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Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación

05 de octubre de 2026

Princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem em recursos de geometria molecular

Princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem em Recursos de Geometria Molecular

Gabriel Pereira Machado; Jacqueline Meireles Ronconi

DOI: 10.22167/2675-6528-202602934

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

Este estudo investigou, sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química, com foco na geometria molecular. O objetivo foi identificar em que medida esses materiais favorecem a aprendizagem de conceitos abstratos, especialmente para estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). A pesquisa apresentou caráter aplicado e abordagem qualitativa, utilizando como procedimento metodológico a análise documental de dois tipos de recursos amplamente empregados: o simulador digital Molecule Shapes: Basics, da plataforma PhET Interactive Simulations, e kits de modelos moleculares físicos. A análise orientou-se pelos três princípios do DUA: múltiplos meios de representação, ação e expressão, e engajamento. Os resultados indicaram que ambos os recursos apresentaram potencial inclusivo relevante, embora por vias distintas: o simulador digital destacou-se pela visualização dinâmica e interatividade, enquanto o modelo físico favoreceu a materialização concreta dos conceitos. Concluiu-se que a articulação intencional desses recursos, mediada pelo professor, pode ampliar as possibilidades de acesso, participação e aprendizagem no ensino de Química, contribuindo para práticas pedagógicas mais inclusivas.

Palavras-chave: Educação inclusiva; Ensino de química; Neuroeducação; Representação espacial; Recursos didáticos.

1. Introdução

A educação inclusiva representa um dos maiores desafios e demandas da contemporaneidade educacional. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015) assegura a criação, o desenvolvimento, a implementação, o incentivo, o acompanhamento, a avaliação e a adaptação de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades. Tal legislação impõe às instituições a necessidade de repensar suas práticas, abordagens pedagógicas e materiais didáticos para garantir não apenas a presença, mas a participação efetiva de todos os alunos no processo de aprendizagem (Brasil, 2015).

Nesse cenário, o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) emerge como uma abordagem teórico-metodológica capaz de orientar a elaboração de materiais e estratégias pedagógicas flexíveis e acessíveis a todos os estudantes (Meyer et al., 2014). O DUA fundamenta-se na neurociência cognitiva e propõe que o ensino deve considerar a variabilidade neurológica dos educandos. Em vez de adaptar o estudante aos currículos e materiais, a proposta é adaptar os mesmos aos estudantes, oferecendo múltiplas formas de engajamento, representação e expressão.

Essa perspectiva é particularmente relevante para alunos com deficiência visual (Toyama et al., 2021), bem como para estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). As necessidades específicas desses públicos podem ser contempladas por meio de materiais didáticos multissensoriais, linguagem simplificada e mediações personalizadas, sem comprometer a profundidade conceitual dos conteúdos científicos.

No contexto do ensino de Química, a demanda por inclusão torna-se ainda mais complexa, dado o caráter abstrato e simbólico de muitos de seus conceitos. A aprendizagem nessa área frequentemente requer o desenvolvimento de representações mentais para fenômenos que não são diretamente observáveis, o que pode ser desafiador para estudantes com deficiências sensoriais ou cognitivas. Conteúdos como estereoquímica e geometria molecular, por serem bastante visuais, tornam-se particularmente desafiadores para a compreensão de estruturas tridimensionais (Silva et al., 2023).

A utilização de modelos táteis, por exemplo, tem demonstrado possibilitar a compreensão significativa dos conteúdos e favorecer a autonomia do estudante (Toyama et al., 2018; Baptistone, 2017). Para alunos com TEA, a multiplicidade de representações e a clareza na linguagem são estratégias reconhecidamente eficazes para reduzir a sobrecarga sensorial e promover o engajamento (Wong et al., 2014). Já para alunos com TDI, a segmentação das informações e o uso combinado de estímulos visuais e táteis são apontados como recursos que favorecem a compreensão e a memória de trabalho (Soares, 2022). Dessa forma, o DUA se configura como uma ponte teórica entre a neurociência da aprendizagem e a prática pedagógica inclusiva, justificando a necessidade de ampliar as discussões sobre letramento científico inclusivo e a lacuna de recursos didáticos adaptados.

