Artigo

05 de agosto de 2026

Aplicação do método clássico de engenharia de requisitos para otimização de processos logísticos.

Jhony Hebert Caldeira; Elisa Antolli

DOI: 10.22167/2675-6528-202600961

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O setor de logística brasileiro caracteriza-se por alta complexidade e sistemas fragmentados, o que ressaltou a necessidade de processos bem definidos em engenharia de software para otimizar operações. Investigou-se como a aplicação sistemática do método clássico de Engenharia de Requisitos pôde gerar artefatos de maior qualidade e rastreabilidade para o desenvolvimento de software no setor logístico. A pesquisa, de caráter aplicado e qualitativo, utilizou um estudo de caso focado no módulo de gestão de fretes de uma empresa fictícia de médio porte em Mato Grosso. A metodologia seguiu as fases sequenciais de elicitação, análise e modelagem, especificação e validação, empregando técnicas como análise documental, construção de cenários de uso e entrevistas simuladas com stakeholders. Os resultados demonstraram a identificação estruturada de cinco requisitos funcionais, quatro não funcionais e três regras de negócio, cuja rastreabilidade foi assegurada por matrizes que vincularam 100% dos itens funcionais a cenários e interessados. A validação dos artefatos identificou alta consistência, mas revelou lacunas de completude em requisitos não funcionais e cálculos, como a ausência de fórmulas explícitas, o que originou um plano iterativo de refinamento. Concluiu-se que o método clássico foi eficaz na identificação precoce de falhas estruturais, permitindo tratar ambiguidades antes da fase de codificação e garantindo maior previsibilidade técnica ao projeto, contribuindo significativamente para a redução de riscos e retrabalho no desenvolvimento de software.

Palavras-chave: Artefatos de software; Estudo de caso; Rastreabilidade; Refinamento; Validação.

1. Introdução

A economia global contemporânea é intrinsecamente dependente de cadeias de suprimentos eficientes e sistemas logísticos robustos. No Brasil, este setor apresenta complexidade acentuada, caracterizada por vastas dimensões territoriais, infraestrutura diversificada e uma rede de operações frequentemente fragmentada (Laplante & Kassab, 2022). A gestão de fluxos de mercadorias, informações e recursos financeiros exige soluções tecnológicas inteligentes e previsíveis. Contudo, o desenvolvimento de software para atender a essas demandas é permeado por desafios significativos. Estudos como o CHAOS Report do Standish Group International (2020) indicam que uma parcela considerável dos projetos de software falha em entregar o valor esperado, frequentemente devido a problemas na fase inicial de concepção e especificação de requisitos. Apenas cerca de trinta e um por cento dos projetos são considerados bem-sucedidos, enquanto cinquenta por cento enfrentam atrasos e estouros de orçamento, e dezenove por cento são cancelados, com a má especificação de requisitos sendo um dos principais fatores de insucesso. Essa realidade ressalta a importância de abordagens estruturadas na engenharia de software para mitigar riscos e garantir a entrega de sistemas eficazes (Pressman & Maxim, 2016).

A Engenharia de Requisitos (ER) emerge como disciplina fundamental para enfrentar esses desafios, atuando como a ponte entre as necessidades dos usuários e as capacidades técnicas do software (Sommerville, 2011). Ela abrange um conjunto sistemático de atividades que incluem a elicitação, análise, especificação e validação dos requisitos de um sistema. O método clássico de ER, descrito em fases sequenciais, busca garantir que as necessidades do negócio sejam compreendidas e documentadas de forma clara, completa e consistente antes que o desenvolvimento do código-fonte se inicie (Wiegers & Hokanson, 2022). Os artefatos gerados por essa abordagem, como catálogos de requisitos funcionais, não funcionais e regras de negócio, são cruciais para estabelecer uma base sólida para o projeto. A qualidade desses artefatos é diretamente proporcional à capacidade do projeto de software de atender às expectativas, reduzir ambiguidades e minimizar o retrabalho. A rastreabilidade, conceito central na ER, assegura que cada requisito possa ser vinculado à sua origem, design e testes, proporcionando uma visão holística do ciclo de vida do software e facilitando a gestão de mudanças (Pressman & Maxim, 2016).

No contexto logístico brasileiro, a ausência de um processo rigoroso de ER agrava as dificuldades operacionais. Empresas de médio porte, em particular, enfrentam a fragmentação de sistemas, em que módulos de gestão de frota, finanças e operações não se comunicam eficazmente. Essa desconexão resulta em ineficiências significativas, como a perda de horas por analistas financeiros na conciliação de planilhas de frete e faturamento, a falta de dados em tempo real para otimização de rotas por coordenadores de frota e a dificuldade de gerentes de operações em obter visões consolidadas para tomadas de decisão estratégicas. Tais gargalos impactam a eficiência operacional e geram custos de retrabalho e correção de erros, que, segundo Boehm (1981), podem ser até cem vezes mais caros quando identificados após a implementação. A complexidade inerente ao cálculo de fretes, que envolve múltiplas variáveis como peso real, peso cubado, tarifas e pedágios, torna a especificação imprecisa uma fonte constante de divergências e prejuízos financeiros. A aplicação de um método sistemático na ER é imperativa para transformar essas operações logísticas complexas em processos digitais previsíveis e eficientes.

