Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación
05 de octubre de 2026
Princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem em recursos de geometria molecular
Princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem em Recursos de Geometria Molecular
Gabriel Pereira Machado; Jacqueline Meireles Ronconi
DOI: 10.22167/2675-6528-202602934
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Este estudo investigou, sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química, com foco na geometria molecular. O objetivo foi identificar em que medida esses materiais favorecem a aprendizagem de conceitos abstratos, especialmente para estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). A pesquisa apresentou caráter aplicado e abordagem qualitativa, utilizando como procedimento metodológico a análise documental de dois tipos de recursos amplamente empregados: o simulador digital Molecule Shapes: Basics, da plataforma PhET Interactive Simulations, e kits de modelos moleculares físicos. A análise orientou-se pelos três princípios do DUA: múltiplos meios de representação, ação e expressão, e engajamento. Os resultados indicaram que ambos os recursos apresentaram potencial inclusivo relevante, embora por vias distintas: o simulador digital destacou-se pela visualização dinâmica e interatividade, enquanto o modelo físico favoreceu a materialização concreta dos conceitos. Concluiu-se que a articulação intencional desses recursos, mediada pelo professor, pode ampliar as possibilidades de acesso, participação e aprendizagem no ensino de Química, contribuindo para práticas pedagógicas mais inclusivas.
Palavras-chave: Educação inclusiva; Ensino de química; Neuroeducação; Representação espacial; Recursos didáticos.
1. Introdução
A educação inclusiva representa um dos maiores desafios e demandas da contemporaneidade educacional. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015) assegura a criação, o desenvolvimento, a implementação, o incentivo, o acompanhamento, a avaliação e a adaptação de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades. Tal legislação impõe às instituições a necessidade de repensar suas práticas, abordagens pedagógicas e materiais didáticos para garantir não apenas a presença, mas a participação efetiva de todos os alunos no processo de aprendizagem (Brasil, 2015).
Nesse cenário, o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) emerge como uma abordagem teórico-metodológica capaz de orientar a elaboração de materiais e estratégias pedagógicas flexíveis e acessíveis a todos os estudantes (Meyer et al., 2014). O DUA fundamenta-se na neurociência cognitiva e propõe que o ensino deve considerar a variabilidade neurológica dos educandos. Em vez de adaptar o estudante aos currículos e materiais, a proposta é adaptar os mesmos aos estudantes, oferecendo múltiplas formas de engajamento, representação e expressão.
Essa perspectiva é particularmente relevante para alunos com deficiência visual (Toyama et al., 2021), bem como para estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). As necessidades específicas desses públicos podem ser contempladas por meio de materiais didáticos multissensoriais, linguagem simplificada e mediações personalizadas, sem comprometer a profundidade conceitual dos conteúdos científicos.
No contexto do ensino de Química, a demanda por inclusão torna-se ainda mais complexa, dado o caráter abstrato e simbólico de muitos de seus conceitos. A aprendizagem nessa área frequentemente requer o desenvolvimento de representações mentais para fenômenos que não são diretamente observáveis, o que pode ser desafiador para estudantes com deficiências sensoriais ou cognitivas. Conteúdos como estereoquímica e geometria molecular, por serem bastante visuais, tornam-se particularmente desafiadores para a compreensão de estruturas tridimensionais (Silva et al., 2023).
A utilização de modelos táteis, por exemplo, tem demonstrado possibilitar a compreensão significativa dos conteúdos e favorecer a autonomia do estudante (Toyama et al., 2018; Baptistone, 2017). Para alunos com TEA, a multiplicidade de representações e a clareza na linguagem são estratégias reconhecidamente eficazes para reduzir a sobrecarga sensorial e promover o engajamento (Wong et al., 2014). Já para alunos com TDI, a segmentação das informações e o uso combinado de estímulos visuais e táteis são apontados como recursos que favorecem a compreensão e a memória de trabalho (Soares, 2022). Dessa forma, o DUA se configura como uma ponte teórica entre a neurociência da aprendizagem e a prática pedagógica inclusiva, justificando a necessidade de ampliar as discussões sobre letramento científico inclusivo e a lacuna de recursos didáticos adaptados.