Este estudo se justifica pela necessidade de aproximar os avanços teóricos em neuroeducação das práticas docentes no contexto real da escola pública, e pela lacuna de recursos didáticos adaptados. Diante disso, o presente estudo objetiva investigar como os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem podem orientar a utilização de materiais didáticos em Química, como simuladores digitais (ex.: PhET Interactive Simulations) e modelos moleculares físicos, por meio de uma análise documental que busca identificar em que medida esses recursos incorporam, de forma intencional ou não, os princípios do DUA.

2. Material e Métodos

A pesquisa realizada caracterizou-se por sua natureza aplicada e abordagem qualitativa, buscando investigar o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química. Como procedimento metodológico principal, utilizou-se a análise documental, que permitiu examinar materiais já empregados no contexto educacional, sem a necessidade de interação direta com participantes humanos. Este delineamento foi escolhido para aprofundar a compreensão sobre como os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) se manifestam nesses recursos.

A unidade de análise consistiu em dois tipos de recursos didáticos amplamente utilizados no ensino de Química para o Ensino Médio, com foco específico no conteúdo de geometria molecular. O primeiro recurso analisado foi o simulador digital “Molecule Shapes: Basics”, desenvolvido pela plataforma PhET Interactive Simulations. Esta plataforma é reconhecida internacionalmente por disponibilizar recursos educacionais interativos de acesso público e gratuito, sendo frequentemente recomendada em contextos educacionais.

O simulador “Molecule Shapes: Basics” apresenta uma interface gráfica intuitiva, organizada para favorecer a interação direta do usuário com os elementos representados. Ele permite a visualização tridimensional de moléculas, a manipulação de átomos centrais e pares de elétrons ligantes e não ligantes, e a observação em tempo real das alterações na geometria molecular. O recurso emprega códigos visuais, como cores distintas para diferenciar átomos e pares eletrônicos, e indica ângulos de ligação, contribuindo para a compreensão das relações espaciais.

O segundo tipo de recurso didático investigado foi o kit de modelos moleculares físicos. Esses kits, geralmente compostos por esferas de plástico de diferentes cores e tamanhos, conectadas por hastes ou encaixes flexíveis, são utilizados para representar átomos, ligações químicas e estimar ângulos de ligação em estruturas tridimensionais. Embora não sejam usualmente fornecidos pelas escolas públicas, a prática pedagógica de construir modelos de baixo custo com bolinhas de isopor e varetas é comum.

A escolha do kit molecular físico justificou-se por sua ampla difusão no contexto educacional e pela relevância do conteúdo de geometria molecular no currículo de Química. Este material permite a construção manual de estruturas moleculares tridimensionais, exigindo coordenação motora fina e promovendo uma interação direta entre o estudante e o objeto de aprendizagem. A manipulação do material possibilita a observação concreta da disposição espacial dos átomos e dos ângulos de ligação.

A técnica de análise dos dados foi orientada pelos três princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), conforme sistematizado por Meyer, Rose e Gordon (2014). Esses princípios são: múltiplos meios de representação, múltiplos meios de ação e expressão, e múltiplos meios de engajamento. A análise buscou identificar em que medida os recursos didáticos selecionados incorporam, de forma intencional ou não, esses princípios.

O objetivo da análise foi verificar como esses materiais favorecem os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem de conceitos abstratos da Química, como a geometria das moléculas. Sob a perspectiva da neurociência da aprendizagem, buscou-se identificar como os recursos podem reduzir a sobrecarga cognitiva, favorecer a formação de representações mentais espaciais e estimular o engajamento ativo do estudante, com particular atenção à relevância para alunos com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI).

Não foram aplicados termos de consentimento livre e esclarecido (TCLE) ou termos de confidencialidade, uma vez que a pesquisa não envolveu a participação de seres humanos. A análise concentrou-se exclusivamente nos recursos didáticos como documentos, sem a coleta de dados de indivíduos ou instituições específicas, garantindo a conformidade com os princípios éticos aplicáveis a estudos documentais.

3. Resultados e Discussão

Os resultados desta pesquisa, fundamentados na análise documental de recursos didáticos para o ensino de Química, revelaram o potencial inclusivo do simulador digital Molecule Shapes: Basics, da plataforma PhET Interactive Simulations, e de kits de modelos moleculares físicos, especialmente no que tange à geometria molecular. A investigação buscou identificar como esses materiais se alinham aos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), visando favorecer a compreensão de conceitos abstratos por estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). A análise adotou os três princípios do DUA – múltiplos meios de representação, ação e expressão, e engajamento – como lente teórica para a avaliação dos recursos.