Diante da complexidade do setor logístico e dos desafios persistentes no desenvolvimento de software, torna-se essencial investigar a eficácia de abordagens estruturadas para a especificação de requisitos. A lacuna na literatura e na prática reside em demonstrar, de forma empírica e detalhada, como o método clássico de Engenharia de Requisitos pode ser aplicado sistematicamente para gerar artefatos de software de alta qualidade e rastreabilidade em um domínio tão crítico. Este estudo justifica-se pela necessidade de fornecer diretrizes e um modelo prático para empresas que buscam otimizar seus processos logísticos por meio de soluções tecnológicas robustas, minimizando os riscos associados a projetos de software. O objetivo geral deste trabalho é aplicar o ciclo de vida completo do método clássico de Engenharia de Requisitos, desde a elicitação até a validação, na produção de artefatos de software para um sistema de gestão logística, visando aprimorar a qualidade e a rastreabilidade dos requisitos e, consequentemente, a previsibilidade técnica do projeto.

2. Material e Métodos

A pesquisa foi caracterizada como um estudo de natureza aplicada, conduzido sob a forma de um experimento didático no campo da Engenharia de Requisitos. Adotou-se uma abordagem qualitativa, com o delineamento de estudo de caso, visando investigar a aplicação sistemática de métodos e ferramentas de especificação de software. A estrutura da pesquisa foi concebida para simular um ambiente corporativo, inspirando-se em práticas reais do setor logístico, o que permitiu uma análise aprofundada das dinâmicas de requisitos em um contexto relevante para a indústria.

O cenário organizacional fictício foi estabelecido em uma empresa de logística de médio porte, localizada no estado de Mato Grosso, Brasil, especializada em transporte rodoviário de cargas. Este ambiente simulado refletia os desafios comuns do setor, como a fragmentação de sistemas, o retrabalho operacional e as inconsistências na gestão de fretes e entregas. Para gerenciar a complexidade do estudo, o escopo foi delimitado ao módulo de “Gestão de Fretes e Entregas”. A pesquisa foi realizada no início de 2026, conforme as datas das interações simuladas com os participantes.

A unidade de análise concentrou-se nos artefatos de software gerados pelo processo de Engenharia de Requisitos. A população de interesse para a elicitação de requisitos foi representada por um conjunto de stakeholders fictícios, cuidadosamente selecionados para abranger diferentes perspectivas operacionais e estratégicas. Os papéis incluíram um gerente de operações, um analista financeiro, um coordenador de frota e um gestor. A escolha desses perfis visou mitigar riscos de omissão e assegurar uma cobertura abrangente dos domínios do sistema, desde a execução logística até a tomada de decisão estratégica.

Tabela 1. Stakeholders envolvidos

Identificador

Stakeholder

Papel no Sistema

Interesse Principal

ST01

Gerente de Operações

Responsável pela execução das entregas

Agilidade no cadastro e acompanhamento dos fretes

ST02

Analista Financeiro

Responsável pelo controle de custos

Precisão no cálculo de valores

ST03

Coordenador de Frota

Gestão de veículos e manutenção

Planejamento adequado das entregas

ST04

Gestor

Tomada de decisão estratégica

Visão consolidada e confiável das operações

Fonte: Dados originais da pesquisa

Para a fase de elicitação de dados, foram empregadas três técnicas complementares, buscando uma visão multifacetada das necessidades do sistema. Primeiramente, realizou-se a análise documental de planilhas de frete simuladas, que forneceram dados concretos sobre as operações logísticas (Apêndice, Tabela 17). Em seguida, construíram-se cenários de uso, que consistiram em narrativas detalhadas sobre o cadastro, cálculo de fretes e acompanhamento de entregas (Apêndice, Tabela 18). Por fim, foram conduzidas entrevistas simuladas com os stakeholders fictícios, cujos relatos foram cruciais para identificar as dores e expectativas do negócio (Apêndice, Tabela 19).

Na fase de especificação, os requisitos foram formalizados em um catálogo estruturado, complementado por representações conceituais das funcionalidades e regras de negócio. Para a validação da compreensão visual das necessidades e a mitigação de ambiguidades semânticas, foram desenvolvidos protótipos de baixa fidelidade, conhecidos como wireframes. Esses protótipos representaram as principais interfaces operacionais do módulo de “Gestão de Fretes e Entregas”, permitindo uma visualização prática das interações do usuário com o sistema e facilitando a homologação dos fluxos de trabalho pelos stakeholders simulados.