Este estudo se justifica pela necessidade de aproximar os avanços teóricos em neuroeducação das práticas docentes no contexto real da escola pública, e pela lacuna de recursos didáticos adaptados. Diante disso, o presente estudo objetiva investigar como os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem podem orientar a utilização de materiais didáticos em Química, como simuladores digitais (ex.: PhET Interactive Simulations) e modelos moleculares físicos, por meio de uma análise documental que busca identificar em que medida esses recursos incorporam, de forma intencional ou não, os princípios do DUA.
2. Material e Métodos
A pesquisa realizada caracterizou-se por sua natureza aplicada e abordagem qualitativa, buscando investigar o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química. Como procedimento metodológico principal, utilizou-se a análise documental, que permitiu examinar materiais já empregados no contexto educacional, sem a necessidade de interação direta com participantes humanos. Este delineamento foi escolhido para aprofundar a compreensão sobre como os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) se manifestam nesses recursos.
A unidade de análise consistiu em dois tipos de recursos didáticos amplamente utilizados no ensino de Química para o Ensino Médio, com foco específico no conteúdo de geometria molecular. O primeiro recurso analisado foi o simulador digital “Molecule Shapes: Basics”, desenvolvido pela plataforma PhET Interactive Simulations. Esta plataforma é reconhecida internacionalmente por disponibilizar recursos educacionais interativos de acesso público e gratuito, sendo frequentemente recomendada em contextos educacionais.
O simulador “Molecule Shapes: Basics” apresenta uma interface gráfica intuitiva, organizada para favorecer a interação direta do usuário com os elementos representados. Ele permite a visualização tridimensional de moléculas, a manipulação de átomos centrais e pares de elétrons ligantes e não ligantes, e a observação em tempo real das alterações na geometria molecular. O recurso emprega códigos visuais, como cores distintas para diferenciar átomos e pares eletrônicos, e indica ângulos de ligação, contribuindo para a compreensão das relações espaciais.
O segundo tipo de recurso didático investigado foi o kit de modelos moleculares físicos. Esses kits, geralmente compostos por esferas de plástico de diferentes cores e tamanhos, conectadas por hastes ou encaixes flexíveis, são utilizados para representar átomos, ligações químicas e estimar ângulos de ligação em estruturas tridimensionais. Embora não sejam usualmente fornecidos pelas escolas públicas, a prática pedagógica de construir modelos de baixo custo com bolinhas de isopor e varetas é comum.
A escolha do kit molecular físico justificou-se por sua ampla difusão no contexto educacional e pela relevância do conteúdo de geometria molecular no currículo de Química. Este material permite a construção manual de estruturas moleculares tridimensionais, exigindo coordenação motora fina e promovendo uma interação direta entre o estudante e o objeto de aprendizagem. A manipulação do material possibilita a observação concreta da disposição espacial dos átomos e dos ângulos de ligação.
A técnica de análise dos dados foi orientada pelos três princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), conforme sistematizado por Meyer, Rose e Gordon (2014). Esses princípios são: múltiplos meios de representação, múltiplos meios de ação e expressão, e múltiplos meios de engajamento. A análise buscou identificar em que medida os recursos didáticos selecionados incorporam, de forma intencional ou não, esses princípios.
O objetivo da análise foi verificar como esses materiais favorecem os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem de conceitos abstratos da Química, como a geometria das moléculas. Sob a perspectiva da neurociência da aprendizagem, buscou-se identificar como os recursos podem reduzir a sobrecarga cognitiva, favorecer a formação de representações mentais espaciais e estimular o engajamento ativo do estudante, com particular atenção à relevância para alunos com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI).
Não foram aplicados termos de consentimento livre e esclarecido (TCLE) ou termos de confidencialidade, uma vez que a pesquisa não envolveu a participação de seres humanos. A análise concentrou-se exclusivamente nos recursos didáticos como documentos, sem a coleta de dados de indivíduos ou instituições específicas, garantindo a conformidade com os princípios éticos aplicáveis a estudos documentais.