A escolha do simulador digital Molecule Shapes: Basics para compor o corpus de análise justifica-se por sua ampla utilização em contextos educacionais e sua capacidade de abordar conceitos centrais da geometria molecular, como arranjos espaciais, ângulos de ligação e relações entre pares de elétrons. Esses conceitos são frequentemente considerados abstratos e de alta complexidade cognitiva, especialmente para alunos que enfrentam desafios na construção de representações mentais tridimensionais (Silva et al., 2023). O simulador, um recurso educacional interativo de acesso público e gratuito, permite que professores o utilizem em sala de aula, mediando e orientando seu uso, e também que os alunos o explorem de forma autônoma.

A abordagem do Desenho Universal para a Aprendizagem, conforme sistematizada por Meyer, Rose e Gordon (2014), serviu como referencial para a análise dos materiais. Essa perspectiva é crucial, pois o DUA se baseia em evidências da neurociência cognitiva, reconhecendo a variabilidade neural dos aprendizes e propondo a adaptação dos currículos e materiais aos estudantes, em vez do contrário. Tal enfoque amplia as possibilidades de acesso, participação e aprendizagem para todos, sendo particularmente relevante em áreas de elevado grau de abstração, como a Química, onde os conceitos muitas vezes transcendem a experiência sensorial direta.

Descrição do simulador Molecule Shapes: Basics

O simulador Molecule Shapes: Basics apresenta uma interface gráfica intuitiva e simplificada, projetada para facilitar a interação direta do usuário com os elementos representados. Este ambiente virtual permite a visualização tridimensional de moléculas, possibilitando ao estudante manipular a disposição de átomos centrais e pares de elétrons ligantes e não ligantes, e observar em tempo real as alterações na geometria molecular. Essa funcionalidade é essencial para a compreensão de estruturas complexas, que em abordagens bidimensionais ou teóricas puras, exigiriam uma capacidade de abstração mental mais desenvolvida.

Entre as funcionalidades destacadas do simulador, encontra-se a capacidade de construir diferentes arranjos moleculares por meio do acréscimo ou remoção de pares de elétrons, além da rotação livre das estruturas em três dimensões. O recurso emprega códigos visuais, como cores distintas para diferenciar átomos e pares eletrônicos, e indica os ângulos de ligação, o que contribui significativamente para a compreensão das relações espaciais envolvidas. A predominância de informações visuais, em detrimento de instruções textuais extensas, favorece estudantes com dificuldades de leitura ou processamento verbal, embora reforce a necessidade de mediação docente para a construção conceitual.

O PhET Interactive Simulations, projeto educacional iniciado em 2002 por Carl Wieman na University of Colorado Boulder, tem como propósito desenvolver simulações interativas gratuitas para ciências e matemática, baseadas em pesquisa pedagógica. As simulações do PhET, incluindo o Molecule Shapes: Basics, são amplamente difundidas e recomendadas como ferramentas complementares às práticas pedagógicas tradicionais, tanto na formação de professores quanto em programas de aprendizagem ativa. Sua natureza gratuita, suporte a múltiplas áreas do conhecimento e disponibilidade em diversos idiomas, incluindo o português, ampliam significativamente o acesso e a possibilidade de uso em diferentes contextos educacionais.

Múltiplos meios de representação à luz do DUA

No que se refere aos múltiplos meios de representação, o simulador analisado demonstra um alinhamento significativo com o primeiro princípio do Desenho Universal para a Aprendizagem, que preconiza a oferta de diversas formas de apresentação da informação para atender à variabilidade dos aprendizes (Meyer et al., 2014). A visualização tridimensional das moléculas oferece uma alternativa superior às representações bidimensionais comuns em livros didáticos, facilitando a compreensão de estruturas espaciais complexas. O uso simultâneo de cores, formas geométricas e a indicação visual dos ângulos de ligação expandem as possibilidades de acesso ao conteúdo, reduzindo a sobrecarga cognitiva associada à abstração simbólica.

Para estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI), a clareza visual e a organização espacial do simulador são particularmente benéficas, pois tornam explícitas relações que, em outros formatos, dependeriam fortemente da imaginação ou da mediação verbal do professor. A externalização visual da informação permite que o foco cognitivo do estudante seja direcionado à compreensão conceitual, em vez de à decodificação da representação. Essa abordagem contribui para a construção gradual de modelos mentais, permitindo que a informação seja percebida, organizada e integrada por diferentes vias cognitivas (Meyer et al., 2014).