A metodologia seguiu o ciclo de vida completo do método clássico de Engenharia de Requisitos, conforme os preceitos de Sommerville (2011), Pressman e Maxim (2016) e Wiegers e Hokanson (2022). Este ciclo foi estruturado em fases sequenciais bem definidas: elicitação, análise e modelagem, especificação e validação. Cada uma dessas etapas foi aplicada de forma controlada ao cenário fictício da empresa de logística, com o objetivo primordial de gerar artefatos de software que fossem rastreáveis e passíveis de avaliação qualitativa, garantindo a consistência e a clareza do processo.

Após a coleta de dados, a fase de análise e modelagem foi iniciada, com o propósito de avaliar as informações levantadas em busca de ambiguidades, conflitos e redundâncias. Os requisitos identificados foram então classificados em categorias distintas: requisitos funcionais, que descrevem as ações que o sistema deve realizar; requisitos não funcionais, que definem os critérios de qualidade e restrições do sistema; e regras de negócio, que estabelecem as políticas e condições operacionais. Cada requisito foi descrito individualmente e categorizado para facilitar a compreensão e o gerenciamento.

Na etapa de especificação, os requisitos analisados foram organizados em um catálogo formal, que serviu como documento central para o projeto. Este catálogo foi apoiado por representações conceituais das funcionalidades, vinculadas diretamente aos cenários de uso previamente definidos. A rastreabilidade entre os elementos da especificação foi assegurada pela construção de matrizes relacionais, que cruzaram os cenários de uso com os requisitos e os requisitos com os stakeholders. Essas matrizes validaram a origem e a associação de cada requisito a uma necessidade de negócio específica e a um grupo de interessados.

A fase de validação envolveu a análise dos artefatos gerados, utilizando critérios rigorosos de clareza, consistência, completude e rastreabilidade. A clareza avaliou a interpretação única dos requisitos, a consistência verificou a ausência de conflitos, a completude assegurou a cobertura dos cenários e a rastreabilidade confirmou as associações explícitas. Para operacionalizar essa avaliação, cada requisito foi classificado em uma escala qualitativa de “Atende”, “Atende Parcialmente” ou “Não Atende”. Os resultados dessa validação guiaram a elaboração de um plano de refinamento iterativo.

O plano de refinamento foi direcionado especificamente aos requisitos classificados como “Atende Parcialmente” ou “Não Atende”, visando aprimorar sua qualidade e precisão. As ações corretivas propostas concentraram-se em três eixos principais: o detalhamento de regras e fórmulas de cálculo, a definição de métricas objetivas para avaliação de qualidade e a especificação mais precisa de mecanismos de controle e segurança. Este processo iterativo permitiu que as especificações evoluíssem em maturidade técnica, reduzindo ambiguidades e minimizando riscos antes da fase de desenvolvimento do software.

É importante ressaltar que o estudo foi conduzido como um experimento didático em um cenário fictício, o que, embora tenha permitido um controle rigoroso das variáveis e a aplicação sistemática do método, impõe uma limitação quanto à generalização direta dos resultados para outros contextos organizacionais. Contudo, o rigor metodológico empregado na aplicação do método clássico de Engenharia de Requisitos valida as práticas propostas, sugerindo sua aplicabilidade para aumentar a previsibilidade e o sucesso em projetos de software reais no setor logístico.

3. Resultados e Discussão

Os resultados obtidos neste estudo corroboraram de forma significativa a hipótese central de que a aplicação sistemática do método clássico de Engenharia de Requisitos é eficaz na identificação precoce de falhas estruturais no ciclo de vida do software. Esta constatação é particularmente relevante para o setor logístico, caracterizado por sua complexidade operacional e a necessidade de sistemas robustos e integrados. A capacidade de detectar e mitigar ambiguidades e omissões nas fases iniciais do projeto, antes da codificação, representa um diferencial estratégico, alinhando-se diretamente com as recomendações de Sommerville (2011) e Pressman e Maxim (2016), que enfatizam a importância de uma engenharia de requisitos rigorosa para o sucesso de projetos de software.

A identificação estruturada dos requisitos, conforme detalhado nas Tabelas 2, 3 e 4 do material original, demonstrou um forte alinhamento com os desafios empíricos reportados pelo Standish Group International (2020). Este relatório aponta que falhas relacionadas a requisitos mal definidos são uma das principais causas de atrasos, estouros de orçamento e, em casos extremos, o cancelamento de projetos de software. A metodologia empregada, ao focar na elicitação abrangente e na formalização dos requisitos, permitiu que a equipe do projeto simulado antecipasse potenciais problemas, transformando-os em oportunidades de refinamento. Por exemplo, a necessidade de um sistema que permitisse o cadastro de fretes com origem e destino (RF01) e o registro de peso e dimensões da carga (RF02) foi diretamente derivada das operações diárias, visando otimizar a entrada de dados e reduzir erros manuais. A formalização desses requisitos funcionais, juntamente com requisitos não funcionais como desempenho (RNF01) e disponibilidade (RNF02), e regras de negócio como o cálculo do frete (RN01), estabeleceu uma base sólida para o desenvolvimento.

