escolar: perspectivas luso-brasileiras. Vitória: Edufes, 2017.

RIBEIRO, P.R.M. 1993. História da educação escolar no Brasil: notas para uma reflexão. Paideia, FFCLRP – USP, V 4, JUL/1993, 15 – 30

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Jupiterweb. Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação. Licenciatura em Matemática. Informações Básicas do Currículo. Jupiterweb. Disponível em: <https://uspdigital.usp.br/jupiterweb/listarGradeCurricular?codcg=45&codcur=45024&codhab=4&tipo=N>. Acesso em: 29 mar. 2026.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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October 08, 2026

Consequências do Uso de IA Generativa na Capacidade Cognitiva e Saúde Mental de Profissionais Brasileiros

A integração de ferramentas de inteligência artificial generativa (GenAI) no trabalho acelerou-se nos últimos anos, levantando questões sobre seus efeitos nos processos cognitivos e no bem-estar emocional dos profissionais. O estudo objetivou mensurar o impacto do uso de GenAI sobre capacidades cognitivas autorreferidas e indicadores de saúde mental de profissionais brasileiros, comparando os achados com evidências empíricas internacionais. Adotou-se uma abordagem mista, com delineamento transversal e não experimental, aplicando um questionário digital estruturado a 108 profissionais adultos brasileiros, recrutados via LinkedIn e WhatsApp. O instrumento avaliou memória de trabalho, atenção sustentada e alternada, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tecnoestresse, saúde mental e senso de propósito profissional, além de percepções qualitativas. Os resultados revelaram que 92,6% dos respondentes utilizaram GenAI regularmente, com impacto percebido majoritariamente positivo no desempenho, mas acompanhado por dependência declarada em 52,8% da amostra. A atenção sustentada mostrou-se a dimensão cognitiva mais fragilizada, e os indicadores de equilíbrio emocional e desconexão digital concentraram os resultados mais críticos. A análise comparativa identificou uma relação entre maior frequência de uso, maior dependência e menores escores cognitivos, com declínio progressivo da atenção focada ao longo do tempo de uso. Concluiu-se que o uso intensivo de GenAI coexiste com fragilidades cognitivas e emocionais mensuráveis, cujos efeitos tendem a se acumular, reforçando a necessidade de práticas conscientes que preservem a autonomia intelectual dos profissionais.

Palavras-chave: Cognição; Dependência tecnológica; Inteligência artificial; Saúde mental.

Neuroscience And Learning In Education

October 08, 2026

A contribuição da neuroaprendizagem na elaboração de objetos educacionais multimídia para a recomposição de aprendizagens

A defasagem de aprendizagem na educação brasileira, agravada pela pandemia de Covid-19 e evidenciada por resultados insatisfatórios do SAEB, tornou a recomposição de aprendizagens uma prioridade nacional. O presente trabalho analisou como a produção audiovisual, integrante de um programa de recomposição de aprendizagens em Língua Portuguesa e Matemática, desenvolvido para estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental de uma rede estadual, incorporou fundamentos da neurociência da aprendizagem em sua estrutura metodológica. A pesquisa caracterizou-se como estudo de caso qualitativo e aplicado, e analisou 20 roteiros pedagógicos e as respectivas videoaulas produzidas e aplicadas em 2024. A partir do referencial teórico, construíram-se sete dimensões de análise: ludicidade e interatividade, funcionamento cerebral e aprendizagem, emoção e cognição, singularidade do estudante, contexto sociocultural, mediação pedagógica consistente e aprendizagem ativa. Os resultados indicaram que elementos da neuroaprendizagem foram incorporados de forma estrutural à metodologia do programa. Identificou-se que a personalização da aprendizagem não reside exclusivamente no objeto audiovisual, mas na cadeia sistêmica que o envolve, incluindo diagnóstico, produção, mediação presencial e monitoramento. A integração entre neurociência, conteúdos dedicados à superação de lacunas e linguagem audiovisual demonstrou ser uma estratégia metodologicamente consistente e com potencial relevante para ampliar a eficácia de programas de recomposição de aprendizagens.

Palavras-chave: Defasagem; Eduentretenimento; Mediação pedagógica; Plasticidade cerebral; Videoaula.

Neuroscience And Learning In Education

October 08, 2026

The gaze of schools towards children with High Abilities/Giftedness: teacher training and welcoming practices

The study analyzed, through a qualitative bibliographic review, how teacher training and school welcoming practices are discussed in the literature in relation to the development of children with High Abilities/Giftedness (HA/G), supporting the elaboration of a Teacher Training Guide. The research was developed under a qualitative approach, of a descriptive-interpretive nature and applied orientation. The analysis of books, scientific articles, theses, dissertations, and official documents, located in databases such as Google Scholar, SciELO, ERIC, and BDTD, was used. The thematic content analysis allowed the identification of three main categories: gaps in teacher training, school welcoming, and socio-emotional development, and contributions from Educational Neuroscience. The results indicated that teacher training, welcoming, and the offering of meaningful learning experiences constitute articulated and essential dimensions for the educational support of students with HA/G. As an educational product, a Teacher Training Guide was elaborated, whose purpose was to broaden teachers’ repertoire and strengthen inclusive pedagogical practices. It was concluded that the product can support continuing education processes, although its application and effects still require empirical investigation.

Keywords: School welcoming; High Abilities/Giftedness; Teacher training; Educational inclusion; Educational neuroscience.