A possibilidade de alternar entre diferentes arranjos moleculares, observar variações nos ângulos de ligação e identificar pares de elétrons por meio de códigos visuais no simulador favorece a redução da carga cognitiva extrínseca. Isso diminui a necessidade de o estudante imaginar mentalmente estruturas abstratas, direcionando sua atenção para a compreensão conceitual. Para alunos com TEA, a clareza gráfica e a organização espacial do simulador podem favorecer a percepção de padrões e relações estruturais, dada sua preferência por informações visuais organizadas e previsíveis. Para alunos com TDI, a apresentação explícita das relações espaciais auxilia na consolidação gradual do conceito, oferecendo múltiplas exposições ao mesmo conteúdo de forma estável e coerente.

Ação e expressão à luz do DUA

Quanto aos múltiplos meios de ação e expressão, o simulador Molecule Shapes: Basics permite que o estudante atue diretamente sobre o objeto de aprendizagem. A manipulação dos pares de elétrons e a observação imediata das mudanças na geometria molecular promovem a aprendizagem por experimentação e a testagem de hipóteses. Essa interação direta constitui uma forma legítima de expressão do conhecimento, pois o estudante demonstra compreensão conceitual por meio da ação, e não apenas da descrição formal do conteúdo, alinhando-se ao segundo princípio do DUA (Meyer, Rose e Gordon, 2014).

A capacidade de realizar ajustes progressivos e receber feedback visual imediato no simulador reduz as exigências relacionadas à coordenação motora fina e à produção textual complexa, beneficiando estudantes com TEA e TDI. Para alunos com TEA, a interação mediada por recursos digitais pode favorecer a organização do pensamento e o controle da tarefa, minimizando a sobrecarga associada à escrita extensa e ao planejamento motor. Para alunos com TDI, a externalização da resposta por meio da manipulação direta do simulador contribui para a consolidação do aprendizado, tornando o processo cognitivo mais concreto e acessível (Boucenna et al., 2014).

Essa forma de interação, que reduz a dependência exclusiva de respostas verbais ou escritas, permite que o estudante demonstre sua compreensão por meio da própria ação sobre o recurso. A aprendizagem por meio da ação encontra respaldo em abordagens construtivistas, nas quais o conhecimento é construído a partir da interação do sujeito com o objeto de aprendizagem. Conforme Piaget (1975), a manipulação e a experimentação são fundamentais para a construção de estruturas cognitivas, especialmente em conteúdos que envolvem relações espaciais. Nesse contexto, o simulador digital atua como um ambiente de experimentação virtual, onde o estudante pode explorar, testar e reorganizar suas hipóteses, favorecendo a internalização dos conceitos químicos.

Múltiplos meios de engajamento à luz do DUA

O terceiro princípio do Desenho Universal para a Aprendizagem, focado nos múltiplos meios de engajamento, também é observado no simulador. O caráter interativo do recurso, combinado com o feedback visual imediato, tende a promover um maior envolvimento do estudante com a atividade proposta. A autonomia concedida ao usuário para explorar diferentes configurações moleculares e controlar o ritmo da atividade pode favorecer a motivação intrínseca e a permanência na tarefa, aspectos cruciais para a aprendizagem significativa.

Para estudantes com Transtornos do Espectro Autista, a previsibilidade e o controle do ambiente de aprendizagem são fatores que contribuem para o aumento do engajamento e da atenção sustentada (Wong et al., 2013). No entanto, o simulador não oferece estratégias explícitas de autorregulação ou adaptação progressiva de desafios, o que sublinha a importância da mediação docente para potencializar seu uso inclusivo. O professor de Química deve atuar como mediador, orientando o olhar do estudante para as variáveis químicas que, muitas vezes, passam despercebidas na simples interação tecnológica, conectando a simulação aos fundamentos teóricos da disciplina.

Do ponto de vista teórico, o engajamento do estudante está diretamente relacionado à motivação e à percepção de relevância da atividade proposta. Ryan e Deci (2000) argumentam que a motivação intrínseca é favorecida quando o indivíduo percebe autonomia, competência e controle sobre a tarefa. A possibilidade de explorar livremente diferentes configurações moleculares e receber feedback imediato no simulador contribui para o fortalecimento desses elementos, ampliando o envolvimento do estudante. Além disso, a literatura em neuroeducação aponta que o engajamento está associado à ativação de redes neurais relacionadas à atenção e à recompensa, o que favorece a consolidação da aprendizagem (Immordino-Yang, 2016), especialmente quando os recursos interativos são integrados a práticas pedagógicas mediadas pelo professor.