A rastreabilidade entre as necessidades de negócio e as soluções técnicas propostas foi um dos pilares da eficácia do método, evidenciada pelo cruzamento dos relatos das entrevistas simuladas com o catálogo de requisitos. Este processo permitiu que cada requisito fosse diretamente vinculado a uma dor ou necessidade específica de um stakeholder, garantindo que o sistema em desenvolvimento abordasse problemas reais do negócio. Por exemplo, a regra de negócio de cálculo por peso cubado (RN01) e o requisito de cálculo automático (RF03) foram diretamente derivados da dor relatada pelo Analista Financeiro (ST02), que enfrentava constantes divergências nos cálculos de frete. A ausência de uma formalização clara para o cálculo do frete resultava em perdas financeiras e retrabalho, um problema comum em empresas de logística que dependem de cálculos complexos e variáveis. A solução proposta, ao formalizar matematicamente o cálculo, não apenas resolveu a dor do Analista Financeiro, mas também aumentou a previsibilidade financeira da empresa.

De maneira análoga, o requisito RF04, referente à consulta de status das entregas, foi arquitetado como uma solução direta para mitigar as dificuldades de rastreamento levantadas pelo Gerente de Operações (ST01). A falta de visibilidade em tempo real sobre o status das entregas gerava ineficiências operacionais, insatisfação do cliente e dificuldades na tomada de decisão. Ao implementar uma funcionalidade de consulta de status, o sistema não apenas atendeu a uma necessidade operacional crítica, mas também contribuiu para a melhoria da experiência do cliente e a otimização dos processos logísticos. Essa amarração direta entre as dores dos stakeholders e as lógicas do sistema, mediada por um processo rigoroso de engenharia de requisitos, comprova a capacidade do método clássico de traduzir necessidades complexas em especificações claras e objetivas, evitando o “gold plating” e garantindo que cada funcionalidade agregue valor real ao negócio.

Durante a fase de análise e modelagem, as lacunas observadas, especialmente nos requisitos RF03 (cálculo de frete) e RF05 (relatórios gerenciais), caracterizaram-se como especificações incompletas ou excessivamente genéricas. A falta de detalhamento em RF03, por exemplo, poderia levar a implementações inconsistentes do cálculo de frete, resultando em erros financeiros e operacionais. Da mesma forma, a generalidade de RF05, que se referia a “relatórios gerenciais consolidados”, sem especificar quais indicadores ou formatos seriam necessários, comprometeria a capacidade do sistema de fornecer suporte efetivo à tomada de decisão estratégica. A literatura científica, com autores como Boehm (1981) e Pressman e Maxim (2016), ratifica a gravidade dessas constatações, demonstrando que o custo de correção de um erro de requisitos pode ser até cem vezes maior quando identificado após a implantação do sistema. No contexto específico do domínio logístico, onde sistemas são intensivos em regras de negócio e cálculos operacionais, Laplante e Kassab (2022) destacam que ambiguidades em requisitos funcionais críticos são particularmente sensíveis e podem ter impactos financeiros e operacionais severos.

Para ilustrar a mitigação dessas falhas, a modelagem da regra de negócio RN01 (cálculo de frete) exigiu a formalização matemática exata do cálculo do peso cubado e do peso taxado, removendo qualquer subjetividade da operação. Esta formalização foi crucial para resolver as divergências financeiras relatadas nas entrevistas, garantindo que o sistema calculasse o frete de forma consistente e transparente. O processo envolveu a definição do Peso Cubado (kg) como o produto do Comprimento (m), Largura (m), Altura (m) e um Fator de Cubagem padrão para transporte rodoviário (300 kg/m³). Em seguida, o Peso Taxado (kg) foi determinado como o maior valor entre o Peso Real (kg) e o Peso Cubado (kg). Finalmente, o Valor do Frete (R$) foi calculado multiplicando o Peso Taxado pela Tarifa por kg (R$/kg) e adicionando as Taxas Fixas e Pedágios (R$).