3. Resultados e Discussão
Os resultados desta pesquisa, fundamentados na análise documental de recursos didáticos para o ensino de Química, revelaram o potencial inclusivo do simulador digital Molecule Shapes: Basics, da plataforma PhET Interactive Simulations, e de kits de modelos moleculares físicos, especialmente no que tange à geometria molecular. A investigação buscou identificar como esses materiais se alinham aos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), visando favorecer a compreensão de conceitos abstratos por estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). A análise adotou os três princípios do DUA – múltiplos meios de representação, ação e expressão, e engajamento – como lente teórica para a avaliação dos recursos.
A escolha do simulador digital Molecule Shapes: Basics para compor o corpus de análise justifica-se por sua ampla utilização em contextos educacionais e sua capacidade de abordar conceitos centrais da geometria molecular, como arranjos espaciais, ângulos de ligação e relações entre pares de elétrons. Esses conceitos são frequentemente considerados abstratos e de alta complexidade cognitiva, especialmente para alunos que enfrentam desafios na construção de representações mentais tridimensionais (Silva et al., 2023). O simulador, um recurso educacional interativo de acesso público e gratuito, permite que professores o utilizem em sala de aula, mediando e orientando seu uso, e também que os alunos o explorem de forma autônoma.
A abordagem do Desenho Universal para a Aprendizagem, conforme sistematizada por Meyer, Rose e Gordon (2014), serviu como referencial para a análise dos materiais. Essa perspectiva é crucial, pois o DUA se baseia em evidências da neurociência cognitiva, reconhecendo a variabilidade neural dos aprendizes e propondo a adaptação dos currículos e materiais aos estudantes, em vez do contrário. Tal enfoque amplia as possibilidades de acesso, participação e aprendizagem para todos, sendo particularmente relevante em áreas de elevado grau de abstração, como a Química, onde os conceitos muitas vezes transcendem a experiência sensorial direta.
Descrição do simulador Molecule Shapes: Basics
O simulador Molecule Shapes: Basics apresenta uma interface gráfica intuitiva e simplificada, projetada para facilitar a interação direta do usuário com os elementos representados. Este ambiente virtual permite a visualização tridimensional de moléculas, possibilitando ao estudante manipular a disposição de átomos centrais e pares de elétrons ligantes e não ligantes, e observar em tempo real as alterações na geometria molecular. Essa funcionalidade é essencial para a compreensão de estruturas complexas, que em abordagens bidimensionais ou teóricas puras, exigiriam uma capacidade de abstração mental mais desenvolvida.
Entre as funcionalidades destacadas do simulador, encontra-se a capacidade de construir diferentes arranjos moleculares por meio do acréscimo ou remoção de pares de elétrons, além da rotação livre das estruturas em três dimensões. O recurso emprega códigos visuais, como cores distintas para diferenciar átomos e pares eletrônicos, e indica os ângulos de ligação, o que contribui significativamente para a compreensão das relações espaciais envolvidas. A predominância de informações visuais, em detrimento de instruções textuais extensas, favorece estudantes com dificuldades de leitura ou processamento verbal, embora reforce a necessidade de mediação docente para a construção conceitual.
O PhET Interactive Simulations, projeto educacional iniciado em 2002 por Carl Wieman na University of Colorado Boulder, tem como propósito desenvolver simulações interativas gratuitas para ciências e matemática, baseadas em pesquisa pedagógica. As simulações do PhET, incluindo o Molecule Shapes: Basics, são amplamente difundidas e recomendadas como ferramentas complementares às práticas pedagógicas tradicionais, tanto na formação de professores quanto em programas de aprendizagem ativa. Sua natureza gratuita, suporte a múltiplas áreas do conhecimento e disponibilidade em diversos idiomas, incluindo o português, ampliam significativamente o acesso e a possibilidade de uso em diferentes contextos educacionais.
Múltiplos meios de representação à luz do DUA
No que se refere aos múltiplos meios de representação, o simulador analisado demonstra um alinhamento significativo com o primeiro princípio do Desenho Universal para a Aprendizagem, que preconiza a oferta de diversas formas de apresentação da informação para atender à variabilidade dos aprendizes (Meyer et al., 2014). A visualização tridimensional das moléculas oferece uma alternativa superior às representações bidimensionais comuns em livros didáticos, facilitando a compreensão de estruturas espaciais complexas. O uso simultâneo de cores, formas geométricas e a indicação visual dos ângulos de ligação expandem as possibilidades de acesso ao conteúdo, reduzindo a sobrecarga cognitiva associada à abstração simbólica.