Caracterização de kits de modelos moleculares físicos

Além do simulador digital, a análise documental incluiu kits de modelos moleculares físicos, amplamente utilizados no ensino de Química para o tratamento de conteúdos relacionados à geometria molecular. Esses kits são geralmente compostos por esferas de plástico de diferentes cores e tamanhos, que representam átomos, e por hastes ou encaixes flexíveis, que indicam as ligações químicas. Eles são empregados para representar estruturas tridimensionais e estimar ângulos de ligação, sendo um recurso consolidado na prática escolar, presente em laboratórios de Ciências e salas de aula do Ensino Médio.

Embora esses materiais não sejam usualmente fornecidos pelas escolas públicas, sendo comum a prática pedagógica da construção de modelos moleculares de baixo custo, eles oferecem uma exploração concreta de conceitos abstratos, o que é particularmente relevante para estudantes com dificuldades de abstração. A escolha do kit físico como segundo material de análise justifica-se por sua ampla difusão no contexto educacional e pela relevância do conteúdo de geometria molecular no currículo de Química. Apesar de não terem sido concebidos originalmente sob a perspectiva do DUA, esses materiais possuem características que permitem sua análise sob essa ótica inclusiva.

Análise do kit molecular físico à luz do princípio da representação

Sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem, o kit molecular físico apresenta um potencial alinhamento com o princípio dos múltiplos meios de representação, ao oferecer uma forma concreta e tridimensional de acesso ao conteúdo de geometria molecular. A representação física das moléculas contribui para a redução da carga cognitiva associada à visualização mental de estruturas abstratas, frequentemente exigida no ensino de Química. Para estudantes com TEA e TDI, a possibilidade de observar e tocar os modelos favorece a construção de representações mentais mais estáveis, especialmente quando comparada a explicações exclusivamente verbais ou baseadas em imagens planas.

A tridimensionalidade concreta do material permite que o conceito seja apreendido por meio da percepção espacial e tátil, ampliando as vias de acesso à informação. Embora o kit não ofereça múltiplas linguagens simbólicas simultâneas, como o simulador digital, sua força reside na materialização dos conceitos, o que pode ser particularmente eficaz para alunos que apresentam dificuldades com abstrações excessivamente simbólicas. Sob a ótica da aprendizagem concreta, a utilização de materiais manipuláveis encontra respaldo em estudos que apontam a importância da experiência sensório-motora na construção do conhecimento. De acordo com Bruner (1966), a aprendizagem pode ocorrer em diferentes níveis de representação, sendo o nível enativo – baseado na ação – particularmente relevante em estágios iniciais ou em situações que envolvem maior complexidade conceitual, favorecendo a transição entre a experiência concreta e a abstração científica.

Ação, expressão e engajamento no uso do kit molecular físico

No que se refere aos múltiplos meios de ação e expressão, o kit molecular físico possibilita que o estudante expresse sua compreensão do conteúdo por meio da construção ativa das estruturas moleculares. A aprendizagem ocorre a partir da ação direta sobre o material, permitindo que erros sejam identificados e corrigidos durante o processo de montagem. Esse tipo de interação favorece a aprendizagem ativa e pode contribuir para o engajamento de estudantes que apresentam dificuldades em atividades predominantemente expositivas. A montagem manual das moléculas estimula a participação contínua e reduz a passividade do estudante, aspecto relevante no contexto da educação inclusiva (Bacich; Moran, 2018).

Quanto ao engajamento, o caráter manipulável do recurso tende a despertar interesse e curiosidade, especialmente quando associado a atividades orientadas e objetivos claros. Para estudantes com TEA e TDI, o uso de materiais concretos pode auxiliar na manutenção da atenção e na organização da tarefa, desde que mediado adequadamente pelo professor. A aprendizagem mediada por materiais concretos pode favorecer a participação ativa do estudante, reduzindo a passividade frequentemente observada em metodologias expositivas. Segundo Ausubel (2003), a aprendizagem significativa ocorre quando o novo conhecimento se ancora em estruturas cognitivas previamente existentes, sendo facilitada por experiências que permitam a manipulação e a organização do conteúdo. Nesse contexto, o kit molecular físico pode atuar como um organizador concreto, auxiliando na assimilação de conceitos relacionados à geometria molecular.