A aplicação prática dessa modelagem foi demonstrada através de cenários de exemplo. No Cenário 1, onde o Peso Real (1500 kg) era maior que o Peso Cubado (900 kg), o Peso Taxado foi 1500 kg, resultando em um Valor do Frete de R$ 1350,00. No Cenário 2, com um Peso Real (400 kg) menor que o Peso Cubado (900 kg), o Peso Taxado foi 900 kg, resultando em um Valor do Frete de R$ 870,00. Essa formalização matemática não apenas garantiu a previsibilidade financeira no domínio logístico, mas também forneceu uma base clara para o desenvolvimento do módulo de cálculo, minimizando a chance de erros de implementação e retrabalho. A clareza e a precisão das fórmulas de cálculo são vitais para a confiança dos usuários e para a integridade dos dados financeiros, aspectos críticos em qualquer sistema de gestão de fretes.

A transição estruturada para o Plano de Refinamento evidenciou a natureza iterativa da Engenharia de Software na fase de especificação, conforme defendido por Farley (2021) e Wiegers e Hokanson (2022). A proposição de ações corretivas, como a inclusão de exemplos numéricos explícitos, a definição de parâmetros e a especificação de indicadores mensuráveis, reduziu substancialmente a ambiguidade interpretativa e fortaleceu a comunicação entre as áreas. Este refinamento progressivo transformou o catálogo de requisitos em um artefato vivo, capaz de evoluir em maturidade técnica antes da codificação, reduzindo o retrabalho e os riscos de desalinhamento. A capacidade de revisar e aprimorar os requisitos em ciclos iterativos, mesmo dentro de um modelo clássico, demonstra a flexibilidade e a adaptabilidade do processo quando bem aplicado.

Adicionalmente, com o propósito de validar a compreensão visual das necessidades elicitadas e mitigar ambiguidades semânticas, conforme recomendado por Wiegers e Beatty (2013), foram desenvolvidos protótipos de baixa fidelidade, conhecidos como wireframes. Esses protótipos representaram as principais interfaces operacionais do módulo de “Gestão de Fretes e Entregas”, permitindo uma visualização prática das interações do usuário com o sistema e facilitando a homologação dos fluxos de trabalho pelos stakeholders simulados. A visualização antecipada das interfaces permitiu que os stakeholders fornecessem feedback valioso sobre a usabilidade e a funcionalidade do sistema antes mesmo de qualquer linha de código ser escrita, um benefício inestimável para a redução de custos e tempo de desenvolvimento.

Figura 1. Protótipo de Baixa Fidelidade – Tela Inicial do Sistema Logístico, cadastro de frete.

Fonte: Própria

A Figura 1 ilustra a tela inicial do sistema, estabelecendo o contexto geral da interface de navegação e acesso aos módulos operacionais da organização logística. Esta tela, embora de baixa fidelidade, já permite aos stakeholders visualizar a estrutura geral do sistema e como as diferentes funcionalidades se interligam. A simplicidade do wireframe facilita o foco na funcionalidade e no fluxo de trabalho, sem distrações de design visual, o que é crucial para a validação dos requisitos.

Figura 2. Protótipo de Baixa Fidelidade – Tela de Cálculo e confirmação de Frete.

Fonte: Própria

Para os fluxos operacionais críticos, foram desenhadas telas específicas. A Figura 2 apresenta a interface para o ‘Cadastro de Frete’ (cenário C01), materializando as lógicas de entrada de dados para origem, destino, dimensões (cubagem) e peso da carga, fundamentais para a execução correta da regra de negócio de peso cubado (RN01) e para o cálculo automático do valor (RF03). A visualização desta tela permitiu que o Analista Financeiro e o Gerente de Operações validassem se todos os campos necessários estavam presentes e se a lógica de cálculo era compreensível e transparente. A capacidade de simular a entrada de dados e ver o resultado do cálculo em tempo real, mesmo em um protótipo, aumentou a confiança dos stakeholders na solução proposta.

Figura 3. Protótipo de Baixa Fidelidade – Tela de Acompanhamento de Entregas.

Fonte: Própria

A Figura 3 exemplifica a tela de ‘Acompanhamento de Entregas’ (cenário C03), que materializa a funcionalidade de consulta de status das entregas (RF04) e foi validada para mitigar as dificuldades de rastreamento relatadas pelos stakeholders operacionais nas entrevistas preliminares. Esta interface oferece uma visão consolidada das entregas, permitindo que o Gerente de Operações e o Coordenador de Frota (ST03) monitorem o status das cargas em tempo real. A validação visual desses wireframes com os stakeholders operacionais simulados (Gerente de Operações e Coordenador de Frota) confirmou que o fluxo operacional especificado estava alinhado às necessidades reais de negócio, facilitando a transição para as fases subsequentes de design e desenvolvimento do software. A materialização dessas interfaces através de wireframes de baixa fidelidade permitiu uma validação precoce, garantindo que o sistema atendesse às expectativas dos usuários finais.