Para estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI), a clareza visual e a organização espacial do simulador são particularmente benéficas, pois tornam explícitas relações que, em outros formatos, dependeriam fortemente da imaginação ou da mediação verbal do professor. A externalização visual da informação permite que o foco cognitivo do estudante seja direcionado à compreensão conceitual, em vez de à decodificação da representação. Essa abordagem contribui para a construção gradual de modelos mentais, permitindo que a informação seja percebida, organizada e integrada por diferentes vias cognitivas (Meyer et al., 2014).
A possibilidade de alternar entre diferentes arranjos moleculares, observar variações nos ângulos de ligação e identificar pares de elétrons por meio de códigos visuais no simulador favorece a redução da carga cognitiva extrínseca. Isso diminui a necessidade de o estudante imaginar mentalmente estruturas abstratas, direcionando sua atenção para a compreensão conceitual. Para alunos com TEA, a clareza gráfica e a organização espacial do simulador podem favorecer a percepção de padrões e relações estruturais, dada sua preferência por informações visuais organizadas e previsíveis. Para alunos com TDI, a apresentação explícita das relações espaciais auxilia na consolidação gradual do conceito, oferecendo múltiplas exposições ao mesmo conteúdo de forma estável e coerente.
Ação e expressão à luz do DUA
Quanto aos múltiplos meios de ação e expressão, o simulador Molecule Shapes: Basics permite que o estudante atue diretamente sobre o objeto de aprendizagem. A manipulação dos pares de elétrons e a observação imediata das mudanças na geometria molecular promovem a aprendizagem por experimentação e a testagem de hipóteses. Essa interação direta constitui uma forma legítima de expressão do conhecimento, pois o estudante demonstra compreensão conceitual por meio da ação, e não apenas da descrição formal do conteúdo, alinhando-se ao segundo princípio do DUA (Meyer, Rose e Gordon, 2014).
A capacidade de realizar ajustes progressivos e receber feedback visual imediato no simulador reduz as exigências relacionadas à coordenação motora fina e à produção textual complexa, beneficiando estudantes com TEA e TDI. Para alunos com TEA, a interação mediada por recursos digitais pode favorecer a organização do pensamento e o controle da tarefa, minimizando a sobrecarga associada à escrita extensa e ao planejamento motor. Para alunos com TDI, a externalização da resposta por meio da manipulação direta do simulador contribui para a consolidação do aprendizado, tornando o processo cognitivo mais concreto e acessível (Boucenna et al., 2014).
Essa forma de interação, que reduz a dependência exclusiva de respostas verbais ou escritas, permite que o estudante demonstre sua compreensão por meio da própria ação sobre o recurso. A aprendizagem por meio da ação encontra respaldo em abordagens construtivistas, nas quais o conhecimento é construído a partir da interação do sujeito com o objeto de aprendizagem. Conforme Piaget (1975), a manipulação e a experimentação são fundamentais para a construção de estruturas cognitivas, especialmente em conteúdos que envolvem relações espaciais. Nesse contexto, o simulador digital atua como um ambiente de experimentação virtual, onde o estudante pode explorar, testar e reorganizar suas hipóteses, favorecendo a internalização dos conceitos químicos.
Múltiplos meios de engajamento à luz do DUA
O terceiro princípio do Desenho Universal para a Aprendizagem, focado nos múltiplos meios de engajamento, também é observado no simulador. O caráter interativo do recurso, combinado com o feedback visual imediato, tende a promover um maior envolvimento do estudante com a atividade proposta. A autonomia concedida ao usuário para explorar diferentes configurações moleculares e controlar o ritmo da atividade pode favorecer a motivação intrínseca e a permanência na tarefa, aspectos cruciais para a aprendizagem significativa.
Para estudantes com Transtornos do Espectro Autista, a previsibilidade e o controle do ambiente de aprendizagem são fatores que contribuem para o aumento do engajamento e da atenção sustentada (Wong et al., 2013). No entanto, o simulador não oferece estratégias explícitas de autorregulação ou adaptação progressiva de desafios, o que sublinha a importância da mediação docente para potencializar seu uso inclusivo. O professor de Química deve atuar como mediador, orientando o olhar do estudante para as variáveis químicas que, muitas vezes, passam despercebidas na simples interação tecnológica, conectando a simulação aos fundamentos teóricos da disciplina.