Contribuições para o aprendizado no ensino de Química

A análise preliminar dos dois materiais – o simulador digital Molecule Shapes: Basics e o kit de modelos moleculares físicos – evidencia que ambos apresentam potenciais inclusivos relevantes quando analisados à luz dos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem, embora por vias distintas. Enquanto o simulador digital se destaca pela oferta de múltiplos meios de representação visual, feedback imediato e interatividade virtual, o kit físico sobressai pela materialidade concreta, pela exploração tátil e pela aprendizagem baseada na ação manual. Observa-se que os recursos não são excludentes, mas complementares, podendo ser articulados em práticas pedagógicas que considerem a diversidade dos perfis de aprendizagem.

Esses resultados preliminares indicam que materiais didáticos amplamente utilizados no ensino de Química podem ser ressignificados a partir de uma perspectiva inclusiva, mesmo quando não foram originalmente concebidos sob essa abordagem. A análise documental realizada fornece subsídios iniciais para reflexões futuras sobre o uso consciente e intencional desses recursos no ensino de conteúdos abstratos, como a geometria molecular. A promoção de práticas pedagógicas inclusivas no ensino de Química não depende exclusivamente da criação de novos materiais, mas também da ressignificação crítica de recursos já disponíveis, à luz de abordagens fundamentadas na Neurociência da aprendizagem e no DUA, com o professor atuando como mediador central para potencializar a dimensão inclusiva desses recursos.

4. Conclusão

O presente estudo investigou o potencial inclusivo de recursos didáticos no ensino de Química, com foco na geometria molecular, sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), buscando identificar como esses materiais favorecem a compreensão de conceitos abstratos por estudantes com Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (TDI). Verificou-se que tanto o simulador digital Molecule Shapes: Basics quanto os kits de modelos moleculares físicos apresentam um alinhamento significativo com os princípios do DUA, mesmo sem terem sido concebidos originalmente com essa finalidade. Os resultados evidenciaram que o simulador digital se destacou pela oferta de múltiplos meios de representação visual e pela interatividade com feedback imediato, facilitando a compreensão de estruturas tridimensionais abstratas. Por sua vez, os modelos moleculares físicos contribuíram pela materialização concreta dos conceitos, possibilitando a exploração tátil e a aprendizagem baseada na ação, aspectos cruciais para a redução da carga cognitiva.

Observou-se que esses recursos não são excludentes, mas complementares, e podem ser articulados em práticas pedagógicas que considerem a diversidade dos perfis cognitivos dos estudantes. A principal contribuição do estudo reside em evidenciar que a promoção de práticas pedagógicas inclusivas no ensino de Química não depende exclusivamente da criação de novos materiais, mas da ressignificação crítica de recursos já disponíveis, à luz de abordagens fundamentadas na Neurociência da aprendizagem e no DUA. Nesse contexto, o papel do professor como mediador torna-se central, sendo responsável por orientar o uso intencional desses materiais para potencializar sua dimensão inclusiva, especialmente considerando a necessidade de estratégias de autorregulação e adaptação de desafios que o simulador, por si só, não oferece. Sugere-se que futuras investigações aprofundem a aplicação desses recursos em sala de aula, avaliando o impacto direto na aprendizagem de estudantes com TEA e TDI.

Referências Bibliográficas

Ausubel, D. P. Aquisição e retenção de conhecimentos. Lisboa: Plátano, 2003.

Bacich, L.; Moran, J. (Orgs). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018. Disponível em: https://www.tecnodocencias.com/ava/pluginfile.php/2392/mod_resource/content/1/Metodologias%20Ativas%20para%20uma%20Educa%C3%A7%C3%A3o%20Inovadora%20Uma%20Abordagem%20Te%C3%B3rico-Pr%C3%A1tica%20by%20Lilian%20Bacich%20%20Jos%C3%A9%20Moran%20%5BBacich%2C%20Lilian%5D%20CAP%C3%8DTULOS%20SELECIONADOS.pdf. Acesso em: 10 fev. 2026.