A validação analítica inicial evidenciou que a presença de requisitos classificados provisoriamente como “Atende Parcialmente” ou “Não Atende” não representou uma deficiência do levantamento, mas sim um indicador prático da efetividade do processo de avaliação. Conforme argumentam Sommerville (2011) e Wiegers e Beatty (2013), a principal função da Engenharia de Requisitos não é produzir especificações perfeitas na sua primeira versão, mas tornar explícitas as ambiguidades e omissões antes que se propaguem para as fases de projeto e implementação, onde o custo de correção é significativamente mais elevado. Este achado é crucial, pois desmistifica a ideia de que a identificação de lacunas é um sinal de falha, ressaltando, em vez disso, a robustez do método em revelar pontos de melhoria.

Tabela 2. Avaliação da qualidade dos requisitos segundo critérios de validação

Código do Requisito

Tipo

Clareza

Consistência

Completude

Observações

RF01

Funcional

Atende

Atende

Atende

Requisito descrito de forma objetiva e alinhado ao cenário C01

RF02

Funcional

Atende

Atende

Atende Parcialmente

Não especifica limites máximos

RF03

Funcional

Atende Parcialmente

Atende

Atende Parcialmente

Necessita maior detalhamento das fórmulas de cálculo para peso e dimensões

RF04

Funcional

Atende

Atende

Atende

Fluxo de acompanhamento definido de forma adequada

RF05

Funcional

Atende Parcialmente

Atende

Não Atende

Escopo dos relatórios gerenciais ainda não está completamente definido

RNF01

Não Funcional

Atende

Atende

Atende

Critério de desempenho mensurável

RNF02

Não Funcional

Atende

Atende Parcialmente

Atende

Não define procedimentos em caso de indisponibilidade

RNF03

Não Funcional

Atende Parcialmente

Atende

Atende Parcialmente

Falta definição de métricas objetivas de usabilidade

RNF04

Não Funcional

Atende

Atende

Não Atende

Requisitos de segurança ainda tratados de forma genérica

Fonte: Dados originais da pesquisa

A Tabela 2, que detalha a avaliação da qualidade dos requisitos segundo critérios de clareza, consistência e completude, oferece uma visão granular dos pontos fortes e fracos da especificação inicial. Por exemplo, enquanto o RF01 (cadastro de fretes) foi classificado como “Atende” em todos os critérios, o RF02 (registro de peso e dimensões) foi considerado “Atende Parcialmente” em completude devido à falta de especificação de limites máximos para peso e dimensões. Esta observação é vital, pois a ausência de tais limites pode levar a dados inconsistentes e problemas operacionais, como a tentativa de transportar cargas que excedem a capacidade do veículo. Da mesma forma, o RF03 (cálculo automático do frete) necessitava de maior detalhamento das fórmulas de cálculo, o que, se não corrigido, poderia gerar inconsistências financeiras.

Os requisitos não funcionais também apresentaram desafios. O RNF01 (desempenho) foi classificado como “Atende” em todos os critérios, mas a observação indicou a necessidade de um critério de desempenho mensurável, transformando uma meta qualitativa em um objetivo quantificável. Já o RNF02 (disponibilidade) e RNF03 (usabilidade) foram classificados como “Atende Parcialmente” em completude, com a necessidade de definir procedimentos em caso de indisponibilidade e métricas objetivas de usabilidade, respectivamente. A falta de procedimentos claros para indisponibilidade pode resultar em perda de dados ou interrupção de serviços, enquanto a ausência de métricas de usabilidade dificulta a avaliação da experiência do usuário. O RNF04 (segurança) foi classificado como “Não Atende” em completude, pois os requisitos de segurança ainda eram tratados de forma genérica, o que é inaceitável em um sistema que lida com dados financeiros e operacionais sensíveis.

Este refinamento progressivo transformou o catálogo de requisitos em um artefato vivo, capaz de evoluir em maturidade técnica antes da codificação, reduzindo o risco de desalinhamento e elevando a reprodutibilidade na futura implementação. Como resultado direto deste processo de amadurecimento, procedeu-se à consolidação final dos requisitos, cujos detalhes técnicos e métricas aprimoradas são apresentados formalmente. A capacidade de iterar e refinar os requisitos com base em uma avaliação sistemática é um dos maiores benefícios do método clássico, garantindo que o produto final seja mais alinhado às expectativas e necessidades do negócio.

Tabela 3. Plano de refinamento dos requisitos classificados como “Atende Parcialmente” ou “Não Atende”

Código do Requisito

Problema Identificado

Critério Afetado

Ação Corretiva Proposta

Resultado Esperado

RF02

Ausência de limites máximos para peso e dimensões

Completude

Definir e documentar limites técnicos de peso (kg) e dimensões (m³) para validação de entrada de dados.

Requisito completo e sem ambiguidades

RF03

Fórmula de cálculo pouco detalhada

Clareza / Completude

Estruturar a memória de cálculo completa, incluindo o fator de cubagem e regras de arredondamento.