Do ponto de vista teórico, o engajamento do estudante está diretamente relacionado à motivação e à percepção de relevância da atividade proposta. Ryan e Deci (2000) argumentam que a motivação intrínseca é favorecida quando o indivíduo percebe autonomia, competência e controle sobre a tarefa. A possibilidade de explorar livremente diferentes configurações moleculares e receber feedback imediato no simulador contribui para o fortalecimento desses elementos, ampliando o envolvimento do estudante. Além disso, a literatura em neuroeducação aponta que o engajamento está associado à ativação de redes neurais relacionadas à atenção e à recompensa, o que favorece a consolidação da aprendizagem (Immordino-Yang, 2016), especialmente quando os recursos interativos são integrados a práticas pedagógicas mediadas pelo professor.
Caracterização de kits de modelos moleculares físicos
Além do simulador digital, a análise documental incluiu kits de modelos moleculares físicos, amplamente utilizados no ensino de Química para o tratamento de conteúdos relacionados à geometria molecular. Esses kits são geralmente compostos por esferas de plástico de diferentes cores e tamanhos, que representam átomos, e por hastes ou encaixes flexíveis, que indicam as ligações químicas. Eles são empregados para representar estruturas tridimensionais e estimar ângulos de ligação, sendo um recurso consolidado na prática escolar, presente em laboratórios de Ciências e salas de aula do Ensino Médio.
Embora esses materiais não sejam usualmente fornecidos pelas escolas públicas, sendo comum a prática pedagógica da construção de modelos moleculares de baixo custo, eles oferecem uma exploração concreta de conceitos abstratos, o que é particularmente relevante para estudantes com dificuldades de abstração. A escolha do kit físico como segundo material de análise justifica-se por sua ampla difusão no contexto educacional e pela relevância do conteúdo de geometria molecular no currículo de Química. Apesar de não terem sido concebidos originalmente sob a perspectiva do DUA, esses materiais possuem características que permitem sua análise sob essa ótica inclusiva.
Análise do kit molecular físico à luz do princípio da representação
Sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem, o kit molecular físico apresenta um potencial alinhamento com o princípio dos múltiplos meios de representação, ao oferecer uma forma concreta e tridimensional de acesso ao conteúdo de geometria molecular. A representação física das moléculas contribui para a redução da carga cognitiva associada à visualização mental de estruturas abstratas, frequentemente exigida no ensino de Química. Para estudantes com TEA e TDI, a possibilidade de observar e tocar os modelos favorece a construção de representações mentais mais estáveis, especialmente quando comparada a explicações exclusivamente verbais ou baseadas em imagens planas.
A tridimensionalidade concreta do material permite que o conceito seja apreendido por meio da percepção espacial e tátil, ampliando as vias de acesso à informação. Embora o kit não ofereça múltiplas linguagens simbólicas simultâneas, como o simulador digital, sua força reside na materialização dos conceitos, o que pode ser particularmente eficaz para alunos que apresentam dificuldades com abstrações excessivamente simbólicas. Sob a ótica da aprendizagem concreta, a utilização de materiais manipuláveis encontra respaldo em estudos que apontam a importância da experiência sensório-motora na construção do conhecimento. De acordo com Bruner (1966), a aprendizagem pode ocorrer em diferentes níveis de representação, sendo o nível enativo – baseado na ação – particularmente relevante em estágios iniciais ou em situações que envolvem maior complexidade conceitual, favorecendo a transição entre a experiência concreta e a abstração científica.
Ação, expressão e engajamento no uso do kit molecular físico
No que se refere aos múltiplos meios de ação e expressão, o kit molecular físico possibilita que o estudante expresse sua compreensão do conteúdo por meio da construção ativa das estruturas moleculares. A aprendizagem ocorre a partir da ação direta sobre o material, permitindo que erros sejam identificados e corrigidos durante o processo de montagem. Esse tipo de interação favorece a aprendizagem ativa e pode contribuir para o engajamento de estudantes que apresentam dificuldades em atividades predominantemente expositivas. A montagem manual das moléculas estimula a participação contínua e reduz a passividade do estudante, aspecto relevante no contexto da educação inclusiva (Bacich; Moran, 2018).