Baptistone, 2017 [Referência completa não encontrada no documento original]

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Brasil, 2015. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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05 de octubre de 2026

A neuroplasticidade cerebral possível através da exposição e vivência artística na aprendizagem

A neuroplasticidade cerebral, capacidade do sistema nervoso de modificar suas conexões, é um campo de crescente interesse na educação. Este estudo objetivou averiguar, a partir da percepção de professores, indícios de melhorias globais em alunos, abrangendo cognição, emoção, comportamento e integração sensório-motora, resultantes da exposição à prática e apreciação artística em aulas de Arte do currículo escolar. Realizou-se uma pesquisa quantitativa, do tipo survey, na qual foram coletados dados por meio de questionários aplicados a 64 professores que utilizam a arte em sala de aula. Os resultados indicaram percepções positivas dos educadores quanto a avanços significativos em aspectos cognitivos, como atenção, memória e raciocínio, e emocionais, como regulação e resiliência. Observaram-se também melhorias comportamentais, incluindo participação, interação social e autocontrole, além de uma notável integração sensório-motora. A maioria dos participantes relatou aumento no foco e na expressão emocional dos alunos durante as atividades artísticas. Concluiu-se que a arte, enquanto prática e experiência estética, contribui para a promoção da neuroplasticidade, gerando benefícios no desenvolvimento integral dos estudantes e no processo de aprendizagem, em consonância com teorias consolidadas na área.

Palavras-chave: Aprendizagem; Arte; Educação; Neuroplasticidade.

Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación

05 de octubre de 2026

Práticas pedagógicas no Atendimento Educacional Especializado sob a perspectiva da Neurociência

O estudo investigou a percepção de professores especialistas em Educação Especial sobre os conhecimentos da neurociência e sua relação com as práticas pedagógicas no Atendimento Educacional Especializado (AEE), com foco em estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A pesquisa caracterizou-se como aplicada, de abordagem qualitativa e levantamento descritivo. Utilizou-se um questionário eletrônico aplicado a doze professores especialistas em Educação Especial que atuam em escolas públicas do estado de São Paulo. Os relatos indicaram que os professores reconheceram a importância da neurociência para a aprendizagem, embora com diferentes níveis de conhecimento e familiaridade com seus conceitos. Descreveram práticas pedagógicas que incluíram atividades lúdicas, jogos, recursos visuais, materiais concretos, tecnologias e estratégias relacionadas às funções executivas. As análises também revelaram desafios na formação docente. Os resultados contribuíram para a reflexão sobre a relação entre neurociência e as práticas do AEE, ressaltando a necessidade de formação continuada e de condições que favoreçam uma atuação pedagógica fundamentada e adequada às particularidades dos estudantes.

Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializado; Neurociência; Neurodiversidade; Práticas Pedagógicas.

Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación

05 de octubre de 2026

As Funções Executivas em Crianças com Deficiência Intelectual

O estudo analisou a importância das funções executivas no contexto educacional, considerando sua relevância para o desenvolvimento cognitivo, emocional e acadêmico de crianças com deficiência intelectual. O objetivo foi analisar como as funções executivas ocorreram nesses indivíduos e de que maneira interferiram no processo de aprendizagem. A pesquisa caracterizou-se como qualitativa e explicativa, desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico, análise documental e aplicação de questionário eletrônico a 14 profissionais da educação. Os dados foram analisados com base na técnica de análise de conteúdo, que permitiu identificar categorias temáticas sobre práticas pedagógicas, desafios e estratégias. Os resultados indicaram que o desenvolvimento das funções executivas associou-se diretamente à mediação pedagógica, à adaptação das atividades e ao uso de estratégias estruturadas e individualizadas, com destaque para recursos lúdicos, visuais e tecnológicos e para a participação familiar. Evidenciaram-se desafios como a falta de formação continuada e dificuldades na adaptação curricular. Concluiu-se que as funções executivas puderam ser estimuladas no contexto escolar por meio de práticas pedagógicas intencionais, contribuindo para a aprendizagem e a autonomia.

Palavras-chave: Aprendizagem; Deficiência intelectual; Desenvolvimento cognitivo; Funções executivas; Inclusão escolar.

Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación

05 de octubre de 2026

Organização da rotina como estratégia para a autonomia e otimização da aprendizagem: uma revisão sistemática.