Melhor compreensão e rastreabilidade

RF05

Escopo dos relatórios não definido

Completude

Definir tipos de relatórios e indicadores apresentados

Requisito alinhado às necessidades gerenciais

RNF02

Falta de procedimentos em caso de indisponibilidade

Consistência

Incluir diretrizes para contingência e recuperação

Maior robustez do requisito

RNF03

Ausência de métricas objetivas de usabilidade

Clareza / Completude

Estabelecer indicadores quantitativos de eficiência (tempo por tarefa) e eficácia (taxa de erro por tentativa).

Avaliação objetiva da usabilidade

RNF04

Requisitos de segurança genéricos

Completude

Detalhar mecanismos de controle de acesso e autenticação

Requisito tecnicamente mais preciso

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 3, que apresenta o plano de refinamento para os requisitos classificados como “Atende Parcialmente” ou “Não Atende”, detalha as ações corretivas propostas e os resultados esperados. Para o RF02, a ação corretiva foi “Definir e documentar limites técnicos de peso (kg) e dimensões (m³) para validação de entrada de dados”, com o resultado esperado de um “Requisito completo e sem ambiguidades”. Esta ação é fundamental para garantir a integridade dos dados e a viabilidade operacional do transporte. Para o RF03, a proposta foi “Estruturar a memória de cálculo completa, incluindo o fator de cubagem e regras de arredondamento”, visando “Melhor compreensão e rastreabilidade”. Isso assegura que o cálculo do frete seja transparente e auditável, mitigando disputas e erros financeiros.

O RF05, que se referia a relatórios gerenciais, teve como problema identificado “Escopo dos relatórios não definido”. A ação corretiva foi “Definir tipos de relatórios e indicadores apresentados”, com o resultado esperado de um “Requisito alinhado às necessidades gerenciais”. Isso garante que os relatórios forneçam informações úteis para a tomada de decisão, como volume transportado, custo médio por rota e taxa de entregas no prazo (OTIF), conforme detalhado na versão refinada. Para o RNF02, a “Falta de procedimentos em caso de indisponibilidade” foi abordada pela inclusão de “diretrizes para contingência e recuperação”, resultando em “Maior robustez do requisito”. Isso é crucial para a continuidade dos negócios, minimizando o impacto de falhas no sistema.

O RNF03, com “Ausência de métricas objetivas de usabilidade”, teve como ação “Estabelecer indicadores quantitativos de eficiência (tempo por tarefa) e eficácia (taxa de erro por tentativa)”, visando uma “Avaliação objetiva da usabilidade”. Isso transforma a usabilidade de um conceito subjetivo em um critério mensurável, permitindo a otimização da experiência do usuário. Finalmente, o RNF04, com “Requisitos de segurança genéricos”, foi refinado com “Detalhar mecanismos de controle de acesso e autenticação”, buscando um “Requisito tecnicamente mais preciso”. A especificação de autenticação em duas etapas (2FA) e a geração de trilha de auditoria irreversível (logs) para alterações em dados financeiros são exemplos de como a segurança foi aprimorada, protegendo o sistema contra acessos não autorizados e garantindo a conformidade regulatória.

Como etapa conclusiva do processo iterativo de Engenharia de Requisitos, as especificações que apresentaram lacunas de completude e clareza foram totalmente refinadas. O objetivo desta revisão final foi aprofundar a precisão verificável das métricas, especialmente nas vertentes de segurança e usabilidade, e completar o detalhamento das regras de negócio com maior impacto operacional. O catálogo consolidado, que serve como base definitiva para o desenvolvimento, foi detalhado nas Tabelas 15 e 16 do material original.

Os requisitos funcionais refinados, como o RF02, agora especificam que “O sistema deverá permitir o registro do peso (em kg) e dimensões da carga (em metros), validando limites técnicos de capacidade do veículo selecionado para a rota”. Esta adição de “validando limites técnicos de capacidade do veículo” é uma melhoria crítica que garante a integridade dos dados e evita problemas operacionais. O RF03 refinado detalha que “O sistema deverá calcular automaticamente o valor do frete, estruturando a memória de cálculo para aplicar a tarifa sobre o maior valor numérico entre o peso real e o peso cubado (utilizando o fator de cubagem padrão de 300 kg/m³)”. Esta especificação explícita da lógica de cálculo elimina ambiguidades e garante a consistência financeira. O RF05 refinado agora exige que “O sistema deverá gerar relatórios gerenciais consolidados, contendo indicadores explícitos de volume transportado, custo médio por rota e taxa de entregas no prazo (On Time In Full [OTIF]), para suporte direto à tomada de decisão do Gestor”. A inclusão de indicadores específicos como OTIF transforma o requisito de uma descrição genérica em uma diretriz clara e mensurável para o desenvolvimento.