Quanto ao engajamento, o caráter manipulável do recurso tende a despertar interesse e curiosidade, especialmente quando associado a atividades orientadas e objetivos claros. Para estudantes com TEA e TDI, o uso de materiais concretos pode auxiliar na manutenção da atenção e na organização da tarefa, desde que mediado adequadamente pelo professor. A aprendizagem mediada por materiais concretos pode favorecer a participação ativa do estudante, reduzindo a passividade frequentemente observada em metodologias expositivas. Segundo Ausubel (2003), a aprendizagem significativa ocorre quando o novo conhecimento se ancora em estruturas cognitivas previamente existentes, sendo facilitada por experiências que permitam a manipulação e a organização do conteúdo. Nesse contexto, o kit molecular físico pode atuar como um organizador concreto, auxiliando na assimilação de conceitos relacionados à geometria molecular.
Contribuições para o aprendizado no ensino de Química
A análise preliminar dos dois materiais – o simulador digital Molecule Shapes: Basics e o kit de modelos moleculares físicos – evidencia que ambos apresentam potenciais inclusivos relevantes quando analisados à luz dos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem, embora por vias distintas. Enquanto o simulador digital se destaca pela oferta de múltiplos meios de representação visual, feedback imediato e interatividade virtual, o kit físico sobressai pela materialidade concreta, pela exploração tátil e pela aprendizagem baseada na ação manual. Observa-se que os recursos não são excludentes, mas complementares, podendo ser articulados em práticas pedagógicas que considerem a diversidade dos perfis de aprendizagem.
Esses resultados preliminares indicam que materiais didáticos amplamente utilizados no ensino de Química podem ser ressignificados a partir de uma perspectiva inclusiva, mesmo quando não foram originalmente concebidos sob essa abordagem. A análise documental realizada fornece subsídios iniciais para reflexões futuras sobre o uso consciente e intencional desses recursos no ensino de conteúdos abstratos, como a geometria molecular. A promoção de práticas pedagógicas inclusivas no ensino de Química não depende exclusivamente da criação de novos materiais, mas também da ressignificação crítica de recursos já disponíveis, à luz de abordagens fundamentadas na Neurociência da aprendizagem e no DUA, com o professor atuando como mediador central para potencializar a dimensão inclusiva desses recursos.
4. Conclusão
O presente estudo investigou o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química, com foco na geometria molecular, sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), buscando identificar como esses materiais favorecem a compreensão de conceitos abstratos por estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). Verificou-se que tanto o simulador digital Molecule Shapes: Basics quanto os kits de modelos moleculares físicos apresentam um alinhamento significativo com os princípios do DUA, mesmo sem terem sido concebidos originalmente com essa finalidade. Os resultados evidenciaram que o simulador digital se destacou pela oferta de múltiplos meios de representação visual e pela interatividade com feedback imediato, facilitando a compreensão de estruturas tridimensionais abstratas. Por sua vez, os modelos moleculares físicos contribuíram pela materialização concreta dos conceitos, possibilitando a exploração tátil e a aprendizagem baseada na ação, aspectos cruciais para a redução da carga cognitiva.
Observou-se que esses recursos não são excludentes, mas complementares, e podem ser articulados em práticas pedagógicas que considerem a diversidade dos perfis cognitivos dos estudantes. A principal contribuição do estudo reside em evidenciar que a promoção de práticas pedagógicas inclusivas no ensino de Química não depende exclusivamente da criação de novos materiais, mas da ressignificação crítica de recursos já disponíveis, à luz de abordagens fundamentadas na Neurociência da aprendizagem e no DUA. Nesse contexto, o papel do professor como mediador torna-se central, sendo responsável por orientar o uso intencional desses materiais para potencializar sua dimensão inclusiva, especialmente considerando a necessidade de estratégias de autorregulação e adaptação de desafios que o simulador, por si só, não oferece. Sugere-se que futuras investigações aprofundem a aplicação desses recursos em sala de aula, avaliando o impacto direto na aprendizagem de estudantes com TEA e TDI.
Referências Bibliográficas
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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