A organização da rotina foi investigada como estratégia para o desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem, sob a perspectiva das funções executivas. O estudo objetivou analisar a eficácia dessa organização para a autonomia e otimização da aprendizagem. Realizou-se uma revisão sistemática da literatura, de caráter exploratório e abordagem quali-quantitativa. As buscas ocorreram nas bases SciELO, Portal CAPES e Google Acadêmico, resultando na seleção de 11 publicações brasileiras datadas entre 2015 e 2025. Os resultados evidenciaram que a sistematização da rotina contribuiu para a redução da carga cognitiva e o fortalecimento das funções executivas, distribuídas em quatro eixos temáticos centrais. Observou-se, contudo, a escassez de pesquisas que articulassem os três conceitos principais de forma integrada e a prevalência de intervenções de curto prazo. Concluiu-se que a organização da rotina constituiu uma base neuropsicológica essencial para a construção da independência estudantil. A pesquisa abriu caminhos para que novos estudos revelem, com maior precisão, o potencial transformador das interações entre esses construtos no cenário educacional.

Palavras-chave: Autorregulação; Autonomia da aprendizagem; Funções executivas; Neurociência educacional.

Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación

05 de octubre de 2026

Barreiras Religiosas no Acesso ao Tratamento Psicopedagógico: Uma Perspectiva Neurocientífica sobre Crenças e Resistências

Um estudo abordou a interface entre religiosidade e psicopedagogia, contextualizou o crescimento de discursos virtuais que minimizam as bases biológicas de transtornos do neurodesenvolvimento. O objetivo consistiu em analisar as principais barreiras religiosas que dificultaram o acesso e a permanência no tratamento psicopedagógico, investigando narrativas de resistência e integração sob uma perspectiva neurocientífica. A metodologia caracterizou-se como pesquisa qualitativa e exploratória, fundamentada na netnografia e na análise documental. Foram extraídos e analisados 51 comentários públicos de seis vídeos do YouTube referentes a transtornos (TDAH e Autismo) e espiritualidade. A análise de conteúdo revelou profunda polarização, dividiu a amostra em dois eixos: resistência (51%), marcada pela moralização dos sintomas e ativação de sistemas neurais de defesa; e integração (49%), na qual a psicoeducação virtual desconstruiu estigmas, promoveu alívio e validação clínica associados à regulação emocional e à flexibilidade cognitiva. Concluiu-se que o analfabetismo científico e o medo instrumentalizado atuaram como fortes barreiras à adesão terapêutica. No entanto, a psicoeducação mediada demonstrou ser uma ponte eficaz para desarmar os mecanismos de defesa moral e incluir sujeitos neurodivergentes.

Palavras-chave: Neurociência cognitiva; Psicopedagogia; Religiosidade; Resistência ao tratamento; Rigidez cognitiva.

Neurociencia Y Aprendizaje En La Educación

05 de octubre de 2026

Funciones ejecutivas y resolución de problemas matemáticos en la percepción de profesores de matemáticas

Se investigó la percepción de profesores de Matemáticas de la red estatal de São Paulo sobre la relación entre las funciones ejecutivas y la resolución de problemas matemáticos en su práctica docente. El estudio tuvo como objetivo comprender cómo los profesores de Matemáticas perciben esta relación, identificando aspectos cognitivos relevantes para la enseñanza y el aprendizaje. La investigación, de naturaleza aplicada y enfoque mixto, utilizó un cuestionario en línea aplicado a 15 profesores de Matemáticas. Los datos cuantitativos fueron analizados por estadística descriptiva, y las respuestas discursivas, por Análisis de Contenido. Los resultados revelaron que los profesores reconocieron la importancia de las funciones ejecutivas, como la memoria de trabajo, la planificación, el control inhibitorio y la flexibilidad cognitiva, para la resolución de problemas matemáticos, aunque esta comprensión pudiera ser implícita. Se observó que dificultades de los estudiantes, como impulsividad, problemas de interpretación y ausencia de planificación, fueron percibidas como factores que comprometen el desempeño. Se identificaron estrategias pedagógicas, como la lectura orientada del enunciado, el incentivo a la elaboración de estrategias y la verificación de las respuestas, que favorecieron el uso de estas funciones. Los hallazgos indicaron la necesidad de una mayor intencionalidad pedagógica para apoyar la autorregulación cognitiva y optimizar el desempeño de los alumnos en la resolución de problemas matemáticos.

Palabras clave: Enseñanza de Matemáticas; Neurociencia cognitiva; Práctica docente.