Da mesma forma, os requisitos não funcionais refinados demonstram um nível de detalhamento muito superior. O RNF02 (disponibilidade) agora especifica que “O sistema deverá estar disponível 24 horas por dia, possuindo rotina de backup diário e protocolo de recuperação de desastres com tempo de inatividade máximo aceitável de 2 horas”. Esta definição clara de rotinas de backup e tempo máximo de inatividade é essencial para a resiliência do sistema. O RNF03 (usabilidade) refinado estabelece que “O sistema deve permitir que um usuário realize o processo completo de Cadastro de Frete em até 120 segundos, mantendo uma taxa de erro de preenchimento inferior a 5% por tentativa, sem necessidade de consulta a manuais externos”. A inclusão de métricas de tempo e taxa de erro torna a usabilidade um critério objetivo e verificável. Por fim, o RNF04 (segurança) refinado exige que “O acesso às funcionalidades deverá ser controlado por perfil de usuário, exigindo autenticação em duas etapas (autenticação de dois fatores[2FA]) e gerando trilha de auditoria irreversível (logs) para quaisquer alterações em dados financeiros”. Esta especificação detalhada de mecanismos de segurança é fundamental para proteger os dados e garantir a conformidade.

A elaboração deste novo levantamento solucionou as ambiguidades da versão preliminar. Ao incorporar limites técnicos operacionais, indicadores mensuráveis para relatórios e protocolos rígidos de auditoria e contingência, o catálogo atingiu a maturidade necessária para elevar a reprodutibilidade técnica. Dessa forma, as especificações deixaram de ser apenas descrições conceituais e passaram a atuar como diretrizes exatas para a futura equipe de desenvolvimento, reduzindo drasticamente as margens para interpretações subjetivas. Esta precisão é particularmente valiosa em projetos de software, onde a má interpretação dos requisitos é uma fonte comum de erros e retrabalho. A aplicação sistemática do método clássico de Engenharia de Requisitos, conforme demonstrado neste estudo, não apenas valida as práticas propostas, mas também sugere sua aplicabilidade para aumentar a previsibilidade e o sucesso em projetos de software reais no setor logístico, contribuindo para a entrega de sistemas mais robustos, eficientes e alinhados às necessidades do negócio.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando a eficácia da aplicação do ciclo de vida completo do método clássico de Engenharia de Requisitos. Desde a elicitação até a validação, o processo permitiu a produção de artefatos de software de alta qualidade e rastreabilidade para um sistema de gestão logística. A abordagem estruturada revelou-se crucial para a identificação precoce de ambiguidades e omissões, transformando especificações inicialmente genéricas em diretrizes técnicas precisas. Este refinamento progressivo elevou a previsibilidade técnica do projeto, mitigando riscos de desalinhamento e retrabalho, conforme evidenciado pela consolidação final dos requisitos funcionais e não funcionais.

Contudo, é importante reconhecer as limitações deste estudo, principalmente o fato de ter sido conduzido em um cenário de estudo de caso fictício. Embora o rigor metodológico valide as práticas propostas, a natureza simulada restringe a generalização direta dos resultados para todos os contextos reais. Para estudos futuros, sugere-se a aplicação do método clássico de Engenharia de Requisitos em um projeto de software logístico real, com acompanhamento e mensuração de métricas de desempenho e custo. Adicionalmente, seria valioso comparar a eficácia do método clássico com abordagens ágeis no mesmo domínio, a fim de identificar as melhores práticas para diferentes cenários organizacionais e de projeto.

Referências Bibliográficas

Boehm, B. W. 1981. Software Engineering Economics. Prentice Hall, Englewood Cliffs, NJ, EUA.

Farley, D. 2021. Modern Software Engineering: Doing What Works to Build Better Software Faster. Addison-Wesley Professional, Boston, MA, EUA.

Laplante, P. A.; Kassab, M. 2022. Requirements Engineering for Software and Systems. 4. ed. Auerbach Publications, Boca Raton, FL, EUA.

Pressman, R. S.; Maxim, B. R. 2016. Engenharia de Software: Uma Abordagem Profissional. 8. ed. AMGH, Porto Alegre, RS, Brasil.

Sommerville, I. 2011. Engenharia de Software. 9. ed. Pearson Prentice Hall, São Paulo, SP, Brasil.

Standish Group International [STANDISH]. 2020. CHAOS Report 2020: Beyond Infinity. Disponível em: https://www.standishgroup.com/.

Wiegers, K.; Beatty, J. 2013. Software Requirements. 3. ed. Microsoft Press, Redmond, WA, EUA.

Wiegers, K.; Hokanson, C. 2022. Software Requirements Essentials: Core Practices for Successful Business Analysis. Process Impact Press, Bellevue, WA, EUA.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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